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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, Israel retirou-se do sul de Gaza depois de alguma especulação e de a própria Casa Branca dizer que a retirada era para os militares poderem descansar e não para se prepararem para a nova ofensiva. Foi o próprio Ministério da Defesa israelita a dizer que saíram do sul de Gaza para prepararem a ofensiva em Rafah. Bruno, estas declarações não só provam que a guerra está longe de terminar, como também mostram como está, de facto, mais frágil a relação entre Israel e os Estados Unidos.
Sim, houve logo especulações sobre o que estava em questão. É evidente que Israel tem tido muito esta abordagem à campanha, que é aquilo que nós chamamos de uma abordagem mancha de óleo ou mancha de tinta. Portanto, é uma forma, num contexto de combate a uma força de guerrilha ou terrorista, uma força irregular que, à partida, não se apresenta numa linha da frente clara, como acontece, por exemplo, entre as tropas ucranianas e russas. Como se cria uma espécie de linha da frente da parte do exército que está a combater esse grupo. E a forma de fazer isso é ir estabelecendo zonas prioritárias e ir avançando. No caso de Israel, foi de norte para sul, bairro a bairro, rua a rua, prédio a prédio, e procurando eliminar a presença da guerrilha e depois avançar. Aquilo que parece estar a acontecer é que Israel foi estendendo essa ação para sul, agora estava a retirar novamente para norte e podia expor-se uma hipótese que se pôs é que há aqui uma espécie de divisão de facto. Isto é uma concessão informal ao Hamas para tentar facilitar o acordo em relação aos reféns. Isso, de facto, não parece confirmar-se. Outra possibilidade era que as tropas terrestres estivessem a retirar, mas que isso não significasse a redução de ataques ou a redução de raids, portanto, ataques mais direcionados nessa zona sul, eventualmente para preparar depois aquela grande ofensiva de que se fala em relação a Rafah, que é a única zona urbana importante que ainda não foi sistematicamente ocupada pelo exército israelita, dando ao mesmo tempo tempo a que a população civil se retire com condições de maior segurança, sem que haja esta constante troca de tiros entre tropas israelitas e as forças do Hamas. Portanto, aparentemente, de acordo com as informações oficiais de Israel, será essa a segunda hipótese que se confirmaria.
Este domingo assinalou-se meio ano do ataque do Hamas a Israel. Netanyahu diz que estão a um passo da vitória. Bruno, o que leva o primeiro-ministro israelita a dizer isto? Sendo o principal objetivo eliminar o Hamas, quão perto está Israel disso acontecer?
Eliminar completamente o Hamas, realmente, isso nunca foi um objetivo realista, muito menos num prazo tão curto. Eu sei que seis meses é muito tempo, sobretudo para a população civil de Gaza, mas para este tipo de conflito não é nada de especial. Quer dizer, numa guerra de guerrilha, a estimativa que nós fazemos, mesmo em conflitos onde acaba por haver uma derrota dessa guerrilha, e muitas vezes uma derrota quer dizer reduzir essa guerrilha praticamente a presença residual e não eliminá-la completamente, as estimativas geralmente são que isso nunca demora menos do que 10 anos. Portanto, seis meses para 10 anos, a diferença é muito grande. Apesar de tudo, aqui Israel tem uma questão importante, que é estar mesmo ao lado deste território, portanto, não se trata de uma força expedicionária, como, por exemplo, os americanos no Vietname ou os russos soviéticos no Afeganistão. Por outro lado, também, a verdade é que Israel não conseguiu ainda fechar a fronteira sul com o Egito, que é claramente uma das principais vias de abastecimento do Hamas. É isso que torna a zona de Rafah tão importante. Portanto, parece-me que isto é mais uma questão de um discurso político, de uma retórica política, é um pouco aquela história do George W. Bush declarar vitória no Iraque ao fim de alguns meses, porque todo o território estava aparentemente controlado pelas tropas americanas. Mas isso, como sabemos, foi uma ilusão. Depois a insurreição armada, a guerra de guerrilha continuou durante muito mais tempo.
Também este domingo assinalaram-se os 30 anos do genocídio em Ruanda. Bruno, há forma de comparar o que se passou há três décadas com as alegações do que se passa atualmente em Gaza?
Sim, eu acho que se abusa muito o termo "genocídio". Tornou-se quase uma espécie de insulto político. Isso não quer dizer, obviamente, que não haja muitos aspectos a criticar na ação militar de Israel, que não haja até sinais preocupantes de que há uma estratégia de limpeza étnica, pelo menos da parte de alguns dos líderes, de alguns dos ministros, inclusive do governo israelita, mas realmente parece-me que este é mais um exemplo desse tipo de exagero. Um dos poucos casos em que isso claramente não é assim é realmente o Ruanda em 1994. E a escala e a própria natureza dos ataques também acho que mostra bem aquilo que é realmente um verdadeiro e inequívoco genocídio. Ou seja, estamos a falar de entre 800 mil, se calhar, e 1 milhão de mortos. Estamos a falar, entre abril e junho de 94, de estimativas de 60% a 70% da população tutsi a ser sistematicamente eliminada, portanto, este grupo étnico minoritário que foi o alvo desse genocídio. Acho que realmente este é um caso em que essa acusação é inequívoca. Aliás, foi criado um tribunal especial precisamente para julgar estes casos. E isso acabou, aliás, por levar o Ruanda a aproximar-se de Israel. Israel tem alguns aliados importantes no sul global. A maior parte dos países do sul global, até por muitas vezes serem países islâmicos ou por relações próximas com países árabes, são muito críticos de Israel, mas não é o caso assim universalmente. Já falámos aqui várias vezes, por exemplo, da Índia ou das Filipinas, mas há vários casos em África. O Uganda, por exemplo, é um caso. Aliás, a única juíza que naquele caso na Haia votou sistematicamente contra qualquer tipo de condenação de Israel não foi o juiz israelita, que até votou duas vezes para fazer críticas a Israel, por exemplo, na questão da ajuda humanitária, foi uma juíza do Uganda, mas o Ruanda é também outro exemplo disso, dessa aproximação, dessa cooperação a vários níveis, inclusive até também militar, entre Israel e vários países africanos.
"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 e tem nova edição depois da síntese das 16h30. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.