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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, o ataque inédito do Irão a Israel é já a tal guerra regional que se temia com Hezbollah e houthis também envolvidos. O gabinete de guerra israelita ficou dividido não quanto à questão da retaliação, mas sim sobre o quando e em que escala. Mas Guterres foi o primeiro a dizer que o mundo não aguenta uma nova guerra.
Se calhar terá de aguentar. Para já, não me parece que seja já uma guerra regional de grande intensidade, mas é certamente uma escalada nesse sentido. Nunca tinha havido realmente um choque direto entre o Irão e Israel e, portanto, essa linha vermelha foi quebrada e obviamente é diferente um conflito indireto, em que temos milícias, temos grupos armados que têm sempre uma capacidade muito mais limitada, ou ter a possibilidade de um choque direto entre dois dos Estados com forças armadas mais poderosas na região e, portanto, é realmente um passo preocupante no sentido dessa escalada. Para já, apesar de tudo, houve aqui um momento de contenção naquilo que foi um ataque em grande escala. O Irão mesmo sinalizando o facto de haver aqui uma mudança e uma escalada com o ataque direto, podia ter optado, por exemplo, por fazer um ataque limitado com seis ou sete mísseis, que foi o que Israel usou contra aquele complexo em Damasco e, por exemplo, visar a base militar de onde terá partido esse ataque ou algum tipo de instalação militar. Optou por fazer um ataque numa escala bastante maior. Apesar de tudo, com algum pré-aviso e, portanto, possibilitando que houvesse uma probabilidade baixa de haver vítimas, de haver uma quantidade grande de baixas em Israel. Isso obrigaria necessariamente Israel a responder também em grande escala. Houve ainda esse elemento de contenção e do lado de Israel também houve, para já, esta contenção no sentido de dizer: "Não vamos responder já aí a quente, vamos pensar bem o que queremos fazer". Mas também não foi dito que não haveria nenhuma resposta, mais pelo contrário.
Exactamente.
E essa porta ficou, digamos, entreaberta para uma escalada mais perigosa, que pode realmente culminar numa guerra regional de grande intensidade.
Mas Bruno, não ter causado vítimas mortais, pelo menos até haver, é sinal de alguma limitação por parte do Irão?
Sim, é importante sinalizar que apesar de tudo, houve alguns feridos e parece que há uma criança que está num estado relativamente grave, mas porque realmente são muitos mísseis, muitos drones, muitos alvos e Israel tem aí uma enorme vantagem que é o seu sistema de defesa. É verdade que houve aqui alguma contenção neste sentido, que é o Irão não fez propriamente grande segredo que o ataque estava a ser preparado.
Exactamente.
E deu algum tempo para haver aqui alguma reação, até o tipo de meios usados permitiram um pouco isso, a começar com o lançamento de drones, que são meios bastante mais lentos. Permitiu isso, mas isto tudo resulta neste dado que é Israel tem realmente um excelente sistema de defesa antiaéreo. Aí tem uma grande vantagem em relação à Ucrânia, que é estar há muitos anos a preparar isto. Tem vários sistemas, na verdade não é um sistema único, fala-se muito no Iron Dome, mas há o Arrow, o David's Sling, com diferentes alcances, quer em distância, quer em altitude, desenhados para intercetar diferentes tipos de meios. Mas Israel também tem uma outra vantagem que é, é um país muito mais pequeno do que a Ucrânia e é muito mais fácil de cobrir todo o território. E depois também um outro aspecto que também é relevante, que é Israel não está completamente isolado na região, ao contrário também do que se diz. Não só tem, obviamente, o apoio dos Estados Unidos, continua a ter uma presença militar, enfim, muito mais reduzida do que no passado, mas uma presença militar significativa na região, com meios muito avançados, mas há uma série de outros Estados. Aliás, Israel até se recusou a enumerar exatamente que Estados árabes é que tinham também ajudado na interceção, mas há pelo menos um, por exemplo, que na prática é um aliado de Israel até desde antes da independência. Quer dizer, nós sabemos que houve acordos secretos entre o antepassado do atual rei da Jordânia, o Emir Abdullah, e as autoridades judaicas ainda antes da independência de Israel em 1948.
Mas Bruno, foi inesperado o facto da Jordânia também ter intercetado drones?
Não, desse ponto de vista não é todo estranho. Nós sabemos que em múltiplos casos houve esta convergência. A grande exceção, a trágica exceção, foi realmente a Guerra dos Seis Dias em 1967, que acabou por levar à ocupação, quer de Gaza, quer da Cisjordânia, que até aí era administrada pela Jordânia, a Cisjordânia, a margem ocidental. Mas isso foi por causa de uma enorme pressão sobre o rei Hussein, que se sentiu obrigado a ter de ceder à pressão dos países árabes vizinhos, mas foi a única exceção, praticamente. E no passado, inclusive, por exemplo, no chamado Setembro Negro, quando a Síria ameaçou intervir contra a Jordânia, nós sabemos, por exemplo, que Israel tinha preparado meios aéreos para parar esse ataque da Síria. Há realmente uma convergência há muitos anos, e esse é talvez o menos surpreendente, mas, por exemplo, há referências de que a própria Arábia Saudita poderá ter ajudado de alguma forma. Porque realmente o Irão é visto como uma potência destabilizadora, uma potência ameaçadora, em particular por Israel, mas também por outros Estados, nomeadamente Estados sunitas mais conservadores na região.
Bruno, e que impacto é que este ataque vai ter no que se passa em Gaza?
Para já, parece ter descarrilado qualquer possibilidade de acordo, ou seja, parece ter encorajado o Hamas, e é lógico que isso aconteça, no sentido de pensar que realmente as dinâmicas regionais lhes são favoráveis. Para o Hamas, desde o início deste conflito, que a grande expectativa é que haja aqui uma escalada para um conflito regional mais amplo, que haja um envolvimento de outros Estados árabes e muçulmanos, no caso, nomeadamente o Irão, e que isso torne muito mais difícil a vida a Israel e muito mais fácil a vida ao Hamas. Para já e no curto prazo, parece ser esse o sentido da evolução das questões. Ou seja, infelizmente, parece ter tornado mais improvável haver aqui um acordo de cessar-fogo, mas a situação também muda muito rapidamente e pode ser que depois haja uma nova viragem se essa escalada não se verificar rapidamente nos próximos dias.
"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 e tem nova edição depois da síntese das 16h30. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.