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Este é o "Guerra na Terra Santa", um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias do conflito no Medio Oriente. Bruno Cardoso Reis, há essa notícia da morte dos filhos do líder do Hamas num ataque de Israel. Que impacto é que esta notícia e este acontecimento pode ter, nomeadamente, numa negociação de cessar-fogo?

Essa é uma questão que foi logo colocada e que aliás o próprio líder do Hamas veio colocar. Ele veio agradecer a Deus por ter martirizado os seus filhos numa causa justa, de acordo com a visão dele, e deixar claro que isso não ia influenciar em nada a posição do Hamas e que não ia, de alguma forma, levar a cedências ou a enfraquecer a posição do Hamas. Há quem tenha o receio que seja exatamente o oposto, que leve a um endurecimento de posições por parte do Hamas, mas a postura do lado de Israel, a posição dominante, sobretudo de quem decide, nomeadamente Benjamin Netanyahu, há muitas décadas que ele é muito claro nesta ideia de que Israel só pode negociar a partir de uma posição de força, que é através da coerção estratégica, de aumentar a pressão sobre estes grupos que se consegue levar a algum tipo de cedência. Do ponto de vista dele, dos decisores israelitas, à partida, essa ideia de que isto poderia prejudicar as negociações não é uma ideia a que eles adiram. Também é importante sublinhar que de acordo com as informações oficiais israelitas, não houve uma opção política por atacar especificamente a família do Ismail Haniyeh, deste líder do Hamas no exílio, e que a opção terá sido uma opção militar e que terá tido como base o fato de que eles eram realmente combatentes ativos do Hamas, parte da sua ala armada e não simplesmente a questão de serem filhos de quem eram, embora possamos nós, como analistas, duvidar que mesmo que isso seja verdade, que esta dimensão não fosse também tida em conta, mesmo que apenas pelos decisores militares.

Bruno, continua também a questão a pairar sobre o possível ataque iraniano a Israel. Tem havido vários avisos, nomeadamente por parte da Rússia e também dos Estados Unidos. O que é que podemos pensar, como é que podemos olhar para este possível ataque? É realmente algo que possa acontecer ou não passa apenas de uma ameaça?

Eu acho que quando temos atores tão diferentes, todos eles com os seus serviços de informações, com os seus aliados locais, e nomeadamente, por exemplo, a Rússia, sabemos que se aproximam muito do Irão a dar estas indicações, porque a Rússia ao mesmo tempo tem uma população judaica muito significativa e há uma percentagem importante de israelitas que resultam da imigração a partir da Rússia, e muitas vezes têm dupla nacionalidade ou relações familiares, etc. E haver esse aviso para não se deslocarem, por exemplo, para Israel, os russos não se deslocarem para Israel. Ao mesmo tempo, informações dos Estados Unidos, avisos dos Estados Unidos ou, por exemplo, a Lufthansa, a companhia alemã, suspendeu também voos na região. Tudo isso parece indicar que há, da parte de uma série de Estados muito variada, a ideia de que há aqui um risco elevado de um ataque significativo do Irão contra Israel. Agora, se essas informações se confirmam ou não, se isso é algo que o Irão está a ponderar, mas não decidiu ainda e pode eventualmente decidir calibrar o ataque no sentido de reduzir o risco de escalada, há aqui ainda um elemento evidente de incerteza. Claramente é um risco considerado sério por vários Estados bem informados, bem conectados na região e faz todo o sentido dar como credível pelo menos essa possibilidade. Isso realmente implicaria, eventualmente, um risco de uma escalada mais complicada de gerir e mais difícil de prever. Ou seja, até agora não tivemos ainda ataques diretos do Irão contra Israel. O que seria mais provável, apesar de tudo, seria alguma escalada, por exemplo, dos ataques a partir do Líbano, do Hezbollah. À partida, a ideia é que o Irão não se envolve indiretamente, a retaliação de Israel seria relativamente ao Líbano, mas Israel não tem estado a seguir muito essa linha. Isso tudo resulta de Israel ter estado a atacar com uma frequência grande as antenas, os locais de presença desta milícia, desta guarda pretoriana do regime iraniano, a da guarda revolucionária, que tem depois esta ala para apoio a milícias, a grupos armados, a grupos terroristas em todo o Medio Oriente. E, por exemplo, o último ataque em Damasco atingiu um general comandante dessa guarda revolucionária responsável por toda esta zona do Medio Oriente. Mesmo que o ataque não seja diretamente do Irão, não quer dizer que Israel não retalie diretamente sobre o Irão. Se isso acontecer, o risco depois de saber exatamente onde é que isso para, é muito mais difícil de prever, de gerir e corremos o risco de realmente estarmos a assistir à tal escalada regional que se tem conseguido evitar até agora. Mas isso realmente não é garantido. O Irão, apesar de tudo, tem mostrado alguma prudência na gestão desta crise. Por exemplo, quando houve um ataque contra forças americanas que acabou por resultar pela primeira vez na morte de três soldados americanos, a seguir, temos informações credíveis que o Irão deu instruções a essas milícias pró-iranianas para acabarem com esses ataques. Houve uma redução drástica, praticamente para zero, dos ataques contra bases americanas no Medio Oriente. Pode ser que o Irão tema a reação israelita e que acabe por ter uma reação menos Menos complicada, menos séria, que leve menos à escalada do que aquilo que alguns destes Estados estão a pensar.

De resto, Bruno, perante os receios de um ataque iraniano, Joe Biden, o presidente norte-americano, garantiu um apoio inabalável a Israel. Isto depois de ter feito também, por outro lado, vários avisos, nomeadamente devido à forma como Israel continua a atuar na Faixa de Gaza. Há aqui uma mudança de discurso ou são situações diferentes que Joe Biden está a analisar?

Isto mostra a enorme dificuldade da posição americana, porque, na minha interpretação, aquilo que explica esta mensagem pública de Biden são precisamente os rumores sobre um ataque iraniano mais significativo. Uma das coisas que os Estados Unidos fizeram desde o início desta crise, desde 7 de outubro, foi deslocar mais tropas para a região e dar um sinal muito claro de que se houvesse um ataque iraniano ou um ataque muito significativo dos aliados do Irão, por exemplo, o Hezbollah contra Israel, isso podia levar a um envolvimento dos Estados Unidos para apoiar Israel e para reequilibrar as coisas. Portanto, na minha interpretação, o temor de Biden foi que com estes sinais crescentes de tensão entre ele e Netanyahu, estas pressões públicas crescentes também dos Estados Unidos em relação a Israel, pudesse haver do lado do Irão, a ideia de que se calhar tinham ganho margem de manobra para fazer um ataque mais significativo contra Israel. Do meu ponto de vista, é isso que os Estados Unidos estão a sinalizar, que uma coisa são as divergências em relação a Gaza e à ajuda humanitária e à ação militar de Israel em Gaza, outra coisa é ficar em causa esta garantia de segurança dos Estados Unidos a Israel ou haver margem para o Irão poder fazer um ataque em grande escala contra Israel e eventualmente com isso não correr o risco de também envolver os Estados Unidos. Acho que foi uma mensagem no sentido de reequilibrar as coisas e de passar esta mensagem ao Irão, que é: "Tenham cuidado, não vão demasiado longe nesta resposta aos ataques israelitas".

"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois das notícias das 16h, está sempre disponível em podcast. Eu sou o Luís Soares, até amanhã.