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"Guerra na Terra Santa", o programa em que analisamos o conflito em curso em Gaza. Contamos hoje com os comentários do Major-General Isidro Morais Pereira. Muito boa tarde. Vamos passar de imediato para Israel concordar com uma proposta dos Estados Unidos para um acordo de cessar-fogo. Uma proposta que foi apresentada nas negociações a decorrer no Cairo, tendo dito Israel que iria permitir o regresso de 150 mil palestinianos deslocados ao norte de Gaza sem controles de segurança, mas em troca o Hamas teria de entregar uma lista com o nome das mulheres e idosos reféns que ainda estão vivos. Israel até diz que é pouco provável que isto possa avançar porque consideram que o Hamas não queira chegar a acordo. Major-General, o que tira desta posição deixada hoje por Israel?
Antes de mais, boa tarde. Eu julgo que primeiro que tudo há que referir que Israel nos últimos dias tem sido sensível à grande pressão exercida pelo Executivo norte-americano no que toca à possibilidade de haver um cessar-fogo. Aliás, Joe Biden referiu-se a um cessar-fogo temporário mas dilatado no tempo. Eu julgo que ele referiu um cessar-fogo contemplando seis a oito semanas. Este é um dos aspetos que está a ser colocado em cima da mesa. O outro aspeto tem a ver com a troca de reféns. Israel já mostrou até disponibilidade de trocar novamente um número de palestinianos que também estão detidos no sistema prisional israelita significativo. O último número que eu ouvi seria desde que o Hamas libertasse 40 reféns, Israel estaria na disposição de libertar até 700 presidiários. Mas de facto, todas essas negociações têm sempre voltado à estaca zero. Isto parece um ciclo, porque o Hamas exigiu o regresso da população às suas origens, ou seja, ao norte da Faixa de Gaza, que é uma área que Israel militarmente controla neste momento. Israel inicialmente não concordou com essa proposta, mas agora, como eu disse, há uma posição menos rígida e Israel concorda já com o regresso de uma parte significativa da população às suas origens, ou seja, ao norte de Gaza, mas em troca quer aquilo que acabou de referir. Quer uma lista concreta, uma lista real de quantos prisioneiros existem, o estado de saúde em que se encontram, e isso é um problema que o Hamas também tem. O Hamas tem um problema. Eu acho que neste momento nem o próprio Hamas, fundamentalmente a sua direção política que se encontra, como nós sabemos, no Qatar, eu julgo que nem a própria direção política do Hamas tem números fidedignos de quantos reféns é que poderão estar ainda vivos e onde é que eles estão. Se estão todos já encostados junto às populações na região de Rafah, mesmo no sul da Faixa de Gaza. Há aqui uma grande nebulosa relativamente à questão dos reféns. Depois há aqui a intervenção, naturalmente, do Irão e do Kremlin. Porque quer ao Irão, quer à Rússia, não lhes interessa que este conflito termine. Interessa que este conflito continue, porque quanta mais ajuda financeira e de armamento fluir para Israel, é sempre um constrangimento naquilo que respeita ao apoio à Ucrânia. E isso indiretamente favorece a causa da Rússia na Ucrânia. E favorece naturalmente o Irão. O Irão é o grande perturbador do Médio Oriente. Aquilo que tem acontecido é: sempre que Israel mostra boa vontade para negociar, o Hamas recusa as propostas. O Hamas parece não querer libertar um conjunto significativo de prisioneiros. Por isso é que eu não estaria demasiado otimista com esta situação, porque nem me parece que nos próximos dias haja aqui um acordo. Aqui outro aspeto importante sobre Israel. Israel inclusivamente mostrou abertura para deixar entrar a ajuda humanitária praticamente sem limitações. Quer a Jordânia, quer o Egito poderiam alavancar quantidades praticamente ilimitadas de ajuda humanitária para ser distribuída às populações. Israel também estaria na disposição de abrir a fronteira de Kerem Shalom e outra fronteira a norte de Erez e concomitantemente com a abertura da Rafah. Com estes três pontos de entrada, naturalmente que a ajuda humanitária, que tem que ser todo e qualquer camião com ajuda humanitária tem que ser devidamente vistoriado, porque conjuntamente com a ajuda humanitária podem naturalmente entrar na Faixa de Gaza armas e munições para reforçar a capacidade bélica do Hamas. E essa é a grande razão por que se faz um escrutínio completo de todo e qualquer camião que entra na Faixa de Gaza. Mas em três fronteiras julgo que Que já há esta possibilidade. É uma ajuda humanitária, um fluxo praticamente ininterrupto de ajuda humanitária é perfeitamente possível ativando três entradas na Faixa de Gaza. Agora, quando Israel colocou as condições, e eram condições perfeitamente aceitáveis, penso eu, porque nem sequer foi exigido ao Hamas que libertasse todos os prisioneiros. Agora, o que o Hamas quer, no fundo? O Hamas quer a retirada completa das forças israelitas da Faixa de Gaza. É isso que o Hamas quer. E mesmo assim, eu não tenho a certeza absoluta que o Hamas liberte todos os prisioneiros, porque ainda há aqui outras questões. Quer dizer, o fim das hostilidades não satisfaz o Hamas. O Hamas tem como fim político constituir-se como autoridade que possa substituir, inclusivamente, a autoridade palestiniana. Quer dizer, o Hamas quer garantias de que, no futuro, vai ser um dos interlocutores privilegiados na possível solução dos dois Estados. Há aqui aspectos que ultrapassam largamente o conflito em si. Há aqui também uma série de variantes políticas que é preciso levar em linha de conta. E de fato, quando um movimento como o Hamas, no fundo, na sua carta constituinte, logo um dos primeiros pressupostos é a destruição do Estado de Israel, parece-me que as possibilidades de haver uma solução a curto prazo não me parece que sejam visíveis ou tangíveis neste momento. Vamos ver, vamos acompanhar, mas eu não estaria demasiado otimista, pese embora todas as ameaças dos próprios Estados ocidentais, que até agora têm apoiado, quer politicamente, quer em termos bélicos, Israel, fornecendo armamento. E mesmo esta questão da Alemanha, os Estados Unidos. Mesmo o diálogo nos Estados Unidos, parece-me que é um diálogo mais virado pro público interno e pras próximas eleições de novembro do que propriamente uma questão real. Parece-me que há aqui algum cinismo, porque, por um lado, pretende-se terminar com este conflito, pretende-se implementar a solução dos dois Estados, etc. Mas o apoio dos Estados Unidos às operações militares continua, como nós sabemos. Continuam a ser vendidas armas e fornecido armamento e munições a Israel e estou convencido que não vai deixar de ser fornecido.
Claro.
E depois, um outro aspecto importante são as declarações. É o problema de Israel, o problema interno. Em Israel há um conjunto significativo de cidadãos que põem em primeiro lugar a libertação dos reféns e estavam completamente dispostos a que o governo fizesse concessões, fossem elas quais fossem ao Hamas. Mas há outra parte muito significativa da população e dos próprios partidos que fazem parte desta coligação governamental, que nem querem ouvir falar no cessar das operações. Aliás, o que querem é que estas operações só terminem com a destruição do Hamas ou pelo menos com a sua capacidade de levar a cabo ações como aquelas que foram levadas a efeito no dia 7 de outubro. Eu julgo que o governo de Netanyahu está aqui numa encruzilhada tremenda. Se por um lado tem pressões imensas da comunidade internacional pra terminar com este tipo de flagelo. Porque estas operações têm causado um número significativo de baixas, danos colaterais, sobre as populações civis indefesas. Por outro lado, o ambiente interno israelita também não é muito propício a que este governo tenha uma grande liberdade de ação nesse aspecto. Porque aquele objetivo que foi fixar de destruir o Hamas, de libertar os prisioneiros.
Já lá vão seis meses.
E já lá vão seis meses, a caminho do sétimo. E de garantir que no futuro, o Hamas e a Jihad Islâmica, que também é outro dos atores na Faixa de Gaza, nunca mais terão capacidade militar, ou pelo menos nos tempos mais próximos ou no futuro a curto e médio prazo, não terão capacidade pra levar a cabo uma operação da envergadura da de 7 de outubro. Isso são objetivos que foram fixados pelo Executivo israelita e a maioria significativa da população israelita está completamente de acordo. E se agora houver uma inflexão, eu julgo que este governo terá os dias contados. Aliás, o próprio Benjamin Netanyahu disse de forma clara que as operações não estão paradas. Neste momento, as operações estão num ritmo muito menos intenso, há uma pausa operacional, mas as operações vão continuar e só terminarão quando os objetivos a que se propuseram, a que politicamente o Executivo israelita se propôs, só nessa altura é que terminarão as operações militares. Portanto, eu julgo que mais claro do que isto, o Executivo israelita não pode ser.
Major-general José Morales Pereira, ainda antes de terminarmos, só uma rápida passagem sobre o risco de escalada nesta região, porque isto foi muito falado no início do conflito, sempre que começa um conflito é muito falado. A ONU alerta agora pro risco de escalada do conflito na fronteira entre Israel e o Líbano. Em que ponto é que estamos, de facto, neste conflito do risco de escalada nesta fase?
Olhando sob o ponto de vista militar e fazendo a leitura da situação, me parece que neste momento o risco de escalada é muito maior do que era há uns tempos a esta parte. Principalmente depois de Israel ter atacado o consulado do Irão na capital da Síria, em Damasco. A partir daí, o Irão prometeu vingança. Esperava-se que essa vingança viesse a ser efetuada ainda durante o Ramadão, que já terminou. Eu até me lembro de ter comentado e dito que sob o ponto de vista militar seria um contrassenso o Irão retaliar se quando é esperado. Agora que Israel está em alerta, inclusive suspendeu o funcionamento de cerca de 40 embaixadas espalhadas no mundo, justamente porque poderiam ser alvos de retaliação através dos proxies do Irão, e no momento em que Israel retirou parte das suas forças da Faixa de Gaza, não só porque não necessita delas e para dar um sinal de boa vontade ao Ocidente, que tem pressionado tanto Israel, mas fundamentalmente para criar um conjunto de forças e aproximá-las da fronteira norte, ou seja, do sul do Líbano, fronteira norte de Israel, fronteira sul do Líbano, porque uma das possibilidades, dentro das possibilidades, estudam-se as várias possibilidades e uma das mais prováveis é o intensificar das ações de caráter militar por parte do Hezbollah. O Hezbollah tem uma força considerável de combatentes e está equipado, se compararmos o equipamento militar que o Hezbollah tem na sua posse com o do Hamas, o Hezbollah é uma força com uma capacidade militar muito superior àquilo que é o Hamas. Eu estou em crer que a possibilidade de escalada deste conflito é muito superior àquilo que era há uns tempos a esta parte, e Israel está se a preparar para isso. As últimas declarações a este propósito do Executivo israelita e do Ministro da Defesa foram muito simples: "Estamos a nos preparar para toda e qualquer eventualidade e conhecemos muito bem a forma de atuar do Irão e estamos preparados para responder caso o Irão retalie, nós estamos completamente preparados para responder e se necessário for, levar a cabo as operações militares necessárias para controlar esse tipo de ameaça". Eu penso que algo poderá acontecer, mas não será nos tempos mais próximos, porque uma das formas de retaliar, em termos militares, a surpresa é sempre fundamental. E é precisamente no momento em que o adversário já está sossegado é que normalmente as coisas acontecem. Esta ideia de que o Irão iria retaliar no imediato, sempre achei que era uma ideia que não fazia grande sentido sob o ponto de vista militar. Mas de qualquer maneira, o Irão irá retaliar, não sei se diretamente, mas certamente através da intensificação das operações militares levadas a cabo pelos seus proxies, designadamente o Hezbollah no sul do Líbano, que é disso que estamos a falar. Que é dos proxies, aquele que tem mais capacidade militar.
Major-General Isidro Moraes Pereira, muito obrigado pelos seus comentários.
Obrigado eu.