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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Nos próximos minutos olhamos para o Médio Oriente. Francisco Pereira Coutinho, o Conselho de Segurança da ONU adotou uma resolução que exige o fim dos ataques dos rebeldes houthis a navios no Mar Vermelho. A resolução teve quatro abstenções, incluindo Rússia, China e Argélia. Os houthis recusam parar com os ataques, dizem que é um jogo político. Blinken disse que o grupo é alimentado pelo Irão e prometeu retaliações. Este é um perigo que corremos na escalada da guerra?
Sem dúvida, é um perigo real. Os houthis são um grupo não estadual que opera a partir do Líbano e que tem tido imenso sucesso militar nos últimos anos. Estiveram envolvidos numa guerra civil no Líbano, que também teve uma dimensão internacional com a intervenção de vários estados árabes, como os Emirados ou a Arábia Saudita, e neste momento controlam a capital do Líbano e estão fortemente armados pelo Irão e têm utilizado esse armamento para atacar a navegação internacional num estreito absolutamente essencial para a navegação internacional junto ao Golfo de Áden. O Conselho de Segurança intervém e os Estados Unidos, neste momento, estão a liderar uma coligação internacional para procurar restabelecer a navegação internacional e têm tido algum sucesso, mas, repito, estamos a falar de um grupo não estadual particularmente agressivo e muito perigoso porque tem atacado navios mercantes.
Entretanto, Vítor Gabriel Oliveira, o Tribunal Internacional de Justiça já começou a julgar o caso apresentado pela África do Sul, que acusa Israel de genocídio na Faixa de Gaza e que pede que Tel Aviv cesse de imediato as operações militares no enclave. A defesa de Israel está marcada para amanhã. Que consequências é que isto pode ter para o governo de Netanyahu?
O governo de Netanyahu está cada vez mais a ser pressionado. De certa forma, os países que não estão na guerra, que estão longe da guerra, pelos interesses que têm nas commodities que circulam tanto no Médio Oriente como na Ucrânia, mas neste caso no Médio Oriente, terão sempre interesses nessas zonas e em fazer pressão para que a guerra acabe e também porque a nível de direitos humanos, sociais e políticos, também lhes interessa defender os seus próprios interesses. A nível da visita de Antony Blinken, por exemplo, ao território, Antony Blinken continua a tentar pressionar Israel para que possa, de certa forma, manter-se num futuro próximo, o mais neutro possível, para que Israel possa parar os bombardeamentos e para que possa ficar de forma neutra. Foi isso que defendeu junto de Mahmoud Abbas, para que Israel possa apoiar os Estados Unidos nessa intenção de criar dois Estados, e é isto que Antony Blinken tem feito nestes últimos meses.
Entretanto, Francisco Pereira Coutinho, Benjamin Netanyahu diz que Israel não tem a intenção de ocupar permanentemente Gaza ou de deslocar a população civil, que estão a combater os terroristas do Hamas, não a população palestiniana, e que estão a fazer em total conformidade com o direito internacional. O mundo pode acreditar nisto?
Claramente que não. Aliás, este processo no Tribunal Internacional de Justiça é iniciado pela África do Sul e isto é um momento importante para as relações internacionais. É a primeira vez que Israel é demandado no Tribunal Internacional de Justiça, ao abrigo de uma convenção para a prevenção do genocídio, que foi adotada em 1948, depois de sabermos o que tinha acontecido durante a Segunda Guerra Mundial com o Holocausto. Isto é um momento particularmente problemático também para Israel por essas razões. Mas uma das razões que alimenta este processo, como eu referia, tem a ver com uma série de declarações que têm sido feitas por membros do gabinete de Netanyahu, que são declarações que apelam ao deslocamento forçado de populações, à expulsão de populações palestinianas, inclusivamente algumas delas podem ser qualificadas como declarações que incitam ao próprio genocídio. O próprio Netanyahu nunca é muito claro sobre qual será o futuro político de Gaza. Ele tem sido muito dúbio. Ele claramente não terá nenhum papel no futuro pós-conflito, mas em certo sentido parece estar interessado em prolongar o próprio conflito para garantir a sua própria sobrevivência política. É sempre muito difícil nós conseguirmos interpretar as declarações de Netanyahu como não de alguém que está profundamente apertado à sua direita, à sua esquerda, e que no fundo procura ajudar a sua sobrevivência política. Isso obviamente tem tido custos enormes para Israel, que se refletem neste momento, neste processo que se inicia hoje, as audiências na Haia, no Tribunal Internacional de Justiça, sobre a questão do genocídio. Claramente, isto é um problema. Blinken indicou isso como uma linha vermelha. Obviamente, não podemos aceitar limpezas étnicas, genocídios, obviamente, na comunidade internacional, e Netanyahu tem repetido à exaustão que Israel não pretende fazer, mas na verdade, aquilo que nós temos observado são violações sucessivas do direito internacional, ainda que possamos chegar à conclusão que não qualificam como genocídio.
Vítor Gabriel Oliveira, os Estados Unidos ponderam vender equipamento militar ao Egito. É uma notícia avançada pelo Pentágono. Em causa está um pacote que pode rondar os 308 milhões de euros. Qual é a importância do Egito e qual é mesmo o objetivo de fortalecer o Egito da parte dos americanos?
O Egito tem uma importância fulcral. No dia em que, penso eu, o Egito e a Arábia Saudita fizerem uma pressão mais comprometida sobre aquela região. Israel tem estado a gerir o conflito quase de forma única, sem muita pressão dos países à volta. Há alguns países naquela região que estão com o bloco ocidental e outros que estão com o bloco não ocidental, sendo que o Egito fazendo fronteira com Israel e tendo parte da costa do mar Vermelho, os Estados Unidos sabem que a médio prazo vão necessitar de mais apoio geopolítico naquela zona. E o fato de fornecerem armas ao Egito vai lhe permitir terem mais apoio naquela região. Só pra termos uma ideia, e isso foi claro na imprensa internacional de ontem, as forças especiais americanas e do Reino Unido evitaram um ataque em larga escala naquela região do mar Vermelho. Para percebermos do outro lado do Golfo, já no mar Mediterrâneo, os Estados Unidos têm dois porta-aviões. O Egito é um país fulcral nesta estratégia geopolítica e militar dos Estados Unidos nesta região.
E já que falamos nesta questão do equipamento militar, o Hamas pediu armamento aos países muçulmanos. Francis Pereira Coutinho, há países mesmo muçulmanos dispostos a correrem o risco de alimentarem militarmente o Hamas ou estes países não querem interferir num conflito que os prejudica também política e economicamente?
Eu creio que a maior parte dos países árabes querem distância do Hamas, principalmente os países árabes moderados. Falávamos agora do Egito, que é um bom exemplo. O Egito ocupou Gaza até 1967 e a oposição a este presidente egípcio vem da Irmandade Muçulmana, e o Hamas nasceu da Irmandade Muçulmana. E países árabes moderados como o Egito ou a própria Jordânia, ou mesmo a Arábia Saudita, não têm nenhum interesse em fornecer armas ao Hamas. Agora, outro tipo de países muçulmanos, como o Irão, esses sim. O Hamas acaba por ser também um proxy do próprio Irão, ao lado do Hezbollah e dos Houthis, sobre os quais também já falamos hoje. Mas claramente há aí um casamento de conveniência, porque primeiro que estamos a falar de ramos do Irão que sejam diferentes, uns são xiitas, outros são sunitas. E como se sabe, esta intervenção de 7 de outubro, este ataque de 7 de outubro, terá sido feito sem ser sob instruções diretas do próprio Irão, mas claramente o Hamas foi financiado pelo Qatar, que é outro país árabe e também muçulmano, e fortemente armado por parte do Irão. E claro, desde 7 de outubro, eles têm apelado ao levantamento popular, sem grande sucesso, felizmente, e vão continuar a fazê-lo.
"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai pro ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 e tem nova edição depois da síntese das 16h30. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.