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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, Netanyahu diz que já há uma data pro início da operação militar em Rafah. O Hamas diz que isto pode pôr em causa as negociações e a libertação de reféns, porque para o grupo extremista as regras são claras: o sucesso de qualquer acordo depende do fim da agressão, que, Bruno, sabemos que não vai acontecer, pelo menos não nos termos que o Hamas pretende.

Sim, do lado de Israel, a posição, isso sobretudo da parte de Netanyahu, que tem defendido essa posição ao longo de toda a sua carreira política, é sempre esta ideia da paz através da força, da ideia de que, inclusive na reação a 7 de outubro, era fundamental restabelecer a credibilidade da dissuasão da capacidade, ou seja, defesa de Israel, mostrando a força de Israel. E mesmo em relação à questão dos reféns, ele insistiu sempre que a forma de forçar o Hamas a libertar reféns, que são obviamente algo que o Hamas vê como um grande trunfo, inclusive um escudo humano especialmente valioso para proteger a sua liderança, que ainda está em Gaza, e aquilo que resta da sua capacidade militar em Gaza. Portanto, ele sempre insistiu que era preciso uma pressão militar forte para que o Hamas acabasse por ceder. E parece ser isso o que explica a posição de Israel. No fundo, é esta ideia de que as negociações estão a se arrastar porque houve uma certa acalmia na ação militar de Israel e que é preciso voltar a insistir que vai mesmo haver um ataque contra Rafah, contra aquilo que Israel considera o último bastião do Hamas em Gaza. A posição do Hamas é exatamente o oposto, é que a condição para se chegar a um acordo, pelo menos publicamente, é essa a posição, seria que Israel realmente aceitasse acabar com a sua campanha militar em Gaza. Enquanto estas posições se mantiverem, dificilmente se chegará a um acordo.

José Filipe Pinto, o que devemos esperar desta ofensiva em Rafah e por que Israel insiste nela quando todos pedem paz?

Sabe, Maria João, Yasser Arafat, quando falou na ONU, disse que numa mão levava um ramo de oliveira e na outra levava uma arma. E pediu para não deixarem cair o ramo de oliveira. Netanyahu é diferente. Netanyahu diz que leva numa mão uma arma e que essa arma é fundamental para garantir a paz. Netanyahu está sob uma enorme pressão interna e externa. Para além das manifestações a nível do seu país e também um pouco por todo o mundo, há a considerar, por exemplo, que o líder da oposição, Yair Lapid, acabou de se reunir com Blinken. Isso prova que a administração norte-americana já não identifica totalmente o Netanyahu com Israel, ou seja, começa a ver Netanyahu mais como problema e não como solução. É evidente que em política raramente aquilo que parece é. O exército israelita retirou-se de Khan Yunis, porque há quatro meses que está num estresse bélico, porque o combate urbano é uma grande fonte de estresse e por isso há que recuperar forças, mas não dar sinais de fraqueza. Netanyahu diz que já há uma data marcada para a invasão a Rafah e que esse ataque é indispensável para a erradicação completa do Hamas e pra libertação dos reféns. É claro que um líder nunca pode deixar passar uma imagem de fragilidade ou incapacidade. E nós sabemos que passados tantos meses, seis meses, nós percebemos que neste momento há uma grande fragilidade a nível interno e externo de Netanyahu, e ele tendo de lutar contra essa fragilidade, contra essa imagem, até para sua sobrevivência política. Nós sabemos que não é normal em tempo de guerra substituir as lideranças, mas também percebemos que neste momento, Netanyahu está emparedado entre uma extrema-direita que lhe exige a continuação ou a intensificação do esforço de guerra, mas também uma oposição que já dá sinais de poder vir a apostar na sua substituição. E por isso mesmo, Rafah acabará por ser atacada. Neste momento, estamos naquilo a que se chama a bonança que antecede a tempestade. Agora, é evidente que Netanyahu já percebeu há muito que não vai conseguir erradicar o Hamas. E reparar, Sinnar é que toma sempre as decisões relativamente a aceitar ou não os termos de troca. E nós percebemos que sempre que um acordo se aproxima de um momento decisivo ou o lado palestiniano ou o lado israelita vai sempre recusar os termos de troca da outra parte. Portanto, ainda não é desta vez que vamos ter o sucesso das negociações e também, evidentemente, que Rafah vai ser atacada, mas Netanyahu não vai tirar daí o proveito que espera.

Bruno, entretanto, ontem entraram na Faixa de Gaza 419 caminhões com ajuda humanitária, o número mais elevado desde 7 de outubro. Durante a noite terão ainda entrado mais 29 no norte de Gaza e ainda foram lançados por via aérea 258 pacotes com centenas de milhares de refeições. Bruno, quando só se fala da recusa de Israel em deixar entrar ajuda humanitária, como é que devemos interpretar estes números?

E também surgiram notícias de que Israel estará a comprar 40 mil tendas pra preparar a evacuação da população de Rafah. Eu penso que isto mostra que Israel percebeu que tinha de mostrar aqui alguma consideração pela opinião pública global e, em particular, pela opinião pública americana e de alguns aliados-chave. Realmente, aquele ataque à ONG

World Central Kitchen.

Central Food.

Kitchen, sim.

De um chef bastante conhecido nos Estados Unidos e que tem um enorme prestígio, de uma ONG com muita gente dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha ou do Canadá, portanto, países aliados próximos de Israel. Realmente, acho que foi particularmente má para a imagem de Israel. Muito dificilmente Israel poderia deixar de tomar medidas como demitir os soldados responsáveis, deixar claro que houve ali um erro grave, mas há muito esta ideia de que isso corresponde, no fundo, a uma postura do governo que tem sido sempre de desvalorizar o sofrimento da população civil, desvalorizar a questão da ajuda humanitária e, portanto, do meu ponto de vista, isso levou aqui a uma mudança de postura parcial da parte do governo de Israel. Não é uma mudança total, mas isso explica muito, do meu ponto de vista, esse aumento significativo da ajuda humanitária, que era algo em relação ao qual a pressão americana já vinha aumentando. E mesmo esta notícia, que foi obviamente divulgada pelo governo israelita, de que está a levar a sério esta exigência de que se houver um ataque a Rafah, tem de haver uma preparação da saída da população civil, tem de se evitar o mais possível que haja uma grande quantidade de vítimas civis. Isso aparentemente está a ser levado a sério.

Depois dos Houthis terem reivindicado vários ataques contra embarcações inglesas, norte-americanas e israelitas durante o fim de semana, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros esteve reunido com o porta-voz dos Houthis. Ambos condenaram o ataque israelita à embaixada iraniana na Síria e acusaram os Estados Unidos e Reino Unido de defenderem Tel Aviv. José Filipe Pinto, o que representa e o que sai deste encontro?

Isso é o mundo múltiplo às ordens a ditar a sua lei. É a ordem islâmica a querer reclamar, portanto, um lugar também na arena internacional. O que nós percebemos é que a grande potência que está a atuar no Médio Oriente é o Irão. E o Irão está a atuar através dos seus proxies. Todos estes grupos terroristas, mesmo que dispondo de um braço armado e de um braço político, recebem não apenas as ordens e todo o material bélico do Irão, recebem mais do que isso. Verdadeiramente, eles são os instrumentos de que o Irão se serve para poder atacar aquele que é o grande inimigo do Irão. E o grande inimigo do Irão não se situa em Israel, situa-se mais próximo, é os Estados Unidos da América, o grande Satã. E por isso mesmo, o que nós estamos a perceber é que esta guerra no Médio Oriente, em certo ponto, é também uma guerra por procuração entre a ordem islâmica e a ordem liberal ou a ordem ocidental. Portanto, cada vez que o Irão ameaça retaliar, provavelmente não serão as tropas do Irão que irão intervir ou os seus serviços secretos diretamente. Quem vai intervir são um dos seus proxies. Por quê? Porque o Irão tem um elevado número de proxies e esses grupos que seguem todas as diretrizes que emanam de Teerão, é evidente que continuam a ver que é o mundo ocidental, aquele mundo que eles consideram decadente, que é o inimigo. E por isso mesmo, Israel acontece simbolizar esse inimigo no Médio Oriente. E portanto, o que nós estamos aqui a assistir é: numa guerra, nunca há a culpa apenas de um lado. Evidentemente que isto não é uma guerra entre o bem e o mal. Há culpas de ambos os lados. E o que acontece aqui é que os serviços secretos de todos estes grandes grupos destes países que têm capacidade de intervenção estão ativos e por isso mesmo é de esperar que comece a haver mais ataques cirúrgicos. Respondendo à sua questão, o que é que vai acontecer? Vamos ter ataques mais cirúrgicos destinados a alvos muito selecionados. E é evidente que esses alvos selecionados são essencialmente aqueles que consubstanciam o poder de decisão. Portanto, vamos assistir à perda de vidas, se preferirmos, à morte de mais alguns dos líderes destes movimentos.

"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.