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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque a situação no Médio Oriente. Daniela Nunes, bem-vinda à Rádio Observador. Começamos pela visita do presidente francês a Israel. Emmanuel Macron frisa o direito de defesa e que é preciso combater o terrorismo sem misericórdia, mas ao mesmo tempo sublinha que é necessário também ter respeito pela população e que há regras a seguir nas guerras. É, de resto, uma visita que difere das do líder norte-americano Joe Biden ou do chanceler alemão Olaf Scholz, porque Emmanuel Macron vai também reunir-se com o presidente da Autoridade Palestiniana, além do encontro que já teve com o primeiro-ministro israelita. Portanto, feito este contexto, pergunto-lhe se é importante esta diferença, estes dois encontros, tendo em conta o conflito que está em causa.
Olá, boa tarde a todos. Eu não queria começar por dizer que esta é a visita mais importante desde o dia 7 de outubro de um aliado ocidental a Israel, desde logo porque houve outras visitas muitíssimo importantes, como é o caso daquela que frisou a Vanessa, do presidente Biden. Mas talvez se possa dizer que a visita do presidente Macron oferece um tipo de expectativa e até alguma ansiedade diferente daquelas que ofereceram outras visitas anteriores. O que eu quero dizer com isto é que me parece que por razões históricas, culturais, demográficas, sociais e identitárias, o discurso e o comportamento do presidente francês é aquele que exige a maior maturidade e o maior equilíbrio entre a razão e a emoção. Isto explica-se porque existe claramente um elemento em comum ou um elo de ligação que aproxima franceses e israelitas, assim como os dois presidentes Macron e Netanyahu, que é obviamente o elemento terrorista e a luta contra o terrorismo. O presidente Macron inclusivamente falou numa ameaça em comum, entre o seu próprio executivo e o executivo israelita, de alguma maneira criando aqui neste discurso um laço, que é quase um laço emocional, porque a ameaça terrorista envolve sempre o sofrimento das pessoas, a morte das pessoas, o trauma das pessoas e, ao fim e ao cabo, o medo generalizado daqueles que só assistem a esta ameaça através dos grandes ecrãs. Trata-se aqui da visita de um aliado, que não é um aliado qualquer, é alguém que conhece a experiência terrorista melhor do que outros aliados e, por isso, alguém que fala com conhecimento de causa e fala em nome de uma população que evidentemente teme o mesmo que temem os israelitas. É sobretudo por isso que o discurso de Macron no contexto desta visita também tem uma certa dimensão nacional e, de alguma forma, também é dirigido à própria França, onde não nos podemos esquecer, existem muitos muçulmanos e uma comunidade judaica também ela muito significativa. Portanto, para estas pessoas é importante observar este equilíbrio do presidente e um equilíbrio que tem de ser feito entre o combate à ameaça terrorista, e neste caso contra o Hamas, especificamente, e a construção de uma paz que não se faça em cima dos escombros da Palestina. Sobretudo nesta matéria e neste sentido, a visita de Macron acaba por se destacar das restantes, justamente pela razão que sublinhava também a Vanessa, que é: ele vai, num contexto polarizado, encontrar-se com os dois polos, com as duas facções e com os dois lados do conflito. Portanto, deve, na qualidade de aliado, tentar promover uma conversação e uma negociação pacífica, política e não meramente militar. Israel sabe que pode perfeitamente dizimar todo o território da Faixa de Gaza e de repente construir uma paz que voltará de certeza absoluta a resultar numa guerra daqui a uma, duas, três, quatro ou cinco décadas. Por isso é que é importante que a resolução de um conflito, seja ele qual for, não passe pelo descrédito absoluto de um dos elementos envolvidos ou pela sua eventual humilhação e até pelo seu desaparecimento do mapa. Vejamos, por exemplo, o que é que aconteceu com a Alemanha do final da Primeira Guerra Mundial e com o Tratado de Versalhes. Onde é que fomos parar? Fomos parar a Adolf Hitler e a uma Segunda Guerra Mundial. Portanto, aqui a importância daquilo que Macron sublinhou, e bem, a meu ver, que é combater o Hamas sem piedade, mas não sem regras, é fundamental. E estas regras são obviamente as linhas e as balizas estabelecidas pelo direito internacional e que implicam, acima de tudo, ter em conta o fator civil no meio deste conflito, que é também, a meu ver, aquilo que o Ocidente deve estar mais preocupado em frisar, quer perante Israel, quer perante a Autoridade Palestiniana. Eu diria que sobretudo até perante o governo israelita, que é, como sabemos, um executivo especialmente duro e irredutível nestas suas interpretações e nos seus ideais, e também numa forma extremamente musculada de fazer guerra e de responder perante uma ameaça, que neste caso é o Hamas.
Daniela Nunes, a esse respeito, o Emir do Qatar acusou a comunidade internacional de dar licença gratuita para Israel matar. A comunidade internacional poderia fazer mais? Está de facto a dar a Israel uma licença para matar na Faixa de Gaza?
Eu não diria que está a dar uma licença, mas as pessoas sentem-se aqui, de alguma maneira, moralmente obrigadas a intervir, quanto mais não seja sob a forma de manifestações e protestos, como aliás temos vindo a ver um bocadinho por todo o mundo e também na Europa e também no nosso país, em Portugal. E este discurso do Emir do Qatar é claramente um discurso de condenação e que vai bastante até ao encontro destas manifestações que E destes protestos pró Palestina, que são mais ou menos globais. As pessoas apelam sobretudo a questões morais e a uma dimensão humana de tratar este assunto delicado que é a guerra. E no fundo, o que este discurso acaba por fazer é uma chamada de atenção que vai ao encontro destas questões morais. O emir do Qatar fala, por exemplo, na forma, para ele inadmissível, como Israel tem usado água, comida e medicamentos como armas de combate no contexto desta guerra. Portanto, além de uma condenação, apela também à adequação das metodologias israelitas, que devem obviamente estar em conformidade com a adopção de um peso e de uma medida, e não de dois pesos e duas medidas. Este discurso também é importante para percebermos como a linguagem dos líderes e a aproximação popular a determinadas causas estão tão intimamente ligadas, porque há claramente nestas declarações uma intenção de fazer ecoar, e não apenas no Qatar, mas no mundo inteiro, é claro, as atrocidades que estão a ser cometidas no território da Faixa de Gaza, no sentido de angariar as opiniões públicas e de pressionar o governo israelita tanto quanto possível para o fazer entender que há uma conduta a manter. E além disso, também há aqui uma questão de estabilidade regional, que é de resto frisada neste discurso, que preocupa os estados ali à volta e que inclusivamente, de uma forma ou de outra, já demonstraram interesse em colaborar na formulação de uma paz efectiva e duradoura, porque este conflito a alturas tantas vai também afetá-los, como é o caso do Qatar, mas também, por exemplo, do Egito.
Israel tem estado a lançar panfletos na Faixa de Gaza a pedir a colaboração dos palestinianos na descoberta dos reféns, isto em troca de recompensas. Sabemos que é muito provável que os reféns estejam espalhados por diversos pontos da Faixa de Gaza. Isto é um sinal de que as forças militares por si só não conseguem encontrá-los sozinhos.
Claro que não, mas também não é só um sinal disso. Esta metodologia, pelo menos o que há de bom nisto é que é uma forma de actuação não bélica, sem capacidade de ferir ou matar alguém. Mas também, e era o que eu ia dizer, parece-me um modelo um bocadinho inútil, na medida em que quem controla a Faixa de Gaza, o território onde foram lançados os panfletos, é o Hamas. E o Hamas obviamente vai garantir que ninguém fornece informação nenhuma e que ninguém colabora com Israel. Só queria, a título de curiosidade e porque a mensagem também não é longa, queria só citar o conteúdo destes panfletos para os nossos ouvintes saberem do que é que se trata e dizer que estes panfletos tinham como finalidade pedir a colaboração dos palestinianos na descoberta de reféns com direito a recompensa, mas que a mim me parece que isto não trará grandes resultados. Diz assim a mensagem: "Se quer um futuro melhor para si e os seus filhos, aja e dê-nos assim que possível informação sólida e útil sobre os reféns na sua área. As Forças Armadas israelitas garantem que farão o máximo esforço para lhe garantir segurança e uma casa, bem como uma compensação financeira. Garantimos total confidencialidade." Fim de citação. Isto até parece um cenário mais ou menos retirado de um filme ou de uma realidade paralela que não é a nossa, do século XXI. Há de facto aqui a preocupação do governo israelita no sentido de encontrar e salvar, acima de tudo, os reféns na mão do Hamas, mas isto não me parece que vá adiantar nada. E entretanto, os palestinianos certamente também já estão completamente descrentes na verdade e no bom senso israelitas. Não só pela realidade que veem diante dos seus olhos e que atribuem, e bem, aos exercícios do exército e das forças israelitas no território da Faixa de Gaza, mas também porque lhes é feita uma lavagem cerebral e não apenas agora, neste contexto mais de guerra quente, mas desde há muitas décadas, desde que existe este conflito e esta problemática nesta região nevrálgica do mundo.
"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde, está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.