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Um guia para o eclipse até dia 12, um programa diário sobre o raro fenômeno a que vamos poder assistir na quarta-feira que vem, e vamos ter uma emissão especial na rádio e em vídeo para acompanhar esse momento que todos antecipamos que será incrível. Hoje vamos falar de mitos e lendas com a ajuda do divulgador de ciência e astrônomo José Augusto Matos. José Augusto, bem-vindo a este guia do eclipse. Que histórias é que encontraste por aí no baú sobre o eclipse, que sempre foi olhado ora como manifestação do bem, ora como manifestação do mal?
Olá, Ricardo. É verdade, há histórias muito curiosas e eu vou contar-te já duas que têm a ver com batalhas. Porque uma delas aconteceu há imenso tempo, em 585 a.C., no dia 28 de maio desse ano. E é muito curiosa, porque nessa altura, na antiga Anatólia, que agora pertence à Turquia, estava a decorrer uma batalha entre dois povos que não sabiam, claro, que naquele dia ia ocorrer um eclipse do sol. E de facto, quando o eclipse acontece, é um eclipse total, a batalha para. E o medo foi tão grande que esses dois povos, passado algum tempo, fizeram um tratado de paz, por causa do eclipse. Repara bem, por ele estamos aqui nos dias de hoje.
Exato. Podia ser que inspirasse alguns.
Exatamente. E também te posso contar uma muito parecida com essa, que aconteceu aqui perto de nós, na Península Ibérica, aqui na parte central de Espanha, em 19 de julho já da nossa era, do ano 939, em que nós temos, na altura, o Rei de Leão, que era Ramiro II, que estava a enfrentar um exército mouro, na altura. E de facto, também neste dia 19 de julho de 939, acontece um eclipse total do sol e a batalha para. Os dois exércitos oponentes pararam e estiveram ali uns dias sem saber muito bem o que haviam de fazer. Entretanto, aqui o nosso caro Ramiro II aproveitou a pausa e passado uns dias atacou e derrotou o exército muçulmano e conseguiu uma vitória muito interessante. Depois, um episódio também muito interessante que se passa já na nossa era cristã, também no século IX, nos anos 800, e que eu achei muito curioso aqui no nosso baú de recordações, que é o herdeiro e o sucessor de Carlos Magno, o famoso imperador do Império Sacro Romano, que era Ludovico Pio. Ele era um rei muito supersticioso. E em 5 de maio de 840, ele assistiu a um eclipse total do sol. E convenceu-se que aquilo era um sinal de que o reinado dele poderia acabar brevemente.
Que poderia é tudo começar.
Exatamente. E ao que tudo indica, o nosso caro Ludovico deve ter entrado em depressão e passado um mês faleceu. Portanto, foi uma profecia que se autocumpriu, bajo esse ponto de vista. Mas de facto, isto mostra que na antiguidade eram encarados com receio, e eram fenômenos que não eram compreendidos ou eram mal compreendidos, e podia dar a situações destas de, habitualmente, as pessoas encaravam como maus presságios. E desse ponto de vista, podiam resultar até na morte do nosso Ludovico Pio, que ficou com medo de morrer mesmo.
José Augusto, mas o conhecimento astronômico é milenar, não é? Já era possível, com alguma capacidade de exatidão, calcular os eclipses, calcular os movimentos celestes. Mas isso nunca foi suficiente para afastar a crendice e dar lugar à ciência, pois não?
Sim, é verdade, tens razão, porque repare que ao longo da história, na antiga Grécia, já havia algum conhecimento da mecânica celeste que permitia, principalmente no caso dos eclipses lunares, que era mais fácil de prever, calcular alguns. Nos eclipses solares é mais complicado, mas mesmo já na era cristã, embora existisse algum conhecimento, cá está, dessa mecânica celeste e de alguma previsão de eclipse, mas eram fenômenos mal compreendidos e portanto havia muito receio relacionado com o fenômeno. E também convém referir que só muito mais tarde, já enfim, no século XVIII, nomeadamente, 1700, é que começou a haver uma ciência um bocadinho mais avançada, que já fazia previsão, que já havia estudos também feitos por astrônomos quando aconteciam eclipses. E eu diria que mesmo nessa altura, havia receio. Por exemplo, os eclipses que nós tivemos em Portugal no início do século XX, nomeadamente o de 1900 e o de 1912, apesar de serem eclipses muito populares, nomeadamente o de abril de 1912, mesmo na altura, aqui nos meios mais pequenos, havia algum receio, as pessoas tinham algum receio do que estava a acontecer e não sabiam muito bem como é que deviam reagir perante o fenômeno.
A minha pergunta é se hoje já estamos mais descansados ou se perduram ainda alguns medos um bocadinho irracionais.
Sim, infelizmente, eu acho que sim. Acho que hoje em dia, apesar da imensa quantidade de informação que há sobre os eclipses, eu tenho notado, e recordo nomeadamente o eclipse de agosto de 99, em algumas reportagens que vi na altura, que parece que havia algum receio das pessoas Saírem à rua, tinham receio que o eclipse pudesse fazer mal à saúde, qualquer coisa assim do gênero. E eu acho que isso também acontece às vezes, porque embora exista muita informação, mas como bem sabes, é preciso saber digerir a informação.
Exato.
Portanto, desse ponto de vista, às vezes há, de facto, pessoas que ficam um pouco receosas: "Será que isto vai fazer alguma coisa à minha saúde?" Há um pouco essa dúvida, mas felizmente que nós hoje estamos numa época completamente diferente e há, de facto, uma possibilidade de esclarecer as pessoas de uma forma completamente diferente.
E deixa-me aproveitar este momento para lembrar que temos no site do Observador um interativo que responde 14 perguntas, entre outras. É o mapa interativo "Saiba como vai ver o eclipse de onde estiver" e, no fundo, o que temos aqui é um desenho, uma forma de percebermos com ondas e com diferentes tons de cor para perceber qual o grau de ocultação do sol que vamos ter em cada hora no território continental. E vale a pena espreitar, porque isso também vai ajudar a perceber melhor o eclipse que vamos ver em cada um dos pontos do país. E, José Augusto, há muita coisa que acontece durante um eclipse, se calhar, e sobretudo com este grau de ocultação, que importa também lembrar. Ou seja, nós vamos, de repente, todo esse processo demorará cerca de uma hora, pouco mais do que isso.
Sim, duas horas, praticamente.
Duas horas, praticamente. Vamos ver a claridade a diminuir, a penumbra a instalar-se, mas como vai embora imediatamente antes do pôr do sol, portanto, ainda vamos voltar a ter luz. Como é que nós, seres humanos, e os animais, e vamos falar disso num próximo episódio, como é que todos nós reagimos a esta alteração de repente da luz solar?
Bem, nós humanos temos uma vantagem que é: como somos seres de uma inteligência superior, vamos assim dizer, podemos acompanhar o fenômeno e podemos, de facto, segui-lo de outra forma.
Observá-lo.
Exatamente. Claro que as aves, nomeadamente, e outros animais poderão reagir de forma diferente, porque não têm noção do que está a acontecer. Mas de facto, como referes, mesmo em Bragança, não será total, mas iremos notar claramente, mesmo em Lisboa ou em outras cidades, iremos notar uma quebra de luz, portanto, o ar fica mais cinzento. Nota-se realmente isso. E isso tem a ver com essa questão que referias e que também está no mapa interativo, que eu também já estive a ver, em que nós estamos com graus de parcialidade muito elevados, 90 e tal por cento. E desse ponto de vista, há, de facto, essa quebra de luz em concreto. Agora, imagina, se tivéssemos tido a sorte da faixa central passar mesmo em cheio em Portugal, nós, nesse caso, com certeza que a nível da natureza iríamos notar essas reações, porque nomeadamente as aves, e outros seres vivos, obviamente vão reagir àquela obscuridade.
Vão dormir.
Exatamente, vão dormir mais cedo. E portanto, desse ponto de vista, seria muito interessante depois seguir essa reação. Mas de facto, aqui, apesar de ser mais de 90% e como referias, haver aquela penumbra, aquele ar cinzento, aquela quebra de luz, mas se calhar não é assim tão significativo que haja uma grande reação na natureza e nos animais que estão por aí pela natureza. No nosso caso concreto, humanos, é diferente, porque nós estamos a seguir e temos consciência do fenômeno. E queremos ver o fenômeno.
Exato.
E portanto, desse ponto de vista, vai haver muita gente nesse dia com a cabeça virada para o céu e a olhar para o sol.
José Augusto, agora deixa-me pôr-te aqui uma pergunta, porque este tema tem realmente suscitado mesmo grande interesse. E eu vou aqui citar uma pergunta de um ouvinte. É o Paulo Mota, que me enviou um e-mail a fazer uma pergunta. Eu penso que a resposta poderá ser fácil, mas se o Paulo Mota tem esta dúvida, acho que muita gente também a terá. Quem for a guiar tem que mudar alguma coisa no carro?
Não. Quem for a guiar só tem a fazer uma coisa: parar o carro num sítio seguro, sair para fora do carro e apreciar o fenômeno.
Ligar as quatro piscas.
Exatamente, ligar as quatro piscas. Convém não ser no meio da autoestrada. E, portanto, fazer a observação, porque de facto, o fenômeno, como tu também tens referido ao longo da semana, só é observável, e é preciso muito cuidado, o Observador também tem feito esse trabalho ao longo do tempo de chamar a atenção.
Importa reforçar isso que vais dizer. Sim.
Exatamente. Ou seja, só podemos observar com os óculos ou com o filtro adequado, porque de facto não se pode olhar diretamente para o sol. Mesmo que ele esteja com 90 e tal por cento da lua à frente, não se pode olhar para ele. Mesmo nós em Bragança, com 99%, não vamos poder olhar para ele. E sendo assim, a pessoa tem que ter muito cuidado, mas se tiver os óculos, se tiver um filtro adequado, poderá fazer a observação nessa altura do eclipse. Mas salientando sempre isso, é preciso muito cuidado, não olhar diretamente para o sol e as pessoas um pouco pelo país é tentar apreciar. E portanto, se a pessoa vai a conduzir, não se ponha a ver o sol a conduzir.
Exato.
Digamos que o nosso código de estrada não proíbe, mas convém não fazer.
Não guiar com os óculos do eclipse.
Exato, não guiar com os óculos de eclipse. E, portanto, ter cuidado.
E não tirar os olhos da estrada também.
Repara que na futura revisão do Código de Estrada ainda vamos incluir essa parte: não guiar com óculos de eclipse.
Não, mas há muitas dúvidas também, pessoas que estão a trabalhar na rua a essa hora. Estão a surgir várias dúvidas e temos recebido vários e-mails com dúvidas dos ouvintes sobre esta matéria.
E também te posso dizer num minuto que, de facto, noto também que há um grande interesse à volta do fenômeno. E, por exemplo, há uma grande corrida aos óculos, para que as pessoas possam observar. E noto que há, de facto, uma grande efervescência à volta deste fenômeno, ou seja, há uma grande curiosidade em observar. Também tenho notado isso.
José Augusto Matos, obrigado mais uma vez pela tua disponibilidade.
Foi um prazer, Ricardo. Sempre é.
Vamos nos encontrando por estes dias.
Vamos conversando, exatamente.
José Augusto Matos é divulgador de ciência e astrônomo, um guia para o eclipse, todos os dias aqui na Rádio Observador, por volta das 17h15 e também sempre disponível em podcast. E podemos também já avançar que na próxima semana, no dia 12 de agosto, vamos estar numa emissão especial entre as 17h e as 20h. Vamos mostrar o eclipse na rádio. Sim, é possível mostrar o eclipse na rádio e vamos ter, obviamente, também uma emissão em vídeo nessa altura. Para a semana contamos melhor o que é que vamos fazer, mas estamos a preparar uma grande emissão.