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Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade.
Boa noite!
O José Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade.
Boa realidade. Eu não estava na casa de banho, eu estava perdido. Perdi-me lá atrás, não sabia para onde é que eu devia ir.
Estava em pânico.
Eu também estava em pânico, porque eu estava mesmo perdido. Não sabia-
Normal, com a velhice um gajo tem tendência a desmaiar.
Mas pronto, já cá estamos. Muito obrigado por terem vindo, antes de mais nada. Palmas para vocês que estão aqui a contribuir para uma ótima causa, numa segunda-feira, feriado. O que é que se vai passar? Como isto está a ser gravado, nós vamos fazer dois intervalos, que também não são bem intervalos. Basicamente vamos assinalar que terminou a nossa primeira parte e depois assinalamos que terminou a nossa segunda parte, porque na rádio essas são as duas partes que são transmitidas. E depois ficamos aqui na terceira parte convosco, que é um exclusivo digital, no qual dizemos todo o tipo de coisas.
E já podemos estar nus, toda a gente nua.
Sim.
E a beijarem-se uns aos outros.
Para quem nunca ouviu este podcast, o conceito é muito simples: tem uma pergunta e nós tentamos responder, cada episódio tem uma pergunta diferente, e tentamos responder essa pergunta com o máximo de sinceridade e depois, naturalmente, uma certa parvoíce natural também surge. Mas antes, as apresentações. O meu nome é Luiz Felipe Borges, tenho 48 anos e sou praticante de squash em patins.
António Raminhos, 45 anos e sou testador de casas de banho públicas.
Uau! E tens muito trabalho, ou não?
Sim, eu sou tipo influencer. Eu vou às casas de banho e faço ratings das casas de banho. Analiso os mármores, como é que são, a pressão da água, as loiças. Não é, Má? Tipo de zero a 10, está ali no oito e meio.
Qual foi a pior que tu já apanhaste?
A pior?
Sem ser da casa do Borges, qual foi a pior, que não é pública?
Para qualquer casa de banho de estação de serviço.
É, não é?
Sim.
Eu sou o Marco Horácio, 51 anos e sou abraçador profissional.
Abraçador.
Um abraçador.
O mundo precisa de abraços.
Mas abraçador de pessoas ou abraçador de canos, com umas abraçadeiras que a gente usa.
Eu abraço tudo e todos. As pessoas precisam. A pessoa está mais carente, acabou um namoro, eu vou lá, dou aquele abraço fortezinho. Às vezes eu só aquela palmadinha nas costas, é mais barato, são €7,50. Depende do abraço. As pessoas precisam.
Depende do que a pessoa tem para pagar.
Não, e depende também da dor da pessoa. Aquele abraço forte e sempre com muito respeito e muita dignidade. Aliás, eu tenho um pressário. Há abraços que vão até €800. Sem fatura.
Eu também conheço um site assim. Mas não é com abraços.
Esse abraça a tela.
Só abraços.
Abraças a tela.
Abraços.
Só tomar o meu antidepressivo, desculpem lá.
É, toma, que a gente precisa que ele tome o antidepressivo.
Isto é outro problema que acontece muito no podcast, que é o Borges comer e beber durante o podcast, porque ele não faz mais isso em momento nenhum do dia, só enquanto está a gravar.
E nós simplesmente sabemos que ele toma a medicação sempre, há um dia da semana que ele toma a medicação certa.
Tomamos todos.
Pois é, eu já tomei a minha.
Estávamos a falar disso.
Dá pouco tocou o meu alarme para tomar medicação.
Foste tu.
É para me lembrar que tenho que tomar a medicação. E vocês: "Ainda não tomei".
Foste tu.
Portanto, ainda bem.
Eu fui à minha psiquiatra e ela disse: "Você está a tomar as doses erradas. Você tem que tomar o dobro." E eu: "Ah, por isso é que eu ando assim meio..."
Eu, por acaso, noutra dia, nós ainda não pegámos no tema.
Não, já vamos.
Mas eu estava-me a lembrar de uma coisa, que é: como é que alguém toma medicação para a falta de memória?
É uma boa pergunta. Se calhar tem um exportador.
O tipo vai à casa de banho, está a lavar as mãos, de repente vem ele: "Medicação para a falta de memória? Deve ser para mim. Medicação para a falta de memória?"
"Acho que já tomei."
"Fica aí presa a lupa ali." A Sociedade Portuguesa de Alzheimer acabou de lançar a primeira edição da sua revista, pela 17ª vez. A nossa pergunta hoje é: consegues viver sem medo? Horácio, costumas ser o mais caladinho, por isso. Tens notas.
Eu não sou o mais caladinho, eu sou o mais assertivo. Eu quando falo, digo alguma coisa de interesse geral.
Tens notas e tudo.
Tenho sempre notas. Tenho notas, pena que não são aquelas notas que eu gostava de ter mais. Eu acho que ninguém vive sem medo. O medo é um instinto natural e que nos mantém atentos durante a nossa vida e não nos faz cometer demasiadas loucuras. Ou seja, o medo, por um lado, impede-nos de crescer, impede-nos de atingir o nosso potencial total, mas, por outro lado, defende-nos de algumas situações que podem acabar mal. Por isso acho que o medo é diferente de pessoa para pessoa. No meu caso, eu não tenho tanto medo. Imagina, na minha área, eu não tenho medo.
Falou imenso e ainda não disse nada.
Hã? O que é que foi?
Falou imenso e ainda não disse nada. É o medo. O medo é importante numas coisas e é menos importante noutras. E depende de pessoa para pessoa.
Se o Gustavo Santos faz isso, e toda a gente o segue, por que eu não posso fazer a mesma coisa? Andar aqui à volta do tema.
Tu trabalhaste com esse tema?
Eu tenho medo de vocês os dois, porque fomos ao tailandês.
Sim.
E vocês comeram uma sopa.
Como é que se chama a sopa? Tom Yum.
Tom Yum.
Tom Yum, Yum, Yum, Santinho. Vocês comeram uma sopa, que aquilo, para já estavam os dois a chorar, pareciam que estavam arrependidos de alguma coisa da vida.
Era emoção.
Eu tenho medo que isso não vá correr bem.
Mas estavas a...
Eu já não digo mais nada.
Diga logo.
Mais nada.
Já dizia a minha querida mãe: "Quem tem cu, tem medo."
É isso que tens de dizer às pessoas.
O que isso quer dizer é que, basicamente, tu estavas a referir que o medo é universal. Aliás, no espetáculo que eu fazia, que se chamava "Não sou eu, é a minha cabeça", onde eu abordava muito as questões da ansiedade e da perturbação psicocompulsiva. Porque defende-se muito que a ansiedade é uma doença nova, que não existia, o que é mentira, porque a ansiedade tem cerca de 300 mil anos, que é a idade do ser do homem, como o conhecemos. E a ansiedade e o medo sempre existiram. Mas o que era a ansiedade e o medo no início da história?
Ser comido por um predador.
Isso era o medo. O medo era estar frente a frente com um bisonte. O gajo via o bisonte e: "Um bisonte! Que é que eu vou fazer?"
E Judas, antes de trair Jesus, será que ele estava ansioso?
Devia estar.
É possível.
É possível.
Mas não me deixaste acabar de explicar.
Claro, vocês também não me deixam acabar de falar, eu faço-vos a mesma coisa. Estamos aqui é uns para os outros. É sempre isto.
Sinto-me a clara de ovo.
Queres dizer alguma coisa? Queres contribuir?
Quero promover o meu novo livro de receitas.
"Comer sem medo".
O medo sempre existiu. E a grande diferença para a ansiedade é que o medo é tu estares presente a algo que está a acontecer ou que vai acontecer. E a ansiedade é a expectativa que tu crias.
Ou seja, o perigo não é iminente.
O perigo não é iminente. Quer a ansiedade, quer o medo, sempre existiram. Só que, lá está, no início da história, o medo era o gajo estar frente a frente de um bisonte. E a ansiedade era ir na savana ou onde quer que fosse e começar: "Onde é que está o bisonte? Onde é que está este gajo? Estou a ouvi-lo". E isso está nos nossos marcadores genéticos, está na nossa biologia e acompanhou-nos ao longo da nossa evolução. Só que a diferença é que agora não existem bisontes.
Achas tu.
Existem, mas muitas vezes são só na nossa cabeça.
É sim. E o vosso primeiro medo? Qual foi o teu primeiro medo?
O meu primeiro medo. Por acaso é engraçado, as primeiras memórias da minha vida têm todas a ver com o medo. Eu nasci em 1977 e sou açoriano, natural da Ilha Terceira. Eu tinha três anos quando se deu o terremoto de 1980, que destruiu a minha cidade, Angra do Heroísmo, e aconteceu no dia 1 de janeiro. Boas entradas.
É o fim do mundo.
Lembro-me, vocês já conhecem esta história. Eu estava a brincar com um carrinho de plástico que tinha recebido uma semana antes, no Natal, e de repente, ele desapareceu no chão com um pedaço do teto que o levou. E lembro-me de levantar voo, que seria o meu pai ou a minha mãe a pegar-me pelo colo. Tenho essa memória associada a pânico. Tenho uma memória na véspera de fazer um ano de idade, que é a primeira vez que viajei de avião. Estou no colo da minha mãe e vejo a abóbada, a janela, está à noite, chove, e lembro-me de estar a chorar quando o avião começa a fazer barulho, o motor a andar.
Foi o ano passado.
Foi.
Estava num sítio que não tinha visto.
É incrível como é que tu consegues ter essas memórias tão novo.
Com cinco anos, que deve ser a terceira memória da minha vida, é o meu avô materno a pregar-me uma partida. Ele queria fazer uma brincadeira e chamou-me. Eu, obviamente, confiava no meu avô e ele, coitado, a intenção era boa. E eu fui ter com o meu avô e ele queria me fazer uma surpresa, tinha um cão. Ele estava a esconder um cão atrás das costas. E quando eu chego ao pé do meu avô, ele mete o cão à frente, o cão assusta-se, eu assusto-me e o cão morde-me no nariz. Até aos 15, 16 anos, se via um cão, tinha que passar pro outro lado da rua. Todas as minhas primeiras memórias são associadas a medo.
E o cão, como é que ficou?
O cão era mais pequeno do que eu, também me lembro, coitadinho, assustou-se.
Mas ficaste com o cão ou não?
Não, fartei-me de chorar e não sei o que aconteceu ao cão. Acho que era um cão de um vizinho, ele só me queria mostrar.
A minha primeira memória de medo também, eu devia ter cinco anos. Acho que depois tu ficas com isso muito marcado. E eu lembro-me de quando na RTP deu uma notícia sobre a passagem do cometa Hale-Bopp. E para além de falarem sobre isso, que era uma notícia factual.
Passa de 72 em 72 anos, não é?
Ou 60 em 60, uma coisa assim. Mas lembraram-se de fazer uma reportagem sobre as teorias que diziam que o mundo ia acabar quando o cometa passasse. Eram teorias, não era de cair, eram teorias do fim do mundo. Eu lembro de ser puto e estar a ver aquilo na televisão e começar a entrar em pânico, pensar: "Se isto está a dar no telejornal, é porque é verdade". E a malta foi toda para a escola e no dia a seguir, a malta na escola, tudo a falar daquilo, porque a gente só tinha dois canais. Toda a gente falava das mesmas coisas. Não é como agora, nós naquele tempo, quando alguém dizia: "Viste o filme?" Toda a gente: "Qual filme?" Não dizia qual filme, dizia sim ou não. Só dava um.
Só dava um. Vocês tinham muita sorte com dois canais, eu tinha um.
Pois.
Que era a RTP Açores. Que dava esse filme, mas oito meses depois.
E a malta na escola a falar daquilo, tipo: "Ei, vocês ouviram as notícias? O mundo vai acabar." E o meu colega: "Eu ouvi dizer que o mundo já acabou em França e a seguir somos nós." E eu: "Merda, somos sempre os últimos também."
Até nisso.
O mundo já acabou em França. Esta parte eu estou a gozar, mas isto foi a sério e eu assustei-me de tal maneira que eu tive Uma coisa relacionada com a ansiedade, que acho que se chama fagofobia, que é: parei de engolir, não era capaz de mastigar porque achava que ia morrer engasgado. Andei duas ou três semanas assim, que parecia que ia sufocar. E a minha mãe, obviamente, nessa altura, levou-me a um psicólogo dos anos 80, uma bruxa.
"O meu filho tem o diabo no corpo. Ele não consegue comer croquetes."
Por acaso, a senhora ajudou-me, a dona Manuela ajudou-me.
O que é que ela fez?
Fez aquilo que muita gente não fazia naquela altura, que foi ouvir-me.
Olha, cá está.
E era tipo-
Era isso ou uma endoscopia com uma mangueira.
Não, tinha as suas mezinhas, como é óbvio, mas eu lembro que tinha um ar de avó muito querida e eu gostava muito de lá ir, a minha mãe ia lá algumas vezes, e eu ia. Gostava do cheiro a ervas, a chás, e era muito querida. E ela realmente acho que fez isso, que foi ouvir-me, que é algo que também ajuda muito a lidar com o medo, é nós podermos ouvir-nos uns aos outros.
Por falar em especialistas alternativos dos anos 80, vocês alguma vez lidaram com o que se chamavam os "em direitas"? Aquelas pessoas que tinham o dom. Isto é sério.
Isto não são os quiropratas, agora?
Sim, mas eram pessoas sem qualquer-- eu vou dar um exemplo e vou conectar isto com o medo, que eu acho que quando somos pequenos, temos um terrível pânico de desapontar os nossos pais. Basicamente, eu caí de uma bicicleta, a bicicleta de um amigo, e fiz uma entorse. E não disse nada à minha mãe, porque tinha medo da reação da minha mãe.
Ficasse com outra entorse.
E então o pé foi inchando, dia após dia, após dia, até eu nem sequer conseguir calçar o sapato. Era impossível evitar a dor. E ela fica chocada quando vê o estado em que está o pé. E eu fui a um em direita, que era um senhor que tinha vacas e a quarta classe. E fomos à casa dele e ele tinha uns santinhos na parede e tal. Não houve mezinhas, mas o homem, é um dom qualquer que algumas pessoas tinham. Meteu as duas mãos no pé. Não, houve uma dor lancinante, dois ou três segundos e tchau. E o pé ficou impecável. Não sei o que ele fez, mas mexeu para lá e o pé ficou impecável.
Isso também me aconteceu, mas foi com uma ex-atleta russa. Não, estou a falar sério, de Aveiro.
Vladimir.
Não. Eu tinha uma lesão no ombro, que tinha feito num programa do "Saltei a Parede". Decidi fazer um pontapé de bicicleta e caí em cima do ombro e fiquei à vontade, se calhar, dois anos, com dores no ombro e não conseguia fazer isto. E então o meu sogro, que é uma excelente pessoa e que não gosta de ver-me sofrer, disse-me assim: "Olha, há aqui uma senhora em Aveiro, que é uma russa, que as pessoas vão lá, e ela não sei o que ela faz."
O teu sogro?
Sim, o meu sogro atual.
O "Saltei a Parede" já foi...
Sim, mas andei muito tempo com-
Pois, disseste dois anos.
Sim, mas entretanto já voltou.
Ah.
O que é que voltou, a dor ou o "Saltei a Parede"?
Não, é bom saber que vocês acompanham o meu trabalho. Fico muito contente.
Não, voltou, mas há quanto tempo? Há dois anos.
Posso contar a porra da história? É sempre isto. O objetivo é eu contar a história, não é vocês estarem a revirar.
Sim. Dói-te o ombro?
Sim, fui à russa. E então a russa, pró-Putin, atenção.
É importante para a história.
Não, é importante.
Ocupou a tua Crimeia?
Eu já tinha ido a uma osteopata que me diz: "Está calcificado, você tem que ser operado". E ela pôs no meu braço, começou assim, para trás, para frente, para lá, e eu a cheirar e ela: "Não precisar operação. Nada disso. Deitar aí na maca." E ela só com injeções de soro, e a falar, porque ela era da seleção de esqui russa, entretanto, depois veio para Portugal, e ela ia injetando no músculo o soro e ia me manipulando o braço. E eu com uma vontade de gritar, de mandá-la para... Porque era impressionante as dores que ela-
O que ela injetava era soro?
Era soro.
Estás assustado?
Tenho. Quem me dera que fosse outra coisa qualquer para eu dormir, mas não. E então ela manipulava e dizia-me assim, com um ar assim: "Se quiser gritar, pode gritar à vontade." Tipo aquele ar, "não se faça de forte, não vale a pena, que eu sei que isto dói". E eu: "Não, eu aguento".
Ia recordar que eu queria mostrar o seu passado do KGB.
Agora, a única coisa que eu sei é que ela fez-me uma sessão, foram 40 minutos. Eu parecia um boneco de trapos. Ela virou-me ao contrário e tudo e mais alguma coisa. E ela acabou chateada comigo, porque disse-me assim: "Vamos ter que fazer mais uma sessão. Eu pensava que poderia curar uma sessão, vou ter que fazer outra". Ou seja, ela queria, em duas sessões, curar uma dor que eu tinha, que durava há anos.
Mas já lá foste a segunda vez ou não?
Fui a segunda vez e nunca mais tive dores no ombro.
Levanta lá o braço. Fantástico. Como é que se chama a senhora? Como é que se chama a senhora?
Não me lembro. Natasha.
Natasha.
Vamos falar de Natasha.
Com uma grande salva de palmas para a Natasha, que vamos despedir-nos dos nossos ouvintes na primeira parte deste "Homens de uma Certa Idade".
Até já.
Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade.
E bem-vindos à segunda parte.
Soube tão bem este intervalo.
O intervalo ainda foi mais giro que o programa.
Soube mesmo bem.
O intervalo ainda foi mais engraçado.
Até quando a gente fala menos.
Quando falamos menos.
Estamos à vontade com as pessoas.
Estamos a falar de medos, não é?
A história da Natacha lembrou-me: eu em tempos tive uma senhora que ia fazer limpezas lá em casa, que era a Dina.
Esse é o nome da minha sogra.
Dina.
É Dina.
E elas são todas, generalizar é perigoso, preguiçoso também e estúpido, mas ela tinha esse tipo de atitude da Natacha, muito pão, pão, queijo, queijo. Eu tinha uma cadela e um gato e ela adorava a cadela e hostilizou. O gato era-lhe absolutamente indiferente. Isso era logo uma coisa. A cadela chamava-se Indie e ela entrava: "Oh, India, oh que bonita, querida, anda cá, fofinha". E o gato aparecia e ela . Só grunhia para o gato. Mas um dia estou-lhe a perguntar: "Então, a Dina...". A senhora já tinha os seus 50. "A Dina, como é que é a história familiar?" "Sim, Dina tem um filho, o filho está muito bem. Universidade, Polónia, muito bem." "E é casada?" "Sim, tem marido. Marido a fazer coisa muito bonita uma vez. Marida estar lá na Rússia, mas marido uma vez, sem dizer nada a Dina, marido apanhar três aviões e chegar a Portugal para ver Dina." "Há quanto tempo é que não via o seu marido?" "Não via marido há quase três anos." "Deve ter sido muito bonito. Qual foi a primeira coisa que disse quando o viu?" "Apareceu, tocou a campainha, abri a porta de casa, vi meu marido e que disse: estás gordo." Aqui é sempre arrumático. Lá está. Muito prática. Qual é o vosso maior medo hoje? Desculpa, tem a ver com o medo. É muito curioso, porque eu pratico artes marciais. Não perdo uma oportunidade de dizer isto.
Espossas.
Quando aparece malta russa e ucranianos a treinar, é incrível, parece que não têm medo de nada. E os treinos, por exemplo, a arte marcial, qual é o nome? Aí kidô. Não. Chouriço quente. Chouriço quente.
Chouriço quente.
E há uma classe, é uma arte marcial japonesa, defesa pessoal, uma coisa até relativamente tranquila, e há uma escola em Esposende, que é de mestres ucranianos, que com a guerra vieram para Portugal. E eu no outro dia estava com os gajos, e estava a perguntar: "Como é que eram os treinos?" Porque eu estava a dizer: "Nos anos 90, quando nós treinávamos, os treinos eram mais agressivos. Eram bem mais puxados, agora são mais soft e eu gostava mais dessa versão mais agressiva." E ele estava a me explicar: "Na Ucrânia também eram mais agressivos." E eu: "Mas como é que eram os treinos?" "Como é defesa pessoal, por exemplo, nós às vezes fazíamos simulações em que fingíamos que um era assaltado e eram os outros todos a baterem-lhe." E eu: "Mas como assim?" E ele dizer assim: "Não, era tipo, ele estava, mas eram de cada vez. Não, era todos e às vezes saíamos do dojo, ele fugia e nós íamos atrás dele." Assim de uma agressividade.
Como eu, eles vão ganhar a guerra dessa forma, pensar assim.
E a malta que eu conheço, mesmo treino depois Muay Thai ou outras artes marciais, é muito curioso. Não sei se está associado ao fato de ser norte da Europa ou frio, não sei, mas parece que não têm tanto medo das coisas.
Olha, e os teus treinos, como é que têm corrido?
Super bem. Estou quase a subir de cinturão no fisting. Não treino nada.
Não, mas nós estamos a tentar e estamos a puxar por ti. Isto tem sido quase semanal.
Vocês foram muito queridos, vocês e uma data de amigos ofereceram um curso de boxe.
Quantas vezes é que já foste?
Eu já fui, zero, ainda não fui, mas irei. Quais são os vossos maiores medos hoje em dia?
Falo eu? Posso falar?
Sim, fala que eu estou a pensar.
Estás a pensar? Posso só-
Tem medo de morrer?
Não, por acaso não tenho medo.
Claro, tenho.
Eu não tenho.
Também tenho. Se não tivesse, não tinha feito um espetáculo solo sobre a morte.
Eu, por acaso, não tenho. Posso vir a ter. Quando estiver lá perto.
Pode vir a ter?
Sim, agora não. Agora eu acho que, imagina, eu chego ao ponto de, não sei se já vos disse que a minha mulher é 20 anos mais nova do que eu.
Não.
Não vos tinha dito.
Este mês ainda não.
Nós mudámo-nos para Aveiro e comprámos casa, depois tivemos oportunidade de escolher as loiças e o chão e não sei o quê. E a Sara chegava para mim e dizia assim: "Olha, temos aqui estes três tipos de chão, qual tu gostas mais?" Eu assim: "Eu gosto mais deste." E ela: "Eu, por acaso, gosto mais deste. Então escolhemos este que tu gostas mais. Aqui a cozinha, estava a pensar, o que tu gostas?" Eu assim: "Bege é giro." E ela: "Eu gosto mais da branca. Então pomos branca, acho que é para pôr branca." E ela assim: "Por que tu concordas, estás sempre a concordar comigo?" Eu assim: "Olha, pela lei da vida, eu vou primeiro do que tu, portanto, tu vais usufruir mais da casa."
Exato.
"Portanto, põe a casa à tua maneira."
Claro, faz sentido. Estava a pensar que era exatamente assim.
Claro. Portanto, ela pôs a casa à maneira dela, pela ordem natural, espero que assim seja. Mas medo, não sei, eu acho que hoje em dia tem mais a ver com os filhos. Tem mais medo do que possa acontecer aos meus filhos, à minha filha Leonor, ao Guilherme, que tem 19 anos, a Leonor tem três, tenho mais receio do que lhes pode acontecer futuramente. É aquela coisa que nós dizemos como pais, se pudéssemos dar a vida pelos nossos filhos, era num abrir e fechar de olhos, queremos sempre o melhor para eles. Tenho mais receio por eles do que por mim, porque eu acho Eu com 51 anos.
Já não te resta muito tempo, não é?
Não! E o tempo que me resta também já não me chateia com nada. Não tenho aquela coisa de querer ganhar mais dinheiro, querer ser mais famoso, querer ter um carro. Eu tenho um Smart que já chove lá dentro. É verdade. Já tem quase 14 anos e chove lá dentro.
Eu tenho medo de morrer desde pequenino. Eu nasci já com medo de morrer. Mas é assim, a minha história eu acho que-
Eu tenho tanto medo de morrer que eu não queria nascer, que eu nasci a ferros. É verdade.
Já explica muita coisa, isso.
A minha história, em relação aos meus medos, eu ponho-me a pensar: por que eu tenho tanto medo de morrer? E do que eu tenho medo? É do sofrimento?
É, sim, acho que é.
Será do sofrimento de morrer? Acho que do sofrimento, porque a minha história está muito, de alguma forma, associada ao conceito da morte. Vocês já sabem, se calhar as pessoas que nos estão a ouvir em casa, algumas também sabem. Aqui algumas também poderão saber. Eu chamo-me António Raminhos, eu sou o terceiro filho, mas eu tive um irmão que morreu antes de eu nascer. O meu irmão morreu em 79, eu nasci em 80.
E ele chamava-se?
O meu irmão morreu com 15 anos. Eu chamo-me António José Raminhos. Como é que se chamava o meu irmão?
António José Raminhos.
António José Raminhos. Quem é que tem uma campa com o seu nome aqui? Alguém? Às vezes apanha-se malta. Portanto, a minha mãe esteve, na realidade, num processo de luto, de depressão. Eu nasço, o meu irmão era deficiente profundo, se calhar havia muito aquele medo de: "será que ele está bem, que lhe vai acontecer alguma coisa?" E aquele instinto de proteção, toda essa energia, se calhar também teve influência na minha maneira de lidar com a morte. Depois a minha família, toda do Alentejo, morava em Lisboa, vinham montes de familiares sempre a Lisboa, sempre que alguém vinha ao hospital, era na minha casa que ficava. A minha casa era quase tipo a triagem. Tinha que ver a malta. A malta que estava doente, iam lá todos parar a casa primeiro antes de ir para o hospital.
E tu e tua irmã a fazer pulseirinhas.
Não, tinha um interfone.
Era uma anda de casa laranja.
"O tio Antónia já está ao quarto do meu pai, se faz favor."
Hoje tenho um bocadinho menos de medo. Acho que também à medida que um gajo vai crescendo e também terapia, o autoconhecimento, também ajuda a lidar um bocadinho melhor com essas coisas. Curiosamente, por estar a fazer um espetáculo sobre a morte, voltei a ganhar um bocadinho mais medo de morrer, mas acho que também faz sentido, esse medo voltar um bocadinho mais.
O meu medo é mais o sofrimento, que seja uma coisa dolorosa. Se for uma coisa super rápida, mais ou menos bem.
É aquela morte santa.
É isso, é morte santa.
A dormida.
Com três holandesas.
Ia dizer um piano na cabeça, mas prefiro esse cenário, senhor, obrigado.
Não acreditem, está a valer. Porque eu quando fiz o espetáculo, quando estava a escrever, li muitas coisas sobre este tema. Em 1800 e tal, houve um médico que fez a amputação mais rápida da história. Amputou um paciente em 20 segundos, uma perna. Mas foi uma coisa tão rápida e tão escabrosa e tão violenta, em 1800 e tal, que no processo da amputação do paciente, ele cortou um dedo ao assistente. E o que aconteceu após isto? Morreu o paciente.
Ok. O assistente.
Morreram os dois de septicemia, o paciente e o assistente, e uma pessoa no público de ataque cardíaco. Portanto, depois aquilo dizia: "é a única amputação na história que teve 300% de mortalidade". Tu já imaginaste na Idade Média como é que a malta a morrer, nas guerras, tu não morrias na hora. Aquilo é que era sofrer, tu levavas uma espadeirada, uma lança e ficavas ali três dias. E ias para casa à noite. Levantavas-te a tomar o pequeno-almoço. Devia ser um sofrimento atroz.
Eu adoro nos filmes americanos, há sempre um gajo que leva um tiro. Mas aguenta-se mais uns 20 minutos.
Claro.
Sim.
Faz o que é preciso fazer, incluído cambalhotas, matar 17 gajos.
John Wick.
Olha, por acaso nunca vi, por incrível que pareça, mas pronto, é uma trope. E quando finalmente o perigo passou e a miúda que ele gosta está ao pé dele, dá-lhe um abracinho e abre ligeiramente o casaquinho. "Oh my God!" E ele está cheio de sangue.
Sim.
É incrível, mas conseguiu fazer montes de coisas.
Não, mas está a fazer, normalmente depois vai para o hospital, depois há aquelas cenas.
Não, há alguns que morrem. Depois tem aquela coisa também da frase final. Tem que dizer aquela frase: " E dizer a frase."
É tipo o valor, o som é-
Eu gostava-
O jogo da mala.
Espero morrer velhinho, com a minha mulher ao lado. Se eu souber o momento em que eu for morrer, pensei que vou dizer assim uma coisa super importante e depois morro antes disso. "Só gostava de dizer que-
Em 2027, eu-
Em 2025, houve uma mulher que fez-me um..." E morre.
"O quê?"
"Fez-me o quê?" Ela com o desfibrilhador.
Olha, eu tenho o medo mais estúpido que esses medos todos
Há uns medos irracionais.
Sim. Eu tenho um medo, não sei lidar com ele, e foi esse medo principal que me levou também a procurar ajuda. É o medo de ser feliz.
Sim, compreendo.
Como eu nunca vivi a felicidade plena, porque acho que cada pessoa encontra a sua felicidade. Eu quando encontrei a minha, não sabia gerir, porque estava em conflito constante, sempre comigo, com as pessoas, mais comigo do que com as pessoas, e não conseguia lidar com isso. E o meu medo é-
Aceitar.
Sim, aceitar e viver o momento, aproveitar o momento, sem estar ansioso. E é um processo complicado. Já fui mais do que é agora.
Qualquer coisa no teu passado te diz que não és merecedor daquela felicidade.
Sim, e depois às vezes eu paro e fico a olhar para a Sara, e fico a olhar para a Leonor, a minha filha é o bebê mais feliz do mundo, e a Sara é a mulher mais maravilhosa, está sempre muito bem-disposta, com uma energia fantástica, e eu fico a olhar de fora. Faço muitas vezes isso, e fico a olhar a pensar assim: "Tenho aqui tudo, por que eu não consigo aproveitar em plenitude?" Há sempre qualquer coisa que me impede.
Eu acho que isso tem a ver com os anos todos que tu passaste no lado oposto. E também, provavelmente, com o crescimento, porque eu sinto também a mesma coisa. Quando eu estou bem, fico a pensar: "Mal, se eu estou bem-
É porque vai acontecer alguma coisa.
É porque vai acontecer alguma coisa. E eu sinto muitas vezes, por exemplo, muitos dos meus medos e das minhas obsessões estão relacionadas com o facto de eu estar bem e não saber lidar com essa sensação de estar bem. E como não sei lidar, eu vou ter que me colocar outra vez naquele sítio, que sendo mau, é o único que eu conheço.
Sim.
E esse sítio é o sítio quando nós estamos no desconforto. Eu acho que isso é comum a data de pessoas.
E curiosamente é o sítio que tu te sentes mais à vontade.
Claro, porque é o que conheço.
Os checos têm uma, aprendi isto com o Milan Kundera, tal como nós temos a saudade, que é um conceito supostamente intraduzível, os checos têm um que é litost. E litost é o comprazimento com a nostalgia. Basicamente, estás na merda, mas curtes bué estar na merda.
Sim, é um bocadinho isso. E às vezes eu lembro-me que havia alturas em que se me acontecia alguma coisa de mau, eu sentia-me confortável. Era como se tivesse: "Pronto, eu aqui sei como é que tenho que estar". A cena mais estúpida desse medo foi, houve alturas, que eu ia ver jogos do Benfica e ficava contente com as derrotas do Benfica.
Porque sofrias com isso.
Porque sofria com isso, e isso deixava-me na merda. E então eu ficava naquele desconforto.
Tens sofrido muito este ano.
Não. Sofro, mas não é com prazer, porque nessa altura eu gostava de estar nesse sítio. O Benfica perdia e eu: "Porra, já tenho uma cena para estar chateado, e para estar triste, e para não sei o quê". Isto era a versão mais parva da coisa, porque a versão mais séria e que mais angustiava era sempre os medos. O medo das doenças, da morte, de não saber se estava no caminho certo, essas coisas.
Da tampa?
Hã?
O medo da tampa.
Da tampa, sim.
Quando somos putos.
Pensei que era agora tampa, sanita, o que é que querias.
Vou levar tampa.
Sim, isso também. Mas quando somos mais novos, os medos são completamente diferentes.
Mas há uma coisa curiosa que tu estavas a dizer, há certas alturas em que eu ainda gosto de estar nesse sítio da treta, sobretudo com a minha mulher. Às vezes, a gente chateia-se e eu não vou lá só para estarmos chateados de propósito. Não sabe bem, de vez em quando. Não estou a dizer mentira, não sabe bem.
Tipo, zangarem-se e não falarem um com o outro.
Sim, mas é de propósito. Eu sei que é aquilo, depois a gente faz as pazes, mas só para estar assim um bocadinho. Para que tem que estar tudo bem? Que seca do caraças.
Também é verdade.
A gente vai lá, chateia-se um bocadinho. Até o sexo é mais tipo: "Ah".
"Estou chateado. Estou chateado contigo." Nunca tinha visto por essa perspectiva.
"Não quiseste ir buscar as miúdas hoje, agora olha."
"Toma lá, olha, eu chateado contigo." É uma forma de ver a coisa.
Isto é uma boa ponte para a terceira parte, que é onde nós normalmente não temos qualquer espécie de filtro, porque é um exclusivo digital. Entretanto, vamos despedir-nos da plateia.
Tenho os medos fixos para a terceira parte.
Radiofónica, que nos ouve na frequência do Observador.
Estamos em direto no Olga Cadaval, a fazer um espetáculo para a Liga Portuguesa contra o Cancro. Muito obrigado por terem vindo.
Uma salva de palmas.
E apoiarem a causa. Muito obrigado.
Na realidade, nós só fazemos este tipo de espetáculos para não ir para o inferno.
Acho que não nos safamos.
Dizemos adeus à rádio e até já.
Até já.
Até já.
Bem-vindos à terceira parte do "Homens de uma Certa Idade". Está muito bom.
Essa foi boa.
A parte em que tudo pode acontecer. Normalmente a gente faz 15, 20 minutos, mas vamos fazer mais, porque as pessoas vieram de casa.
E merecem.
E pagaram um bilhete.
Viemos todos de casa, em princípio. Por acaso viemos tua casa.
Viemos da minha casa. Onde estivemos a gravar "Homens de uma Certa Idade".
Sabes o que eu tenho medo? Tenho medo de morrer nu.
Tenho medo de morrer nu.
Morrer nu, não digo.
Se tu fores primeiro do que eu, eu vou ao caixão, vou despir todo. Fica aqui a promessa feita.
Às vezes eu penso: imagina que eu estou na cama com a minha mulher.
Tu estás nu.
E eu morro. Não, estamos a fazer cenas Estamos chateados e estamos a fazer coisas e eu morro. Coitada da minha mulher, vai ter que chamar o INEM, vai ter que me vestir para não parecer mal.
Tu até na morte és obsessivo.
Sim.
Até a morte é ansioso.
Eu tenho medo disso.
Pior do que isso é, nunca vos acontece, estão com o boxer e foi um dia cansativo e é verão.
O que é que vem aí?
E há um vestigiozinho no boxer. É sim.
Mas onde? Parte da frente ou parte de trás?
Preocupa-me mais a parte de trás. Preocupa-me ser apanhado morto.
Eu não sei o que tu estiveste a fazer com o boxer.
Com o vestígio de excremento.
Tu tens medo de ser apanhado morto com-
Com um bocadinho daquilo.
Sim, que a Tânia Laranja, a primeira coisa que ela vai dizer nas notícias é:
Luís Flipoz estava cagado.
Apanhado em flagrante.
Aliás, temos aqui a prova.
E o rodapé da TV: burrou o pernil.
Burrou. Exato. A minha filha, Maria Leonor, no outro dia, estávamos a conversar exatamente sobre os medos. E ela diz-me assim: "Pai, do que é que tu tens medo?" E eu disse, sincero: "Olha, tenho medo de morrer, tenho medo às vezes de não vos ver crescer." E eu depois perguntei: "Tu tens medo de alguma coisa?" E ela: "Tenho". "Tens medo do quê?" E ela: "Tenho medo que tu e a mãe sejam robôs."
A Maria Rita ou a...?
A Maria Leonora. Eu disse: "Mas por quê?" "Não sei. Eu às vezes penso e se vocês forem robôs e eu não for vossa filha?" E eu assim: "É."
Isso é mais profundo.
É, só porque estás a dizer é.
Há cientistas, astrofísicos, que defendem que isto pode ser tudo uma simulação.
Sim, pode ser uma simulação, mas não somos robôs. Podemos ser avatars.
Avatars.
Podemos ser avatars. Mas isso já será outro tema.
É sempre nesta altura que eu penso que a medicação que vocês tomam é pouca. É pouca e deviam, sinceramente, pensar em aumentar a dosagem.
Nunca tiveram medo de ser adotados?
Eu tive o desejo.
Tiveste o desejo? Eu numa altura tive medo de ser adotado, porque a minha avó, que Deus a tenha, Deus não sei, porque ela não era boa peça, mas que alguém tenha ou que ande por aí. Não, a minha querida avó era má como as cobras. Mas a minha avó tinha Alzheimer, mas quando estava ainda naquela fase que tinha só alguns momentos, eu lembro de ser puto e estávamos a falar sobre coisas da família ao almoço e a minha avó de repente diz assim: o meu pai estava a contar "então, e quando não sei quê", e eu estava lá sentado, eu devia ter uns 12, 13 anos, e de repente a minha avó diz assim: "Então e quando encontrámos este menino nas ervas, lembram-se? Que ele estava lá pequenininho" e eu começo assim: "O quê?" "Não se lembram que eu até disse assim: 'ó filha, Maria, vai lá buscar aquele menino, coitadinho, que deixaram ali nas ervas.'" E isso na minha cabeça ficam os meus pais: "A avó está a brincar contigo." E eu: "Não será?"
Por isso, o medo de ser adotado.
Superquixete. E tu, Marco?
Eu nunca tive medo de ser adotado. Não, eu acho que o meu primeiro medo que eu me lembro, eu lembro muito pouca coisa da minha infância, mas o meu primeiro grande medo que eu tenho é do meu pai, que eu sinto. De facto, o meu pai era um homem violento. E, portanto, é o medo que eu sinto de ter medo de qualquer coisa que nós pudéssemos fazer, estava errado, qualquer coisa que pudesse acontecer, estava errado. E tu vives sempre nesta dúvida de que estou a fazer bem, não estou a fazer bem. Ou seja, levávamos de duas formas, por tudo e por nada, costumo dizer. Então o meu medo era um bocado isso. O meu pai tinha muito aquela mania de não podíamos deixar portas abertas, não podíamos deixar a cama por fazer, não podíamos não sei o quê.
Mas qual era o problema? Isso era só por ser regras ou era medo de alguma coisa? Medo das portas abertas, ok, agora a cama por fazer, não deixa a cama por fazer, senão aparece quem?
Não, nada, é por nada. Era porque lhe apetecia. Eu preferia ter medo de ser adotado do que ter medo de deixar uma porta aberta.
O meu pai, na realidade, também era obsessivo-compulsivo, mas não sabia, só achava que tinha razão em tudo.
Acho que isso era todos.
Era muito mental nas obsessões, então também estava sempre a incutir-nos medo. Medo e não nos incentivava para arriscarmos e para seguirmos os nossos caminhos. Então era aquele clássico: arranja trabalho, se não arranjares trabalho, não sei o quê.
E estuda.
E estuda, porque não sei o quê. E quando comecei a namorar com a Catarina, "tens uma namorada que é muito boa para ti, tu não estragas isso, tu não sei o quê", sempre estas coisas. E eu lembro-me, o meu pai viveu sozinho até morrer e muitas vezes ligava-me e perguntava: "Então, filho, como é que estás de trabalho?" E eu: "Está tudo bem, tenho trabalho." "Tens trabalho? Tu vê lá. É que as pessoas aqui na rua dizem que tu não tens aparecido na televisão."
Essa é outra.
E eu: "Pai, o trabalho que eu faço não é só televisão." "Sim, mas tu vê lá." "Pai, eu faço trabalho para empresas e faço espetáculos." E o meu pai assim: "Mas isso dá dinheiro? Tu vê lá". E eu irritado, a gozar, como é óbvio, disse assim: "Pai, dá dinheiro, sim, senhor. Eu digo-te. Olha, só para saberes, este mês fiz um espetáculo Se fiz um espetáculo, sabes quanto é que me pagaram? €7.500. E o meu pai faz silêncio e diz assim: "Bom, se fizeres quatro ou cinco por mês, não está mal."
Claro.
Mas um gajo nunca está bem, caraças!
Afinal-
Se ele diz: "Se fizeres quatro ou cinco por mês, não está mal."
Somos mesmo irmãos, afinal. O meu pai é igual.
Eu acho que tem a ver com aquilo que aprenderam. Se, na realidade, foi aquilo que aprenderam. O meu pai saiu de casa, do Alentejo, com 12 anos para vir para Lisboa, para trabalhar. A minha sogra ainda no outro dia estava a falar, e a minha sogra tem 60 e tal, e ela também com 12 anos tomava conta dos irmãos. Eram outros tempos. E acho que esse medo, porque era muito a cena de garantir o sustento da família, foi-lhes incutido e eles passaram isso para nós e nós passamos menos e, provavelmente, os nossos filhos farão também de maneira diferente.
Sim, eu acho que das únicas coisas que eu digo e que tenho a certeza é do pai que sou, da forma como eu educo os meus filhos. E o facto de ter tido um pai muito pouco afetuoso, se calhar dou essa gratidão ao meu pai. Ensinou-me que eu não queria tratar os meus filhos assim e não trato os meus filhos assim, porque eu acho que, e para mim é verdade, os filhos são, de facto, o melhor de nós, é a coisa mais importante que deixamos no mundo e muitas vezes são o nosso apoio. Às vezes nem sabem, são pequeninos, nem sabem disso, nem têm essa perceção, porque o que vem daquele lado é sempre amor puro. Mas também tens que estar disposto a dar.
Eu concordo totalmente com tudo o que estás a dizer, mas não consigo deixar de pensar. Eu gosto muito de true crime. Penso, por exemplo, na mãe e no pai do Jeffrey Dahmer. Tipo, um filho é a melhor coisa que a gente deixa neste mundo.
Obrigado, Borges.
Certamente, os pais dele também deviam dizer: "Cometeu muitos crimes, mas tinha uns olhos muito bonitos."
Era isso. Era tão bom moço. Quando era pequenino.
E cozinhava muito bem. Olha, fazia um cozido-
Era canibal, mas cozinhava.
Era canibal, mas olha, temperava muito bem. Mas essa cena dos filhos, um gajo quando tem filhos... Por palmas, quem é que é pai? E mãe? OK. Ter filhos é nascer uma data de medos.
Sim.
Esquece. É o que eu costumo dizer, ser pai é a melhor coisa e a pior coisa do mundo. Porque é a melhor coisa que é ter essa pessoa.
Quando eu ainda só tinhas a Maria Rita e tu disseste: "Boris, ser pai é viver ao mesmo tempo a maior alegria e o maior terror, em simultâneo." Eu nunca me esqueci dessa frase.
É o medo que nasce de tudo que lhes possa acontecer.
Depois fui burro e fui ter dois.
Então e eu?
Pois.
Mas eu acho que-
Eu tenho saudades de não ter medo, vocês não têm?
Eu sempre tive medo.
Eu acho que quando a gente tem 20 e até ali 30, 30 e poucos, mas isto se calhar sou eu, que sou de compreensão lenta, mas eu adorei a minha vida até aquela fase em que só via as coisas a três meses. Sabia o que é que estava a fazer nos próximos três meses. E depois a gente, nos 30, acho que é nos 30, começa: "O que é que eu vou estar a fazer aos 40?" E depois dos 40, ainda por cima fui pai depois dos 40, é tipo: "O que é que eu vou estar a fazer amanhã? E o que é que eu fiz ontem, que eu já não me lembro?"
Não, e quando chegares aos 50, pensas assim: "Quanto é que eu vou receber de reforma? Qual vai ser a minha reforma?"
Que reforma?
Pois, é isso.
E agora aumentou a idade.
Tu quando és miúdo, pela inocência, e por não conheceres as coisas do mundo, estás, de alguma forma, liberto de alguns medos. Mas há putos que levam isso ao extremo. Eu conheço um amigo meu, tem um filho, que agora já é um puto crescido, mas eu lembro que o puto era pequenino. O puto, literalmente, não tinha medo de nada. E como é que eu provo isto? Era daqueles putos que andava na rua de capacete, porque ele atirava-se contra merdas, atirava-se para o chão, batia contra coisas. Eu lembro de andar com ele na praia, nas rochas, e o puto andava nas rochas, as rochas afiadas e ele, caguei, andava por cima das rochas e eu lembro do gajo cair nas rochas, rasgar o joelho todo e começar a lamber o joelho assim. Eu comecei a rezar um Pai Nosso, que eu pensei: "Isto é o anticristo."
Olha, e o que é que é feito desse miúdo?
É um puto normal. Cresceu. Mas eu lembro de eles terem lhe comprado um capacete para evitar andar sempre a partir a cabeça, porque o gajo saltava tudo, andava de bicicleta, fazia tudo e mais alguma coisa. Depois, obviamente, lá está, vai crescendo, as dores já vão ficando maiores, quando o gajo se aleija e ganha ali algum respeito.
E faz sentido, já que estamos a fazer um espetáculo para a Liga Portuguesa contra o Cancro, falar-
Quando é que a gente está a fazer esse espetáculo? Falarmos da Liga.
Falarmos da Liga. Vamos ter um Benfica-Sporting. Um próximo.
Está a falar da Liga.
Qual será o desfecho? Vês como é que se avisa?
Os áudios, esqueci-me completamente.
Já vamos.
Eu posso ir perguntar às pessoas.
Podemos perguntar às pessoas, sim.
"Quais são os seus maiores medos?"
Vamos fazer como fizemos nos Açores, de ou colocarem uma pergunta, sentirem essa liberdade de nos colocar uma pergunta, ou de fazer uma partilha sobre aquilo que estamos aqui a falar hoje. O Borges vai descer até aí. Se não deslocar a anca.
Tentar não me esbardalhar.
Olha, tens aí umas escadas, não tens? Tens.
Estou a ver. Obrigado.
Estamos aqui um bocadinho no meio da sala.
Podem andar aí um bocadinho. Olha para isto, parece uma reunião de condomínio.
Por acaso é.
Alguém quer partilhar algo? Estejam à vontade. Senão, Borges, já sabes. Está ali uma senhora. Não, estava a coçar a cabeça.
Uma pergunta, uma dúvida, querem partilhar alguma coisa?
Está ali.
Boa.
Tinha que ser logo no meio, que é para nunca mais parar.
Vão passando o microfone.
Tem que dizer o seu nome e a profissão tem que ser mentira.
Tem que inventar uma profissão.
Exatamente.
E o nome inventa-se também?
Não, o nome pode ser verdadeiro.
Não pode ser verdadeiro. A profissão não.
Está bem. Bruna, médica.
Uau! Olá, doutora.
Olá. Falando de medos e falando de crianças, é uma coisa que eu vim falando com meu marido a caminho daqui sobre: alguém já pensou, se vocês morrerem, com quem fica a guarda do vosso filho? E se a pessoa que vai ficar com a guarda do filho, se é a pessoa que está à altura a educá-los.
Olha, tenho uma resposta curiosa para isso. Quer responder primeiro?
Não, pode o senhor responder primeiro.
Eu fiz uma coisa que é: eu fui ao notário e eu e a minha mulher falamos com um casal amigo e perguntamos se nós tivéssemos algum acidente e morrêssemos os dois, se eles tomariam conta das nossas filhas.
Os notários?
Eles concordaram e nós fomos ao notário e legalmente, se nos acontecesse alguma coisa, eram eles que iam tomar conta das nossas filhas e ficar com acesso às contas até elas atingirem a maioridade. Porque eu penso assim: "Não quero que as minhas filhas fiquem com a minha sogra." Ou não?
Levas contigo, não é?
Foi uma grande pergunta da Bruna.
Sim, mas vocês nunca pensaram nisso?
Pensei.
E com quem é que ficavam?
Como entretanto divorciei-me, ainda não cheguei a essa parte. Mas vou ter que ter essa conversa, sim.
Por outro lado, ao mesmo tempo, eu penso assim: uma pessoa morre, já morreu muita gente no mundo, não sei se sabem.
Não, por acaso não.
E morrem muitos pais, infelizmente, antes dos seus filhos, e as crianças crescem, à mesma. Portanto, o mundo continua, na realidade.
Eu, no meu caso-
Queres que a tua Marília não fique comigo?
Preferia que ficassem com a tua sogra. Não
E a Sara? A Sara também pode ficar.
Ana, onde é que tu estás? Ana Soares. Está ali. Ana Soares é o meu anjo da guarda, braço direito, esquerdo, somos mais que irmãos. E pela forma como ela educou os filhos dela e como ela vê a vida e como ela descomplica e pelo coração que ela tem, eu gostava que os meus filhos, ou neste caso, a minha filha, fosse criada por ela. E acho que a Sara também gostava disso.
Então eu vou fazer o mesmo, vou mudar e vou para a Ana. E o Borges também, mandamos todos, vai tudo pra tua casa.
Fica tudo com a Ana.
Eu ainda estou a lidar com o facto de vocês terem cagado em mim.
Não, estás a ir tão bem! Parece o Hélder Reis da Praça da Alegria, estás a fazer um direto.
Um sonho realizado.
Mais perguntas. Belíssima pergunta, Bruna.
Está aqui em baixo. Estes silêncios depois nós também cortamos na edição.
Ou não.
Digam qualquer coisa, que eu sofro muito.
O silêncio faz parte também.
Derivado à idade. Então eu tenho que dizer o seu nome e inventar uma profissão.
Já temos uma médica, não pode haver duas.
Olá, Raquel. Limpadora de lixo, não sei.
Boa!
A minha dúvida, não é bem uma dúvida, é uma pergunta. Vocês estão a falar sobre o medo da morte e muita gente diz que a morte santa é morrer a dormir. Só que esse é o meu maior medo, porque o fato de não saber que estou a morrer, como acho que a minha vida é importante, quero ter o meu último pensamento. Por isso, preferiam ter uma morte dura ou uma morte santa, que é morrer a dormir?
Eu, se morresse a dormir-
Excelente pergunta.
Para já, não gostava que me acordassem. Porque se já há coisa que eu não gosto agora que façam, quando eu-
A CNTV já teve uma vez o seguinte rodapé: "O homem acordou morto."
A CNTV, pérolas. Sabes, eu acho que o segredo de lidarmos com a morte é tentarmos não pensar muito nela, porque é uma coisa muito imprevisível. É o chamado clichê, é vivermos o agora, porque ninguém sabe, se soubéssemos, nós não somos-
A pergunta era muito clara, doutor. Uma morte dura ou uma morte santa?
Ou seja, sendo que a morte santa-
A morte santa é não sabes que morreste.
Imagina, vejo um autocarro em minha direção e penso-
E tens tempo de ter o teu último pensamento. Que no meu caso seria: "Foda-se!"
Olha, eu digo-te uma coisa: eu preferia a morte santa.
Este autocarro não é o meu.
Eu preferia a morte santa por uma razão, porque eu praticamente todas as noites adormeço a fazer uma revisão do dia e a agradecer. Por isso, se morresse, acho que morreria-
Isso é tão bonito. Eu adormeço a pensar nos erros do Ricardo Costa.
Por isso é que não dormes. E, por outro lado, às vezes eu penso essa questão da morte santa por uma pessoa não saber que vai morrer. Mas isso, por um lado, mesmo que sejas ateu, se morreres, acabou. Portanto, não há nada. E se não fores ateu, também é uma cena fixe, porque descobres: "Olha, afinal isto continua." Se imaginarem que a vida continua para além disso. Portanto, se morreres, se tiveres essa morte santa, acaba sempre por ser fixe. Se for uma morte violenta ou dura, um negócio com autocarro ou qualquer coisa em cima, não.
A pergunta é excelente. Eu gostava de morrer com aquilo que os franceses chamam "la petite mort", que é o orgasmo. E voltamos às três holandesas.
Ias morrer sozinho?
Não quero que a outra pessoa morra, ou pessoas.
Deve ser incrível ires-te assim. Vens-te e vais-te ao mesmo tempo.
Isso.
Há aquele senhor. Se um gajo morrer, estavas a ter um orgasmo, não é?
Sim.
Se um gajo morrer a masturbar-se, é suicídio?
Isso é triste.
Ia ser uma belíssima pergunta para um próximo.
Há aqui mais uma participação. Força, tem que dizer o seu nome, inventar uma profissão e depois colocar a questão.
OK, sou o Fernando e a minha profissão é tatuador de papagaios.
Estava à procura de um.
É uma questão de preço. Todos nós estamos aqui a falar sobre medos de morrer, mas eu considero aquilo que tenho mesmo medo é não viver. Muito sinceramente. Nós preocupamo-nos todos com a morte, mas esquecemo-nos que a vida é o mais importante que nós temos, porque a morte é aquilo que nós temos, de facto, como certo.
Já é garantido, não é?
É verdade. Esse é, de facto, o meu maior medo e acho que é nisso que nós devíamos concentrar.
Lá estava eu.
Acho que merece uma salva de palmas. É verdade.
Bem dito.
É verdade.
Aliás, a questão de não sabermos ser felizes, era este o medo que a gente devia ter: o medo de não conseguir viver e não saber viver. Porque realmente a morte é inevitável. Portanto, mais vale, em vez de ter medo de algo que nós sabemos que vai acontecer, mais vale termos medo de não conseguir aproveitar aquilo que temos até lá.
Porque a morte é certa e a vida é aquilo que nós fazemos dela, queremos fazer dela. Nós não queríamos falar muito no assunto, porque é uma coisa óbvia, mas acho que a maior parte das pessoas já perderam pessoas, familiares e amigos para o cancro, que continua a matar demasiada gente. E eu tenho dois casos. Um que foi o António Feio, que foi das últimas vezes que estive com ele, também foi aqui no Olga Cadaval, e que, numa primeira fase, aceitou o cancro de uma forma normal e depois, já na fase final, instalou-se. Por isso é que eu digo que não tenho medo da morte agora, mas se eu tiver alguma morte mais demorada, não sei se vou ter medo ou não. A Ana lembra-se dessa história também, nós estávamos uma vez com ele a almoçar e já sabíamos que ele tinha cancro e o António puxa de um cigarro, começa a fumar e a Ana, muito indignada, vira-se e diz assim: "António, estás a fumar?" E ele assim: "O quê? Se calhar vou morrer de cancro, não?" Eu nunca mais me esqueço disto. Por quê? Porque a forma como ele levou uma coisa que era praticamente certa, com humor, fez-me pensar também como é que a gente enfrenta, como é que se deve enfrentar quando tu sabes que não há nada a fazer e que tens pouco tempo de vida. Há pessoas que depois querem fazer tudo e querem aproveitar tudo. E depois tive o caso completamente oposto da minha mãe, que teve um AVC, e que depois foi parar ao hospital e depois foi diagnosticado um cancro no estômago. E ela tinha que ser operada dois dias depois e eu lembro-me que a última vez que fui ver a minha mãe, e eu acho que isto é que é morte santa e é um privilégio, e acho que é a melhor morte possível. Eu lembro-me de falar com a minha mãe e ela olhar para mim, ela não chegou a ser operada, passado dois dias faleceu, e eu lembro-me, quando olhei para ela e quando lhe disse que a operação ia correr tudo bem, eu lembro-me de olhar para ela e ler nos olhos dela: "Filho, não te preocupes com isso, porque eu já sei o que é que vai acontecer." Ou seja, a minha mãe teve o privilégio Porque ela foi tão boa pessoa durante a vida, teve o privilégio de decidir que queria partir e que não queria ser operada e que não queria ficar cá mais tempo. Eu acho que foi também pela maneira que ela sempre viveu a servir muito os filhos e os outros e ajudar os outros. Portanto, ela: "Quero-me ir embora daqui" e acho que Deus, que ela acreditava muito em Deus, acho que fez esse favor. E ela, de facto, morreu. Foi uma morte santa, porque foi uma coisa muito tranquila.
Teve o AVC e foi o quê? Dias depois?
Não, imagina, ela ainda teve um ou dois meses camada e depois é que lhe descobriram, com os exames, que ela tinha problema no estômago.
Eu lembro-me de dizer ao meu pai também, olhar para o meu pai e dizer ao meu pai: "Parte, podes partir, nós vamos ficar bem. Podes partir". E o meu pai achou estranho, porque estava bem de saúde.
E o sacana manteve-se vivo, não é? Há gajos que não querem partir nem por nada.
A minha mãe esteve nos cuidados paliativos em Lisboa.
Boris, estás a gostar? Achas que vale a pena pagar 10 € para ver isto ou não?
Estou a gostar bastante.
Podes vir cá para cima, se quiseres.
A minha mãe, quando esteve nos cuidados paliativos, e eu agora recentemente estive lá na mesma unidade, São Vicente Paula, será o nome? Estive num congresso sobre a morte e estavam muitos profissionais de saúde que trabalham nos cuidados paliativos, incluindo um padre que também estava lá nessa conferência. E eu já levei ao meu podcast também, o "Somos Todos Malucos", duas médicas que trabalham também nos cuidados paliativos e falavam muito dessa questão da aceitação e da importância que esse momento também se passa por várias fases. Geralmente é da revolta, da negação, mas depois a maior parte das pessoas acaba por entrar nesse registo de aceitação. E essa aceitação não é resignação, é estar em paz, realmente. E contavam histórias incríveis das pessoas que estavam lá e que brincavam com a própria situação. A minha mãe já estava num estado mais complicado, não falava, mas nós íamos lá, nós brincávamos e gozávamos. E eu lembro-me da minha mãe, pelas expressões dela, de estar a gozar o prato, porque também é tal coisa, fazer o quê? Se não aproveitar o que se tem.
A pessoa já está mal, se vais lá também com um semblante carregado.
E o meu pai teve o AVC também, esteve dois anos numa unidade de cuidados continuados e agora, fora de brincadeiras, obviamente, houve uma altura que eu disse ao meu pai: "Estás à vontade, estamos todos bem, as miúdas já cá vieram".
"Tens mais 15 minutos de visita, se quiseres aproveitar."
Exato, se quiseres aproveitar. O que eu me lembro mais do meu pai é que o meu pai teve um AVC muito agressivo e ficou totalmente dependente e perdeu a capacidade de falar. Balbuciava de vez em quando uma ou outra palavra. E eu lembro que, às vezes, eu despedia-me, a maior parte das vezes, a única palavra que ele balbuciava era quando eu no fim dizia: "Pai, gosto muito de ti", e ele dizia assim: "Aldrabão". Era a única coisa que dizia. Temos aqui mais uma intervenção. O seu nome, inventa uma profissão e diz o que tem a dizer, que eu lembro.
Chamo-me Marta e a minha profissão é passar licença às queiros, o meu avô precisou de uma licença para ter um isqueiro. E haver alguém a passar essa licença. Portanto, eu gostava de ser essa pessoa nos dias de hoje. E a minha pergunta para vocês os três é sobre cancro, se têm mais medo de ter cancro de próstata, da consequência, ou só de fazer o exame, um dos exames.
Eu faço.
Já fiz.
Eu não tenho. Eu estou farto de perguntar ao meu médico quando é que é.
O quê?
Eu não tenho, eu estou farto de perguntar.
Não tens o quê? Próstata?
Não tenho medo. Eu estou sempre a perguntar, eu entro no gabinete, eu faço logo assim: "É hoje? É hoje? É hoje." Não, eu faço o exame, faço o PSA. Aquela análise de PSA, que acho que é depois quando está desregulado, é que se antes da idade de fazer esse exame.
Não, tens de fazer ao homem.
Não, mas tu fizeste porque tinhas esse problema no PSA, não foi?
Pois tinha.
Ah, pois, eu lembro-me. Fui eu que fiz o exame.
Até rasguei as calças.
Eu acho esse conceito. Aliás, eu tinha uma piada num espetáculo, nesse espetáculo que fazia do "Não sou eu, é a minha cabeça", que eu dizia que os homens só tinham medo de ir a duas especialidades. Era urologia e psicologia. E mais depressa admitem um dedo no cu do que uma dúvida na cabeça. Por quê? Porque o dedo no cu entra e sai, é muito rápido, a dúvida fica lá muito tempo. O problema é que muitas vezes um dedo no cu também pode deixar uma dúvida. E disso eles não se lembram. Eu faço o que tenho a fazer. Tu já fizeste, não?
Eu confesso que, no meu caso-
Tu já tens idade.
50, eu já devias ter feito uns três
Já devia estar a fazer um por semana.
É hoje!
Alguém trouxe luva de látex? Alguém trouxe uma luvinha? Eu confesso que preciso de pelo menos três jantares com a pessoa antes. Eu tenho que criar uma intimidade antes de saber que vou ser...
Das experiências mais horríveis da minha vida.
Mas vou fazer.
Eu estava nos 20 ainda e tive um quisto sebáceo na zona do cóccix e tive que ser operado.
Só agora sabias disso. Vocês sabem tudo um do outro, não sabias? Andaste a esconder.
Este não sabia.
Estive internado uma semana. Na véspera da operação. Tu tens que te preparar para a operação e tal. E na manhã da operação, a minha família, quer de um lado, quer do outro, as pessoas não se dão. Então há muito poucos familiares de quem eu gosto. E eu gosto muito de um familiar em particular, que é o irmão mais novo do meu pai, o tio Neca. E uma das coisas que tu tens que fazer é um clister.
Crister ou clister?
Clister. Um esguicho no cu.
Ikea ou IKEA. Temu ou Temu.
E entra um enfermeiro que era igual ao meu tio Neca. E diz com um grande sorriso: "Baixa as calças, vais ser enrabado."
Disse isto assim?
E eu a lamentar com a mãozinha: "Porquê, tio?"
Eu acho que há uma coisa pior, já que estamos a falar de procedimentos, pior do que o exame à próstata, que é ser algaliado. Alguém daqui já foi? Eu já fui algaliado. É horrível, é das piores coisas.
Não precisa de estar...
Estava a correr também. Parecia o túnel do Marão. Que horror! Mil vezes um dedo no cu.
Todos os dias.
Todos os dias.
Nós estamos a aproximar-nos.
Estávamos a falar.
Estamos a aproximar-nos da hora da música.
Sim.
Este foi o nosso mais longo episódio até agora. A escolha é do Marco.
Não, a escolha foi tua.
Foi dos dois.
Foi dos dois.
De qualquer maneira, se alguém ainda quiser, está à vontade.
Alguma pergunta, alguma dúvida.
Alguma pergunta.
Se alguém quiser meter um dedo.
Estão à vontade. Nós vamos também tirar uma fotografia convosco para o Instagram, pode ser? Enquanto estamos vivos.
Sim.
Então, nós temos sempre uma música que escolhemos para o fim do programa.
De cada episódio.
De cada episódio. E a música, o Marco Horácio tinha escolhido uma do Bob Marley, que eu disse: "Olha, mas tendo em conta aquilo que nós vamos falar de medos, não faria mais sentido esta." E acabamos, entre essas duas músicas, por escolher esta do "Three Little Birds", de Bob Marley and The Wailers. Muito obrigado por estarem desse lado.
Obrigado por nos ouvirem, obrigado por estarem aqui, obrigado por apoiar em casa.
Muito obrigado à Liga Portuguesa contra o Cancro, por todo o trabalho que fazem, que é meritório, e por essa luta, que acaba por ser de todos nós, amigos, familiares. Todos vivemos e passamos por estas situações. E acho que esta música diz muito sobre aquilo que também aquele senhor estava a dizer da importância de não ter o medo de morrer, mas o medo de não viver.
Perder o medo de viver e viver o máximo possível. É clichê, mas praticar o bem o mais possível e abraçar as pessoas e dizer às pessoas que as amamos e não ter medo disso, porque depois um dia já não estamos cá.
Ele fundou um culto em Aveiro, se alguém quiser.
É nesta altura que eu gostava que viesse mais o homem que fizesse uma apalpação. É nesta altura que o teu tio Neca devia entrar outra vez e dizer a mítica frase. Portanto, muito obrigado por estarem desse lado. Muito obrigado por vosso apoio.
E pode entrar Bob Marley.
Falta Bob Marley.
Muito obrigado.
Bob Marley.
"Don't worry about a thing 'Cause every little thing gonna be alright Singin': Don't worry about a thing 'Cause every little thing gonna be alright Rise up this morning Smiled with the rising sun Three little birds Pitch by my doorstep Singing sweet songs Of melodies pure and true Saying: This is my message to you, ooh, ooh Singin': Don't worry about a thing 'Cause every little thing gonna be alright Singin': Don't worry about a thing 'Cause every little thing gonna be alright Rise up this morning Smiled with the rising sun Three little birds Pitch by my doorstep Singing sweet songs Of melodies pure and true Saying: This is my message to you, ooh, ooh Singin': Don't worry about a thing Every little thing gonna be alright Singin': Don't worry about a thing 'Cause every little thing gonna be alright Singin': Don't worry about a thing 'Cause every little thing gonna be alright Don't worry about a thing 'Cause every little thing gonna be alright Singin': Don't worry about a thing"
Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade