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"Homens de uma Certa Idade. Homens de uma Certa Idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão, na Rádio Observador porque já são Homens de uma Certa Idade."

Este programa tem o patrocínio de: Baccos.

Us, us, us.

Ora, Baccos. E despedimo-nos este ano do nosso auditório e também da Baccos.

O auditório é...

O auditório é mesmo bonito, não é?

É à velho.

É mesmo à velho. Então, mas nós somos velhos. Baccos que nos acompanhou este mês de dezembro de uma forma especial, com muita qualidade, deu-nos um arzinho de homenzinhos.

Sim, se não fosse o patrocínio, nem sequer vínhamos vestidos para aqui.

Não vínhamos vestidos, vínhamos completamente peito a léu e six pack, as pessoas já estão fartas de ver. Não íamos mostrar mais três.

De antebodo.

Exatamente. Portanto, já sabem, passagem de ano está a chegar, o réveillon, como eu costumo chamar, uma camisinha Baccos leve, descontraída, e vocês entram no próximo ano com grande categoria e 100% português.

Tu não tens que levar sempre uma peça de roupa nova na noite de Ano Novo?

Exatamente.

Vale aproveitar uma camisa.

Pode ser uma camisa, mas normalmente é um cuequento.

Não, as cuecas têm que ser cuecas azuis.

Têm que ser cuecas azuis.

Por quê? Sei lá. Porque dizem que sim.

Porque este ano é o ano-

Porque é importante.

Exato, é importante ser azuis.

Cuecas azuis. Isto não é para o casamento.

E, portanto, aqui o desafio é entrar no Ano Novo com uma camisa da Baccos. Quem é que alinha?

Eles estão a levantar o dedo.

Estão a levantar o dedo agora.

Isto está a ser filmado, mas esquece-se que é para a rádio.

É para a rádio, pois é.

Então levanta os dedos.

Olha, vê lá se o dedo não... Sejam bem-vindos a mais "Homens de uma Certa Idade", o último deste ano de 2025, com o tema: qual foi a tua passagem de ano ou réveillon mais memorável? Eu sou o Marco Horácio, tenho 51 anos e sou urologista especializado em homens que nasceram em 1901.

Já não estás com muito trabalho. Luís Filipe Borges, 48 anos. Ai, qual é a minha profissão? Tinha me ocorrido ainda agora. Ai, caraças! Era tão boa, caraças.

Pronto, então quando te lembrares, isto é memó à velho, quando te lembrares, depois dizes, está bem?

Minha memória de curto prazo é zero.

Raminhos anda.

António Raminhos, 45 anos e sou especialista eu próprio em fazer de foguete de Ano Novo. Vocês contratam para festas e eu faço: .

Enfiamos um pau no reto e tu sobes ou não?

Não.

Muito mais amigo do ambiente.

Muito mais amigo, não mata ninguém, não causa problemas. Eu visto-me de foguete.

De foguete.

Sou eu enrolado.

Personal trainer de fantasmas.

Ah!

Personal trainer de fantasmas?

Sim. Também não te digo muito bem.

Ou de espíritos? É igual à diferença.

Fantasmas.

Fantasmas?

Espíritos, não acredito em espíritos.

E qual foi o último fantasma que tu treinaste?

Foi o do Gandhi.

Está com um cabedal.

Não, ele queria só secar.

Ficou mais Gandhi do que era. Bom. António Raminhos, tu tens ar de folião e, portanto, deves ter tido umas passagens de ano bem malucas.

Na semana passada, nós falámos sobre...

Sobre o Natal.

Sobre o Natal. Adivinhem qual é a minha opinião sobre o Ano Novo.

Exatamente a mesma.

Exatamente a mesma.

Exatamente a mesma, igual ao Natal.

Eu, curiosamente- É 26 a jogar, é isso?

Não ligo.

Não ligas?

Eu, curiosamente, tenho esta opinião que ele tem sobre o Natal, eu tenho sobre o Ano Novo, e ele também tem sobre o Ano Novo, que é: estou-me a cagar.

Eu não ligo. Sabes quando é que eu deixei?

Como é que é possível, pá?

Eu vou te explicar.

Ó, odeio meter que estar feliz só porque acabou um dia e vai começar outro.

Mas por outro lado, isso ao mesmo tempo é poético, nós devíamos estar felizes por acabar um dia e começar outro.

Portanto, devia ser passagem de ano todos os dias.

Exatamente.

Então, mas quanto muito festejavas às 8h da manhã, 9h da manhã, quando acordares.

Exatamente.

Então, mas vais para o trabalho, se calhar.

Não, e tu acordas, antes de acordar, tu a dormir ainda fazes 10, 9, 8, chegas a um: "Uh, acordei!" e volta.

Pois, realmente, faz sentido.

Acordei.

Eu acho que é mais o simbolismo de passar de um ano para o outro.

Eu panicava com o Ano Novo, por causa, lá está, vou sempre parar à mesma coisa, mas é verdade. Causava-me uma ansiedade extrema por causa das cenas das 12 passas, dos desejos.

Sim.

Eu panicava com isso.

Não dá tempo, comer as 12 passas por segundo.

Eu 20 minutos antes da meia-noite, eu estava a contar as passas e estava a dizer assim: "Ora bem, esta é para a minha mãe ficar boa, esta é para o meu pai fazer não sei o quê, esta é para a saúde da minha família, esta é para a saúde dos meus amigos, esta é para não sei o quê". Chegava alguém: "Então, olha, está aqui o copo de champanhe", e eu: "Porra!"

Assim como o Salvador.

"Esta é pra saúde da minha mãe".

Isso já me aconteceu.

E depois, chegava à meia-noite com o estresse, as pessoas a festejar, e eu não festejava porque estava só concentrado a comer as passas e a tentar energia positiva para que começasse o ano com o pé direito. Até que veio a porra do Covid e eu disse: "Merda pras passas".

Eu comia as passas todas, punha as 12 passas na boca e ia pedindo à medida que ia mastigando, dizia: " ".

Eu percebo o que o Rui está a dizer, eu chego a escrever no caderno e tudo.

O quê? Escreves os teus desejos?

Os seis. Eu faço assim, eu detesto passas, só como passas, é a única tradição do réveillon que eu cumpro, e dou seis para desejos e seis para resoluções. Pronto.

Mas isso tu sabes que isso não dá em nada.

E então os desejos são quase sempre para outras pessoas, é quase tudo para outras pessoas.

Aquele clássico: saúde para as crianças e com a pretensão de não dar nada de mal aos meus pais. Mas espera aí.

Exato.

Uma passa basta a saúde das crianças todas? As minhas. Confesso que sou um bocadinho egoísta, não estou a pedir para o mundo todo.

Opá!

Já terei pedido o fim da fome. De nada. Vivemos na época, na história da humanidade, nunca houve tão pouca fome em todo o planeta, mas escusam de agradecer. Tu achas que uma passa tua dá pra acabar a fome no mundo? Não, tu é que estavas a colocar essa questão. Estou-te a perguntar. Eu tenho pedido nos últimos anos só para os meus filhos, mas em tempos já pedi para o fim da fome no mundo.

Estás a ser hipócrita.

De nada.

Ao comeres uma passa e achares que isso vai acontecer, estás a ser hipócrita. Desculpa, é isso que acontece. Olha, vamos ouvir o primeiro voice, porque eu estou quase a não querer mais trabalhar contigo. Hipocrisia pra mim, não. Uma passa e vou resolver a fome no mundo. Este ano vais comer uma passa e: "Vou acabar com a guerra na Ucrânia".

Na Ucrânia, é sim. O Boris não é o Trump.

Portanto, o Boris é que acaba com isto.

À meia-noite, ele come uma passa e diz assim: "Que acabe a guerra na Rússia". Do outro lado do mundo, está o Putin e vai dizer: "Não sei porquê, estou com esse..." "Sinto-me disturbado". "Sinto que isto tem que acabar. Não posso continuar com isto".

Exatamente.

É o efeito borboleta.

Portanto, temos que agradecer ao Boris tudo que tem acontecido de bom no mundo.

Não precisam de agradecer, é esse o meu ponto. Não precisam de agradecer.

Vamos ouvir então o primeiro voice de Gonçalo Trafaria.

Já era tempo.

Já era tempo.

Pensei que era do Gonçalo Inácio.

Não, Gonçalo Trafaria, que é osteopata pediátrico, que é o Dr. House das crianças, que resolveu muitos problemas da minha Maria Leonor. Vamos ouvir este grande ser humano.

O meu Réveillon mais inesquecível remonta há cerca de 18 anos, por aí, com a minha atual mulher, na altura namorada, resolvemos passar esta passagem de ano com um grupo de amigos em Sesimbra. Reservamos um restaurante de frente da marginal, ali de frente pro fogo de artifício nesta passagem de ano, que é sempre espetacular em Sesimbra. Menu escolhido: caril de gambas. Caril de gambas era a especialidade, e é, daquele restaurante. Até aqui tudo bem. A meio do jantar, parecia que aquele molho daquele caril parecia-me um pouco amargo, mas ok, bora lá, isto é uma noite de festa, vamos regar bem, isto vai tudo. Fogo de artifício, meia-noite, cada estouro daquele fogo lá em cima parecia que era uma cólica no estômago, meu e na minha mulher. Entretanto, a minha mulher começa a se sentir mal, a vomitar, muitas náuseas, quase a desfalecer. Hospital São Bernardo é longe, urgência do Centro de Saúde de Sesimbra estava aberta nessa noite, pontualmente, então levei-a lá. Pronto, intoxicação alimentar, não parava de vomitar, diarreias, muito mal. Entretanto, já no centro de saúde, começo eu também. Então estão a imaginar o filme, eu numa cama, ela noutra cama, os dois de mão dada, "bom ano pra ti, bom ano", os dois a sorrir. Pronto, uma passagem de ano que não deixou de ser inesquecível. Cereja no topo do bolo: o médico que estava de serviço era um médico já reformado, que foram buscar para conseguir ter aquela urgência aberta. Um médico já na casa dos 80 anos, cada vez que eu chamava o médico, ele levava 10 minutos a chegar ao pé de mim. Não pela distância, não pelo excesso de trabalho, mas pela velocidade com que ele se deslocava a arrastar os pés no chão e tinha que pedir licença e puxar uma cadeirinha pra se sentar ao meu lado. Ele, entretanto, já morreu. Na altura, já teria 80 anos e pronto, foi uma passagem de ano que nunca me irei esquecer.

Já vos aconteceu alguma coisa deste gênero?

Já.

Já?

Não diretamente comigo, mas com a minha Maria Leonor. A Maria Leonor, quando nasceu, passado aí três semanas, esteve internada quase um mês em Santa Maria, nos cuidados intensivos, ainda, por causa de uma bronquiolite. E depois, eu já não me lembro o período do ano em que foi, mas sei que no ano a seguir, no Ano Novo, estávamos em casa do Pedro Fernandes pra festejar o Ano Novo e a miúda começa com uma tosse. Parecia que fumava dois maços por dia. Sabes, tipo o Boris . A miúda assim. E nós, obviamente, nem chegou à meia-noite, não me lembro se chegamos a festejar a meia-noite ou não, mas fomos pras urgências de Santa Maria. E eu dou por mim nas urgências de Santa Maria sozinho. A Catarina foi lá pra dentro com a miúda, pra sala, e eu cá fora sem ter notícias de nada, na noite de Ano Novo. Apareceu lá um miúdo também todo bêbado, quase em coma alcoólico, trazido por alguém. E de repente, eu superpreocupado, lá sozinho, não há notícias, nada. De repente, ouço a chamarem pelo intercomunicador. Sabes aquela cena meio assustadora, tipo: "O pai da Maria Leonor Ramirez ao gabinete cinco". E eu pensei: "Está morta a miúda, está morta". E vou e só imagino já a reanimarem a miúda. E quando entro, estão os médicos, uma data de enfermeiros, a Catarina com a miúda ao colo, e um dos enfermeiros assim: "Era só pra tirarmos uma fotografia consigo". E eu: "Ah, filhos da..." Mas isso foi espetacular. E aquela que eu falei a semana passada, do meu tio que morreu e na passagem de ano, da meia-noite, do dia 31 pro dia 1, estávamos nós no velório.

Só.

Isto tudo quer dizer a mesma coisa, que é só um dia. É aquilo que o Borges estava a dizer, é só um dia.

Não, mas tu devias ter falado com o Borges antes, que ele podia ter comido uma passazinha. Se calhar eu podia ter resolvido esse problema.

Não falou.

Borges, e tu tiveste alguma passagem mais furiona?

Sim, muito poucas, mas com a minha ex-mulher, antes de termos os meninos, nós fizemos uma road trip. Houve um dia que pensámos, era para aí 26 de dezembro, ela tem família na Suíça, e eu disse: "Olha, estamos naquela altura do ano em que não se passa nada. E se nos metêssemos no carro e fôssemos?" E fomos, e foi muito fixe.

Foram onde?

Fomos até à Suíça. E passámos o ano em Barcelona. E foi muito fixe e muito inglório ao mesmo tempo. Foi muito fixe porque Barcelona é superbonito e a gente caminhou imenso naquela noite. Conseguimos jantar sem nada marcado num restaurante impecável. E depois fomos para uma das grandes praças, não me lembro qual era, mas pesquisámos e era o sítio onde as pessoas se reuniam, e não houve fogo de artifício, não houve uma contagem. De repente, milhares de pessoas.

Do nada.

E de repente as pessoas começam sozinhas. Depende de quando o teu relógio marcou a meia-noite. Portanto, uma coisa muito anticlímax. Mas que achámos graça. Pensámos: "Olha, Portugal não é o único sítio verdadeiramente desorganizado". E depois fizemos mais uns quilômetrozinhos a pé e no dia a seguir, às 8:00, estávamos sentados em frente à Sagrada Família do Gaudí, num incrível dia de inverno, portanto foi muito fixe.

Já passei em Madri, na Praça Cibeles?

Cibeles, na Cibeles.

Vocês de facto-

Há muitos anos.

Eu calcei-me ao contrário.

Também me lembro que quando era puto, 20 e poucos anos, fui com um grupo de amigos açorianos, fomos para Sevilha. E passámos o ano três vezes. Passámos o ano três vezes por quê? Porque a Espanha é mais uma hora do que Portugal continental e nos Açores é menos uma hora do que Portugal continental. Portanto, nós festejámos em Espanha, ligámos para amigos em Portugal continental e depois ligámos para a malta dos Açores a um minuto também a noite dos Açores, portanto foi divertido por aí. E bebemos muito também. E jantámos num chinês, que era o único sítio que ainda aceitava pessoas em Sevilha.

E a nível da passa, como é que se afasta a nível das passas nesses sítios?

Nessa altura-

Não, ele tem tradição.

Ele nessa altura não precisava de nada.

No chinês arranjaram passas, arranjaram.

É uma tradição só nossa, não?

Eram passas ou eram baratas?

Não, acho que não, existem em muitos sítios.

Passas ou baratas?

Exato. No chinês.

Se me tivesses conhecido mais cedo, eu tinha comido uma passinha e pedia um desejo para o ar assim que era não seres racista, mas olha, não me pediste.

Eu estou a falar de baratas.

Estás a dizer que os chineses iam-me servir baratas. Coitados dos chineses. Já me aconteceu um dente humano numa sopa de barbatana de tubarão.

O quê?

Sim.

E eu é que sou o racista.

Um dente humano?

Já aconteceu. Não a mim, mas há muitos anos eu estava a jantar com o Edwin Luisi, as pessoas mais velhas fãs da Dona Xepa vão se lembrar. Era um galã brasileiro de novelas que fez uma peça em Portugal, da qual eu fui assistente de encenação e era o autor da adaptação do texto. E o Edwin Luisi, a peça era com ele, com a Mafalda Vilhena, muito querida. E então eles gostavam muito de mim e fomos um dia, estávamos ao pé do Teatro Trindade, havia ali um chinês muito bom. Eu me rio porque fui eu que sugeri. Nunca mais lá fui. Mas era mesmo muito bom. E o Edwin está à minha frente e estamos no início da refeição. E ele está a comer uma sopa de barbatana de tubarão e de repente faz: "Cara, o que é isso?" E vai e era um dente humano cariado.

Ai, que nojo!

Não era um dente de tubarão?

Um dente humano cariado.

Como é que é possível?

Caiu da boca do cozinheiro, não sei. E nós levantámo-nos-

E depois tu lá na janela a mexer aquele dente ali dentro.

Não era dele?

Não. Ele era um homem assim, era e é, está vivo, felizmente. Um homem muito vaidoso, várias operações plásticas e tal. E para fazer justiça à senhora lá do restaurante, coitada, ela bem se tentou desculpar, mas o Edwin estava-

Como? Desculpar com o quê? Não tem desculpa.

Olha, o único restaurante onde eu já vi uma barata, para defender os chineses, foi na Portugália, não a original. Na Portugália.

Olha, muito bem.

Saiu de um bacalhau à Brás-

Numa mesa de chineses.

Saiu de um bacalhau à Brás que a minha mãe pediu. O empregado viu a barata, apanhou-a assim com a mão e a minha mãe: "Ai, que horror, uma barata!" E eu e meu irmão: "Isto era uma barata?" E ele: "Coitadinha, isso é do calor". Coitadinha da barata. E a minha mãe, sendo a minha mãe, comeu o bacalhau até ao fim.

Claro.

E estava muito bom.

Aquela coisa dos católicos.

E estava muito bom.

Claro, porque se não estivesse bom a barata não estava lá dentro. Não é? Partimos deste princípio. Mas ainda bem que vocês perguntaram pela minha passagem de Ano mais memorável. Vocês perguntam sempre.

Ainda tens tempo.

Ainda temos tempo ou não?

Ainda tens tempo.

Tenho tempo. Não, mas isto demora muito tempo, que isto-

Foi nos Emirados, não foi?

Remonta. Nos Emirados, por acaso, não. Ou tive lá? Não tive. Tive, mas não foi na passagem de Ano.

A gente já vê na segunda parte. Vamos fazer um intervalo e voltamos.

Um pequeno intervalo, até porque estes tudo agora ficam um bocado enjoadas com esta história dos dentes e das baratas.

Voltamos já.

Voltamos já. Aproveitem para ir lavar os dentes.

Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade.

Olá a todos, sejam bem-vindos a uma segunda parte fantástica de "Homens de Uma Certa Idade". Estamos a falar sobre qual a passagem de Ano mais épica que vocês já tiveram, mas pelo meio já falámos também de dentes cariados que aparecem em sopas de tubarão, que eu, por acaso, estava a pensar. E se o tubarão comeu um ser humano?

Olha.

Mas é estranho o dente estar na barbatana.

Não, é barbatana, mas deve ter mais coisas de tubarão.

Será que tem?

Não sei.

Se calhar.

Não sei. Se alguém souber responder a esta pergunta que mande para o nosso WhatsApp. Tenho várias.

Eu tenho uma, mas só posso contar na segunda parte.

Deve ser a mais ordinária. Quando eu estava na Alemanha.

Foi a passagem de ano.

Na Alemanha, passagem de ano não se diz passagem de ano.

Diz .

Exatamente. Lá calouco para os amigos. E então o meu irmão, que é da rambóia, gostava muito de comprar foguetes e bombas para lançar, voar. E houve um ano que ele comprou uma caixa, imaginem uma caixa de televisão enorme, e encheu aquilo de foguetes e bombinhas. Aquilo dava vontade para três horas de fogo de artifício.

Era tipo guerra no Iraque.

E então o que é que ele fazia? Íamos para a estrada, ao pé da estrada, onde havia um descampado, e ele ia lançar foguete a foguete. O que acontece? Ele lança o primeiro foguete, que vai lá para o ar, quando vai cair, cai ainda a arder dentro da caixa que estava ao lado. Portanto, só vi o meu irmão dizer assim: "Fujam, fujam todos!" De repente, aquilo para todo lado.

Já me ouviste assim. Eu já vi isso acontecer.

Foram 10 minutos de inferno.

Ninguém se feriu?

Não, nós fugimos todos.

Aconteceu uma cena parecida, mas foi no verão, numa procissão. Eu estava no Alentejo, os meus pais estavam a cantar na igreja e eu estava lá. Já não me lembro se estava com o meu irmão ou não, mas eu estava na igreja a assistir à missa lá onde estavam os meus pais também. E cá fora, aquilo eram umas festas de verão em honra da Nossa Senhora dos Navegantes, e estavam cá fora a lançar foguetes também, esses dos . Só que, lá está, esperteza do gajo. Ele estava com a cana, mas com os outros foguetes todos ao lado. Então quando ele acende um, aquilo faz

O rasto.

O rasto do pega nos outros todos, e nós estamos dentro da igreja e eu juro que naquele momento eu não percebi o que estava a acontecer, porque parecia a Terceira Guerra Mundial.

Um bombardeamento.

O padre, as velhas na missa: "Ai, é o fim do mundo, mas nosso Senhor nos salva todos!". Claro, a missa já nem continuou.

Acabou. Agora é proibido lançar.

Missa do Galo por causa dos traumatismos cranianos.

Exatamente. Foi daí que surgiu.

Mas o Ano Novo, nunca fui à missa do Galo, por acaso. Missa do Galo, fui para a irmã duas vezes.

Olha, e vocês quando eram pequenos não faziam passagens de ano em casa onde convidavam os amigos todos?

Não. Isso é assim.

Os meus amigos faziam, os meus pais não me deixavam ir.

É essa que eu não posso contar, só na terceira parte.

Eu posso contar a minha. Uma vez, não sei como, o meu pai deixou fazer na cave a passagem de ano lá na nossa casa.

Mas isso era para vos prender a todos lá. Como é que se chamava aquele? Era o Fritzl, não era?

Era o Josef Fritzl?

Era belga? Não, era alemão.

Austríaco.

Austríaco, exatamente.

Aliás, foi daí que surgiu a batata fritzl.

Mas enquanto temos o barulho, temos 50 segundos para fazer isso.

E então, meus amigos todos lá. Aquela coisa: "Quem é que traz as tortas de Ano Cake?" Não, traz as tortas de Ano Cake. Mesa posta, batatas fritas e tortas. E houve um espertalhão que se lembrou de trazer uma garrafa de anis. Anis!

Ai, odiava.

Anis, também odiava.

E então tivemos uma poncha, mas era só de sumos e fruta lá dentro. O gajo pôs a garrafa de anis lá dentro. Só me lembro que a minha amiga Susana Vieira apanhou uma piela tão grande que andou a roçar-se nas paredes todas lá da cave da casa dos meus pais.

Paredes.

Passamos o resto da noite a tentar acordá-la, que ela estava quase em coma alcoólico.

As paredes têm ouvidos.

Têm ouvidos.

Isso era o que ela tentava, porque ela estava só roçando nas paredes a ver o que é que as paredes-

O que estavam dizendo. E as paredes confessam. Mas foi daquelas raras passagens de ano. Eu gostava, por acaso, gostava muito dessas passagens de ano.

E tem passagens de ano em que a malta se chateia, que é mesmo para começar logo o ano na bosta.

E namorados quando se separam. Eu já tive uma passagem de ano que apanhei a minha ex-namorada a falar ao telefone com o-- não, a minha namorada, na altura, a falar com a ex-namorada a dizer que tinha saudades dela.

Por isso é que disseste ex-namorada, porque passou a ser ex-namorada.

Passou a ser ex-namorada, sim. Eu assim: "Onde é que ela está? Dez, nove, onde é que ela está?" Assim cá para fora. "Tenho saudades tuas. Feliz Ano Novo." E eu: "Pronto, é isto. Continuem".

Olha, eu uma vez tentei passar-

Por quê? Porque o Borges não conhecia, não comeu uma passa.

Uma passa.

Para que nunca tivesse cruzado o caminho.

Este ano comes uma passa para o teu amigo ou não?

Claro que como. Hoje o meu amigo está feliz. Espero que comam passas por mim. É melhor comerem o cacho inteiro. Já passei o Réveillon a tentar que as 12 badaladas fossem-

12?

12. É para a terceira parte.

A sério? O tempo certo? E estavas a ouvir as-

Mas ao ritmo?

Sim. Não, passar o ano eu e a minha namorada da altura. E passamos. Passamos a dar as badaladas.

Lá está, mas eu não consigo fazer isso, por quê? Porque é família e vai estar cá uma porrada de gente.

Não tinha filhos.

Mas podias compor uma música e fazer à frente da família.

Estávamos numa pousada. Também já passei um ano E foi há muito pouco tempo, foi das melhores passagens de ano da minha vida. Os miúdos foram se deitar e eu tinha um livro que tinha acabado de comprar, que era o Storyteller, do Dave Grohl, um Cohiba robusto cubano e acabei o ano e comecei o ano seguinte a ler o livro do Dave Grohl e a fumar o meu belo charuto.

Uau!

E a beber um Nick From The Barrel.

Uau, que excitação!

Ainda bem que foi lá estar.

Grande livro.

Mudança de vida.

Exatamente.

E há muitos anos também passei um ano a escrever poemas.

Que deprimente.

Passei a escrever haikus.

Haikus são os poemas japoneses.

Japoneses, com 17 sílabas.

E datou-nos de algum ou não?

Se puxar bastante pela cabeça, não puxo.

Puxa um bocadinho, que o Raminhos vai contar a sua passagem de ano épica.

Eu não tenho passagens de ano.

Nenhuma? Quando eras puto, como é que eram as tuas passagens de ano?

Eu tenho uma épica de cama.

Fica doente?

A Ben-Uron e Brufens, em que dois dias antes desmaiei, apanhei uma gripe tão grande que eu tinha 18 ou 19. Acho que ainda não namorava com a Catarina. Não namorava com a Catarina, mas já estava assim.

Estavas caído.

Lembro que já estava, porque eu lembro de ligar noite de Ano Novo.

Já pintava o clima.

E eu estava com uma gripe tão grande que levantei-me da cama, fui à casa de banho fazer xixi e começo a ver os flashes de começar a desmaiar. Só tive tempo de puxar as calças para cima, pensei: "Minha mãe não me pode apanhar nu". E desmaiei. Então passei a noite de Ano Novo, literalmente, com gripe.

Eu também já passei a passagem de ano, não com gripe, mas deprimido na cama. Bom, vamos ouvir Gabriela Melchiu.

Olha a Gabriela Melchiu, querida Gabriela.

Que pediu para saber qual foi a passagem de ano dela mais memorável.

"Olá, meus queridos, gosto imenso de ambos os três e do vosso podcast, que ouço religiosamente todas as semanas. Sobre o Réveillon mais louco de sempre, aconteceu há demasiado tempo. Ya, sou uma seca. Aconteceu no último ano da escola secundária. Basicamente, fui de Coimbra para Figueira da Foz com colegas de turma. Jantámos em casa de um deles e depois fomos para a Praia do Relógio. E estava demasiado frio e demasiado barulho e todo tipo de músicas e concertos, e era meio assustador, porque era a primeira vez que eu estava a passar o Réveillon sem a minha família e com amigos, mas não muito próximos. E tinha medo de tudo, tinha medo de me perder. E numa dada altura houve colegas que se perderam, estavam bebedíssimos e foi terrível. E estava demasiado frio. Chuviscou. Pronto, e para acabar em bom, quando me quis ir embora, o meu carro não pegava. Ya, viva o Opel Corsa de 88, raio que o parta. Nem sequer tinha aquecimento, portanto, foi uma bela viagem de volta para Coimbra. Desde então, prefiro muito mais réveillons sossegados a jantar por casa ou algures perto de casa para poder ir depois com Uber, mas também não confio muito. Olha, não há nada como um bom Réveillon de pijaminha em casa, com boa comida e com os meus gatinhos. Beijinhos, gosto muito de vocês".

Olha, cá está.

É sim.

Foi então já mais uma que desistiu de ir para a folia.

A primeira mais portuguesa de sempre.

As minhas filhas querem ir no Ano Novo, querem sempre ir para casa das amigas e para aqueles amigos nossos que fazem grandes festas. E temos aqui um amigo nosso que faz festas épicas de Ano Novo, mas com 200, 300 pessoas.

Ixe, eu não conseguia. Muita confusão para mim.

Eu já estive em duas ou três e são realmente muito divertidas, mas ao mesmo tempo, torna-se tão impessoal, porque depois há muita gente que tu não conheces. E é aquela cena que ela está a dizer. O ano passado, eu acho que foi o ano passado, nós passámos em casa. As miúdas, claro, dizem que foi uma porcaria, mas eu e a Catarina adoramos porque jantámos, brincámos, vimos séries, à meia-noite vimos os fogos de artifício. E pronto, brincámos mais um bocadinho e foi fixe. Acho que é uma coisa muito mais sentida, muito mais vivida do que a bebedeira épica de Ano Novo.

Sem dúvida.

E aquelas possas, engasguei. E ires para aquelas festas no Algarve, na Praia da Rocha com-

Com DJ.

Com 20 mil pessoas, com 30 mil pessoas.

Já fui com um grupo de malta para Lagos passar um ano. Estivemos quatro dias em Lagos, eu não vi a luz do dia.

Foi?

Ninguém viu. Só vi a luz do dia-

Mas por que não viste a luz do dia? Estavas tapado?

Se ia à noite e dormia, também não queria ver.

Desgraçávamos à noite e acordávamos já-

À noite outra vez.

Inverno, à noite outra vez. Um grupo grande, rapazes e raparigas, onde jogámos ao bate-pé. Com 20 e muitos anos.

E então, e foi bom?

Foi bom ou não? Borges, quatro dias.

Foi, não me vou esquecer dos lábios do Júlio.

Fala nisso. E este ano, como é que vai ser a vossa passagem de ano?

Nem pensei. É a primeira vez que estou a pensar nisso, para vocês verem. Nem me passou pela cabeça.

Queres vir cá a casa?

Ou vais passar com a tua irmã?

Com muito gosto. Ainda nem sei. Se calhar dá. Eu tenho que estar com os meninos no dia dois, portanto consigo no dia um.

Pronto.

E tu queres vir cá a casa? Deixas a tua família e vens cá?

Se calhar agradecia. Se calhar ficava lá, que eles são uma seca todos. Não, vou passar com a minha Sarolas e com os meus sogros. Faço o costume.

Sabe o que me irrita? Eu lembro que quando era puto, o que eu gostava do Ano Novo, havia a magia de já ser Ano Novo na Austrália.

Sim, chega ao meio-dia.

E aí já é Ano Novo na Austrália, o que ao mesmo tempo é estranho.

Estraga-te um bocadinho a...

Isso só vem provar que é só um dia. Não é marcante porque não é o mundo inteiro que faz uma passagem à mesma hora. Não, cada um faz consoante a sua time zone. Mas havia uma cena que um gajo esperava sempre, que era os especiais do Herman.

Pois é.

O especial "O Crime na Pensão Estrelinha".

É verdade.

O Cassino Royale acho que uma vez também deu um especial. Agora já nem isso dá. Há uma cena que nós não falámos a semana passada, mas que é transversal de Natal e Ano Novo, que para mim é a maior seca.

"Sozinho em Casa"?

Não.

Ah, isso era no Natal.

O circo. É a maior seca. Por que as televisões continuam a dar circo?

Eu só vejo aquilo por causa do José Figueiras. Eu gosto do José.

Com todo o respeito pelos artistas de circo e todos nós acho que fomos-

Já fomos artistas de circo.

Nós já fomos ao circo.

Isso também foi.

Obrigado. Sempre odiei. Fui quando era criança, odiei. Eu gostava dos palhaços, gostava das trapezistas e dos mágicos. E fui quando trabalhava para a RTP. Obrigado, e também odiei. Mas eu acho que o circo é uma experiência para ser vivida. É como o teatro em televisão, acho que não funciona.

Tem que ser ao vivo.

Tem que ser ao vivo. E até podiam dar um especial no Ano Novo de circo, mas não é o fim de semana inteiro a dar circo. E depois chegas do dia um, é só circo o dia inteiro. E por que eles dão isso? Porque ninguém está a ver, acho eu. Não há um esforço de programação, mas tens que encher o chouriço. Deve ser.

Não sei, mas continuas a ter circo na passagem de ano. Basta ligares para a CMTV à meia-noite, tens circo. Está agora! Caneco, ganda bicho, por isso é que eu nunca mais vou trabalhar para lá, nunca mais convidar para lado nenhum! Olha, a melhor passagem de ano que vi em televisão foi um programa chamado "Levanta-te..." como é que era? Stand Up "Levanta-te e Ri".

"Levanta-te e Chora"? "Levanta-te e Cai"?

"Levanta-te" qualquer coisa.

"Levanta-te e Rime"?

Um rapaz que não tinha pescoço e um que no final só dizia asneiras.

Pois.

Foi memorável.

Houve um especial de Ano Novo disso?

Houve. Não sei se houve um ou mais até.

Acho que foram dois.

Pois é, eu já fui uma pessoa muito famosa na minha vida.

Sabes porque é que eu não vi isso? Estava a ver o circo.

Eu já fui uma pessoa que deu cartas no mundo ar-- não, por acaso nunca dei cartas. Para o lado. Bom.

Não...

Ainda temos tempo para...

Vamos fechar.

Vamos fechar o quê? A segunda parte?

Sim, vamos despedir-nos das pessoas na rádio.

Não vamos nada. E vamos fazer votos. Vais comer uma passa para as pessoas que estão a ouvir este podcast ou não?

Vou. Ouçam cada vez mais pessoas e que possamos fazer mais vezes ao vivo, que têm sido muito giras as experiências que tivemos. Sim.

Não chores, não precisavas chorar.

Não, é de sono. É preciso referir que o Borges acordou hoje às 4:00 para vir para o continente.

De propósito, fazer este podcast.

Exatamente.

E para comer uma belíssima passa em nome deste vastíssimo auditório.

E o mar estava bravo, meus amigos.

Ouve este podcast.

O mar? Sim, eu vim a nadar. Obrigado e até para a semana.

Até para a semana, que já será 2026.

Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um. Até para a semana! Como é que é?

Pa-fu!

Homens de uma certa idade.

Terceira parte.

Terceira parte. Já entramos na de novo.

Esta história tu é que só podes contar. Eu uma vez, devia ter para aí 16 anos. Lá está, sou o terceiro filho. Os meus pais já estão a cagar para mim. Portanto, eu dizia: "Mãe, vou passar Ano Novo com um amigo meu." E ela: "Está bem." Não sabia para onde é que eu ia, como, quando. Eu devia ter para aí 16 anos e fui com um amigo meu para as docas.

É lá.

Esquece. Eu acho que tinha para aí 16, 17. Desgraçámo-nos de tal maneira. Fomos a uma discoteca que era o Benzina. Lembro-me perfeitamente. Fomos para as docas. Benzina era ao pé do Garage, não era? Sim, a Benzina teve uma data de nomes. Fomos para as docas, depois Benzina. Rockline. Rockline. Terminámos a noite. Fui para casa dele. Só me lembro de duas coisas: de vomitar-lhe a sanita toda e de dormir no chão ao lado da cama dele. E de acordar completamente sem saber onde é que estava. Essa foi assim a mais- Caixão à cova. Mais de caixão à cova. E depois tive outra, que foi a pior, tirando a do meu tio, como é óbvio. Vou dizer isto, se querem saber qual foi o problema de saúde que eu tive, vão assistir ao meu espetáculo. Mas eu tive um problema de saúde há três anos e tal, e tive uma complicação pós-operatória na noite de Ano Novo

E que me fez apanhar um cagaço, toda a gente a divertir-se e eu não pensava noutra merda senão: "Eu vou morrer hoje à noite, estou a morrer e não sei." E isso ajuda ao mesmo tempo a perceber que é aquela cena, é só um dia.

É só um dia. Agora, quando se faz aumento de pénis, tem que se ter cuidado, porque pode haver complicações. E portanto, nem sempre nem tudo corre bem e no teu caso até, vá lá, safaste-te.

E agora já tem 9 centímetros.

Só pensavas nisso, vou me finar aqui.

Vou me finar.

As pessoas a contar 10 e tu a pensares: "É o tempo que eu tenho de vida."

E eu a pensar assim: "Se ao menos o Borges comesse uma passa." Vamos safar desta tragédia. Mas eu não ligo. E depois, como deixei, eu praticamente não bebo, já há algum tempo. É essa cena de divirto-me com o jantar com a família e pronto.

É sim.

Mas vou experimentar fazer sexo às 12 badaladas.

As miúdas vão para casa das amigas.

Ou isso, ou lá está.

As miúdas e a Catarina vão para casa.

Eu e a Catarina à meia-noite escapamo-nos.

Foi divertido.

Mas eu gostava mesmo de ser às 12 badaladas, assim.

Isso era incrível.

Vou experimentar.

E depois acabava, depois paravas? Depois das 12?

Não sei.

Quando fizemos foi terminar o ano e começar outro. Ou seja, o sexo começou às 23h59 e acabou à 00h01. Foi das mais longas da minha vida.

Eu digo, para mim era arriscado começar às 23h59.

Putz, chegava à meia-noite.

Também pode ser começar à meia-noite, tipo 22h59, eu começar a preparar-me. Três, dois, um.

Zero. Vale a mesma.

Estamos na terceira parte.

Sim, estamos na terceira parte.

Ron Jeremy, essa lenda.

O Ron Jeremy.

Lembras-te que o Ron Jeremy fazia o countdown para o cumshot? Pedia a elas para contarem.

Era?

Sim, elas faziam 10, 9, 8. Verdade.

Olha, vamos ouvir então se calhar mais.

Só para guardar esta informação.

Mais um áudio que é do Tiago Pinho.

Ah, o Tiago Pinho, deixa-me adivinhar, é concorrente do Ultimo a Rir.

James Pine.

Não.

James Pine.

É teu médico.

Não, é músico. Uma voz fantástica.

Ora bem, toda a gente tem histórias loucas de Réveillon, menos eu. Eu passava os anos a trabalhar, ou a servir os outros, ou a tocar, a entretê-los. Portanto, nunca dava muito para me divertir e para ter um Réveillon louco. Mas há um ano que me ficou marcado, em que eu tinha estado a trabalhar atrás do bar, tínhamos combinado todos a encontrar-nos em casa de alguém, onde havia DJ, onde havia comida, bebida, para passarmos um bocado e fazermos o nosso after. E assim foi, o pessoal foi-se embora, arrumámos tudo, começámos a sair, uns a uns, eu fui dos últimos a chegar ao local. Quando cheguei ao local, estava extremamente cansado. Encostei-me bocado só para fechar os olhos, porque já estava com mais uma direta em cima. E descansei. E quando acordei, liguei a todos, bati à porta, mas já estava tudo a dormir, já tinha acabado o after, já tinham feito a passagem de ano toda sem mim e eu saí dali, fui para casa. Foi o meu Réveillon louco.

Lá está. Está muita malta que de facto-

Eu adoro ver as reportagens da hora da meia-noite. "Estão aí os desejos e as pessoas: muita saúde! É isso, muita saúde para todo e paz! Paz no mundo! Muita saúde!"

E o primeiro banho do Ano Novo.

Ah, porra, pá.

Isso eu faço.

Tu fazes isso? É o único banho que tomas durante o ano todo.

É bem fixe. E as miúdas, olha, por acaso é uma tradição que as miúdas gostam.

Mas vão à praia?

Sim.

Ok, muito bem.

Eu tomo, eu também faço.

Que parulis.

Parulis, é bem giro.

Acho isso bonito.

Tu vais também este ano, em Fies Dental?

Com os? Devo, mas fico muito bonito.

Mas tanto que as miúdas gostam e vão como nós.

Vais passar em casa deles?

Vamos com as amigas delas, vamos todos. E houve uma vez, há uns anos já, que fomos tomar o banho. Bem, começa aqui granizo. Portanto, a gente começava com calhaus em cima da cabeça.

O ano passado, sabes que em Aveiro fazem aquela coisa tipo na praia, estão não sei quantos milhares de pessoas à espera.

Do quê?

No dia um, imagina, às 10h da manhã, às 11h, ao meio-dia, está tudo à espera, há um apito qualquer e vai tudo tomar o primeiro banho do ano. Para aí milhares de pessoas.

Sim.

O pai da Sara também foi este ano, ainda me disse.

Eu procuro sempre ir a praias mais tranquilas. É giro.

Para limpares o...

Não, é assim, eu não posso pensar nessas coisas. Por isso é que eu deixo de fazer desejos, porque senão começo a panicar com essas coisas todas, com os desejos e não sei o quê. E eu vou tomar banho.

Por isso é que eu faço aquela divisão. Peço os desejos para os outros e peço força para as minhas resoluções.

Estás a ver? E este ano tens que filmar o Borges, que ele vai estar em tua casa, tens que filmar.

Tenho que filmar a fazer resolução. É agora que eu vou deixar de fumar.

Eu estou bem.

Quantas dessas resoluções foi deixar de fumar?

Todos os anos está lá.

Então não serve de nada!

Pois.

Não serve de nada, Borges.

Mas algumas correm bem.

Algumas correm bem? Pronto.

Este de cariz profissional, basicamente.

Pois, mas tem que ser agora, tem que ser mais a nível disso. Este ano vou pedir, vou comer uma passa a pensar em ti.

A heroína já não.

A desejar que deixes de fumar.

A cola. Os ácidos.

E vou pedir também para continuares a usar as camisas Bacchus, porque ficam lindas a matar.

Bacchus.

Bacchus foi um gosto muito grande.

É provável.

Este ano foi. Exatamente.

Foi a melhor coisa que aconteceu este dezembro

Vês só? Posso escrever e fico.

É só ter umas camisas.

Umas camisas.

Umas camisas de jeito.

Olha, foi a melhor prenda de Natal.

E por acaso, uma das que eu escolhi foi azul, posso usar na noite de Ano Novo.

Podes, exactamente.

Tens que usar uma peça azul.

Eu escolhi a preta, estou de luto. Não, é mentira. Estou de luto pelos meus sonhos.

Tu hoje estás tão positivo, não. Eu nem sei porque é que tu comes as passas.

É pelos outros. É pelo bem dos outros.

E não há comida de Ano Novo?

Há comida de Ano Novo. É o camarão, o champagne.

Não, mas não há um prato? Tens o bacalhau no Natal, não é?

Sim.

Não, só podes pedir entradas porque é o Ano Novo.

Não, mas eu acho que as gambas é, o camarão. Uma passagem de ano fixe que eu tive foi uma vez que fui trabalhar, fui fazer o Rocinol e fiz antes da meia-noite.

Também já fiz o Réveillon a trabalhar.

Agora sei o que estou a falar!

Eu também já fiz.

Agora sei o que estou a falar. Fui fazer o Rocinol antes da meia-noite e depois da meia-noite fomos todos para o barzinho de uma discoteca, havia um privado, fui lá com a minha equipa toda. Estivemos a beber e a comer. Foi muito divertido, porque foi a primeira vez que nós conseguimos estar todos juntos.

Estes trippers eram fixes.

Não, por acaso não.

No privado.

Não era grande coisa.

Eu fiz um Réveillon a trabalhar e disse para nunca mais.

Mas o quê? A fazer stand-up a partir da meia-noite?

Sim, a fazer stand-up. Já não me lembro, isso já foi há uns anos.

Já fiz dois e gostei muito.

É pá, não.

Como eu detesto passar o ano, ganhar dinheiro a passar o ano é a ganhar.

Não, porque já estava a fase da malta buéda bêbada. Foi um grande stress e não me diverti.

Fiz em Arcos de Valdevez, que é uma cidade muito bonita.

Fui a Montargil.

E fiz nas Furnas.

Mas antes da meia-noite ou depois da meia-noite?

Eu acho que foi antes. Fiz antes e depois fiz a coisa da contagem.

Foi antes e depois a coisa da contagem, claro.

Mas foi tipo, foda-se, não. Isso e casamentos. Stand-up em casamentos também não.

Eu fiz isso uma vez, era uma prenda para a noiva, coisa mais estranha. E eu fiz meia hora de stand-up no casamento do Cristo Rei. A noiva estava super contente, a noiva e oito pessoas à volta da mesa. O resto do pessoal estava-se a cagar.

Eu se puder trabalhar, prefiro sempre trabalhar.

Mas é diferente, por ser música, primeiro deves receber mais, não é? Para ser no Réveillon.

Recebe-se um bocadinho mais.

Pronto, mas música é diferente. Música é um gajo que está a tocar e a malta está-se a divertir, estás a fazer barulho. Agora, stand-up, não.

Não, stand-up é como se fazia antigamente nas discotecas a partir das três da manhã.

E qual é a música com que vamos entrar em 2025?

A música que eu escolhi, ora bem.

"It's the final countdown!"

Por acaso, não. Por acaso não foi essa que eu escolhi. Qual foi a que eu escolhi? Onde é que ela está a música que eu escolhi?

"It's the end of the world as we know it"

R.E.M., pois já, foi verdade.

E era isso que eu estava a dizer, Borges.

O quê?

Estás a bater no sofá.

Estás a bater no sofá.

Mas agora era para o ritmo. O que quer dizer R.E.M.? Rapid Eye Movement.

Exatamente.

Que é o que acontece quando estamos a dormir.

Como é que os espanhóis dizem R.E.M.?

REM.

REM.

REM, dizem eles. REM, que é o rápido movimento de ojos.

Mas isso, ojos não é... REM. Isso é ROM, ojos.

R.E.M. é o?

ROM.

Uma vez vi.

A música é surpresa.

Ora o que isto quer dizer.

É surpresa.

Que ninguém sabe qual é que será a música.

Há muitos anos vi na TV o Top+ lá no sítio e no 42.º lugar tinha o Entrada dos Chutos e Pontapés e a apresentadora disse: " ".

"Patadas e patadas".

É uma escolha que se faz. O passado foi lá atrás. Recarga a ponta e nas traseiras contentores. Adeus ao meu amores que eu me vou. Para outro mundo. Num voo noturno num cargueiro espacial. Não voa nada mal este onde eu vou. O espaço fundo. Oh, oh. Mudarão todas as cores. Oh, oh. Cruzei mares e os montes. Numa força inventivel. Da minha cidade natal. Não voa nada mal. Não voa nada mal. Não voa nada mal. Não voa nada mal. Não voa nada mal. É a certeza de um bocado de terra. De novo Adão e Eva a renascer. Num outro mundo. Voltar a zero num planeta distante. Memória de elefante, talvez. Um outro mundo. Oh, oh. É uma escolha que tu fazes. Oh, oh. O passado foi lá atrás. Renasce de novo o dia. Desta nave de Noé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé. Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão. Na Rádio Observador porque já são. Homens de uma certa idade.