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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Hoje com o tema do ataque com coquetel molotov na Marcha pela Vida durante o fim de semana, Alberto. Olá.

Olá, Vanessa. Boa tarde. Sim, foi no sábado passado. Houve uma manifestação em Lisboa contra o aborto e a liberalização da eutanásia ou aquilo a que os organizadores chamaram Marcha pela Vida. E a manifestação decorria pacífica quando a certa altura, um contramanifestante menos interessado na vida que da morte, aparentemente, lançou um coquetel molotov para cima do ajuntamento. Felizmente, a incompetência do sujeito sobrepôs-se aos seus instintos, instintos um bocadinho a dar para assassinos, e o explosivo não explodiu, limitando-se a molhar com gasolina alguns dos participantes no tal protesto, incluindo pelo menos uma criança filha de um dos manifestantes, mas mais algumas pessoas. O homicida falhado foi detido e o extraordinário é as notícias darem conta que as autoridades ainda estão a ponderar se devem ou não acusá-lo de terrorismo. Pelo menos há duas horas, foi a última notícia que eu tive. Que se saiba, não foi um acidente no qual o indivíduo ia por acaso a passar ali com um explosivo na mão e por descuido largou a coisa em cima de um grupo ao calhas. Que se saiba, também não foi uma tentativa de homicídio por razões pessoais, tipo dívidas de jogo ou discórdia com alguém em particular, como era dantes, da delimitação de terras. O criminoso não tentou, que se saiba, matar uma pessoa específica. E se formos descontando as outras eventuais razões, só sobra o terrorismo, em que um indivíduo ataca com premeditação um conjunto de civis dos quais discorda politicamente, de modo a procurar causar o maior número de vítimas. Eu percebo a hesitação das autoridades em falar em terrorismo, que aliás é similar à hesitação dos media em sequer dar grande destaque ao episódio, porque como a manifestação era de índole conservadora, é lícito deduzir que o terrorista é de esquerda ou de extrema-esquerda.

Deixe-me só dizer já agora que este homem saiu em liberdade.

Já saiu em liberdade? Olha.

Mas fica sujeito a apresentações diárias e proibido frequentar o local da prática dos factos.

A proibição de frequentar o local da prática dos factos é curiosa, como se o homem fosse ficar ali constantemente a atirar explosivos no mesmo local para quem passasse. Já saiu, olha que bom. A nossa justiça é muito generosa. Então não foi acusado de terrorismo com certeza absoluta, porque senão não o deixavam sair, julgo eu. Como se costuma dizer, não sou jurista. Agora, também há outro facto aqui que não se percebe, que é a circunstância de as pessoas ficarem muito mais espantadas com um atentado terrorista cometido pela esquerda ou pela extrema-esquerda do que cometido pela direita ou pela extrema-direita. Tenho muitas dúvidas. Aliás, temos uma pessoa pela qual não tenho qualquer simpatia, mas que está ligada à extrema-direita, obviamente está, e que está detida por discurso de ódio, coisa do gênero, aí na internet. Não atirou que eu saiba, se calhar fez outras coisas na vida, mas pelo menos não está preso por isso. Este sujeito, então, já está em liberdade. Mas dizia eu que as pessoas ficam mais surpreendidas por um atentado vir da esquerda do que pela extrema-direita, e não deviam ficar, porque desde logo temos os números. Estive a registar aqui, a Europol registou em 2024, acho que é o último ano em que há dados completos, registou 58 incidentes terroristas na Europa. Parece-me uma estimativa assim um bocado por baixo, mas é a que temos. Desses 58 incidentes terroristas, como eles chamam, 24 foram de inspiração jihadista, 21 de extrema-esquerda, quatro separatistas, oito sem motivação conhecida e apenas um de extrema-direita. Portanto, ao contrário do que costuma vermos nas televisões acerca do perigo da extrema-direita, na realidade, pelos vistos, o perigo vem com muito maior frequência da extrema-esquerda. Isto se não contarmos os atentados jihadistas, que em geral partilham os objetivos com a extrema-esquerda. Mas pronto, vamos dar essa de barato. E de resto, além dos números, temos a história a explicar por que isto é assim e por que isto é normal e devia ser encarado como normal. Em setembro passado, eu lembrava-me do artigo, mas fui revisitá-lo. Em setembro passado, dias após o homicídio do Charlie Kirk, aquele ativista americano de direita, e um ano e tal depois do atentado fracassado a Donald Trump, o Rui Ramos publicou no Observador um tal artigo que é bastante útil e recomendável. E o artigo chamava-se, e chama-se: "A esquerda tem um problema com violência". E a certa altura o Rui explicava, passo a citar: "Também há gente violenta à direita, sem dúvida, mas a direita não tem um problema com a violência como a esquerda. A explicação não é moral, é histórica e política. À direita, as correntes de opinião que associam a política à violência não têm a mesma ascendência. As direitas deploraram quase sempre esses supremos exercícios de violência política que são as revoluções. As esquerdas, pelo contrário, nunca se purgaram completamente da mitologia jacobina da libertação através da violência", fim de citação. Eu volto a aconselhar a leitura integral do texto do Rui Ramos em setembro no Observador. Está lá. Mas para já, este excerto, este pedaço é capaz de chegar para se compreender, ou pelo menos para sugerir que a violência é intrínseca à retórica de certas esquerdas e às vezes, demasiadas vezes, passa da retórica à prática. E o motivo nem tem que ser particularmente ofensivo ou opressor. Basta um grupo de gente pacata que tem aquela opinião sobre o aborto e a eutanásia, não tem que ser a minha, se quer, não é isso que interessa. Mas basta isso para despertar a fúria assassina de um tarado, ou o que quiserem chamar à criatura, ou um terrorista, lá está, que agora está solto. E se forem espreitar as redes sociais à esquerda para suscitar, constatam nessas redes sociais que há por ali inúmeros lamentos pelo taradinho ou terrorista não ter sido eficaz nos seus propósitos. Imagino agora que haja gente, não sei se vai ser explícita ou se vai guardar isso para si, em certo recato, a aplaudir a libertação do tal indivíduo. E pronto, já sabemos que ele está proibido, julgo que foi junto ao Palácio de São Bento que ele lançou o explosivo, portanto, não pode voltar a lançar explosivos junto ao Palácio de São Bento, mas poderá com certeza lançar explosivos noutro sítio qualquer e será libertado em poucas horas. Portanto, não há problema absolutamente nenhum. E é tudo, Vanessa.

Primeira crônica da semana, "Ideias Feitas", sempre com o Alberto Gonçalves. Até amanhã, Alberto.

Até amanhã.