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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo. Agora sim, agora já te consigo ouvir. Olá, Alberto.
Olá, Ricardo. Tudo bem?
Hoje foi na vice minha. Não te abri o microfone.
Podia ser minha, desde que eu tivesse acesso a mexer em qualquer coisa. Farias alguma asneira com certeza.
Vamos ao tema de hoje. Queres ainda voltar à cobertura noticiosa da revolta no Irão?
Quero, Ricardo, porque a Sic Notícias, à semelhança das outras televisões, não largou Gaza durante dois anos, acabou finalmente por falar no Irão e resumiu os eventos que estão a acontecer lá numa palavra: inflação. Inflação foi o que disse a Sic Notícias para explicar a revolta que está nas ruas de todas as cidades iranianas, ou praticamente todas. E acrescentou, a título de detalhe, que o preço médio dos alimentos aumentou 70% e a culpa é do Ocidente, claro, porque a Sic Notícias também, tal como as outras televisões, dá voz aos lamentos dos aiatolás, como dava ao Ministério da Saúde de Gaza, e informa que os problemas económicos do Irão se devem às sanções impostas pelo Ocidente a pretexto do programa nuclear iraniano. Foi isto que ficou dito na tal reportagem muito pequenina. E a reportagem ficou-se por aqui. Suponho que nas outras televisões, se é que fizeram alguma reportagem, se é que tocaram no assunto, também não tenham ido particularmente mais longe, pelo menos é aquilo que me têm dito. Com certeza, as televisões, a Sic Notícias e as outras, tinham que transmitir alguma conferência de imprensa de um treinador da bola ou mostrar mais uma reportagem sobre aquela senhora americana que foi morta por um polícia no Minnesota e por isso não houve tempo, nem sequer meio minuto, para dizer aos espectadores que veem aquilo, não faço ideia por quê, mas veem aquilo, que os protestos no Irão começaram, de facto, motivados por questões económicas e que num instante se tornaram muito mais profundos que isso. Os iranianos, ou a vastíssima maioria deles, protestam contra o regime e querem que o regime caia e querem que termine a opressão brutal que lhes foi imposta há demasiados anos por uma oligarquia de transtornados e terroristas. Os iranianos, obviamente, não saíram às ruas arriscar as próprias vidas, e em alguns casos a perdê-las, infelizmente, por causa do preço dos ovos, ou da farinha, ou do açúcar. Saíram às ruas porque se fartaram de viver como têm vivido, como sub-humanos, espezinhados por uma ditadura alegadamente religiosa e, sem dúvida, criminosa. E é isto que a Sic Notícias e boa parte dos media em todo o Ocidente, não é uma questão portuguesa, infelizmente, está a tentar ocultar. E isso parece-me que é absolutamente inédito, porque eu era muito criancinha na época, agora faço aqui um flashback, mas lembro-me que os protestos do Sindicato Solidariedade, em Gdansk, na Polónia, não saíam dos telejornais. Eu tinha 10 anos, mas o rosto do Lech Wałęsa era mais familiar do que de muitos primos meus. E 10 anos depois disso, a queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética eram praticamente o único assunto que se falava nas televisões. E hoje, aparentemente, as coisas não são assim, hoje tudo mudou. E esta possibilidade de cair o regime iraniano, infelizmente, não caiu ainda, é um acontecimento que é de uma grandeza, a mera possibilidade tem uma grandeza e um significado pro mundo que é comparável ao fim do comunismo no Leste Europeu. Não digo que seja igual ou superior, mas é pelo menos comparável. E é tratado como se fosse uma tentativa de golpe de Estado na Guiné Equatorial, na Papua Nova Guiné ou coisa que o valha, com a diferença que se calhar uma tentativa de golpe de Estado na Guiné Equatorial teria de certeza mais tempo de antena. Eu já falei aqui ontem disto, não me queria repetir, mas estou certo que o silêncio das televisões sobre o que está a acontecer no Irão não é alheio a duas coisas. Uma delas é o facto de os manifestantes contestarem o Islão e exigirem uma sociedade secular. As televisões europeias podem achar que transmitir isso ofenderia os muçulmanos, cá estão. E a segunda questão ligada a isto, que me parece mais ou menos óbvia, que o facto de os manifestantes pedirem o regresso da monarquia e pedirem intervenção militar americana, e muitos deles, o que é a blasfêmia suprema, apelassem diretamente ao senhor Trump, isso transforma-os de imediato em gente desprezível, indigna de aparecer nas notícias como as pessoas corajosas que de facto são. E se calhar é escusado comentar isto, mas vale a pena concluir que inúmeros media desistiram por completo de informar para se concentrarem na evangelização, na educação das massas, através da censura e da filtragem das notícias. Aliás, exatamente como fazem os media das ditaduras, como faz o Irão, por exemplo. O problema é que enquanto não descermos a uma ditadura, as massas têm alternativas, como já disse ontem e já tenho dito algumas vezes, e só se deixam evangelizar pelas Sic Notícias desta vida se forem de uma inocência extrema. Eu acho que não são, as massas não são assim tão inocentes, ou eu espero que as massas não sejam assim tão inocentes. E com isto, Ricardo, fico-me por aqui. Desejo-te um ótimo fim de semana e um grande abraço.
E um bom fim de semana pra ti, Alberto. Segunda-feira cá estaremos. Um abraço, bom fim de semana.
Um abraço, Rica.
O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.