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Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador. Recebemos o Alberto Gonçalves, espaço de opinião. Alberto, muito boa tarde. Queres comentar uma notícia que marca o dia de hoje? As agressões a profissionais de saúde, familiares de um doente que morreu no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, ameaçaram e agrediram enfermeiros e causaram estragos nas instalações.

Exatamente. Olá, boa tarde. A notícia é essa. A forma como a notícia foi transmitida variou ligeiramente consoante o órgão de comunicação social. Nuns sítios dizia-se que eram familiares de um doente, que o doente faleceu. Noutros locais dizia-se que eram oito pessoas da mesma família. Houve quem falasse em grupo de oito pessoas, não necessariamente da mesma família, houve quem falasse em oito familiares do doente, grupo de pessoas estranhas ao serviço, etc. Várias formas de tratar o mesmo grupo de indivíduos que agrediram os enfermeiros e causaram os tais estragos. Mas, como de costume, os mídia não mencionam mais nenhuma característica dos familiares ou do grupo de oito pessoas em questão, como por exemplo, a etnia. E eu acho muito bem que não tenha mencionado, porque imagine-se que nestes casos se noticiava a etnia dos agressores. Imagine-se que, por absurdo, a etnia era sempre ou quase sempre a mesma. E imagine-se ainda os sentimentos negativos e perigosos que isso poderia despertar na sociedade, incluindo, desde logo, a discriminação ativa da etnia em causa. Assim, como de costume, ao omitir um pormenor, afinal irrelevante, como é a etnia dos agressores, fica tudo bem e fica em paz. O público em geral não faz a mínima ideia de quem se está a falar. Não há hipótese nenhuma de alguém chegar lá, tinha que ser um autêntico Sherlock Holmes. E os elementos da eventual etnia que é omitida nas notícias também não sofrem qualquer discriminação. Claro que o número de agressões a profissionais de saúde em Portugal continua a crescer ano após ano e, segundo os dados mais recentes, aqueles que eu consegui apurar, 2022, 2023, esse número de agressões já está próximo dos 2 mil casos anuais. Mas este é o pequeno preço a pagar para evitar fenômenos de racismo, de discriminação e, sobretudo, crimes de ódio. Os crimes de ódio, nestas histórias todas, é que devem ser evitados a todo o custo. E os crimes cometidos contra médicos, enfermeiros e outros funcionários hospitalares, auxiliares, não sei exatamente como é que se chamam, mas esse tipo de crimes, como o que aconteceu hoje no Curry Cabral, não tem nada a ver com ódio. Os profissionais de saúde levam porrada independentemente do gênero, da cor da pele, das convicções religiosas, do que calha. Eu não vou a ponto de dizer que são crimes motivados por amor. Também não iria tão longe, mas é uma pancadaria essencialmente democrática, na medida em que pode tocar a todos os que se interponham, que estejam entre o doente que recorre ao hospital e um grupo aleatório dos seus familiares ou lá quem são. Peço desculpa, ainda estou meio resfriado. Espero não necessitar de recorrer ao hospital. Agora, reparo que nem há necessidade nenhuma de se referir que os agressores são familiares do doente. Não é preciso sequer chegar aí. Se não se menciona a etnia, o que é que se ganha em informar que o bando que desatou a distribuir bordoada no hospital é composto por irmãos ou primos ou cunhados do paciente? Há sempre cunhados nestas histórias. Parecendo que não se está a estigmatizar o sagrado papel da família. Para a próxima, eu sugiro que, daqui em diante, é apenas uma sugestão, que os mídia substituam o termo familiares pelo neutro pessoas, como em pessoas que menstruam. Não sei se as pessoas se lembram, acho que sim, não foi assim há tanto tempo. Pessoas neutras e sem qualquer critério distintivo espancaram duas enfermeiras no Curry Cabral. No limite, até se podia fazer como nas notícias que aparecem todos os dias dos atentados que acontecem todos os dias em diversas cidades europeias, nos quais facas ou automóveis atacam transeuntes. E podemos fazer nestas notícias desaparecer as pessoas por completo. Ficava assim: bota dá pontapé em cardiologista, cadeira aterra na cabeça de enfermeira de reabilitação, etc. E assim é que seria bonito.

Alberto Gonçalves, com essa notícia que marca também o dia de hoje. A análise é essa notícia: as agressões a profissionais de saúde no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. Alberto, até amanhã.

Até amanhã.

O Ideias Feitas conta com o apoio do Azeite Talismã.