Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Desfazemos ideias feitas na primeira edição da semana. Conosco está o Alberto Gonçalves. Alberto, bem-vindo. Boa tarde.

Obrigado. Boa tarde.

Ora viva, Alberto Gonçalves. E o Alberto Gonçalves hoje quer falar neste Ideias Feitas de um artigo do antigo presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, que muito tem dado que falar ao longo dos últimos dias. É um artigo em que, entre outros pontos, o antigo chefe de Estado acusa o Partido Socialista de ser o responsável pelo empobrecimento do país. Diz também que Portugal tem uma oposição débil e sem rumo. Mas, Alberto Gonçalves, por onde quer começar a sua crônica de hoje a propósito ou alólea deste artigo de Cavaco Silva?

Começo por uma declaração de interesse. Eu não sou um devoto absoluto do professor Cavaco Silva, ao contrário daquela frase, daquilo que ele disse uma vez, de que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas. Se ele tinha dúvidas, eu não sei, que se enganava, se enganou várias vezes. Neste artigo, não se engana, pelo menos nos pontos principais do artigo, não há engano possível, porque o que o professor Cavaco faz, no fundo, é um inventário de fatos. Portanto, é difícil estar enganado. Claro, envolve juízos de valor, mas são juízos de valor que dificilmente serão contestáveis. Resumindo o artigo, ele diz que o atraso progressivo do país, que está prestes a ser ultrapassado, está prestes a ficar mesmo no fim da União Europeia, a ser ultrapassado por todos os países da Europa de Leste que entraram mais tarde. E que esse atraso, diz o professor Cavaco, é culpa dos governos socialistas, e diz que é culpa dos governos socialistas em parte por causa do fanatismo ideológico do PS, do estatismo férreo do PS. Eu não estou a citar literalmente o artigo, estou a lembrar-me de cor, mas a ideia é esta. O professor Cavaco diz que o PS é responsável pela asfixia fiscal em que vivemos, pela animosidade face à iniciativa privada, em suma, pela pobreza e pela desigualdade que tem aumentado, pelo poder de compra que tem diminuído, em absoluto e por comparação aos restantes países da União Europeia, especialmente aqueles que o professor Cavaco diz várias vezes, aqueles com os quais nos podemos comparar. Ele está se a referir, sobretudo, a esses países que estavam abaixo de nós e mais ou menos ao nosso nível há 20 anos ou há 25 anos, e que entretanto estão praticamente todos eles à nossa frente e os poucos que não estão à nossa frente estão prestes a ultrapassar-nos. E o professor Cavaco fala ainda na questão da famosa bazuca, que nunca servirá, na opinião dele, e na opinião, acho, mais ou menos de qualquer pessoa minimamente atenta, que nunca servirá a bazuca para permitir as reformas que estimulem aquilo de que Portugal mais precisa, que é produtividade. Mais precisa em matéria econômica, evidentemente. E a bazuca nunca servirá para isso, porque o PS cede em absoluto e frequentemente ao eleitoralismo e, portanto, vai sempre pela via dos estímulos ao consumo, isso o professor Cavaco não fala, pelo menos diretamente, para não falar de outros destinos que se podem dar à bazuca, que nem vale a pena referir. Mas na hipótese mais benigna, o investimento será feito em favor do consumo e nunca de reformas estruturais profundas que melhorem a produtividade do país que está pelas ruas da amargura. E tudo isto, diz o professor Cavaco, tem decorrido ao longo de 20 e tal anos e de forma mais grave e mais acintosa nos últimos anos, desde que o PS governa com a legitimação de dois partidos de extrema-esquerda, dois partidos comunistas. Aliás, um arranjinho ao qual o professor Cavaco deu o seu aval. Acharia que não tinha alternativa, mas a verdade é que em 2015 foi o professor Cavaco que aceitou esse arranjo, poderia ter convocado eleições com base pelo eleitorado não ter sido avisado do arranjo previamente, poderia ter arranjado uma desculpa. Não quer dizer que o eleitorado não votasse massivamente na mesma no PS e nos partidos que o apoiam. Mas a verdade é que esse arranjo, na opinião do professor Cavaco e, por acaso, na minha, tem prejudicado o país ainda com mais rapidez e com mais profundidade do que aquilo que o PS já costumava prejudicar. Acho que ainda tem sido mais daninho. E este comportamento do PS e do governo prejudicial ao país, diz o professor Cavaco, já mais pro final do artigo, que se tem passado sob o silêncio de uma oposição débil, como o João disse, sim, é a expressão que ele usa, o silêncio de instâncias do Estado que entretanto o PS ocupou e que deveriam salvaguardar a sua independência e que a perderam, porque foram ocupadas por funcionários do PS e não por funcionários do Estado, propriamente. E por parte dos media, que também é a expressão que o professor Cavaco usa e que realmente nós vemos uma boa parte da nossa comunicação social, não gosto muito do termo, mas pronto. Uma boa parte dos nossos media está perfeitamente calada e subserviente àquilo que o governo faz ou àquilo que o governo deveria fazer e não faz. Mas de qualquer maneira, a crítica tem estado absolutamente ausente dos media, e já nem estou a comparar com governos que não fossem ligados ao PS. Mesmo comparando com governos que eram do PS, este governo conseguiu mais ou menos silenciar. Não tudo, felizmente, mas quase tudo. E em conclusão, a conclusão do professor Cavaco é que Portugal já não é uma democracia plena, o que também não é nada de extraordinário de se dizer, porque de fato não parece sê-lo, e que era bom que pudesse voltar a ser. Ele diz isso, não parece que ele o diga com uma esperança particularmente firme, mas acaba por dizê-lo, é assim que ele termina o artigo. Ou seja, só mesmo uma pessoa Um militante muito férreo do Partido Socialista ou dos partidos mais à esquerda do Partido Socialista é que pode achar que o artigo tem erros ou que é um delírio, como eu li por aí. Ou seja, nas reações ao artigo, podemos falar agora só brevemente das reações, a direita, que também foi atacada, embora num parágrafo mais curto, mais breve do dito artigo, fez por se mostrar discreta e não quis enfiar o carapuço do ataque e, portanto, não houve, pelo menos, reações notáveis ou de segunda linha, que eu tivesse dado por ela, ao artigo do professor Cavaco. Já a esquerda, embora não numa primeira linha, mas em terceiras, quartas e quintas linhas, reagiu ao artigo com um grau de ódio que é absolutamente notável, e notável é o termo. Eu vi pessoas, e algumas delas minimamente conhecidas por aí, claro que não são dirigentes partidários, mas vi figuras nas redes sociais a desejar a morte do professor Cavaco e a contar os dias para a morte do professor Cavaco e "este sujeito nunca mais morre" e "eu queria ir à campa dele e fazer isto e aquilo." Esse tipo de reações, vindas das pessoas que vêm, são elogios, são legitimações da razão do professor Cavaco, pelo menos neste artigo e noutras coisas que ele muito ocasionalmente diz e faz. É evidente que sim. Dado o tipo de gente que estamos a falar, é evidente que isto são medalhas para o homem. Quanto ao homem, mesmo para terminar, o homem já não é presidente da República há uns anos, mas falando pouco e manifestando-se muito pouco, continua a ser aquilo que de mais próximo temos de um presidente da República, visto que aquele senhor que está em Belém formalmente, tem tido a ação que tem, ainda agora há um ou dois dias elogiou o doutor Cabrita, ou seja, o professor Marcelo, faço notar para alguma pessoa que eventualmente não saiba, elogiou abertamente a ação do doutor Cabrita enquanto ministro. Portanto, ter um contraponto desses, ter uma figura institucional como a chefe de Estado fazer um contraponto como o que o professor Marcelo tem feito, ou seja, nenhum, não é um chefe de Estado. É o que é, é o professor Marcelo. Agora, o professor Cavaco não tem poderes formais, nem poderes de facto, tem influência, tem opinião. Felizmente ainda vai tendo e felizmente ainda está vivo, ao contrário do que muitos gostariam. E felizmente é aquilo que se aproxima, repito, de um presidente da República, gostemos mais ou menos dele. Mesmo para terminar, repito, não sou um incondicional do professor Cavaco, mas é a figura que temos que mais se aproxima de um chefe de Estado, coisa que o professor Marcelo não é.

Alberto Gonçalves e o Ideias Feitas de hoje, à boleia desse artigo tão falado de Aníbal Cavaco Silva, antigo presidente da República, que escreveu um artigo de opinião no semanário Expresso em que acusa o governo de António Costa de não ter seguido exemplos de outros países e de se guiar pelos partidos da extrema-esquerda. Diz que o governo não foi capaz de aproveitar as boas condições de sustentabilidade da economia portuguesa herdadas do Executivo PSD/CDS, mas é um artigo em que Cavaco Silva critica também o que diz ser uma oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente. Foi o artigo de Cavaco Silva que motivou o Ideias Feitas de hoje. Está de regresso amanhã à mesma hora, como sempre, com o Alberto Gonçalves.

Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto