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Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Obrigado.

E hoje quero dizer a uma conclusão a que chegou um tribunal de um reino próximo sobre: afinal, só há dois sexos biológicos.

Biológicos, exatamente. Parece que é uma novidade, mas entrou ontem em vigor no Reino Unido, e é por isso que eu falo hoje do assunto. Entrou ontem em vigor um novo código oficial de boas práticas. É uma expressão que eu acho particularmente desagradável, mas isto é publicado por uma comissão lá do Reino Unido, a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos. Esse código de boas práticas determina que os espaços reservados a um único gênero, como casas de banho, balneários, vestiários e enfermarias, devem ser organizados e acedidos, naturalmente, com base no sexo biológico e/ou atribuído ao nascimento e não na identidade de gênero. Isso, se descontarmos a expressão "o sexo atribuído ao nascimento", que não faz sentido nenhum, o que muda, na prática, é que os espaços reservados para um único sexo passam a ser reservados para pessoas com esse sexo. Isto, a parte logística não interessa muito, mas vai afetar milhares de estabelecimentos, ginásios, hospitais, escolas, edifícios públicos em geral, que terão de adaptar as suas instalações para cumprir as novas diretrizes, depois de se terem adaptado para cumprir as diretrizes anteriores que estavam em vigor mais ou menos desde 2010. Isto lá no Reino Unido, claro. Agora, sobretudo, o que isto significa, e é isto que tem mais importância propriamente do que as mudanças de sinalética, é que um acórdão do Supremo Tribunal do Reino Unido, o acórdão veio do ano passado, mas é o que está na base deste novo código de boas práticas. Esse acórdão definiu legalmente que os termos homem e mulher se referem ao sexo biológico. Ou seja, que todo este incessante ruído que temos ouvido há anos em volta do gênero e da identificação não era mais do que uma negação grosseira da biologia e, principalmente, um pretexto para se travar batalhas ideológicas, daquelas que substituem a velha luta de classes que já há muito, pelos vistos, caiu em desuso. E tudo somado, este regresso ao elementar bom senso é uma boa notícia. Não deixa de ser uma boa notícia, mas é uma boa notícia que não apaga década, década e meia, no caso particular do Reino Unido, em que demasiadas pessoas foram caluniadas e ameaçadas apenas por constatarem uma verdade que a humanidade reconhecia como verdade desde os seus primórdios. Isto não é exatamente uma revelação. O facto de que existem somente dois sexos biológicos. Algumas dessas pessoas que sofreram as calúnias e as ameaças são celebridades, como o cientista Richard Dawkins e a escritora J.K. Rowling, mas a vasta maioria é gente anônima e frequentemente é gente que não tem grandes meios para resistir ou para suportar com algum poder de encaixe os ataques que sofreram por insistir em meras banalidades ou naquilo que há 20 anos ou 30 anos eram meras banalidades. E não foram essas pessoas as únicas a sofrer. E talvez, se calhar, nem tenham sido essas pessoas as que sofreram mais, porque a ideia peregrina e absurda de que o sexo de cada um é aquele que cada um decide dizer que tem, criou diretamente as condições para uma série de trapalhadas, para usar uma expressão, um eufemismo, porque houve recorrentes casos de agressões sexuais contra mulheres autênticas cometidas por pessoas que alegavam ser mulheres. E nem vale a pena falar, e talvez seja a parte mais drástica disto tudo, os infelizes que, sendo menores de idade, foram sujeitos, e ainda continuam a ser, com certeza, em muitos lugares, e na Inglaterra não deixam de ser por causa deste código de boas práticas. Mas os infelizes que foram sujeitos com criminosa facilidade e com irresponsável facilidade a tratamentos de transição de gênero. Claro que o acórdão do Supremo Tribunal e o tal recente código de boas práticas em vigor desde ontem não vão acabar de vez com esta loucura em curso já há demasiados anos, mas é possível que representem um sinal de mudança, um sinal de que existem na sociedade instituições com força suficiente para resistir à subversão da ciência e da própria lógica. Há pessoas, felizmente muito poucas, isto convém deixar claro, já falei disto aqui, sempre que falo neste assunto, convém lembrar isto. Há algumas pessoas, uma em 100 mil, talvez, as estatísticas parecem dizer, que sofrem de disforia de gênero e que naturalmente têm de ser respeitadas. Não é isso que está em causa. Agora, ninguém pode ser obrigado a respeitar os delírios que alguns desenvolvem. Sobretudo, a lei não tem de reconhecer os delírios, sejam estes ou sejam outros quaisquer delírios, não faltam. Quando a lei desata a reconhecer delírios, deixa de ser lei e torna-se, aí sim, uma fonte de discriminação. E aliás, só mesmo para terminar, Ricardo, a propósito do identitarismo, eu já escrevi, acho que uma vez numa crônica qualquer, que me identifico, por exemplo, como não contribuinte, e o Estado é indiferente a isso e continua a remover uma parte dos rendimentos sob a forma de impostos. E eu tenho pena, mas é mesmo como aquela expressão que a gente diz: "Temos pena, mas não há nada a fazer." E neste caso, das novas boas práticas britânicas, também não parece haver nada a fazer e é bom que não haja nada a fazer.

Obrigado, Alberto, e até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.

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