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Desfazemos ideias feitas. Junta-se à tarde em direto o Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde, boa semana.

Olá, boa tarde e boa semana.

Obrigada.

Olá, viva, muito boa tarde, Alberto Gonçalves. Olá, viva. Hoje o Alberto escolheu este tema incontornável, esta questão do caso Marega. Ainda há pouco ouvíamos as declarações do jogador a uma rádio francesa, até a dizer que se falasse com Marcelo Rebelo de Sousa, diria que se sentiu insultado e com vergonha.

Sim, é o caso do dia. E até certo ponto merece sê-lo. Eu ia recordar o que se passou, não valerá a pena, mas foi um grupo de idiotas, aparentemente adeptos do Vitória de Guimarães, que resolveram ontem insultar o jogador do Porto, Marega, e viseram-no com cânticos. Eu ouvi alguns insultos, são aqueles insultos normalíssimos em campo de futebol, mas depois há aquele cântico do macaco que se associa a jogadores africanos, não faço ideia por quê. Acho que do macaco vimos todos, pelos vistos, alguns adeptos da bola ficaram um bocado mais para trás na evolução e acham que essas coisas têm graça. Sem desvalorizar absolutamente nada destas palermices, estas coisas são absolutamente comuns nos campos de futebol. E por comuns não estou a dizer que são desculpáveis. Isto acontece constantemente, estes cânticos racistas, por exemplo. Ainda há pouco tempo o próprio Futebol Clube do Porto foi acusado, os seus adeptos foram acusados de entoar cânticos racistas num jogo contra uma equipa suíça, Young Boys, acho eu. E é um exemplo que foi recente, mas isso acontece também nos outros clubes, em Portugal e não só em Portugal. Agora, o racismo é uma expressão de ódio e o problema disto é que é apenas uma das expressões do ódio. O problema no futebol, e nalguns outros desportos, mas em Portugal, muito particularmente no futebol, é que o ódio está sempre presente. Nós vimos há pouco tempo num Porto-Benfica, adeptos do Porto que enforcaram simbolicamente, ainda bem, uns bonecos, umas efígies de jogadores do Benfica. Vemos os adeptos do Benfica a entoar cânticos alusivos àquele adepto do Sporting que foi morto com um Very Light. Vimos também a claque do Porto a querer que os jogadores do Benfica fossem fazer companhia àqueles jogadores brasileiros do Chapecoense que morreram na queda do avião, etc. Portanto, o ódio, não só através da forma do racismo propriamente dito, outras formas de ódio, está sempre presente nisto do futebol. E ontem eu vi televisão, que é uma coisa que faço raramente, vi os canais de televisão portugueses e aquilo era um fartote de escândalo e de surpresa pelo que se passou em Guimarães, quando aqueles próprios programas de televisão e boa parte daqueles comentadores entretêm-se regularmente a promover justamente esse ódio entre adeptos de clubes e eles próprios reproduzem ali naqueles estúdios, normalmente são em tríades, reproduzem Benfica, Porto e Sporting, têm ali uns sujeitos que são mais ou menos avançados dos clubes ou pelo menos autorizados pelos clubes a estar ali, julgo eu, se não for isto, há de ser uma coisa assim parecida, e estão ali a simbolizar o ódio que os adeptos têm uns aos outros. Não há ali nada que tenha a ver com futebol, minimamente. Ali discutem-se os famosos casos e as famosas polémicas, ou seja, formas de despertar o que eles chamam rivalidade. Rivalidade é um eufemismo imenso. E depois tivemos, ainda além dos comentadores nos programas desportivos, tivemos os próprios dirigentes desportivos ou alguns deles, ou os clubes, oficialmente, as páginas oficiais dos clubes a lamentar e a solidarizarem-se com o Marega, quando eles próprios também promovem este ódio do qual o racismo é apenas uma parte. E para culmina tivemos, como não podia deixar de ser, os políticos que viram nisto um acontecimento ao qual não podiam faltar e então apareceram todos.

Mas acredita que há aqui algum tipo de aproveitamento?

Na parte política, é evidente que sim. Percebeu-se que o assunto era mais ou menos consensual, e com alguma razão, e vieram todos a correr para mostrar solidariedade com o jogador Marega, para criticar o racismo, etc. Quando muitas vezes alguns desses líderes, e temos o caso do primeiro-ministro, que era conhecido por se sentar frequentemente ao lado do presidente de um clube de futebol, e de um clube também que incorre nestas práticas com regularidade. Ou seja, a hipocrisia não vale a pena sequer fazê-la notar, porque ela é evidente. Isto vai durar agora mais um dia ou dois. Hoje tarde soube que o secretário de Estado do Desporto, um senhor que eu não fazia ideia que existia sequer, que tem um grupo de intervenção contra o racismo, pelos vistos não está a funcionar muito bem, e que vai promover mais uns observatórios e uns grupos e umas comissões. Portanto, vão-se distribuírem uns empregos, tudo a propósito do jogador Marega, que, a propósito, aproveito para dizer que provavelmente fez muito bem em sair de campo e se calhar os colegas deviam ter saído com ele, e os colegas e os jogadores adversários, porque não se joga num ambiente assim. Infelizmente, todas as semanas, todas as equipas, todos os jogadores jogam em ambientes assim, com racismo.

A verdade é essa. Tivemos também ainda há pouco o Bruno Rosa, falávamos com ele, com o editor de desporto, que nos dizia que no futebol distrital, sem as câmaras de televisão, sem os holofotes, no futebol de formação, no futebol infantil, desde os 10 anos, os 11, os 12, isto é algo que vai acontecendo.

Ouvimos falar de pais, no futebol de formação, de pais que vão perseguir os árbitros e tentar bater aos árbitros e coisas assim do gênero. Portanto, o futebol, isto é uma coisa muito linda, é o espetáculo mais maravilhoso da Terra, segundo se diz, o maior espetáculo da Terra e tal. A mim parece-me, assim, neste momento, tal como é visto hoje, uma fonte de violência.

Obrigado, Alberto Gonçalves. Hoje o Alberto a decidir desfazer ideias feitas sobre este caso de Moussa Marega, o jogador maliano que foi ontem alvo de insultos racistas durante o encontro entre o Vitória de Guimarães e o Futebol Clube do Porto. Entretanto, numa entrevista a uma rádio francesa, Marega já disse que se sentiu insultado, com vergonha e que está muito desiludido.

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