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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo.

Alberto, hoje queres falar sobre uma resolução da ONU relativa às crianças ucranianas raptadas.

Exatamente. Eu ontem falei aqui de um assunto que está obviamente ligado a esse. Falei da extrema hipocrisia da vasta maioria dos países europeus, que enchem a boca com afirmações bombásticas contra a Rússia enquanto continuam a alimentar a guerra do senhor Putin através da importação, sobretudo de gás natural. E se as importações desceram desde 2022, é verdade que desceram, mas também é verdade que a Europa não tem deixado de entregar à Rússia dezenas de milhares de milhões por ano. Agora diz que vai parar de o fazer em 2027. Vamos ver. Em 2026, pelos vistos, estão garantidas mais importações. Outra verdade é que estas discussões costumam limitar-se aos últimos três ou quatro anos, mas a invasão da Ucrânia pela Rússia, com a anexação da Crimeia, começou em 2011 e durante anos, até 2022, a Europa não fez rigorosamente nada, ou fez, que prestou toda a vassalagem que pôde ao senhor Putin e até presenteou o regime dele com o Campeonato Mundial de Futebol. Nenhuma nação, que eu saiba, boicotou. Se bem me lembro, até o nosso querido presidente, o conhecido professor Marcelo, foi a Moscovo conviver com os futebolistas e com o próprio senhor Putin. E hoje o professor Marcelo é apenas mais uma destas irrelevâncias europeias que, porque fica bem, passa a vida a condenar Donald Trump. E aliás, no que toca à questão da Ucrânia, o professor Marcelo praticamente só critica o senhor Trump. Eu vou esperar sentado ou deitado até que ele decida criticar o que aconteceu anteontem na sede da ONU. Anteontem, para usar o texto d'O Observador: "A ONU aprovou uma resolução que exige o regresso das crianças ucranianas levadas à força para a Rússia. O documento exige o fim", e passo a citar, "de todas as práticas de remoção forçada, deportação, separação das famílias e responsáveis legais, e o fim da doutrinação das crianças ucranianas." Isto está tudo correto, tirando provavelmente, infelizmente, não servir pra nada. O problema é que uma pessoa lê o resto do texto e constata que a aprovação esteve muito longe de ser unânime. Houve 91 votos a favor, 12 contra, 57 abstenções. Ou seja, dos países votantes, houve países que não votaram, há 69 que não querem que a Rússia devolva as crianças ucranianas raptadas. Ou não querem, ou o assunto não lhes interessa, é-lhes indiferente a ponto de não tomarem uma posição, o que vai dar ao mesmo. E para cúmulo, uma pessoa vai apurar quais foram os países que são a favor ou que são indiferentes ao rapto de crianças em cenário de guerra. E temos, entre muitos do terceiro mundo e do Médio Oriente, eu gostava de destacar Cuba, temos a China, o Vietname, a Nicarágua, o Irão, o Qatar, o Sudão, não há aqui nenhuma surpresa, e principalmente eu gostava de destacar, ou preferia não ter que destacar, mas vou destacar três países também sem surpresas: o Brasil, Angola e Moçambique. Três daqueles países irmãos que o professor Marcelo, e não só o professor Marcelo, tanto gosta de elogiar e de visitar. Portanto, três dos nossos países irmãos oficialmente não se opõem ao rapto de crianças em territórios ocupados à força. E sobre isso o professor Marcelo não diz nada. Nem o professor Marcelo, nem o governo, nem que eu tivesse ouvido a oposição, nem as resmas de comentadores televisivos que, a fim de preencher cotas e com certeza de manterem o emprego, guardam todas as críticas para o senhor Trump e para os Estados Unidos. Mas os Estados Unidos do senhor Trump, esse lacaio de Putin, esse traidor da Ucrânia, votaram contra o rapto de crianças ucranianas. E já agora, as dissidentes Hungria e Eslováquia também votaram contra o rapto de crianças ucranianas. Quem está a favor do rapto de crianças ucranianas, repito, ou pelo menos não atribui importância ao assunto, é o Brasil, é Angola, é Moçambique. E o professor Marcelo e os nossos estadistas, pergunto eu, vão continuar a manter relações de particular amizade e cordialidade com países que defendem esta selvageria? A resposta é fácil: vão, claro que vão. E vão continuar a dizer que o traidor da Ucrânia, o traidor da Europa, o traidor não sei de quê, é o senhor Trump.

Obrigado, Alberto. E vais regressar agora na terça-feira, porque vamos de fim de semana prolongado.

Bem merecemos.

Então não. Um abraço, Alberto.

Ricardo, um grande abraço e bom fim de semana.

O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã