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Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Obrigado e desde já peço desculpa, na sexta-feira as pessoas devem ter ficado a pensar que eu sou o maior criadão, porque tu te despediste com certeza, desejaste um bom fim de semana e eu não disse nada. Mas não disse nada porque não te ouvi falar, por algum motivo técnico.
Nem pensar nisso.
Só queria esclarecer isso.
E hoje queres ir à violência no futebol, mas não queres falar do jogo de ontem, queres regressar a 1966.
Mas faço escala no jogo de ontem um pouquinho também, porque ontem foi a final, toda a gente sabe disso, do Campeonato do Mundo. E só aqui, numa parte, pelos vistos a final serviu para muitos comentadores em Portugal, e não só em Portugal, soube que não foi apenas cá, para os comentadores dizerem mal do Donald Trump. Deve ter havido muitos episódios caricatos, mas na RTP, suponho que foi na RTP, um dos senhores que lá estava chegou a dizer que um determinado jogador espanhol fazia muito bem por não aplaudir o presidente dos Estados Unidos e nesse momento as câmaras filmavam o dito jogador a aplaudir o presidente dos Estados Unidos. Mas política à parte, hoje não me apetece falar de política. Vi ontem a segunda parte do jogo e vi o prolongamento, mais ou menos distraídamente, mas vi o suficiente para perceber ou para voltar a confirmar que o futebol atual é de uma pobreza extrema. Isso talvez seja dos jogadores serem criados e padronizados, tipo produção em massa em academias e não na rua como antigamente, ou talvez seja das famosas táticas que incutem medo aos desgraçados e impedem qualquer esboço de criatividade. Talvez haja outras causas adicionais que me escapam, não é um assunto que eu estude com grande pormenor. A verdade é que aquilo é um espetáculo que, como espetáculo, não é espetáculo nenhum. É um aborrecimento com gols ou sem gols, isso é natural que haja, não é por aí que aquilo melhora, mas é um aborrecimento em que uma data de sujeitos, em geral sem grande habilidade, gastam o tempo deles e gastam o tempo dos espectadores para que se vendam bilhetes e principalmente transmissões televisivas. E acho que acima de tudo, para que se fature bilhões em apostas. O futebol parece mais uma deixa para que isso aconteça, para que todos esses mercados aconteçam. E há uns dias, por acaso, o Rui Miguel Tóvar, que eu só conheço da televisão, perguntava: "E jogar à bola?" A propósito da capacidade técnica dos jogadores de hoje em dia. E jogar à bola, de facto, eles não jogam muito, por mais que para efeitos comerciais se faça um enorme rebuliço à volta de supostos génios. Há génios por toda a parte hoje em dia no futebol. E não há nenhum génio, obviamente, e génio será, se calhar nunca houve, porque será uma palavra excessiva para ser aplicada no futebol e no desporto. Mas já houve tempo em que determinados futebolistas mostravam um talento que no mínimo entretinha. Nas últimas décadas foram muito poucos, dois ou três ou quatro. Há umas décadas atrás havia mais, com certeza. E na altura eles conseguiam mostrar esse talento num contexto imensamente mais difícil que o de hoje, em que hoje os jogadores menos maus, aqueles que têm algum jeitinho, são protegidos durante toda a carreira. E hoje tudo ajuda que um indivíduo que saiba dar dois toques na bola, marque uma data de gols ao Iraque ou ao Botswana, ou quaisquer que são as equipas que vão ao mundial, que agora é praticamente o mundo inteiro, só falta o Vaticano. Antigamente, os indivíduos com muito mais jeito entravam no campo para serem caçados impunemente. Era isto que acontecia com bastante regularidade. E para os que acharam que ontem a Argentina, segundo eu ouvi falar, que de facto não joga nada de nada, foi demasiadamente violenta com a Espanha, que também não joga nada de nada, apetece-me referir uma coisa que nunca vi referida nos media portugueses, os quais de vez em quando lembram-se de glorificar a epopeia dos célebres Magriços. Foi o único terceiro lugar de Portugal na história dos mundiais, mas nunca referem um pequeno pormenor: o que os Magriços protagonizaram contra o Brasil, talvez o jogo mais violento da história dos Campeonatos do Mundo. Nunca vi um português falar nisso. Lá fora, nos registos é comum falar-se. E eu convido as pessoas que tiverem disponibilidade, se lhes apetecer, o jogo está na íntegra no YouTube, Portugal Brasil 1966, e depois de ver o jogo comparem com aquilo a que agora se chama violência nos relvados. E reparem acima de tudo no que acontece ao Pelé, que foi tratado a pontapés durante todo o jogo até acabar sem se conseguir mexer, mas sem ser substituído. Na altura não havia substituições ainda. E os seus agressores permaneceram em campo porque não havia cartões e porque sim. Faço uma exceção ao Eusébio, que não agrediu Pelé nem nenhum jogador brasileiro, acho eu, mas a generalidade dos jogadores portugueses não fizeram outra coisa. E até pelos padrões brutais daquela época, a pancadaria foi exagerada. Eu não sou muito de revisionismos históricos, nem costumo gostar deles, mas a gloriosa história que nos contaram sobre o mundial de 66 é em parte uma pouco gloriosa mentira. Eu não digo que a seleção portuguesa não jogasse bem, jogava muito melhor do que estes infelizes de hoje em dia, mas os que jogavam imensamente melhor que a seleção portuguesa não puderam nesse jogo jogar de todo, graças à porrada que levaram. E depois do jogo com Portugal, o Pelé até chegou a anunciar que não voltaria a participar num Campeonato do Mundo. Mas voltou a participar. Pelé e o Brasil jogaram em 1970 no Campeonato do México e foram igualmente sujeitos à violência, mas apesar de tudo conseguiram superá-la e mostraram um futebol que, perante a pasmaceira atual, dá muitas saudades. Hoje só vê com gosto de futebol quem nunca viu futebol e quem acha que cada reforço anunciado pelo jornal A Bola é um consumado craque. Hoje são todos craques. Se jogasse hoje contra estas florzinhas e contra o Uzbequistão, acho que o Pelé marcava 20 ou 25 gols por mundial. Pronto, isto é daquelas provocações, e é para participar também naquela discussão, quem é o melhor do mundo. Está toda a gente sempre a falar disso, também gostaria de dar a minha achega.
Faltou-te falar do Garrincha
Grande jogador. Quem dera o Garrincha. Mas há poucas filmagens do Garrincha, infelizmente.
Exato. Um abraço.
Haverá com o Pelé. Um abraço, meu caro. Até amanhã.
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