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Um pouco mais cedo. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Boa tarde.

E hoje vamos até à Nicarágua, onde Ortega resolve um problema chato: acaba com as eleições.

É verdade. E noto que o Ideias Feitas é um programa muito viajado, porque ontem fomos a Nova York, hoje vamos à Nicarágua. Parecemos uma agência de viagens. Mas deixa-me recuar cerca de 100 anos para evocar uma cantilena velha, muito velha, tão velha quanto as primeiras aplicações práticas dos princípios comunistas. Sempre que um país tem o azar de cair no comunismo, há sempre quem venha explicar, uns tempos depois, que o regime em causa não é o verdadeiro comunismo. Acontece que é sempre o verdadeiro comunismo, porque o comunismo é aquilo. E isto vem a propósito daquilo que acabaste de referir, da abolição das eleições na Nicarágua, que foi ordenada formalmente anteontem pelo senhor Daniel Ortega. E para os que não se lembram ou não chegaram a saber, o senhor Ortega foi o guerrilheiro líder da Revolução Sandinista, que em 1979 derrubou a ditadura de Somoza e por causa disso, os sandinistas foram na época muito apreciados por alegados agrupamentos punk como os Clash, que lhe dedicaram um disco triplo e outro agrupamento punk, sem dúvida, como o PCP, que lhes dedicou cerca de 50 mil artigos laudatórios no jornal "O Avante!". E na prática, o que o senhor Ortega fez foi salvar o país de uma ditadura brutal, que tinha um relativo sucesso econômico, para afundar o país numa ditadura brutal, com guerra civil e miséria generalizada. E depois ele chegou a ser presidente, depois perdeu eleições, depois há quase 20 anos retornou ao poder por via de eleições, curiosamente. Só que aproveitou, como há outros casos, há muitos casos, infelizmente, de pessoas que aproveitam a via eleitoral e a via democrática para consolidar o poder, para eliminar a oposição, para alterar leis, e agora formalizou o fim das eleições. O que realmente facilita muito as coisas, como referiste. E então consolidou a ditadura de uma vez por todas, pelo menos durante os próximos tempos, até ver, e o verdadeiro comunismo. E para justificar a abolição das eleições, isto é interessante, tem alguma graça, menos para os nicaraguenses, com certeza, mas o senhor Ortega serviu-se dos seguintes motivos: as eleições acabaram porque as eleições, no fundo, serviam apenas os golpistas. São traidores da pátria que atuam para derrubar o governo. Também é uma defesa contra os Estados Unidos, porque as eleições serviriam de instrumento para ingerência estrangeira e financiamento externo destinados a desestabilizar o país. Portanto, o país quer-se pacífico, quer-se estável, e o fim do processo eleitoral é a única forma de garantir essa paz e evitar essa instabilidade, que segundo ele, seria causada por essas forças inimigas, naturalmente dos Estados Unidos ou sobretudo dos Estados Unidos. E agora, a parte mais divertida é que o senhor Ortega classifica a oposição, literalmente, como antidemocrática, por, segundo ele, tentar contornar a vontade popular através da total apoio estrangeiro e, no fundo, através das eleições. Ou seja, as ações repressivas do governo e esta abolição das eleições são, portanto, medidas de defesa da democracia, e estou a citá-lo, e de defesa da soberania nacional contra esses supostos elementos desestabilizadores. Ou seja, para se defender a democracia, acabam-se com as eleições que as forças antidemocráticas exigem. E se isto não chega para provar que a Nicarágua do senhor Ortega é o verdadeiro comunismo, basta ver os aliados e os amigos que restam à Nicarágua para confirmarmos as suspeitas. É que já nem o Brasil do senhor Lula consegue suportar aquilo. Portanto, temos como amigo, aliado, companheiro de estrada da Nicarágua, do senhor Ortega, temos a Rússia, temos a China, temos Cuba, temos o Irã, temos a Coreia do Norte e eles têm, coitados. A Palestina, há um alinhamento diplomático total, há um interessante processo de elogios mútuos com o Hamas e temos, ou eles tinham, ou já não têm, a Venezuela até à queda do senhor Maduro. Desde aí as coisas mudaram. Portanto, tudo nações e organizações onde a escolha livre e popular não é particularmente apreciada, porque o grande inimigo do comunismo, e já vou terminar, Ricardo, o grande inimigo do comunismo é a democracia. A prática democrática, não a palavra, que como se fosse usada por George Orwell, é usada sem sentido e quase com cinismo até à exaustão pelos países que mais abominam a democracia. Não, eles enchem a boca com a palavra democracia, não enchem em realidade com a prática da democracia. O comunismo abomina a democracia, por isso abomina o berço da democracia que é o Ocidente, e por isso abomina, sobretudo, as duas democracias que hoje representam, com certeza ou muito provavelmente, isto está aberto à discussão, mas representam a maior e mais ativa resistência aos que cá dentro do Ocidente e lá fora do Ocidente, desejam a derrota desse mesmo Ocidente, que são os Estados Unidos e Israel. O verdadeiro comunismo é exatamente isso. E o engraçado, acho que vale a pena referir, é que o verdadeiro comunismo é muitíssimo parecido com o fascismo. Não o fascismo, entre aspas, que os comunistas usam para designar todos os opositores, como nós conhecemos aqui em Portugal, mas o verdadeiro fascismo. Ou seja, o verdadeiro comunismo e o verdadeiro fascismo são muito difíceis de distinguir.

Obrigado, Alberto, e até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.

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