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O avançado despede-se da Seleção Nacional com um Europeu e duas Ligas das Nações no palmarés
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▲O avançado despede-se da Seleção Nacional com um Europeu e duas Ligas das Nações no palmarés

FIFA via Getty Images

▲O avançado despede-se da Seleção Nacional com um Europeu e duas Ligas das Nações no palmarés

FIFA via Getty Images

O timing da suspensão, a certeza de que JJ não ia cair, ainda o corte decisivo com Jorge Mendes: como é que Cristiano Ronaldo chegou aqui?

O adeus precipitou-se com a colisão com Jorge Jesus, mas a montanha-russa começou no Qatar e na ausência de Jorge Mendes. Em meses, o impensável apressou-se. Mas como é que Ronaldo chegou aqui?

Cristiano Ronaldo deixou a Seleção Nacional. 23 anos depois, com um Europeu e duas Ligas das Nações no palmarés, com centenas de internacionalizações e golos, o jogador mais importante da história do futebol português vai deixar de vestir a camisola de Portugal. O facto é o facto, porque ninguém é eterno. A explicação para o facto, porém, poderia ter sido evitada.

“A maior vitória foi ter merecido representar o melhor país do mundo”: Cristiano Ronaldo deixa a Seleção Nacional

A decisão do capitão da Seleção Nacional surge na véspera da convocatória de Jorge Jesus para a próxima dupla jornada da Liga das Nações — uma convocatória que iria incluí-lo, já que a suspensão consequente do abandono do estágio de Copenhaga terminou na semana passada. Cristiano Ronaldo antecipou-se, nada comunicou ao selecionador nacional e limitou-se a informar Pedro Proença antes de publicar um longo vídeo nas redes sociais.

Aos 41 anos, o avançado despede-se envolto numa polémica com um selecionador nacional que ele próprio aprovou há poucos meses, na sequência do Campeonato do Mundo. Pelo meio, houve a desconhecida despedida contra o País de Gales em Alvalade, a meia-hora a aquecer sem entrar contra a Noruega e a longa carta que tudo explicava sem nada explicar. Certo é que, sem que se saiba se ainda aceitará uma derradeira homenagem na Seleção Nacional, Cristiano Ronaldo colocou um ponto final num dos capítulos mais relevantes da carreira.

▲ O último instante de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional: o momento em que coloca a braçadeira a Bruno Fernandes antes de sair contra o País de Gales

Getty Images

A carta que está escrita há meses, a conversa no avião e o plano decidido a dois

O filme do adeus de Cristiano Ronaldo à Seleção Nacional começou a ser contado por ele próprio, há cerca de um mês, na longa carta que divulgou na sequência do abandono do estágio em Copenhaga, antes do jogo contra a Dinamarca e depois do jogo contra a Noruega. “Após o Mundial 2026 preparei uma carta aos portugueses, que ainda guardo, com as palavras que lhes quero dirigir quando abandonar, definitivamente, a nossa equipa”, escreveu na altura. A carta foi lida esta quinta-feira.

Para explicar como é que chegámos aqui, como é que Cristiano Ronaldo mudou de ideias no espaço de quatro meses, é preciso voltar precisamente a esse pós-Campeonato do Mundo. Tal como o próprio jogador revelou na mesma carta, Pedro Proença abordou-o ainda no avião de regresso dos EUA e pediu-lhe que reponderasse a decisão de deixar o futebol internacional, garantindo que a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) queria continuar a contar com o capitão.

Conversas em agosto, mudança em Oslo, ameaça na véspera, “traição” e equívocos: como o “caso-não caso” se tornou o fim de Ronaldo na Seleção

Na mesma conversa, o presidente do organismo pediu uma opinião sobre Jorge Jesus — afinal, o principal candidato à sucessão de Roberto Martínez tinha acabado de ser campeão na Arábia Saudita com Cristiano Ronaldo e João Félix. O capitão não teve grandes pruridos em defender que era a escolha acertada, que o sucesso no Al Nassr podia ser replicado em Portugal, que o treinador era o homem indicado para devolver à seleção portuguesa a competitividade que não tem tido nos últimos Europeus e Mundiais.

Jorge Jesus foi contratado e a ideia de que Cristiano Ronaldo tinha sido essencial para essa escolha nunca foi um simples acesso de lógica. Mais do que um treinador, Pedro Proença tinha contratado um elo de ligação numa altura em que o capitão estava a ponderar deixar a Seleção Nacional. Afinal, Jesus tinha ido para a Arábia Saudita por pedido expresso de Ronaldo, a temporada tinha corrido bem aos dois e a relação entre ambos estava bem para lá de positiva. Com uma única decisão, aparentemente, Pedro Proença tinha resolvido dois problemas.

Para explicar como é que chegámos aqui, como é que Cristiano Ronaldo mudou de ideias no espaço de quatro meses, é preciso voltar precisamente a esse pós-Campeonato do Mundo. Tal como o próprio jogador revelou na mesma carta, Pedro Proença abordou-o ainda no avião de regresso dos EUA e pediu-lhe que reponderasse a decisão de deixar o futebol internacional, garantindo que a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) queria continuar a contar com o capitão.

Dias depois do anúncio oficial de Jorge Jesus como novo selecionador nacional, o treinador fez um primeiro contacto com Cristiano Ronaldo. Pediu-lhe uma conversa a dois, um encontro pessoal, mas informal, para abordarem o futuro que ambos poderiam construir, sempre em conjunto, na Seleção Nacional. A reunião aconteceu, na Cidade do Futebol onde o Al Nassr estava a estagiar, e Jesus foi muito claro: contava com Ronaldo, queria convocá-lo para os quatro jogos da Liga das Nações e já tinha um plano de gestão física, propondo utilizar o jogador no primeiro e no último encontro, contra País de Gales e Noruega, e poupá-lo nos dois do meio, também contra a Noruega e contra a Dinamarca.

Na altura, o selecionador nacional chegou mesmo a sugerir que o avançado poderia ficar em Portugal entre o primeiro jogo e o último, ou seja, saltar a viagem para a Escandinávia e realizar apenas os encontros em Alvalade e no Dragão. Cristiano Ronaldo recusou — e a testemunha disso mesmo é Simão Coutinho, diretor desportivo do Al Nassr que na última temporada trabalhou com os dois, que acabou por marcar presença na reunião. Dias antes da concentração na Cidade do Futebol, já com a convocatória feita, Jorge Jesus visitou a casa do jogador e todos os pressupostos ficaram reiterados.

A conferência de imprensa que trouxe a humildade inesperada — e já contrariada

No final de setembro, portanto, tudo parecia perfeito na Federação Portuguesa de Futebol. Jorge Jesus tinha sido contratado e agradava a uma larga mancha da opinião pública, Cristiano Ronaldo tinha deixado de lado a carta de despedida e a ideia de abandonar a Seleção Nacional, e o mundo do futebol estava reunido na Cidade do Futebol para o Portugal Football Summit, um mega evento de vários dias por onde passaram jogadores, treinadores, dirigentes, administradores e jornalistas.

Aproveitando o cenário e a presença de milhares de pessoas em Oeiras, a Federação Portuguesa de Futebol decidiu repaginar a habitual conferência de imprensa de antevisão dos jogos e marcou a estreia de Jorge Jesus no momento para o próprio Portugal Football Summit, num auditório com a presença dos jornalistas, mas também de todos os participantes no evento que quisessem assistir. Ao lado do selecionador nacional, como não podia deixar de ser, apareceu Cristiano Ronaldo.

▲ Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo trabalharam juntos durante um ano na Arábia Saudita, onde foram campeões com o Al Nassr

AFP via Getty Images

O momento foi leve, até bem disposto, com o jogador a mostrar-se disponível para tudo o que o selecionador nacional quisesse e o selecionador nacional a retribuir com os típicos elogios. “Tudo o que o mister precisar, eu estou disponível. Seja para jogar, seja para entrar, seja para não jogar… Ninguém tem mais internacionalizações do que eu, venho porque quero ajudar na Seleção. Sei que o mister conta comigo e não estou aqui pelo currículo, mas pelo que faço no clube”, disse Cristiano Ronaldo.

O momento era raro ou até inédito. Cristiano Ronaldo estava a admitir que iria aceitar ser suplente ou até ficar na bancada, o que significava que tinha aceitado os argumentos de Jorge Jesus e estava preparado para ser titular contra o País de Gales e a Noruega, em Alvalade e no Dragão, e não ser utilizado na Escandinávia, contra a Noruega e a Dinamarca — mesmo viajando com a equipa e mantendo-se totalmente integrado no estágio.

Tudo começou bem. O avançado foi titular contra o País de Gales, teve um golo anulado por fora de jogo e desperdiçou duas boas oportunidades, foi substituído já na segunda parte e Portugal ganhou com um golo solitário de João Félix. Aqueles 67 minutos em Alvalade, aquela partida que para ele acabou com a passagem da braçadeira de capitão a Bruno Fernandes, foi o último suspiro de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional. A partir daí, mesmo que ainda ninguém soubesse na altura, a montanha-russa só conheceria o sentido descendente.

A meia-hora a aquecer em Oslo, a discussão em Malmö, o impensável em Copenhaga

A comitiva da Seleção Nacional partiu para Oslo, tendo em vista o jogo contra a Noruega na segunda jornada da Liga das Nações, e Cristiano Ronaldo também viajou — tal como combinado e mesmo sabendo que provavelmente não iria jogar, preocupando-se apenas com a recuperação física para o encontro de aí a uns dias novamente contra os noruegueses, no Dragão. Segundo a longa carta do jogador há um mês, a ideia de que o plano tinha sido alterado aconteceu já no próprio dia do jogo.

"Tudo o que o mister precisar, eu estou disponível. Seja para jogar, seja para entrar, seja para não jogar… Ninguém tem mais internacionalizações do que eu, venho porque quero ajudar na Seleção. Sei que o mister conta comigo e não estou aqui pelo currículo, mas pelo que faço no clube."
Cristiano Ronaldo, em setembro, antes do jogo contra o País de Gales

“À hora de almoço do dia do jogo na Noruega, um adjunto do selecionador veio à mesa onde o grupo estava a almoçar e informou-me que o selecionador me queria falar. Para minha absoluta surpresa, o selecionador perguntou-me se estava bem para jogar 30 minutos. Eu estava totalmente focado na minha recuperação física, integrado com os meus companheiros como sempre e a pensar que não jogaria naquele dia. Sem nenhum problema. Este pedido era algo fora do meu plano de recuperação física e de treino – porque apenas iria jogar dia 4 no Dragão – mas obviamente disse que sim. Respondeu-me que então estivesse preparado porque jogaria 30 minutos”, escreveu.

O que aconteceu naquele dia 27 de setembro, como se sabe, precipitou uma sucessão de acontecimentos que culminou nesta quinta-feira. Portugal venceu a Noruega com golos de João Félix e Gonçalo Ramos e Cristiano Ronaldo, que passou grande parte do segundo tempo a realizar exercícios de aquecimento, não chegou a entrar em campo. Depois do apito final, não cumprimentou os adeptos portugueses que estavam no estádio e saiu diretamente para o balneário, provocando o primeiro capítulo de um filme que agora parece estar a chegar ao fim.

Ronaldo não treinou com a equipa no dia seguinte ao jogo, subindo sozinho ao relvado já depois do final da sessão, e conversou com Jesus já em Malmö sobre o que tinha sentido naquela segunda parte em Oslo — novamente com a presença de Simão Coutinho. Num momento que descreveu mais tarde como “profundo, muito frontal, sem qualquer tipo de filtro”, o jogador disse ao selecionador que tinha faltado ao prometido, que tinha quebrado a palavra, que a relação de confiança entre ambos estava agora beliscada. Mais: que estava a ponderar abandonar de imediato o estágio da Seleção Nacional.

Informado da gravidade do caso, Pedro Proença antecipou e mudou a viagem para Malmö, já que tinha planeado juntar-se à comitiva apenas em Copenhaga e para assistir ao próximo jogo depois de acompanhar o apuramento dos Sub-21 para o Campeonato da Europa do escalão em São Miguel, nos Açores, contra Gibraltar. Quando o presidente da FPF chegou, porém, Ronaldo e Jesus já tinham chegado a um aparente acordo: o selecionador iria pedir desculpa na conferência de imprensa do dia seguinte, esvaziando o tema e elencando uma série de pontos que ficaram por escrito num documento aprovado pelo jogador e posteriormente entregue ao treinador, que reuniu a três com Simão Coutinho e Tiago Craveiro, ex-CEO e diretor-geral da FPF que é consultor estratégico da UEFA e consultor estratégico da holding da CR7, S.A.

▲ Contra a Noruega, Cristiano Ronaldo aqueceu durante mais de meia-hora na segunda parte, mas nunca chegou a entrar

DeFodi Images via Getty Images

As notas, como se soube posteriormente, colocavam Jorge Jesus numa posição absolutamente subjugada: entre outros sete pontos, tinha de assumir que errou “ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo”, acrescentando que “se fosse hoje não o faria”, desvalorizando ainda o facto de Cristiano Ronaldo não ter cumprimentado os adeptos depois do final do jogo e assegurando que queria o capitão na Seleção Nacional, não “pouco”, mas “muito”. No dia da conferência de imprensa, numa conversa a três, tanto Proença como Jesus garantiram a Ronaldo que queriam continuar a contar com ele.

Mas Jorge Jesus, como se sabe, não só não pediu desculpa como não verbalizou nenhum dos pontos do documento — limitando-se a explicar novamente que o plano para Cristiano Ronaldo já tinha sido previamente delineado, reconhecendo que não deveria ter colocado o jogador a aquecer durante tanto tempo e deixando uma brutal posição de força. “As regras são iguais para todos. O estatuto significa apenas o respeito pela carreira de um jogador, mas quem decide sou eu. Os jogadores sabem, toda a gente sabe. No clube manda um presidente. Na equipa mando eu”, vincou já em Copenhaga, antecipando desde logo que Gonçalo Ramos seria titular no dia seguinte e que Cristiano Ronaldo iria treinar daí a poucos minutos.

Não aconteceu. Quando chegou ao relvado do Parken, Jorge Jesus percebeu que algo se passava e passou algum tempo ao telefone, de semblante carregado, antes de falar à RTP e à SportTV com um tom já muito mais comedido do que o apresentado na conferência de imprensa. Quase simultaneamente, com o selecionador nacional a correr em direção ao balneário a dada altura, Cristiano Ronaldo deixou o estádio numa carrinha preta com o logótipo da FPF no vidro. Pedro Proença e Jesus ainda foram atrás do capitão e internamente ainda se alimentou a esperança de que o jato privado que entretanto já tinha chegado à Dinamarca viajasse para Madrid vazio, mas bastaram três parágrafos para o ponto final.

“Após a conferência de imprensa do Selecionador Nacional, e no seguimento de uma conversa com o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional. A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei. Agora é tempo de desejar boa sorte a Portugal e a todos os meus companheiros de equipa, sem exceção”, escreveu no Instagram. Cristiano Ronaldo tinha oficialmente deixado o estágio da Seleção Nacional.

As notas, como se soube posteriormente, colocavam Jorge Jesus numa posição absolutamente subjugada: entre outros sete pontos, tinha de assumir que errou "ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo", acrescentando que "se fosse hoje não o faria", desvalorizando ainda o facto de Cristiano Ronaldo não ter cumprimentado os adeptos depois do final do jogo e assegurando que queria o capitão na Seleção Nacional, não "pouco", mas "muito".

As reações sucederam-se, até porque a FPF foi deixada numa posição em que se limitou a confirmar a saída do jogador ao invés de a anunciar, e as explicações amontoaram-se. Do lado de Jorge Jesus, era veiculada a ideia de que o selecionador nacional acreditava que, à sua maneira e através do seu estilo muito particular de comunicar, tinha mesmo assumido o erro na conferência de imprensa. Do lado de Cristiano Ronaldo, surgia um cenário em que o selecionador nacional tinha faltado com a palavra ao capitão, não só durante o jogo como na conferência de imprensa já depois da reunião, e que a relação entre os dois estava definitivamente quebrada.

“Houve uma reunião na terça-feira à noite. Jorge Jesus pede desculpas ao Cristiano pela desconsideração ao pô-lo a aquecer durante 30 minutos e não o colocar a jogar. Não só lhe pede desculpas em privado, como também lhe diz que vai pedir desculpas publicamente, que vai dizer publicamente que se equivocou. É a promessa do Jorge Jesus ao Cristiano. Depois vai para a conferência de imprensa e diz esta quantidade de mentiras em que ninguém acredita. Por isso é que o Cristiano explode, porque se sente traído. Por isso é que digo: traição”, disse Edu Aguirre, jornalista espanhol do El Chiringuito, que é amigo próximo do jogador.

“Estarei disponível como sempre para competir por Portugal”: o longo comunicado de Ronaldo a quebrar o silêncio

Dias depois, numa altura em que já se antecipava uma nova entrevista a Piers Morgan depois da conversa explosiva que culminou com a saída do Manchester United e ida para a Arábia Saudita em 2022, Cristiano Ronaldo surpreendeu e reagiu através de uma longa carta. Para além de oferecer toda a cronologia dos acontecimentos, revelando ainda o tal documento de oito pontos que Jorge Jesus deveria ter lido antes do jogo com a Dinamarca, o capitão deixou uma ideia muito clara: não queria abandonar desde já a Seleção Nacional.

“Se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos, espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção. Esta é, acreditem, a mais pura das verdades”, atirou, sendo que ao longo das várias páginas fez várias acusações ao selecionador nacional. O estágio tinha acabado, Portugal garantiu a qualificação para os quartos de final da Liga das Nações com quatro vitórias em quatro jornadas e Jorge Jesus só foi confrontado com a carta à saída de casa, pelos jornalistas, garantindo que ainda não a tinha lido.

▲ O capitão da Seleção Nacional não treinou no dia seguinte ao jogo com a Noruega, aparecendo sozinho no relvado já depois da sessão

NurPhoto via Getty Images

Nos bastidores, contudo, a polémica adensou-se e subiu de tom. Carlos Padrão, amigo próximo de Jorge Jesus, acusou diretamente o entorno de Cristiano Ronaldo de ter ameaçado o selecionador nacional. “Se foi o Tiago Craveiro a agravar a situação? Sim, agravou muito, quando liga para alguém da entourage do Jorge Jesus a dizer que ou faz um pedido de desculpas público a abrir a conferência de imprensa ou vai cair, vai ser demitido. Houve aqui uma ameaça velada, claro. Fazem falta amigos ao Ronaldo, não empregados. Não foi uma ameaça diretamente ao Jorge Jesus, foi ao telefone, mas não foi diretamente com ele. Não há muitas pessoas à volta de Jorge Jesus para fazer esse tipo de pressão, a mim não foi de certeza… Se foi ao advogado, Luís Miguel Henrique? Provavelmente, é uma das pessoas que trabalha com ele…”, disse na SIC Notícias, questionando ainda a presença de Simão Coutinho em todas as reuniões do processo.

Na mesma entrevista, Carlos Padrão deixou ainda uma dica que é transmitida por muitas das pessoas que gravitam à volta da FPF. “Faltou quem lhe tivesse posto a mão em cima, a dizer para ir dormir, ir descansar, e amanhã conversamos com calma com o treinador”, defendeu. A ideia que vai surgindo é de que desde que cortou relações com Jorge Mendes, em 2022 e na antecâmara do Mundial do Qatar, Cristiano Ronaldo perdeu essa figura que o aconselhava e até limitava a capacidade de explosão. Esse afastamento do agente de sempre, uma espécie de figura paternal que guiou e conduziu toda a carreira do jogador, explica muito do que aconteceu no Qatar com Fernando Santos e agora com Jesus em Copenhaga.

“Ou faz um pedido de desculpas público ou vai cair”: amigo de Jesus diz que Tiago Craveiro deixou ameaça velada a entourage de Jesus

O aviso de Elma e o adeus antecipado de quem achava que ia ter até março para pensar

Cristiano Ronaldo regressou a Riade e o assunto esfriou durante algumas semanas, até porque era preciso esperar pela decisão do Conselho de Disciplina da FPF para fazer projeções e previsões para o futuro. Pelo meio, porém, surgiu uma declaração que terá passado ao lado de muitos, interpretada como uma espécie de fait divers, mas que se torna agora brutalmente pertinente.

“Está mais para não do que sim. Acho que ambos estão magoados, foi uma situação que eles viveram, não eu, falo pelo meu irmão. Acho que é uma situação que está ali estancada, vamos ver o que vai dar. Pazes? Não sei, é muito complicado. Quando somos traídos… Depois para voltar ao normal é muito complicado. A minha posição é de tristeza, porque o povo português infelizmente esquece-se do que já foi feito e acham que no presente devia ser feito de outra forma. Até fico sem palavras, é muito complicado ver o meu irmão passar por isto. Ele é das pessoas que menos merecia”, disse Elma Aveiro, irmã de Cristiano Ronaldo, à margem da apresentação de um livro em Lisboa.

A ideia que vai surgindo é de que desde que cortou relações com Jorge Mendes, em 2022 e na antecâmara do Mundial do Qatar, Cristiano Ronaldo perdeu essa figura que o aconselhava e até limitava a capacidade de explosão. Esse afastamento do agente de sempre, uma espécie de figura paternal que guiou e conduziu toda a carreira do jogador, explica muito do que aconteceu no Qatar com Fernando Santos e agora com Jesus em Copenhaga.

Meses antes, ainda durante o Campeonato do Mundo e antes de toda a polémica, também Kátia Aveiro tinha abordado o futuro do irmão na Seleção Nacional, defendendo que aquela seria a “last dance” e que dificilmente Cristiano Ronaldo voltaria a disputar um Mundial. Como se soube depois, até com o jogador a assumir que escreveu uma carta de despedida depois dos EUA, Kátia tinha razão. Agora, há várias semanas, Elma também tinha razão.

Dias depois das declarações da irmã de Cristiano Ronaldo, o Conselho de Disciplina da FPF anunciou o castigo do capitão por ter abandonado o estágio da Seleção: um mês de suspensão e 255 euros de multa, sendo que já tinha cumprido parte do castigo de forma preventiva e só estaria afastado até 30 de outubro. Ou seja, estava completamente disponível para ser convocado esta sexta-feira, dia 6 de novembro, para a próxima dupla jornada da Liga das Nações.

A “bomba” que começou a circular, a convocatória que Ronaldo não queria e de que JJ não abdicava, a despedida que é uma incógnita

É este timing que acaba por precipitar tudo. O vídeo de despedida publicado esta quinta-feira, o longo vídeo de despedida, é mais nostálgico do que explicativo, mais romântico do que noticioso, e acaba por não detalhar praticamente nada sobre o que levou Cristiano Ronaldo a tomar a decisão de deixar a Seleção Nacional. O timing, porém, acaba por obrigar a um exercício óbvio de lógica. Jorge Jesus iria convocar Cristiano Ronaldo esta sexta-feira, colocando nas mãos do jogador a decisão de comparecer ou não na Cidade do Futebol para os jogos contra Dinamarca e País de Gales a contar para a Liga das Nações — e Cristiano Ronaldo optou por não recusar a convocatória, colocando-se desde logo de fora das opções.

Na verdade, o jogador do Al Nassr foi surpreendido pela celeridade com que foi confrontado com a decisão — até porque, como já referido, tinha dito na longa carta do início de outubro que estaria “disponível, como sempre esteve até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção” depois “do cumprimento da suspensão que for aplicada”. A chave está aí, no “a seguir ao cumprimento da suspensão que for aplicada”. Para Cristiano Ronaldo, a suspensão consequente do abandono do estágio iria sempre deixá-lo de fora da convocatória desta sexta-feira — ou seja, adiaria para março, a próxima data da FIFA, a decisão de Jorge Jesus de o convocar e a sua própria decisão sobre aceitar ou não a convocatória ou colocar-se desde logo de fora das opções. O Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, contudo, trocou-lhe as voltas.

▲ Pedro Proença tentou mediar a relação entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo, mas o filme acabou com o abandono do jogador

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Esta sexta-feira, Jorge Jesus poderia convocar o jogador do Al Nassr sem qualquer problema ou inibição. Ora, defendendo que passou pouco tempo desde o desencontro de ideias no último estágio e demonstrando-se incapaz de regressar aos trabalhos da Seleção com a atual equipa técnica — até porque o selecionador nacional nunca chegou a reagir ou responder à tal longa carta, que incluía acusações de “quebra de palavra”, muito menos fez o tal pedido de desculpas público –, Ronaldo acabou por optar pelo abandono, evitando a situação ainda mais desconfortável de recusar a convocatória.

Do lado da Federação Portuguesa de Futebol, o plano sempre foi contar com Cristiano Ronaldo no próximo estágio. O jogador do Al Nassr não queria voltar desde já à Cidade do Futebol, algo que comunicou de forma clara a Pedro Proença e que o presidente do organismo transmitiu a Jorge Jesus, mas o selecionador nacional recusou o cenário de não o incluir na convocatória e garantiu que, reunidas as condições físicas necessárias, iria sempre chamar o capitão. O plano para esta quinta-feira, véspera da convocatória, incluía até uma chamada telefónica entre Ronaldo e Jesus, sempre mediada por Proença, que acabou por não acontecer — sendo que o jogador nem sequer pretende falar com o treinador.

Antes de publicar o vídeo nas redes sociais, Cristiano Ronaldo informou Pedro Proença de que tinha tomado a decisão de deixar a Seleção Nacional. A Federação Portuguesa de Futebol mantém a intenção de fazer um derradeiro tributo ao capitão, algo que também fica claro no comunicado publicado no site oficial do organismo, mas os contornos dessa homenagem ainda estão por delinear. Até porque, por agora, Cristiano Ronaldo não quer mesmo fazer um último jogo de despedida.

Assim, a última palavra pertence por agora a Jorge Jesus, que em declarações ao Canal 11 a partir da Cidade do Futebol deixou uma despedida. “Tudo isto é uma decisão dele. Nós já tivemos a oportunidade de falar sobre isto antes da primeira convocatória. Eu pedi-lhe para continuar, para continuar comigo, porque precisava que ele estivesse ao pé de mim. Mas tenho de aceitar a decisão dele. É uma referência mundial, uma referência de Portugal, uma referência da Seleção. É um jogador que ao longo destes anos deu muito à Seleção. É um símbolo para a juventude portuguesa, a maior parte dos fãs dele são jovens. Ele vai ser sempre uma referência da nossa Seleção, do nosso povo, da nossa história. Vai estar sempre no coração dos portugueses, na Seleção, e não há volta a dar porque ele será sempre uma referência do futebol português”, disse o selecionador nacional.

[Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes de Rosalina Ribeiro ser assassinada. Tinha encontro marcado com a milionária no Rio de Janeiro mas aterra em Belo Horizonte. Na reconstituição dos movimentos dele, a polícia percebe que o advogado nunca usou o telemóvel pessoal no Brasil. Mas foram detetados contactos a partir de dois telefones portugueses e um suiço. Um deles liga várias vezes para a casa da milionária. Já pode ouvir o terceiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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