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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Obrigado.

E hoje quero falar ainda do caso Inês Bichão, Cotrim Figueiredo.

Eu sei que não tenho falado muito das eleições presidenciais, mas hoje é a última hipótese que tenho de o fazer antes do fecho das urnas, pelo menos em público, e por isso vou falar das eleições presidenciais e mais especificamente desse caso, que é o tema que tem dominado estes dias finais de campanha. A última semana de campanha, enfim. Antes de mais, eu esclareço, não sei se essas coisas se podem dizer, mas eu decidi não votar de todo na primeira volta. Na segunda volta, logo verei. E também acrescento, para provar a minha extraordinária objetividade para o que vou dizer a seguir, que em geral acho o João Cotrim Figueiredo um liberal, como ele se diz constantemente, mas que na maioria das situações parece recear as consequências do liberalismo. E acho que em particular, no caso desta acusação de assédio que uma senhora lhe fez, as suas reações não foram politicamente as mais adequadas. Não sei se humanamente foram as mais adequadas ou as inevitáveis, se calhar foram. E dito isto, acho que posso passar a sublinhar ou a notar dois ou três pontos. O primeiro ponto é que é notável a origem deste caso, deste suposto escândalo, se resumir a um texto no Instagram e ainda por cima vedado a alguns amigos, ao que dizem. Porque por um lado, passa-se a vida a jurar que as redes sociais são um poço de desinformação e fake news. E depois, num instante, muda-se o discurso para se acreditar piamente e cegamente numa coisinha muito específica que apareceu nas ditas redes sociais. O segundo ponto é que me parece estranho que a senhora que acusa o João Cotrim Figueiredo, a doutora Inês Bichão, tenha uma formação tão sólida na área do direito e os registos da acusação, até ver, sejam tão pouco sólidos. Quer dizer, até agora não os conhecemos tudo. Do que conhecemos ou do que sabemos, sabemos que a senhora não se queixou à polícia, mas sim, segundo ela, à própria Iniciativa Liberal. E ainda não apareceu uma prova dessa queixa, que a existir, nem sequer ponho a possibilidade de que uma jurista tão credenciada não possua. E também sabemos que uma autora de um livro sobre violência sexual diz que em 2024, durante uma sessão da Feira do Livro, justamente para lançar essa obra, foi interpelada pela doutora Inês Bichão em lágrimas. E sabemos, ou julgamos saber, que a autora de um livro que alerta para o perigo do silenciamento destas histórias não quebrou o silêncio junto das autoridades competentes e também acho isso esquisito. Tudo somado, quer isto dizer que a doutora Inês Bichão está a mentir? Quer dizer, claro que não, mas também não há nada aqui que garanta que ela está a dizer a verdade. E o mesmo vale para o João Cotrim Figueiredo, que tanto pode estar a dizer a verdade como pode estar a mentir. Só não há equidistância porque o acusado é ele e por isso é ele que devia beneficiar da presunção de inocência. A acusação é que tem que provar o crime. Não será o crime mais medonho do mundo, mas assédio sexual constitui um crime e é assim que o temos de entender. E até ver, a acusação não provou crime nenhum. Admito que seja difícil provar uma coisa desta natureza, mas, por outro lado, é completamente impossível a João Cotrim Figueiredo provar o contrário. Como é que se prova que não se assediou alguém? Parece-me que não há hipótese nenhuma. Se a verdade estiver do lado da doutora Inês Bichão, haverá com certeza oportunidade para que ela a demonstre e de preferência em tribunal. E a justiça acabará por se impor. Se a verdade estiver do lado do João Cotrim Figueiredo, há um risco elevado de que antes de ser clarificado este caso, o caso já tenha comprometido a sua campanha presidencial e, quem sabe, a sua carreira política. E aí, com ou sem tribunais, nunca chegará a haver propriamente justiça. Por isso, à cautela, o ideal é que quem pensava votar nele o faça na mesma, sem se deter por causa deste caso. De resto, em matéria de vergonhas que desclassifiquem um sujeito para ser presidente há, por exemplo, um outro candidato, e já falei aqui disso, que possui uma profunda admiração por Fidel Castro e nem foi preciso ir a tribunal, ele próprio confessou espontaneamente essa admiração. E isso é capaz de ser mais grave do que uns piropos ordinários, que também são alegados, nós não sabemos se existiram. Entretanto, bom fim de semana, Ricardo, e um grande abraço.

Bom fim de semana, Alberto. E domingo é dia de eleições. Um bom fim de semana.

Obrigado, Ricardo.

O Ideias Feitas conta com o apoio do Azeite de Lisman.