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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Boa tarde, Alberto.

Olá, boa tarde.

Hoje queres falar de saúde, queres falar do SNS e dos problemas que se têm registado nos últimos dias, principalmente nos serviços de obstetrícia, sabendo que vão continuar esses problemas durante os próximos dias. O Governo está à procura de soluções, mas é sobre isto que queres falar e também da debandada de profissionais do SNS.

Sim, nós andamos nos últimos dois anos e meio, praticamente, a ouvir dizer que precisávamos de salvar o SNS e muita boa parte da motivação que alimentava as restrições da Covid, ou a propósito da Covid, vinha dessa necessidade de salvar o SNS. Eu sempre achei um bocado estranho que fossem os cidadãos a ter que salvar o SNS e não o SNS, um serviço médico, a poder salvar os cidadãos. Mas, enfim, nesse aspecto estranhava-se um bocado. A verdade é que não se salvou. Independentemente, ou contando, ou independentemente, apesar de todas as restrições, apesar de todos os confinamentos, apesar de todas as medidas, nem se impediu que Portugal fosse hoje o terceiro ou quarto país do mundo nestes dois anos, tudo somado, com mais casos de Covid por milhão de habitantes, nem se salvou o SNS. E não salvou o SNS, porque o problema talvez tenha sido algo agravado pela Covid, mas o problema não nasceu com a Covid. O problema do SNS é um problema que é estrutural, com certeza, e no caso conjuntural dos governos do doutor Costa, que o agravaram deliberadamente, diria, porque houve uma visão ideológica do Serviço Nacional de Saúde que levou a que, por exemplo, eu sei que é um exemplo um bocado batido, mas é um exemplo pertinente, que é o Hospital de Braga, que tinha uma PPP com o grupo José de Mello, salvo erro, e que era considerado o melhor hospital do país, hoje é um dos hospitais que não tem condições para funcionar em todas as áreas, nomeadamente na de obstetrícia. E há muitos outros hospitais do país que estão nas mesmas situações. Não são apenas algumas especialidades, como ginecologia, que estão com dificuldades. As dificuldades são genéricas. Há umas áreas mais graves do que outras, ou em piores condições do que outras, apenas porque são especialidades em que há menos especialistas. Só por isso. Mas todos os dias nós temos notícia, ou todas as semanas, pelo menos, temos notícia do serviço de urgência do hospital X que vai ter que fechar uns dias ou que esteve fechado. Temos notícias da especialidade Y que não está a funcionar no hospital não sei onde. Neste fim de semana, claro que isso tudo se juntou e se agravou e foi mais noticiado porque, por falta de profissionais, pelos vistos, ou possivelmente pela falta de profissionais, há que ter algum cuidado nestas coisas, houve a morte de um bebê no Hospital das Caldas da Rainha. Mas a questão vem muito antes deste fim de semana, é muito anterior a este fim de semana, vai ser muito posterior a este fim de semana e é muito anterior também à Covid e vai ser muito posterior à Covid. É uma questão absolutamente, repito, ideológica. Temos um governo que, por prezar o socialismo, uma visão socialista da sociedade, despreza as parcerias público-privadas e despreza a iniciativa privada e essa coisa medonha que é o lucro e, portanto, tem feito tudo para afastar do SNS qualquer influência maligna dos hospitais privados ou da iniciativa privada em matéria de saúde. E, naturalmente, está a acontecer o que não podia deixar de acontecer. Ou seja, por um lado, genericamente, onde o socialismo mete a sua patinha, as coisas começam a funcionar mal e, por outro lado, como isto ainda não é um regime absolutamente socialista ou sem alternativas, os médicos e os enfermeiros estão a fugir como podem e para onde podem. Acho que nos últimos dois anos e pouco, houve 2500 profissionais de saúde que saíram do SNS. Alguns irão para o setor privado aqui em Portugal, outros emigrarão, com certeza, outros farão o que muito bem lhes apetecer. Agora, o que eles não querem é continuar num serviço que, independentemente daquelas questões corporativas, é um serviço onde não se sentem reconhecidos, apesar do doutor Costa lhes ter oferecido aquela final da Liga dos Campeões. Nisto há alguma ingratidão da parte da classe médica. Mas apesar disso, eles preferem, se calhar, do que ter uma Liga dos Campeões, ou a final da Liga dos Campeões, preferem ter melhores salários e melhores condições de trabalho. E havendo essa possibilidade, eles aceitam, com certeza, abraçam tão depressa quanto possível. Dito isto, temos um governo que, como foi o próprio governo e foi por uma visão coletivista e estatista das coisas que provocou isto, é natural que o governo não tenha muito a dizer. E é natural que o doutor Costa nem coloque a possibilidade de demissão da senhora ministra, que há muito que já não podia estar em funções. Apesar de tudo, é a ministra mais popular do governo e, portanto, isto mostra também como os portugueses não estão assim tão preocupados com as questões de saúde. Uma coisa era preocuparem-se com a Covid, que era a coisa mais terrível do mundo. Agora, se uma grávida pode ter um parto em condições decentes ou isso, parece um assunto somenos para a maioria dos portugueses, que continuam a achar a doutora Marta Temido uma ministra Muito estimável. E depois temos também um Presidente da República que parece, ou parece haver formalmente, mas é um Presidente da República que diz que convém não dramatizar estas coisas e que isto foi uma coisa pontual, ignorando tudo o que vem de trás e tudo o que virá para a frente nesta matéria. Temos um Presidente da República que serve de uma espécie de porta-voz do governo ou de diretor de marketing do governo, pelo menos faz um biscate nesse sentido. E para terminar, Miguel, o que temos é um país a cair aos bocados. É curioso, ou talvez até irónico, que sob a batuta de um governo socialista, encadamento socialista mesmo, o Estado está a desmoronar-se por todos os lados. Temos esta questão da saúde, temos os transportes públicos que estão em greve. Não tem tive amigos que pretendiam regressar do Porto a Lisboa e estiveram seis ou sete horas à espera de conseguir um autocarro privado, de uma companhia privada para poder viajar, porque os comboios estavam em greve. Temos os aeroportos onde não se conseguem enfiar os turistas para entrar no país, os turistas que ainda são lunáticos o suficiente ou ignorantes o suficiente para perceber o que se passa aqui. Tem uma série de questões que mostra que tudo o que é estatal e onde o Estado manda, e em particular um Estado que é mandado por socialistas, naturalmente não funciona. Sempre foi assim. Há países que aprenderam, não sei se para sempre, mas têm aprendido ao longo do tempo e evitam cair nas mãos desse tipo de visões ideológicas marcadas. Há países que não aprendem. Nós somos um caso de um país que não aprende. Não é que as alternativas aos socialistas, neste momento nem se conhece alternativas, houve alternativas que foram nitidamente melhores, houve alternativas que foram assim, assim, mas a verdade é que os portugueses, independentemente da possibilidade de haver alternativas ou não, preferem, com alguma estabilidade e com alguma segurança, os governos do Partido Socialista e depois têm aquilo que preferem, aquilo que escolhem, não há muito mais a dizer.

Alberto Gonçalves a desfazer ideias feitas na Rádio Observador, hoje a olhar para o que descreves como uma debandada de profissionais do SNS. O Ideias Feitas está de regresso amanhã.