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Hora de Ideias Feitas, de desfazer ideias feitas com o Alberto Gonçalves, que hoje quer nos falar dos ativistas da Flotilha. Boa tarde, Alberto.

Olá, boa tarde, Miguel. Mas deixa-me recuar só um bocadinho, porque na passada terça-feira, o senhor Zapatero, que é um membro destacado e histórico do PSOE, grande parceiro de Pedro Sánchez, antigo presidente do governo espanhol, foi formalmente constituído arguido ou imputado, acho que é a designação que eles usam em Espanha, num processo chamado pelos ultra, que é apenas um de seis ou sete grandes processos a decorrer em Espanha que envolvem outros destacados socialistas. E nestes processos já estão a ser investigadas praticamente, imagino eu, todas as pessoas que o senhor Sánchez conhece, desde os seus mais próximos ex-assessores, à sua mulher, ao seu irmão, à família toda. No último sábado, anteontem, cerca de 100 mil pessoas manifestaram-se em Madrid a pedir a demissão do senhor Sánchez, que está mais agarrado ao poder, diria, do que aqueles presidentes de clubes desportivos que sabem que serão presos mal deixem o cargo, já aconteceu em Portugal. O Observador deu a notícia da manifestação e eu suspeito que, por acaso, nem todos os órgãos de comunicação em Portugal o terão feito. Às vezes não parece, mas Espanha é escassamente aqui ao lado e a dimensão dos escândalos de corrupção do governo de lá já atingiu níveis que justificaria que, de vez em quando, os telejornais, por exemplo, dessem algum destaque a estes casos, mas não costumam dar grande destaque, às vezes não dão nenhum. E o curioso é que no sábado essa nem foi a notícia mais importante ou pelo menos a mais inusitada que chegou de Espanha. Enquanto dezenas de milhares de pessoas protestavam em Madrid contra o governo socialista, na área de chegadas do aeroporto de Bilbao havia ativistas da Flotilha a ser espancados por polícia local. Eu nunca acreditei no carma, mas se calhar vou ter que acabar por me converter, porque os flotilhistas em questão, os espanhóis e os que aterraram em aeroportos dos respetivos países, noutros países, claro, chegaram todos a queixar-se de terem sido alvo de agressões brutais por parte das autoridades israelitas. Extraordinariamente, nenhum exibiu qualquer marca de agressão, o que sugere uma de duas coisas: ou as forças de segurança israelitas desenvolveram um método de espancamento sem consequências visíveis, nem com raio-X, nem ressonância magnética, nem nada, ou, o que é muitíssimo mais provável, os flotilhistas fizeram o que costumam fazer sempre que Israel intercepta as flotilhas e depois os devolve um ou dois dias depois: mentiram. É verdade que desta vez houve um ministro israelita a divulgar um vídeo escusado em que os senhores e as senhoras da Flotilha apareciam de joelhos e mãos atadas. Foi uma decisão tonta, no mínimo, e no fundo foi um trunfo para que estes senhores e estas senhoras da Flotilha se sentissem habilitados a mentir ainda mais do que é hábito. Eu juro que vi por aí nas redes sociais publicações que não pretendiam ser humorísticas e, se fossem, seria um humor um bocado negro, a comparar o tratamento dedicado aos senhores e às senhoras da Flotilha com as vítimas do Holocausto. Isto de tal maneira absurdo e grotesco que acho que não merece comentários. O que merece comentários é o facto de os flotilheiros de Bilbao terem arranjado uma bazéria qualquer lá no aeroporto à chegada e terem levado da polícia os sopapos que evidentemente não levaram em Israel. E também merece comentário o pormenor de o governo do País Basco, antes que venham dizer que provavelmente o País Basco está nas mãos de um enlouquecido de Chefe ou qualquer coisa do género, o governo do País Basco está nas mãos de uma coligação entre o Partido Nacionalista Basco e o Partido Socialista de Euskadi, que é o ramo basco do PSOE espanhol. E sobretudo merece comentário que o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel tenha aproveitado a oportunidade para, talvez com cinismo e de certeza com particular gozo, sublinharem essa hipocrisia do governo espanhol, que condena constantemente Israel pelo tratamento dado aos ativistas e por tudo o que Israel faz e não faz, mas que não disse uma palavra sobre o confirmadíssimo espancamento que os ativistas levaram em Espanha. Aliás, o senhor Sánchez não foi o único a não dizer uma palavra. Praticamente ninguém disse. Culpar os socialistas, bascos ou não bascos, por coisas que de facto aconteceram, pelos vistos não tem piada nenhuma. O que sempre importa nesta história toda, neste episódio, nos outros episódios todos desta imensa novela, é poder culpar Israel, ainda que por coisas que Israel não fez. E é isto, é assim que estamos.

O comentário sobre os ativistas da programa Flotilha Humanitária com destino a Gaza na última de hoje do Ideias Feitas com o Alberto Gonçalves, que se volta a juntar a nós amanhã, antes do encerramento desta tarde política. Aliás, caminhamos também já para o fim da tarde política. Já a seguir voltamos a atualizar todas as notícias.