Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, boa tarde.
E queres falar sobre os livros de José Saramago. Encontras algo de sagrado no escritor ou não?
Não, de todo. Não por ser o senhor Saramago, mas não encontro nada de sagrado em escritor, praticamente nenhum ou em ninguém. Eu queria só começar por dizer porque em Portugal esta é a indignação do momento e passamos a vida a saltar de indignação em indignação. Um dia indignamo-nos muito com um determinado assunto, no dia seguinte ou dois dias depois esquecemos esse assunto com o qual estávamos indignados no dia anterior e saltamos pra um assunto diferente. Andamos nisto. E também devo dizer que a indignação está longe de ser um exclusivo da esquerda, porque a direita também se indigna. Os temas é que se calhar variam. Por exemplo, a direita passou uma parte da semana passada, a meu ver, com alguma razão, a indignar-se. Eu próprio fiz dois "Ideias Feitas" acho eu sobre o assunto, a indignar-se com a libertação do indivíduo que lançou um coquetel Molotov para cima de uma manifestação contra o aborto. Esta semana, a esquerda reage indignando-se contra a possibilidade, ainda, de os romances do José Saramago deixarem de ser obrigatórios no 12º ano. E sobre isto eu queria deixar aqui três ou quatro observações. A primeira é um certo deslumbramento que se nota inerente à grande maioria dos indignados que por aí andam, porque segundo eles, não se pode retirar o senhor Saramago do ensino. Nem é o caso, mas já vamos lá. Não se pode retirar o senhor Saramago do ensino, pelo menos torná-lo facultativo, porque o senhor Saramago ganhou o Nobel da Literatura. E acho que é preciso ser-se um bocadinho, são os portugueses, não é? É preciso ser um bocadinho periférico para achar que o Nobel assegura a qualidade incontornável de um escritor. É uma coisa absolutamente sagrada. Acho que não é. Acho que, com certeza, mais de metade dos escritores que já ganharam o Nobel da Literatura hoje já não são lidos por ninguém. São aqueles nórdicos do início. Pode-se perguntar aí a muita gente, praticamente ninguém sabe quem eles são ou ninguém saberá. E alguns dos maiores escritores contemporâneos do senhor Saramago, pelo contrário, nunca ganharam o Prêmio Nobel e não precisaram de o ganhar. E os exemplos também não faltam. Sei lá, o Jorge Luis Borges, o Cormac McCarthy, uma série deles. A segunda observação é que o barulho em volta do possível caráter facultativo das obras do José Saramago, dos currículos do liceu, não tem nada a ver com a eventual qualidade literária do homem, e sim com o fato de o homem ter sido de esquerda. E ele não só foi de esquerda como foi comunista, e não só foi comunista, como até liderou os processos de saneamento dos jornalistas reacionários quando foi diretor adjunto do Diário de Notícias em 1975. Nãovirão quente e arredores. Eu não estou a desvalorizar todo o talento do senhor Saramago por causa da ideologia e do caráter, porque há enormes escritores, escritores com menos, não sei se são enormes, eu acho que são, e gosto muito deles, com péssimos gostos políticos e ou com péssimo caráter. Não é por aí. Os que agora estão a protestar esta história em volta do senhor Saramago é que os estão a valorizar por causa desses fatores. Se o senhor Saramago tivesse sido um democrata com uma folha limpa em matéria de perseguições a colegas, não haveria um décimo dos protestos ou não haveria até protesto nenhum. Se o senhor Saramago tivesse sido um apoiante indefectível do Estado Novo, nem quero imaginar o silêncio. Já nem estaria sequer em lista nenhuma. Nunca teria estado sequer em lista nenhuma das obras impostas ou facultativas aos alunos do 12º. A terceira observação é que eu não fazia ideia de que havia sequer esta coisa de haver obras obrigatórias do José Saramago no 12º ano ou em qualquer outro ano. Isto, como se sabe, estas obras obrigatórias ou o caráter obrigatório de certas obras literárias, é das melhores maneiras de garantir que as ditas obras acabam odiadas pelos alunos. E outra forma de garantir que os livros do senhor Saramago podem vir a ser odiados por alguns leitores é lê-los de livre vontade. Isso, entre parêntesis, devo acrescentar, porque a mim, por exemplo, aconteceu-me isso há décadas, sei lá, há 30 anos, peguei no "Memorial do Convento" e após umas dezenas de páginas, posei aquilo e nunca mais peguei na obra ficcional do senhor. Eu faço uma exceção para notar que gostei muito dos "Cadernos de Lanzarote", gostava de ler aquilo, li-os todos. Acho que os li todos por causa da imensa vaidade do autor que se espalhava, que se esparramava por lá. Por algum motivo, a presunção do senhor Saramago divertia-me, mas era só por isso. As obras ficcionais, pelo que eu tentei, ou das poucas tentativas que fiz, não fiquei seguidor. E depois, de resto, só mais para terminar, Ricardo, como acontece sempre nestas indignações, a verdade é um bocadinho distorcida para favorecer o berreiro. Quer dizer, porque a proposta que se está a discutir, já tinha aludido a isso há uns minutos, é apenas a dos alunos poderem trocar a leitura de um livro do senhor Saramago, acho que os livros que estavam em questão era o "Memorial do Convento" e o "O Ano da Morte de Ricardo Reis", por um do senhor Mário de Carvalho, "Onde Eu Passeando pela Brisa da Tarde", salvo erro, que por acaso ou não, isso agora também não vem a propósito, é outro escritor comunista. Mas quem quiser ler o senhor Saramago na escola ou fora da escola, já agora, pode continuar a fazê-lo. O Saramago não foi suprimido, ou não corre esse risco, sequer, de ser suprimido, de ser calado, de ser censurado, de ser essas coisas todas que estão a dizer, essas coisas horríveis que estão a dizer que o ministro da Educação se prepara para fazer. Não, ninguém lhe vai fazer nada disso. Ele, por acaso, fez isso a outros, noutras circunstâncias e quando teve esse poder. Mas não é isso que outros lhe estão a fazer a ele agora.
Obrigado, Alberto, e até amanhã.
Até amanhã, Ricardo.
Um abraço.
Um abraço.