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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. Queres falar sobre a entrevista de André Ventura na CNN, que acabou com uma saída de palco.
Acabou antes de acabar, não é, Ricardo? Olá, boa tarde. O título deste "Ideias Feitas", que é uma conspiração a favor do Chega, tenta ser uma brincadeira, uma graçola em volta do fato de os dirigentes, deputados, militantes e simpatizantes do Chega insistirem que há uma conspiração contra o partido, uma conspiração conjuminada por poderes ocultos, mas sobretudo praticada pelos media, pelas empresas de sondagem e por essas coisas todas. Pois bem, eu não acredito em conspirações, mas se acreditasse diria que boa parte dos media colaboram naquilo que parece ser uma conspiração para aumentar o potencial eleitoral do Chega, porque senão esse objetivo parece. E vejamos que, por um lado, além de passarem uma porcentagem significativa dos telejornais e dos espaços de debate e comentário, que agora há uma abundância imensa disso, mas passam esses espaços todos a discutir as provocações que o doutor Ventura lança para o espaço público. Além disso, os media teimam em entrevistar o doutor Ventura com impressionante regularidade. Não sei se é por causa das audiências, não será só por isso. Eu acho que, sobretudo, é com o propósito de sublinhar que o Chega não é um partido como os outros, que o seu líder, o doutor Ventura, não é um líder de partido como os outros. Para a maioria dos media, o Chega merece ser tratado como um elemento estranho ao sistema, que é o exato sistema de que, por coincidência ou não, o Chega garante não fazer parte, o exato sistema que o Chega vive a denunciar. Ou seja, em princípio, os media agem assim para tentar isolar o Chega, para destacar pejorativamente o seu alegado caráter singular. E o Chega agradece o isolamento e agradece o destaque, porque nada seria tão comprometedor para o crescimento do Chega quanto a sua, como se diz agora, normalização, a sua aceitação pelo status quo ou pelo mainstream. Noventa e nove por cento dos comentadores que andam pelas televisões repetem incessantemente que não se pode normalizar o Chega e o Chega adora que não o normalizem, como é natural. Nesta estratégia, só em teoria, isto é capaz de ser pensado para prejudicar o Chega, mas na prática eu acho que só o beneficia. E nisto tudo, os momentos mais engraçados ou mais desastrosos, de acordo com a perspectiva ou ponto de vista, são sem dúvida as recorrentes entrevistas televisivas ao doutor Ventura, que é invariavelmente maltratado, ou pelo menos é tratado de forma que os seus pares nunca são tratados. Há ali uma sobranceria. Cada entrevista reúne um painel de comentadores/entrevistadores cheios de confiança de que agora é que vai ser, agora é que vão encostar o doutor Ventura à parede, agora é que o vão desmascarar, agora é que vão mostrar aos portugueses em peso a essência maligna daquela pessoa, que é o doutor Ventura. E nunca acontece nada disso. Em geral não acontece ou não acontece da forma que os entrevistadores/comentadores gostariam, ou porque o doutor Ventura é bom na retórica, isso é sem dúvida, ou porque os comentadores/entrevistadores são quase sempre a dar para o fraquinhos. Mas mesmo apesar destes padrões, nem a habitual baixa competência dos entrevistadores/comentadores justifica que um canal televisivo, no caso foi a CNN Portugal, mas poderia calhar ser noutro qualquer, chame o filho do doutor Costa e aquele chicão que foi do CDS para tentarem derrotar o doutor Ventura num debate, numa espécie de debate-entrevista, não sei bem como é que eles chamam àquilo. Por um lado, é um bocadinho esquisito que se recorra a um ex-presidente de uma junta de freguesia e a um rapaz que terminou de destruir o CDS para entrevistar o líder da oposição. Mas, por outro lado, é quase impossível acreditar que tenha havido alguém na redação da CNN Portugal a achar que seriam estas as pessoas ideais para deixar ficar mal o doutor Ventura. Pelo contrário, estas criaturas seriam as pessoas ideais para fazer o doutor Ventura, de alguma maneira, brilhar. Não só pela comparação dos talentos de oratória de cada um, comparação da qual o doutor Ventura sai a ganhar, obviamente, mas como sobretudo pelos modos dos moços em causa, a que acrescia o alegado moderador daquilo, que é um jovem que eu não sei quem é. Mas todo o programa deixou a ideia de uma espécie de autossabotagem, que parecia concebido para reforçar a impressão de que o doutor Ventura quer que os eleitores tenham de si e do seu partido, que é um partido discriminado, um partido perseguido por uma coligação de interesses que ali eram representados por aquelas duas nulidades. Ou dito de outra maneira, aquele espetáculo divertido ou lamentável, ou as duas coisas em simultâneo, só serviu para dar mais votos ao Chega. E se não era este o objetivo, parecia. Eu não nego que o sucesso do Chega não se deva também a méritos próprios. Com certeza, também os haverá. Mas deve muito a esta extraordinária desorientação de quem não quer o crescimento do Chega, o que em si também é uma coisa extraordinária.
Alberto, amanhã há mais "Ideias Feitas". Um abraço e até amanhã.
Um grande abraço, Ricardo. Até amanhã. O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.