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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje a especialista em Relações Internacionais, Madalena Meyer Resende. Boa tarde, Madalena. Bem-vinda uma vez mais. Madalena, o dia fica naturalmente marcado pelo discurso de Ursula von der Leyen sobre o Estado da União, o Estado dos 27. O que fica exatamente deste discurso de hoje?
Foi um discurso extenso, como normal. E já o fato de o Parlamento não estar completamente cheio é indicativo do crescimento da extrema-direita e da extrema-esquerda também, e da sua oposição à von der Leyen e ao projeto europeu. Eu acho que ela respondeu à altura, tanto dos desafios internos, que eu já descrevi, como dos externos, que é de fato uma Europa assolada pela ameaça russa e pela guerra no Médio Oriente, exatamente com um discurso de uma Europa que está a ganhar ação própria, não rompendo com os Estados Unidos. Eu acho que a grande novidade foi, de fato, a proposta de uma relação inédita com o Canadá e uma arquitetura de segurança envolvendo também o Reino Unido, a Noruega e a Ucrânia. Portanto, pôr em cima da mesa esta união de defesa europeia como projeto que é preciso construir, ou que está a ser construído, digamos assim, e que ela vem mais uma vez reiterar.
Como é que podemos perceber esta estratégia de puxar o Canadá para um lado, mas depois também o Reino Unido quase um bocadinho de volta, mas para junto da União Europeia? Faz sentido? Como é que podemos entender tudo isto, Madalena?
O Canadá, de fato, vem aqui um bocado com estrondo, mas obviamente que o Reino Unido é um elemento indispensável para a segurança europeia, apesar do Brexit. E eu penso que, no fundo, o central aqui também é trazer o Reino Unido para esta órbita da Europa, e esta proposta um pouco simbólica de trazer o Canadá como membro associado da União. Eu penso que também há aqui uma espécie de atiçar do Reino Unido. De dizer que isto é possível e que há um país que está fora da Europa e que quer este estatuto. É uma categoria que realmente não existe. E eu penso que isto também faz sentido no sentido em que ela propõe um Conselho Europeu de Segurança, que é um projeto que o Partido Popular Europeu tem vindo a estudar, no qual participariam, eventualmente ou necessariamente, o Reino Unido, o Canadá, a Noruega e a Ucrânia, todos eles elementos absolutamente centrais para a defesa europeia. Portanto, eu acho que foi um discurso de orientação estratégica e que tem essa qualidade bastante bem desenvolvida.
E podemos, Madalena, entender esta iniciativa que traz o Canadá mais para perto da Europa como uma resposta a Donald Trump, no sentido em que o Donald Trump e o Canadá têm tido alguns problemas que se têm gerado nos últimos tempos?
Ela foi diplomática, obviamente, a dizer que não, que não tinha nada a ver com os Estados Unidos, mas eu acho que é óbvio que sim. É óbvio que o Canadá tem tido uma diplomacia proativa e tem defendido esta ideia das potências médias, na qual ele se inclui e a União Europeia também, potências médias democráticas que possam vir a ter mais peso na condução da política internacional. Obviamente, isto tem algumas limitações. Todos sabemos que os Estados Unidos não são dispensáveis e que a competição com a China e com a Rússia é o elemento essencial do sistema internacional hoje em dia. Portanto, é uma boa estratégia diplomática esta de, com o Canadá, tentar trazer as potências médias e manter esta comunidade de democracias viva, pelo menos por enquanto, e portanto, faz sentido. Acho que sim.
E até que ponto é que a União Europeia poderá beneficiar também desta aproximação do Canadá, não só a nível estratégico, como percebemos a nível de segurança, mas também a nível económico, por exemplo, poderá aqui haver algum benefício desta aproximação?
Sim, o Canadá tem minerais críticos, tem capacidade tecnológica, tem uma indústria de defesa e também no Ártico, que é claramente uma região com uma importância geopolítica crescente. O Canadá também tem, obviamente, uma grande parte deste território. Portanto, eu penso que tem todos esses elementos. Isto sem retirar o que disse anteriormente sobre o Reino Unido e sobre a sua participação numa arquitetura europeia de segurança Portanto, penso que sim, que tem a ver com Donald Trump, mas tem a ver também com esta estratégia diplomática que responde a este afastamento dos Estados Unidos.
Mas não é, de todo, um virar de costas aos Estados Unidos por parte da Europa?
Até poderíamos, mas penso que seria bastante pouco produtivo. Apesar da hostilidade do Donald Trump à Europa e aos países europeus, os europeus não podem, de facto, fazer isso.
Madalena, no meio de tudo isto, têm surgido notícias sobre a possível manutenção, tal como estão, os altos cargos europeus, nomeadamente a manutenção de António Costa ou a manutenção de Roberta Metsola, por exemplo, só para dar aqui alguns exemplos. A confirmar-se esta manutenção dos altos cargos europeus durante mais dois anos e meio, durante mais um mandato, revela aqui uma estratégia de continuidade também por parte da Europa e dos parceiros europeus?
Sim, eu penso que há um "grand bargaining" entre o Partido Popular Europeu e os socialistas. Von der Leyen já vai no segundo mandato até 2029. Fala-se bastante de que Roberta Metsola, atual presidente do Parlamento Europeu, a virá a suceder. E isso faz sentido, porque há uma grande fragmentação em Bruxelas e na Europa em geral e o Partido Popular Europeu é a principal cola hoje em dia que consegue ser o motor de novas iniciativas, e nomeadamente desta união de defesa europeia. E, portanto, faz sentido que Von der Leyen e Roberta Metsola sejam, de certa maneira, um combo político e que Metsola se mantenha mais dois anos e meio no Parlamento Europeu para depois substituir Von der Leyen. E isto claramente é uma vantagem para António Costa, no sentido em que aparentemente há esta troca entre socialistas e o Partido Popular Europeu no sentido de manter Metsola e manter Costa.
O equilíbrio também das duas partes a nível dos altos cargos europeus.
Exatamente. Não é uma opção neutra, obviamente. Reforça, mais uma vez, o poder no Partido Popular Europeu e demonstra que os principais partidos distribuem os cargos europeus de forma bastante aberta, mas eu acho que esta estabilidade institucional é um ativo. Sem esta capacidade de execução, a imobilidade e a capacidade em Bruxelas serão, com certeza, muito reduzidas.
E esta continuidade também pode ter a ver com aquilo que têm sido as ameaças, por exemplo, da Rússia à Europa também, ou seja, para que haja uma resposta contínua a essas ameaças. Ameaças que, pergunto, Madalena, têm que ser levadas mesmo a sério, as ameaças da Rússia à Europa?
Sim, sem dúvida. Temos a guerra contra a Ucrânia, que é a mais direta e imediata ameaça à segurança europeia. As operações híbridas em território europeu, ciberataques, sabotagens, desinformação, etc., são diárias. E apesar deste confronto militar com a NATO não ser sempre visível para o imediato, há uma vontade da Rússia de testar o terreno e até que ponto é que a NATO e os países europeus e os Estados Unidos estão dispostos a manter o seu compromisso com o Artigo 5 da NATO. E, portanto, eu penso que Von der Leyen aparece aqui como, apesar dela ser um pouco isolada e estar perante uma Europa claramente fragmentada, e hoje em dia com uma Alemanha e um partido, que é o seu partido, o Partido Cristão-Democrata, com ameaças da extrema-direita muito sérias, ela aparece como a única líder que tenta mobilizar e defender a Europa perante esta ameaça direta que a Rússia lhe constitui. E, portanto, Von der Leyen propõe um protocolo europeu de emergência, uma espécie de Artigo Quarto europeu, em que tenta que cada ataque seja tratado como um incidente europeu e não como um incidente nacional isolado. Eu penso que isso é uma ótima proposta, no sentido em que os Estados europeus têm sido muito cuidadosos e cautelosos face a estas provocações e estes ataques russos, e esta dimensão europeia daria à Europa alguma capacidade de resposta neste combate.
Podemos concluir, Madalena, que é preciso alguma união extra na Europa para dar uma resposta mais forte a estas ameaças da Rússia.
Sem dúvida. A Europa está num momento de declínio, não só da maneira como a Rússia trata os Estados europeus, mas também do ponto de vista industrial, com a China, com todo um programa de exportação e de substituição da indústria europeia por produtos chineses, e a Europa precisa desesperadamente de uma estratégia comum para fazer face a estas ameaças.
Madalena Meyer Resende, especialista em Relações Internacionais, muito obrigado por ter vindo a mais um "Gabinete de Guerra". Boa tarde.
Obrigada, boa tarde.