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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é de João Albuquerque, especialista em relações internacionais e antigo membro do Parlamento Europeu. Bom dia, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Olá, Maria João, bom dia.

Olá, bom dia. Começamos por von der Leyen, que usou o discurso do Estado da União para dizer que a Rússia quer destruir o projeto europeu e que ameaça abertamente países como a Polônia. A Polônia que, João, foi alvo de mais uma provocação de Putin, que disse que, se for preciso, acaba com o país em dois a três dias. João Albuquerque, olhando para as declarações de ambos, a Europa continua a responder com palavras enquanto a ameaça russa se aproxima cada vez mais das fronteiras da União.

Parece que nós já vimos este discurso. Eu lembro que há uns tempos o presidente americano ameaçava também eliminar uma civilização e eu acho que o seu homólogo russo agora não quer ficar atrás com a força das palavras e voltou a recorrer a esta imagem de eliminar por completo um país, numa altura em que há poucos dias, cerca de uma semana e meia, Dmitri Medvedev, ex-primeiro-ministro, ex-presidente russo, dizia que o recurso a armas nucleares por parte da Rússia não estava excluído e não estava fora da equação, de certa maneira ameaçando ou trazendo de novo a possibilidade de a Rússia recorrer a armamento nuclear, o que é obviamente inaceitável. Em relação à presidente da Comissão Europeia, o discurso dela ontem foi, de certa maneira, muito realista. Foi um discurso muito de diagnóstico, de procurar explicar aquilo que era o trabalho que a Comissão tem vindo a desenvolver, sobretudo nestes últimos dois anos. De certa maneira, uma visão de legado dela para o futuro, tentar demonstrar às pessoas o que é que de bom tinha sido feito, mas não trouxe propriamente grandes novidades no cômputo geral, nem de grandes novas iniciativas que tenha anunciado. Houve um foco muito interessante na inteligência artificial, que é obviamente um tema que a presidente da Comissão tem demonstrado já várias vezes ter preocupação, mas nessa dimensão da segurança, ficamos novamente pelas palavras, efetivamente, com a presidente da Comissão a dizer que a Ucrânia será defendida incondicionalmente por parte da União Europeia, mas sem que ela tenha conseguido explicar ainda o mecanismo de solução para a utilização dos ativos russos que estão congelados, ou de que forma a União Europeia poderá alavancar mais recursos financeiros de apoio à Ucrânia, seja para fins militares, seja para fins de reconstrução ou de outra natureza. E essa parte ficou, de certa maneira, por concretizar, à semelhança de outros pontos em que a presidente da Comissão foi mais vaga.

Sobre o Médio Oriente, os houthis controlam toda a costa ocidental do Iêmen e ameaçam o Mar Vermelho, o que levou a Arábia Saudita e o Egito a pedir uma intervenção urgente antes que o comércio internacional fique refém. João Albuquerque, como é que vê os próximos tempos? A Arábia Saudita e o Egito têm capacidade militar para conter os houthis ou a segurança das rotas navais ali da região continua totalmente dependente de uma intervenção direta dos Estados Unidos?

Começando pela sua primeira pergunta, eu estava a ouvir a vossa rubrica anterior sobre o preço dos combustíveis e, de facto, eu não sei como é que essa situação será sustentável por muito mais tempo. Na Europa, obviamente, isso já tem uma pressão muito significativa. Nos Estados Unidos, que são menos afetados por este aumento, as pessoas estão muito mais suscetíveis a qualquer aumento do preço dos combustíveis do que até aqui na Europa. Enfim, há mais alternativas aqui. E, portanto, esta situação em termos de pressão política, de pressão social a que pode dar origem, estão aqui as condições para que o caldo comece a aquecer, digamos assim. Isto obviamente tem tudo para correr mal do ponto de vista da pressão sobre os governos. Eu acho que há uma consequência direta também nas votações recentes que temos visto e no triunfo de alguns partidos que se baseiam em políticas mais populistas, com respostas fáceis para este tipo de problemas. O que é verdade é que, do ponto de vista externo, eu continuo a achar que, mais uma vez, os Estados Unidos, mas não só, subestimaram a capacidade que o Irão tem de ativar os seus proxies na região, neste caso em particular os houthis no Iémen, e a capacidade que têm de cumprir aquilo que tem sido a estratégia desde o início do Irão, que é estrangular as rotas comerciais, as rotas marítimas, e com isso causar uma disrupção econômica de tal forma forte que acaba por obrigar a um repensar da estratégia americana na região e com isso ganhar alguma vantagem, acima de tudo ganhar tempo e arrastar no tempo este conflito. Apesar de obviamente ser prejudicial, porque a economia do Irão também sofre com isso, acaba por ser benéfico porque consegue aguentar este choque durante mais tempo e provocar disrupções a quem pretende provocar, que somos nós.

Temos falado muito pouco sobre a Faixa de Gaza. Noventa por cento da população não tem casa. São cerca de duas mil pessoas a viver em tendas, ao pé de escombros. Ainda ontem, o desabamento de um prédio fez mais de 20 mortos. A comunidade internacional perdeu toda a capacidade moral e política de travar a catástrofe humanitária no terreno?

Eu diria que a comunidade internacional e, em particular, a própria União Europeia. Eu acho, muito sinceramente, que desde o início houve uma dualidade de critérios, porque as situações que se verificaram de apoio incondicional à Ucrânia deveriam ter sido replicadas. Enfim, eu não estou aqui a tentar esconder ou passar por cima do fato de que houve um atentado terrorista de uma gravidade extrema no 7 de outubro e que, obviamente, isso merece toda a nossa condenação. O que isso não pode permitir é que a seguir, por conta disso, se elimine por completo um povo, que se lhe retire o direito à sua existência, seja por via direta. Enfim, temos quase uns 100 mil mortos, um número muito avassalador de pessoas, com um número muito elevado de crianças mortas, muitas delas com membros amputados. Enfim, há pouco tempo saiu uma notícia que dava conta de um conjunto de crianças que estavam ou amputadas ou à espera para serem amputadas sem recurso a analgésicos, porque não havia medicamentos anestésicos para fazer. E, portanto, a situação é de facto muito grave. E neste aspecto, a presidente da Comissão Europeia, no seu discurso ontem, fez referência a Gaza, fez referência aos colonatos ilegais israelitas, mas até nas palavras ficou muito aquém daquilo que era a minha expectativa e a minha esperança de que a União Europeia pudesse finalmente ter uma condenação séria daquilo que são as ações do governo de Israel e pudesse, de certa maneira, colocar fim a este genocídio, que não acho que podemos ter medição nas palavras, este genocídio que está a acontecer em Gaza e que, obviamente, pesará sobre a nossa consciência coletiva durante muitos anos.

João Albuquerque, muito obrigada pela sua análise. Foi um gosto recebê-lo nas manhãs 360. Bom final de semana.

Igualmente. Muito obrigado.

Obrigada.