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Esta semana no Isto Não Passa na Rádio, o tema é: canções para limpar a casa.

Mitski na abertura do Isto Não Passa na Rádio. Esta semana, músicas para limpar a casa. A ideia foi do Tiago Pereira.

Foi minha?

Foi.

Peço desculpa.

Tenho que confidenciar.

Não te queria comprometer com esta ideia tão elaborada.

Dizer apenas que esta semana não-

Já me lembro porque é que tive esta ideia

Porque a outra, se calhar, era péssima e tu avançaste com esta.

Não, porque tivemos três ou quatro muito más e porque o mundo estava tão sujo por causa daquelas poeiras.

Pois foi.

Nós pensámos: "De certeza que vamos todos andar aqui a limpar tudo e mais alguma coisa e precisamos de uma banda sonora". E vai daí, aqui está ela.

De resto, o Isto Não Passa na Rádio é um programa familiar de fim de semana e por isso achamos que o tema é adaptado para as horas em que é emitido na Rádio Observador. Dizer apenas que eu sou o Nelson Ferreira e que esta semana não temos o Gonçalo Correia, mas a quem mandamos um forte abraço e contamos com ele, claro, já na próxima semana.

Amanhã, já, quando for.

Amanhã. Mas vamos aqui tentar representá-lo da melhor forma também com as nossas escolhas para limpar a casa. De facto, na discussão para o tema desta semana, lembrámo-nos de muitas outras tarefas domésticas e não domésticas que podem merecer uma banda sonora, mas também pensamos: "Lá iremos, numa outra edição do Isto Não Passa na Rádio".

Sim, vamos começar por limpar a casa e esta canção que ouvimos agora foi escolha minha, é a minha primeira escolha, e eu peço desculpa porque já estou a subverter todo o tema. Porque o tema é limpar a casa e eu escolhi uma canção que se chama "Washing Machine Heart". Portanto, washing machine, que é máquina de lavar. Ora, máquina de lavar pode ser a roupa, pode ser a loiça, portanto já estamos aqui a vaguear. Mas eu quis muito escolher esta canção.

Não é do novo disco da Mitski.

Não é do novo disco, é do álbum "Be The Cowboy", que foi o álbum editado em 2018. O "Be The Cowboy" foi o quarto, quinto disco, se não me engano, da Mitski.

Muito produtiva, sempre.

Mitski, cantora américojaponesa ou nipônico-americana, não sei como é que se diz. Tem familiares japoneses e nasceu nos Estados Unidos e todas essas coisas, e portanto tem uma confluência de culturas. Faz muitas coisas muito bem. Para já, esta canção tem ritmo, tem cadência, tem um beat muito marcado, o que eu acho que é ótimo para desenvolver qualquer tipo de atividade, de tarefa doméstica, sobretudo limpeza, que é manter o ritmo. Não esmorecer, não desistir. Isto vai chegar ao fim e a seguir vou para o sofá. Além disso, é uma canção que tem washing machine no título, portanto calha-me muito bem.

Podias ter ido buscar o "Washing Machine", o disco de Sonic Youth.

Não, exato. O que eu queria ter mesmo ido buscar era o "Laundry Service", que é o álbum que mostrou a Shakira ao mundo, mas achei que isso já passou tanto na rádio que não valia a pena. Esta canção chama-se "Washing Machine Heart" e é uma metáfora, é ela a dizer que o coração dela é uma máquina de lavar pronta a receber a roupa suja da pessoa Que ama.

Isso é muito engraçado, vai entroncar muito bem com a escolha, não foi nada combinado com a escolha que eu tenho a seguir. Mas dizer-te só uma coisa a propósito da Mitski, porque ela ameaça ser uma grande coisa na música norte-americana e mundial.

Eu acho que ela já concretizou. Ela lançou um álbum agora no início do ano, chama-se "Laurel Hell", que é um grande disco, tem canções fantásticas.

Sabias que chegou a número um nos Estados Unidos?

Não fazia ideia.

É verdade.

Há hipótese para a humanidade.

E uma das canções também chegou a um top rock alternativo, qualquer coisa da Billboard, um daquele mais de género, mas foi número um, o "Laurel Hell", o que é uma grande conquista, até se quiseres, para o rock.

Não, claro, e para a humanidade, era o que eu estou a dizer. A humanidade tem hipóteses, apesar de tudo. Não há muita gente a fazer canções com a capacidade plástica da Mitski. Ela já foi voz de uma coisa próxima de um power trio a tocar baixo, já foi performer de palco. Aliás, ela é muitas vezes performer, em que dramatiza e dá, de facto, quase um corpo teatral às canções que faz e que canta.

Os vídeos são muito bons.

Os vídeos são fantásticos. Agora, no último disco, talvez dê para dançar mais, eventualmente, tem mais sintetizadores, tem uma produção que vai a muitas épocas e eu arrisco-me a dizer que ela é a única a fazer canções sobre relações e sobre problemas e dores românticas. Da forma como ela faz, é a única, é muito difícil fazer o que ela faz, ela é brilhante. Eu sou grande fã.

Dizer só que Iggy Pop diz de Mitski que é "the most advanced American songwriter he knows". Palavras de Iggy Pop.

Estás a ver? Há pessoas que concordam comigo.

Olha, vou entroncar nas minhas escolhas com uma coisa que também já disseste neste episódio, que é o facto das canções para limpar a casa precisarem de algum ritmo, mas vou deixar para a segunda parte. Não que esta também não seja desprovida de ritmo, mas foi uma escolha mais óbvia. Chama-se "Clean Up Woman", é de Betty Wright e já falamos um bocadinho sobre ela. Betty Wright, "Clean Up Woman", um título também óbvio para o tema desta semana, canções para limpar a casa. Uma banda sonora para essa tarefa doméstica tão nobre. Um bocadinho à semelhança da tua escolha, Tiago, Mitski, "Washing Machine Heart". Também esta "Clean Up Woman" é um bocado irónica, é uma figura de estilo, a mulher da limpeza, a mulher que limpa os seus amores para debaixo do tapete. A canção começa precisamente com essa ideia: "a clean up woman is a woman who gets all the love we girls leave behind". E a razão porque ela acha isso é que esta própria clean up woman roubou-lhe um homem que era dela. Tem aqui uma série de figuras de estilo com esta coisa do clean up woman, mas achei engraçado. É uma canção de 1971. A Betty Wright é uma voz maior do R&B e da soul norte-americana. É um bocado figura Farol, por exemplo, para a Chaka Khan, para a Jill Scott. É mais antiga, é da geração anterior. Ela morreu já em 2020.

Sim, morreu há pouco tempo.

É 2020, não é?

É. Lembro-me da notícia.

E "I Love The Way You Love" é o disco a que pertence esta Clean Up Woman. Aliás, 1972, tinha dito 71.

E foi um enorme sucesso esta canção.

Não, foi a canção com que ganhou um Grammy, estava a confirmar há pouco, que é o "Where Is The Love?", em 76. Ela tem seis nomeações ao longo da carreira e ganhou em 76 com essa canção, que não me estou a recordar qual é, mas gostei desta Clean Up Woman.

Situando isto, estamos em 71.

72.

Sim, entre 71 e 72. Eu não sei se ela não saiu mesmo ainda no final de 71. Depois há a questão de quando é que os singles são editados e em que formato. Mas há de ter sido por ali, não é?

Depois o disco é de 72, o single é provável.

Sim, e estamos a falar ainda, e durante muito tempo, de uma América em convulsão. Estamos a falar de uma mulher negra a ter relativo sucesso. Estamos a falar de soul, funk, R&B, portanto, canções que vêm do quotidiano, das ruas, de casa e da vida partilhada todos os dias. Eu acho que há aqui um lado também social. A Clean Up Woman, o estereótipo da mulher das limpezas e da empregada.

Só aqui um pequeno à parte a propósito de Clean Up Woman: há uma música incrível da Capicua, que é a Mulher de Cacelheiro, e que traça um retrato lindíssimo sobre também este estereótipo social que a sociedade tem da mulher da limpeza e essa mulher de cacelheiro mais adaptada à realidade nacional.

E depois, é este lado que tu dizes rítmico.

Limpavas a casa com esta canção?

Não limpava, até limpava duas vezes, Nelson. Chegava ao fim e voltava. Não, não voltava nada.

Só rapidamente para fechar o capítulo Betty Wright. Eu estava agora aqui a ler isto. Eu nunca vi isto, e agora tenho dúvidas se será mesmo um filme, porque é um álbum chamado "Betty Wright: The Movie", que é feito com o Questlove e que tem colaborações de Joss Stones, Snoop Dogg, Lil Wayne, e que parece ser um retrato qualquer da Betty Wright que eu nunca vi.

Faz todo sentido se tiver a mão do Questlove, que é um melómano.

Que ainda agora ganhou prêmios com aquele filme que eu também ainda não vi e queria muito ver.

Com o documentário sobre aquele concerto, eu esqueci-me do título, mas é uma espécie de Woodstock, é soul e do R&B, nos anos 60, em Nova York. "Summer of Soul" é o título.

Estou morto por ver esse filme.

E o Questlove, aliás, deixou de ser professor há pouco tempo. Ele dava aulas de um período particular da história da música popular americana numa universidade, não sei se em Filadélfia, que é a terra natural dele, agora não me lembro, ou se em Nova York. Entretanto, deixou isso, porque era uma coisa que lhe deu algum trabalho. Mas é de tal maneira tão apaixonado pela música americana e tão sabedor, que é perfeitamente natural que valha a pena ver isso, se tem a mão dele. Deve ser muito interessante.

"Betty Wright: The Movie" é um álbum colaborativo entre a Betty Wright e os The Roots, que saiu em 2011, mas gostava que isto existisse em filme. Ainda vou investigar melhor se isto é só um disco ou se há um filme. Bem, avançamos. Tiago, agora "A Lavadeira do Rio", recorda-me de quem é a tua escolha.

"A Lavadeira do Rio" é uma canção do primeiro álbum de Maria Rita. É uma canção escrita pelo Bráulio Tavares e por um senhor que o primeiro nome é Osvaldo, o último é Pimental, e o segundo nome é Lenine. E é com este Lenine que ele costuma assinar.

Não sabia que ele tinha esses nomes.

É o cantor e compositor brasileiro, que tem carreira própria, tem discografia extensa e que já esteve em Portugal várias vezes, mas que também é compositor para outros artistas. O primeiro álbum da Maria Rita chama-se, curiosamente, "Maria Rita".

Tu andas muito nestas ondas brasileiras, Tiago. É uma coisa das últimas semanas. Não sei se foi desde aquelas datas redondas da Elis Regina que ficaste com esta costela mais para este lado. É sazonal?

O que eu hei de dizer? Há um lado tropicaliente em mim que agora se calhar está mais ativo. E eu agradeço isso, acho que me torna uma pessoa melhor. E portanto, Maria Rita incluiu esta canção no primeiro álbum. Não há aqui grande história.

Mas o que fala esta canção? É a lavadeira do rio? Temos lavadeiras na música portuguesa também.

Sim. Por que esta canção faz sentido aqui nesta categoria, neste tema? É uma canção que tem um lado um bocado tradicional. É uma canção que é feita para ser cantada em coro, é uma canção para entrar no imaginário das pessoas e, portanto, a personagem é uma lavadeira, mas o que interessa depois é o que ela vai fazer na vida. Atenção que vem aí o amor da tua vida, lavadeira, não tenhas só os olhos presos na água e naquilo que estás a lavar, há mais coisas por aí. E tu és nova e tens que crescer. E além disso, tem esta ginga brasileira da Maria Rita que, mais uma vez, se não conseguirem limpar a casa com isto, eu percebo perfeitamente porque desistiram de tudo e ficaram só a dançar.

A lavadeira no rio, muito lençol pra lavar. Fica faltando uma saia quando o sabão se acabar. Mas corra pra beira da praia, veja a espuma brilhar. Ouça o barulho bravio das ondas que batem na beira do mar. Ouça o barulho bravio das ondas que batem na beira do mar. Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio? Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio? Ô Rita, tu sai da janela, deixa esse moço passar. Quem não é que é bela, não pode se descuidar. Má Rita, tu sai da janela, que as moça desse lugar, nem se demora donzela, nem se destina a casar. Nem se demora donzela, nem se destina a casar. Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio? Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio? A lavadeira no rio, muito lençol pra lavar. Fica faltando uma saia quando o sabão se acabar. Mas corra pra beira da praia, veja a espuma brilhar. Ouça o barulho bravio das ondas que batem na beira do mar. Ouça o barulho bravio das ondas que batem na beira do mar. Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio? Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio? Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio? Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio? Ê ô. Ê ô, o vento soprou. Ê ô, a folha caiu. Ê ô, cadê meu amor, que a noite chegou fazendo frio?

Esta semana o Isto Não Passa na Rádio está com escolhas dedicadas a uma tarefa nobre: limpar a casa. Canções que são boas para nos acompanharem nesta tarefa. Foi o desafio que fizemos para esta semana. Eu sou o Nelson Ferreira, comigo está o Tiago Pereira. Belas canções já passaram por aqui. Já fizemos essa alusão ao ritmo. Parece que associamos também limpar a casa a uma atividade física, quase que podíamos pôr a "Physical" da Olivia Newton John.

Claro.

Uns Bee Gees.

Sim. Esse é o problema destes temas.

Aliás, eu confesso que quanto mais limpo a casa, o meu bom gosto vai descendo, é proporcional. É verdade.

Sim, mas isso do bom gosto também é muito relativo, Nelson.

É verdade.

O que é isso do bom gosto?

Não sei, mas dá pra coisas muito nineties, eighties.

Certo, e isso é maravilhoso. Sabes por quê? Porque estás a limpar a casa, não estás minimamente preocupado com questões existenciais e que não têm interesse absolutamente nenhum, e estás apenas a gozar o momento de ouvir a canção e deixar que o teu corpo se leve pela canção.

Pois, é bem preciso pra casa ficar bem limpa.

Não desvalorizem a tarefa de limpar a casa, porque pode revelar-vos coisas bem bonitas.

Sabes o que eu também associo a limpar a casa? Tenho muitas memórias, que são memórias de infância, que me remetem pra aldeia, pra sítios mais suburbanos.

Sim.

Em que a limpeza é um ritual ao domingo, em que tu passas na rua e vês mulheres e homens que estão com as carpetes tendidas no parapeito da janela, porque é dia de limpeza. Normalmente acontece muito por altura da Páscoa, já não está muito longe.

E por norma, tens sempre memória de quando eras garoto.

Há sempre uma dessas casas que tem uma coluna a dar música cá pra fora.

Sim.

Popular.

Confesso que fazia isso. Eu não sei até que ponto este programa pode começar a ser uma terapia. Eu ia dizer uma receita com memórias passadas, mas pode-se abreviar por terapia. Eu lembro-me de sábado de manhã ser muito dedicado às limpezas em casa dos meus pais.

Exatamente essa imagem.

E minha mãe abrir janelas, etc. E depois começar naquela de: "Vocês agora também têm que ajudar, porque já têm idade pra isso". E eu, a única coisa que apreciava nisso era tentar ter espaço pra pôr música muito alto.

Exatamente, ia dizer isso.

Porque como estava ali a fazer uma tarefa que, na verdade, agora é que eu consigo ver.

E o aspirador no alto, dava pra pôr música alto.

Era o mínimo que eu podia fazer. Agora tenho discernimento pra ver isso, mas achava que merecia um retorno. E o meu retorno era pôr música muito alto, que na altura era música muito foleira.

Exato.

E que não vou nomear aqui.

Quando partimos pra este tema, essa foi uma das memórias que instantaneamente me assaltou. E também me assaltou isso num misto de música moderna ou foleira, se quisermos, mas também de música tradicional. Eu acho que ainda hoje tu passas num bairro típico de Lisboa ou do Porto e és capaz de ouvir um fadoucho bem alto que está a tocar enquanto alguém está a fazer as suas limpezas. E eu parti desse pressuposto para a minha próxima escolha, se bem que com algum ritmo e com alguma modernidade, o projeto Anaifa, liderado pelo João Água Ardela, mas também com o Luís Varatojo, o Samuel Palitos, Mitó Mendes. Um projeto que gosto muito e que fez muito bem esta transformação do tradicional português Poderia ser uma ótima banda sonora para limpar a casa num bairro típico de qualquer cidade.

Como a raiva a rasgar a vida. Como uma flor a florir desmedida. Como uma cidade secreta a levantar-se do chão. Como água, como pão. Como a raiva a rasgar a vida. Como uma flor a florir desmedida. Como uma cidade secreta a levantar-se do chão. Como água, como pão. Como um instante único na vida. Como uma flor a florir desmedida. Como uma pétala dessa flor a levantar-se do chão. Como água, como pão. Assim nasceste, no meu olhar. Assim te vi. Flor a florir desmedida. Assim te vi a rasgar a vida. Flor a florir desmedida. Assim te vi a rasgar a vida. Como um instante único na vida. Como uma flor a florir desmedida. Como uma pétala dessa flor a levantar-se do chão. Como água, como pão. Assim nasceste, no meu olhar. Assim te vi. Flor a florir desmedida. Assim te vi a rasgar a vida. Flor a florir desmedida. Assim te vi a rasgar a vida. Flor a florir desmedida. Assim te vi a rasgar a vida. Flor a florir desmedida.

Chama-se música do projeto A Naifa. Não gosto nada de dizer é o projeto. Acho que era o Alex Dalva Teixeira que tinha um disco que era "Isto não é um projeto".

Sim, e é como chamar colaboradores.

Pois é, é um bocado isso.

É um bocadinho...

Peço desculpa, vou tentar evitar.

Está tudo bem, todos nós podemos passar por momentos menos positivos.

Fiz aqui uma viagem há alguns anos à música nacional para escutar A Naifa, precisamente porque estávamos aqui a falar desse universo que limpar a casa nos remete também, de sábado de manhã, de bairro típico. E agora vamos até "Stendhal na Furada". Está tudo muito bem entroncado hoje.

Estás espetacular! Parece que teve um guionista a tratar disto, não é?

Fomos nós.

Olha, eu escolhi a música "Stendhal na Furada", que faz parte do álbum "Lusitania Playboyz" dos Dead Combo, que foi editada em março de 2008. Para já, eu acho muito bonito que esta música procure ilustrar a imagem de um Stendhal na furada. Acho que tem tudo a ver. E depois, pareceu-me que era uma boa banda sonora também para outra etapa da tarefa doméstica, que é esperar que a roupa seque. O parar, o descanso, ou então o admirar o trabalho dos outros que já conseguiram limpar tão bem, seja o que for, e nós agora ficamos com inveja. Mas também é uma boa canção de ressaca para uma manhã, isto para as pessoas jovens, livres, etc, que nos estão a ouvir. Olá, rapaziada, olá a todos. E que podem adiar a tarefa doméstica. E esta música chama-se "Stendhal na Furada", portanto, alguém trabalhou, mas não fomos nós que estamos a ouvir esta música, e isso dá-me especial gozo.

De facto, há um lado aqui de procrastinação.

Sim, mas atenção, eu admito a minha preguiça e o facilitismo, porque se formos analisar isto à lupa, esta música dá para qualquer tema.

Sim, mas por exemplo, Ted Compteriam muitas canções mais cepidadas, no sentido de limpar a casa.

É verdade, mas eu acho que tu podes entender isto assim: eu consegui descobrir uma justificação para encaixar esta música neste tema.

Eu a fazer vénias. Bravo, Tiago!

Essa é que é a realidade.

E não parece nada mal que esta canção também seja escutada neste horário em que normalmente o Isto Não Passa Na Rádio vai para o ar ao fim de semana. Bem, há pouco falávamos do mau gosto, que a banda sonora às vezes de limpar a casa é quase obrigatório. Tem que haver ali algum eurodance, um hip-hop manhoso.

Sim, um snap.

Sim, eu confesso que vou um bocadinho também muito para ska, reggae, aquele ska britânico, reggae também me dá para limpar a casa, coisas assim dos Specials, dos Madness. Dá-me algum gozo e algum reggae também me dá algum gozo. E depois algum hip-hop, eu lembrei-me de coisas bem flares.

Viste aquilo do Ini Kamoze?

"Here Comes a Hotstepper". Vamos deixar para o verão, para um tema qualquer do verão. Mas lembrei-me do "Regulate" do Warren G ou aquela "Now That We Found Love" do Heavy D também.

Warren G, não estava nada à espera dele.

Salt N Pepa.

Mas tudo isso é fantástico.

Sim, eu confesso que gosto dessa banda sonora também para limpar a casa. Mas até tenho que arranjar um meio-termo entre hip-hop, que não é manhoso e que tem também funk. Funk é ótimo para limpar a casa.

Tudo, amigo. Funk é ótimo para tudo.

Funk é ótimo para tudo. Mas se bem que este é um, como chamam na América e no mundo, G-funk, que é um funk mais digital, não sei como classificá-lo. Mas claramente o grande mestre do G-funk é o Damn Funk. E ele há uns anos edita uma canção que eu gosto muito, que é o "Wad Pass Intact", que tem estes sínteses muito modernos, mas que nesta versão também tem um MC a que adubitar rima em cima e que também alude bastante a essa tarefa nobre que estamos hoje a elogiar no Isto Não Passa Na Rádio, que é canções para limpar a casa. É de Pasadena, na Califórnia. Estaríamos bem na Pasadena. Há outra maneira de dizer Pasadena?

Pasadena. Eu adorei esta canção.

É pá, isto tem um groove incrível.

Há uma coisa especialmente que eu adorei nesta canção, que é aquele som que é suposto ser...

Aquelas teclas.

Não, no beat, na batida, aquela parte que é suposto ocupar o lugar que ocuparia uma tarola numa bateria, portanto aquela snare, parece uma chibatada.

É incrível. Está muito fixe. Esta batida é incrível.

Parece que alguém estava com um chicote e não devia.

Mas é bom.

Mas é bom, exato. Se não devia, é bom.

Damn Funk com MC Hatit. Acho que é assim que se diz. MC Hate, desculpem. Eu não conheço tão bem o MC Hate, mas acompanho o Damn Funk há algum tempo, Odd Passing Tact. O Damn Funk há uns anos veio a um Super Bock Super Rock no Meco, numa das primeiras edições. Ele tocou muito cedo numa daquelas tendas secundárias e fiquei mesmo com pena, porque estava pouquíssima gente. Estaria umas 10 pessoas, porque era muito cedo, e ele a debitar este G-funk.

E tu tiveste um problema, porque como estava pouca gente, também não te libertaste.

Não me libertei.

É o que acontece, por exemplo, quando as pistas abrem.

Fiquei ali um bocadinho contido, mas teria sido uma bela festa.

Uma pessoa ficaria a dançar de mãos nos bolsos.

Bem, canções para limpar a casa é o tema do "Isto Não Passa na Rádio" esta semana. Fechamos com uma sugestão do Tiago Pereira. Já disseste que é uma sugestão contente.

Sim, eu achei que devíamos fechar com alegria e, portanto, viajei até 2004. No verão de 2004, saiu o segundo álbum de uma banda inglesa chamada The Bees, uma banda da ilha de Wight.

Que tem um grandessíssimo festival, não é?

Sim, e é uma banda que mistura um pouco a herança do tempo em que esse festival foi criado, portanto, regressa um pouco aos anos 60 e é música pop retro de garagem com um bocadinho de psicadelismo. E esta canção chama-se "Wash in the Rain" e é bom porque assim fechamos com "venha de lá uma chuva que lave esta poeira".

Para não termos que nós limpar.

Sim, e regressamos a este disco. O disco vale bem a pena, se nunca escutaram, de uma ponta à outra, tem canções muito bem feitas e não escolhemos o "Dancing in the Rain", mas "Singing in the Rain", podíamos ter, mas não aconteceu. Mas é isso, "Wash in the Rain".

Para a semana estamos de volta com outro tema no Isto Não Passa na Rádio. Fiquem bem e limpinhos.

E limpinhos. Até para a semana.