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Viajamos com a Filomena Martins, que está conosco. Filomena, bem-vinda.

Olá, como é que estão?

Estamos bem, Filomena. Não sei se consegues ouvir este barulho, eu vou aqui bater numa caixa, que é o som dos ovos moles que temos pra ti.

Eu sei que são ovos moles.

São, exatamente.

Era isso que eu ia tentar sacar agora na minha voz.

Eu acho que a voz da Filomena até ganhou outra vida neste momento.

Ganhou. Ela está bastante atropelada pelo vírus chamado influenza, não é o Covid, é mesmo o influenza, mas com esses ovos moles garanto que vai ficar melhor do que com qualquer remédio caseiro que envolva até um álcool.

Esperemos. Mas tu não nos vais falar de Aveiro, queres nos falar aqui de outras latitudes, não é? Vamos até o Japão.

Vou mesmo começar assim pela realeza, que é pra dar um certo glamour à coisa, que é o que não tem a minha voz hoje. Porque vocês sabem que os protocolos das casas reais são sempre muito glamorosos, estranhos até. O japonês será seguramente um dos mais tradicionais do mundo, senão o mesmo mais tradicional, até porque é uma das monarquias mais antigas do mundo. Ao ponto da sobrinha do imperador, para poder casar com um plebeu, algo que neste momento já é comum, diria eu, ela vai ter de prescindir de todos os seus direitos. A relação da Mako e do seu noivo, que é o Kei Komuro, tem sido desde o início controversa e ela agora aceitou finalmente todos os sacrifícios para poder casar. Vai perder o estatuto real, todos os subsídios financeiros que tinha e vai ter de devolver até uma tiara e as várias joias logo após o casamento.

Porque por lá ainda é tudo príncipes com princesas, não é? Há regras.

É isso. E ela tem de ceder a isso tudo por causa do amor. Eles andam nisso desde 2017, que foi quando eles anunciaram o noivado, portanto há quatro anos. E o problema maior, quer saber, foi quando o ex-namorado da mãe dele, do noivo, disse aos mídia que a família dele lhe devia dinheiro. E é uma quantia pequena, quase irrisória, mas passou a ser um verdadeiro escândalo nacional no Japão, porque na cultura japonesa é considerado uma grande desgraça ter uma dívida pessoal para com outra pessoa, por menor que ela seja. A propósito disso, eu não vos devo nada, pois não?

Não, nós é que te devemos a ti, os ovos moles. Não.

Os ovos moles. E então, por causa dessa dívida, ela só vai poder casar agora, a 26 de outubro, depois de fazer 30 anos. Portanto, vejam bem. Entretanto, nestes quatro anos, a família imperial tentou tudo para que ela terminasse o noivado, só que a Mako manteve-se firme e renunciou a todas as regalias de ser filha do príncipe herdeiro, neta mais velha dos imperadores eméritos e sobrinha do atual imperador. As tradições japonesas impedem ainda que as mulheres possam subir ao trono e impedem-nas de casar com um plebeu, sem que tenham de perder todos os privilégios reais, que é o que vai acontecer. E ela, além disso, quis prescindir de mais do imposto, para além daquilo que as leis imperiais impõem, e renunciou ao dote de casamento, que é de mais de 1 milhão de euros, e vai entregar também as joias que são entregues a todas as princesas quando atingem a maioridade, que no Japão é aos 20 anos, e que são feitas apenas no Japão só de diamantes, têm de ser apenas pedras brancas e brilhantes. Não há cá rubis nem nada dessas coisas, é só diamantes. E ela, depois de casar, vai se pirar, vai partir com o marido para Nova York, deixar o Japão.

Tudo por amor.

Coisas do amor.

Exatamente. E vamos até Istambul.

Vamos para o momento animal do dia. Porque eu quero que toda a gente saiba quem é o Bodgy, e vale a pena procurá-lo, porque ele é um cão vadio que se comporta como uma pessoa e que é uma espécie já de mascote de Istambul. E todos os dias ele utiliza os transportes públicos como se fosse uma pessoa. Faz cerca de 30 km diários entre barcos, comboios, autocarros e sobretudo metro, onde usa cerca de 24 estações, entra e sai como se soubesse para onde queria ir e o que está mesmo a fazer.

Mas, Filomena, desculpa, vai sozinho? Não tem dono?

Sempre sozinho. Ele é um cão vadio, eu já te disse. Neste momento, o dono dele, na prática, são os habitantes todos de Istambul, que tiram imensas fotos com ele. Já lhe criaram uma conta no Instagram onde já vai com quase 50 mil seguidores, podes ir lá e ver. É só pôr o nome dele em contas, Bodgy de Istambul. E todos dizem que ele é muito bem-educado, dá passagem às pessoas e tudo quando sai do metro e quando volta a entrar, essas coisas todas. E parece saber sempre mesmo onde quer sair e onde quer entrar, não tem problemas nenhuns. Eles começaram a notar a assiduidade do cão nos transportes públicos há cerca de um ano e as autoridades repararam e resolveram pôr-lhe um chip pra o seguir. E então agora sabem sempre onde é que ele anda e quantos quilômetros faz por dia. Repararam que é estas 29, normalmente, estações de metro que ele faz por dia, mais apanhar o barco, o comboio e ainda o autocarro. E tanto pode ir dormir num banco vazio do comboio, como estar tranquilamente sentado no metro ao lado de alguém, se houver lugar, ou de pé se o metro estiver cheio. Ele é muito bem comportado. Portanto, não te preocupes.

Fui espreitar a página do Bodgy. Tem um ar muito simpático. É verdade, é muito querido. E não paga passe, pois não?

Não paga bilhete. Não, não tem passe.

Ora bem, agora vamos até uma ilha que se chama Montserrat.

Sim, é isso, fica ali nos Caraíbas. Bem bom, nada mal neste momento. Apesar de aqui estar calor, lá deve estar ótimo. E apesar da pandemia estar quase dada como extinta, ainda há locais que querem atrair aqueles que preferem continuar isolados do mundo e da pandemia. Esta ilha caribenha, Montserrat, é um desses sítios que está a tentar atrair teletrabalhadores, mas com um pequeno senão: só podes ir pra lá viver se ganhares pelo menos 60 mil euros por ano.

Mas não devem ter só isolamento, Filomena.

Não, eles são um pouco mais simpáticos. Dão-te o visto se ganhares os tais €60 mil ou US$70 mil por ano, mas dão logo o visto a ti e à família. Portanto, são simpáticos, são uns mãos largas. E ainda te acrescentam uma coisa: durante o ano não pagas impostos. É bom, é simpático.

É bom.

Mas, no entanto, tens de trabalhar para uma empresa com sede fora da ilha ou então seres um empresário individual com clientes também no exterior. Eles acham que assim a economia da ilha vai receber um grande impulso. Hotéis, alugueres de carro, restaurantes, supermercados e aquelas outras empresas de serviço, que foram as que sofreram com a pandemia nos últimos meses, vão recuperar. Montserrat é uma colônia britânica ainda e tem pouco mais de 5 mil habitantes e por isso eles acham que precisam desta recuperação. No entanto, se quiseres ir como turista, não precisas de tanto dinheiro, podes ir na mesma. Só precisas de fazer uma quarentena de cinco dias, porque eles querem manter a ilha completamente livre de coronavírus. Eles só tiveram 33 casos neste tempo todo e apenas uma única morte ligada à pandemia. Portanto, ou vais para lá viver um ano sem impostos ou vais só passear.

Pronto, tem assim uma água transparente, parece muitíssimo bem. Filomena, a propósito desta ilha, qual é a música de hoje?

Hoje é um clichê. "Paradise", Coldplay.

Muito bem, é com esta música que terminamos o "Jet Lag" de hoje. Amanhã voltamos a viajar pelo mundo do insólito com a diretora adjunta d'O Observador, Filomena Martins. Filomena, obrigada. Até amanhã.

Fico de água na boca. Tu ficas com a ilha e eu fico com os açores-moles.

Está bem.

Bom caminho.

As melhores, um beijinho.

Está bem. Até amanhã.

Rádio Observador