Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindo ao 79º K4. É o 15º e último desta terceira temporada da mostra da cultura moderna e contemporânea da Rádio Observador. Eu sou o João Paulo Sacador e, como é habitual, arranco o K4 em companhia de alguém ligado ao mundo da arte. E hoje, num programa tomado pelas mulheres, comigo tenho Laura Afonso, curadora da exposição que homenageia a arte e o centenário do marido, Nadir, num grande shopping de capital. E curiosamente, não vai ser o único. No final, entre as três sugestões que, como sempre, lhe sugiro, há outros dois grandes shoppings, estes no Norte, que acolhem outras tantas grandes artistas contemporâneas, a que junto as obras de uma das raras fotógrafas portuguesas de projeção internacional. O que se passa com os nossos centros comerciais, que se estão a tornar em verdadeiros e importantes museus. Mesmo a fechar, um desafio: pode-se ou não vestir uma obra de arte? Há 100 anos era possível pelas mãos de outra mulher. Hoje, aqui em estúdio, está Laura Afonso, presidente da Fundação Nadir Afonso e viúva do grande pintor, arquiteto e ensaísta flaviense, de quem celebramos o centenário do nascimento. É ela a curadora da exposição "100 Anos Nadir Afonso", que reúne mais de 40 obras do artista, incluindo peças inéditas criadas ao longo de mais de seis décadas, naquela que é a maior estrutura de sempre de arte que chegou ao Colombo, que vai na sua 11ª edição. A exposição é uma viagem pelo mundo da arte, da harmonia e da plenitude, o encontro entre a arte e a tecnologia, das formas estáticas da pintura aos ritmos cinéticos das formas. Um deleite para os sentidos, diz ela a propósito desta mostra que se pode visitar no Centro Colombo até 12 de setembro. Olá, Laura, e muito obrigado por ter aceitado este meu convite pra estar aqui no K4. Bem-vinda ao Observador, é um prazer.
Muito obrigada, muito boa noite.
É um prazer estar consigo e tenho que começar por dizer isto. Talvez não se note na minha voz, mas eu estou mesmo contente, feliz por tê-la aqui e por ver que é uma mulher que dedicou a sua vida quase inteira a este homem, a este pintor que a seduziu tão nova. Passaram a vida juntos, mais de 30 anos juntos, 33 e meio, se não me engano.
Sim.
E que fez da sua vida uma missão e tem conseguido lindamente, com a fundação e com todas as exposições que nos fala, promover a obra do seu marido, está a promover também este amor que vos uniu tanto tempo e isso é transparente na sua cara. Não tem maneira de esconder isso. Por isso, parabéns por esta missão de vida que assumiu e que tem cumprido tão bem. Uma dessas provas é esta exposição que falamos hoje. Para começar, vou já dizer que Nadir é um nome farsi, é um nome persa.
Exatamente.
Que quer dizer?
Que quer dizer raro, único.
Raro, único. Confere.
Sim.
E também é muito engraçado, porque a Laura estudou Matemática, esteve em estudos de Matemática e depois foi se licenciar em História, tudo bem, mas estudou Matemática. E o Nadir tinha esta coisa: toda a obra artística é um reflexo das leis da natureza de origem matemática, numa procura constante de atingir o absoluto. Aliás, já me falou disso há bocado. E nisto faz-me muito lembrar o Almada Negreiros. É engraçado, ele também tinha um fascínio. Aliás, eles eram parecidos.
Apesar de conceitos diferentes.
Sim. Esta coisa da Matemática.
Nadir tinha um espírito mais objetivo e talvez mais científico. O Almada, isto a meu ver, aliava a matemática, a geometria um pouco à mística, que para Nadir a mística-
Já não dizia tanto. Exatamente. Estava fora da equação.
Estava fora.
Estava na parte matemática.
Nadir era um racionalista e um objetivista.
Exatamente. É engraçado, tenho que fazer esta pergunta: foi amor à primeira vista? Ele quando conheceu a Laura ainda era uma menor. A Laura fez 18 anos um mês a seguir a tê-lo conhecido. E ele era um homem, tinha um ateliê, já era pintor, já pintava, já era arquiteto também. Tinha um ateliê pertíssimo do seu liceu. A Laura tinha 17 anos. Ele era um ótimo comunicador, estou mesmo a vê-lo contar.
Exatamente.
Declamava-lhe poemas.
Exatamente.
Os seus pais diziam: "Não".
Exatamente. Mais a mais, não só a diferença de idades, era um homem que tinha uma vida pessoal um bocadinho atribulada.
Não era uma companhia recomendável para a sua família.
Exatamente.
Tinham quase 40 anos de diferença, é muito. É engraçado, ninguém acreditava naquela relação, mas o que é certo é que durou estes anos todos.
Exatamente.
E perdura através dos trabalhos que continua a fazer por ele.
Muitas gente diria que não iríamos estar casados mais de um ano. De maneira que foi uma vida. Tivemos dois filhos, o Artur e o Augusto.
O Artur também é arquiteto?
Arquiteto, e o Augusto é matemática.
Olha, cá está! Isto percorre a família toda. É sina, não é herança, é sina. É muito engraçado, porque ele tinha uma vida muito curiosa e muito frugal também, não era?
Exatamente. Ele era um homem muito despojado, muito frugal. Ele não tinha o prazer da comida.
Da mesa. Uma espinha bem feita era suficiente?
Sim, coisas simples.
Engraçado.
Fruta, leite, mel, um peixinho grelhado.
Tão bom.
Tudo dentro da simplicidade e coisas naturais. Ele apreciava, sobretudo, a comida natural, os alimentos naturais, nada de sofisticado.
E a Laura costuma dizer: "Tinha essa comida natural, tinha um bom colchão e desde que não chovesse nos quadros, estava feliz."
Exatamente. Quer dizer, os desenhos, os quadros tinham que estar salvaguardados.
Exatamente. Foi engraçado.
O resto não importava, porque Realmente, a paixão dele era uma obsessão e eu também digo que era um desígnio construir uma obra.
Criar.
Criar. E era um trabalho intenso e talvez poucas pessoas tenham a noção do que era o trabalho diário, o esforço que ele colocava em tudo. Muitas vezes havia pequeninas coisas, pequeninos ajustes, pequeninos retoques que ele fazia, que se calhar a maior parte das pessoas olha pra aquilo e diz assim: "O quê? O senhor esteve um dia inteiro para..."
Para aquele pequeno retoque, só?
Sim. Mas isso para ele era essencial, era fundamental, porque só quando ele dizia que não havia nada a pôr nem a tirar, é que o quadro estava completo, que tinha atingido aquele nível de exatidão.
De perfeição, se calhar?
Sim.
Que ele achava-
Exatamente
...estava completo.
Da harmonia total.
Engraçado. Esta beleza absoluta que nós falávamos aqui.
Exatamente.
Quer dizer que ele era muito perfeccionista e fazia muitos estudos, como a Laura diz.
Sim.
Chegava a fazer 25, 30 estudos e depois só um é que ele escolhia para desenvolver.
Exatamente, porque depois via, escolhia e dizia assim: "Este aqui não dá, este não dá, este dá, este pode dar". E muitas vezes pegava nos estudos e não encontrava no momento a forma, o fecho da composição, então guardava. E depois mais tarde. Porque temos que encarar que o trabalho de artista para Nadir não é uma questão de inspiração, é trabalho, é dedicação.
Ele dizia isso: "A arte é 10% de inspiração, 90% de trabalho". Era uma frase dele incrível.
O Ansel também dizia.
Exatamente.
Isso era um cadinho diferente, mas no fundo vai dar.
E é engraçado também porque parece que quando dormia punha na mesa de cabeceira, havia sempre papel e um lápis.
Exatamente, porque ele se de noite acordava com alguma ideia na cabeça para conseguir dormir, para conseguir ter sossego, tinha necessidade de-
Passar para o papel
...para o papel e assim já descansava.
Já podia dormir o resto.
Já podia dormir descansado.
Muito giro. Há um grande espólio, portanto esta fundação deve ter milhares e milhares de desenhos deles.
Sim, temos muitos.
E por isso deve haver ainda muitos inéditos que vocês têm em reserva. Daí fazer várias exposições, até temáticas.
Exatamente. Sim, e podemos fazer exposições temáticas, como temos feito. Temos feito exposições só de estudos e aproveito para divulgar que está na Biblioteca Nacional, no Campo Grande, uma exposição constituída sobretudo, apesar de ter três guaches e um apontamento de telas.
Mas é sobretudo os guaches.
Os guaches. Os estudos que mostram-
Pequeninos, até, não é?
Muito pequeninos, alguns com cinco ou seis centímetros.
Do tamanho de uma carta de jogar. Muito engraçado.
E que mostram a metodologia de trabalho de Nadir. E é interessante porque tem desenhos desde o tempo da academia, desde o tempo de aluno das Belas Artes, até ao século XXI.
Até à atualidade, sim. É engraçado. Eu quero percorrer mais a vida dele. Ele esteve com o Vasarely, ele esteve com o Fernand Léger, ele trabalhava no ateliê dele, com o Niemeyer, com o Le Corbusier. Vou falar disso tudo. Antes, quero arrumar este assunto da exposição. Portanto, temos essa exposição "100 anos de Nadir Afonso", inaugurou esta terça. Devia ter sido no ano passado, porque o ano passado é que fazia anos. Ele nasceu em 4 de dezembro de 1920, portanto no ano passado é que faria os 100 anos, mas pronto, foi adiada para este ano, como aliás tanta coisa. E portanto, é a 11ª edição da Arte Chega ao Colombo. É uma grande exposição que tem uma série de 20 pinturas, algumas com uma dimensão macro, tem três metros por três metros. Tem 14 guaches inéditos, nove esboços de arquitetura dele, a maquete do Museu Nadir Afonso em Chaves, que foi projetada pelo amigo Siza Vieira, Álvaro Siza. E depois tem aquela sala com aquela experiência imersiva e interativa. É muito curioso este video mapping e música que pegaram em cinco pinturas dele, de vários períodos dele, e animaram aquilo com música e som, e realmente é mergulhar completamente nesta. Eu estava lhe a dizer quando agora a trouxe, entramos por aqui pelo observador, que os quadros deles sempre me soaram a movimento. A gente olha pra aquilo e vê movimento, é motivo daquilo ali.
Sim. E é interessante porque já nos anos 50, aliás, Nadir tem isso escrito, que quando pertencia ao grupo Le Mouvement, ligado à Denise Renée, em que ele e vários artistas, cada um tentava introduzir o movimento na pintura que era estática. Já aí Nadir preconizava que o futuro da arte seria, bem, na altura não havia vídeo, mas seria as formas moverem-se.
Animadas.
Animadas através de uma técnica cinematográfica.
Já era um visionário nessa altura. Porque não se falava disso, não havia ainda video mapping.
Exatamente, ainda não havia.
Então ele ia gostar de ver isto, Laura.
Sim, acho que sim, porque era precisamente isto que ele mais ou menos idealizava. E depois também deixa de ser interessante, porque já há a questão de 10 anos atrás, a Madalena Vitorino criou uma peça de teatro, que era a "Linha da Viagem" Um conto coreográfico em terras de Nadir em que os cenários eram precisamente obras de Nadir.
Havia alguma animação já?
Já havia animação. Começava, por exemplo, por entrar o preto, entravam as formas pretas, depois as amarelas, as vermelhas, as azuis. Havia ali um bailado até as formas se encaixarem todas.
Interagiam.
Exatamente. E na altura achei que foi muito interessante a ideia.
É engraçado. E agora fez-se esta sala que se pode visitar no Centro Colombo até 12 de setembro. É uma das partes, tem várias salas, esta exposição é grande, ocupa quase aquela praça central toda. Foi a maior que se fez até hoje, este museu especial que se criou ali, este museu temporário, um projeto do Diogo Aguiar Studio, que vale muito a pena conhecer. É um pouquinho também para democratizar esta arte, não é? Para atrair novos públicos.
Com certeza. Exatamente. Porque quando não vai a montanha a Mohammad, vai Mohammad à montanha.
Há pessoas que se calhar nunca tinham ido a um museu.
Exatamente, porque há pessoas, às vezes o facto de entrar num museu, numa galeria de arte, é como se houvesse ali uma barreira. Ali a pessoa circula facilmente.
À vontade.
E temos todo tipo de público, desde as pessoas mais humildes às pessoas mais cultas, mais exigentes. E é essa a grande democratização. É a aproximação. Porque nós também, se formos a ver, sempre as nossas praças, sempre houve peças de arte. Ali, como é pintura, estão mais resguardadas dentro.
Claro, de um espaço fechado, mas é bastante vasto.
Exatamente.
Está muito engraçado. Para Nadir, a arte tem como objetivo criar beleza e harmonia. E é isto que ele consegue muito com esta exposição. Ele tinha uma grande mão para o desenho e é conhecida aquela história que com quatro anos desenhou aquele círculo vermelho na parede. Com quatro anos. E ficou tão perfeito e tão bonito que os pais não conseguiram castigá-lo. Porque o pai percebeu, aos 12 anos já lhe deu um estirador.
Exatamente.
Ele dizia que ia ser arquiteto, mas mais tarde disse que tinha sido arquiteto por engano. E quando conseguiu largar a arquitetura e dedicar-se só à pintura em 65, foi o que ele fez. Mas é engraçado que ele colaborou com o Le Corbusier, grande nome, e com Oscar Niemeyer. E com o Le Corbusier fez uma tese, orientou-lhe a tese, exatamente o tema era: "Arquitetura não é uma arte".
Exatamente.
É muito engraçado.
É. Porque para Nadir, a pintura não tem qualquer função a não ser o provocar a beleza, harmonia.
Emoção.
A emoção.
Exato.
Enquanto que a arquitetura tem que obedecer à função. Nós não podemos fazer aquilo que queremos, mesmo que possamos pensar o edifício, se eu lhe pusesse ali uma rampa ou ali umas escadas mais íngremes, ficaria mais bonito, mas a arquitetura tem que ser funcional. E para Nadir, a dificuldade não era fazer os projetos. Para Nadir, a dificuldade era ter de liderar uma equipe, porque um arquiteto tem que saber lidar com todos.
Os técnicos, os desenhadores, os engenheiros.
Exatamente, com os donos das obras.
Construtores, tudo.
E tem que ter também outra capacidade, de angariar projetos.
Faz sentido. Ele assim como pintor não teria problema com isso. É sozinho a criar.
Exatamente. O diálogo era-
Era mais ele.
Exatamente. E foi por isso que a arquitetura não o satisfazia. Que ele dizia muitas vezes que a grande chance, se quisesse ter uma carreira de arquiteto, teve-a no Brasil, quando o Oscar Niemeyer abriu o ateliê em São Paulo.
Era o quarto centenário de São Paulo.
Exatamente.
Ele colaborou com ele.
E mandou Nadir para São Paulo para chefiar a equipe. E o Nadir pouco tempo desistiu, porque não se sentia. Não era aquilo que o satisfazia.
Não estava bem naquela pele.
E ele nunca andou à procura nem de fama, nem de dinheiro e por isso mesmo achou que-
O seu lugar seria outro, o seu papel seria outro.
Exatamente.
E foi o grande pintor, o grande nome que é.
E ele regressou a Paris.
Abstracionismo geométrico era o que ele fazia, ele fez parte daquele grupo, daquela máquina cinética, daqueles pioneiros.
Exatamente.
Conheceu o Vasarely, o grande Vasarely, conheceu o Herman, o Mortensen. Arte cinética, pós-geométrico, fractal, realismo geométrico. Esse passimilité, ele passou por estes movimentos e isto está tudo documentado nesta retrospectiva. Está muito bem feita no Centro Colombo. A pessoa fica com a ideia do percurso dele, que é muito giro.
Exatamente. A ideia foi precisamente isso, colocarmos pinturas das várias décadas, com grande predomínio das décadas finais do século XXI.
Claro.
Porque Nadir dizia que Apesar de estar debilitado fisicamente, porque teve vários problemas de saúde, foi submetido a várias intervenções cirúrgicas nos últimos anos de vida. Mas dizia que todas as qualidades cognitivas, todas as capacidades intelectuais estavam intactas. E até dizia mais, que a idade deu-lhe a facilidade de olhar para um trabalho e ver se existia erro, se não existia, se estava tudo certo. Muitas vezes também para certificar que o quadro estava certo, via através de um espelho.
Exato, incrível.
Porque se um quadro está certo, de qualquer forma está certo. Mas se tiver um erro, aparece com mais evidência.
É um belíssimo truque e é incrível. Laura, infelizmente, não temos tempo para mais, mas quero agradecer muito a sua disponibilidade.
Muito obrigada, eu que agradeço.
Fica aqui o convite a si que nos ouve para visitar esta exposição até 12 de setembro. A exposição 100 Anos de Aldro Alphonse, pode visitar na Praça Central do Centro Colombo até 12 de setembro. Portanto, todos os dias das 10:00 às 21:00. A entrada é gratuita. Bem-haja, Laura.
Muito obrigada.
Muito obrigado. Até à próxima.
Até à próxima. Muito obrigada.
E nós agora aqui no "K4", vou deixar então três sustões. Duas grandes artistas contemporâneas em três grandes shoppings do norte e as obras de uma das raras fotógrafas portuguesas de projeção internacional. Até 5 de setembro, o Arrábida Shopping acolhe uma exposição fotobiográfica de Maria Helena Vieira da Silva. Ela é uma das artistas contemporâneas portuguesas com maior destaque no panorama internacional. São 28 painéis da Fundação Arp@d Szenes - Vieira da Silva, que transportam os visitantes para a vida e obra da artista. Há fotografias, excertos de cartas, recortes de jornais, reproduções de esboços, de esquissos, de obras fundamentais. Na galeria pop-up, piso um do Arrábida Shopping, em Gaia, segunda a sexta das 10:00 às 21:00. Sábado e domingo das 10:00 às 15:30. E até 2 de setembro, o NorteShopping recebe, por sua vez, a exposição "Valquírias" de Joana Vasconcelos. São duas esculturas exuberantes e gigantes, inspiradas nas figuras femininas da mitologia nórdica, que survoavam os campos de batalha e gravitam agora, literalmente, na praça central do Norte Shopping. "Mary Poppins" tem 219 quilos e sete metros de largura. Já esteve na Galeria de Arte Contemporânea em Londres, no Palácio de Versalhes e no Centro de Congressos em Maastricht. "Royal Valkyrie" pesa mais de 220 quilos, tem nove metros de altura. Já passou pelos palácios de Versalhes, Palácio da Ajuda e pela Royal Academy of Arts em Londres. Estão previstas visitas guiadas e oficinas de crochê para famílias. Até 10 de outubro, o Centro Cultural de Cascais mostra "Room 1008 ", fotografia e vídeo de Rita Barros. É uma das raríssimas fotógrafas portuguesas com projeção internacional. É mais um capítulo de um projeto iniciado há mais de 20 anos, que reflete o ambiente do centenário Hotel Chelsea, em Nova Iorque. Um espaço de referência que já foi a morada de nomes como Mark Twain, Bob Dylan, Patti Smith ou Janis Joplin, e onde vive Rita Barros. Em três salas do piso térreo do CCC, há impressões fotográficas e um livro em forma de acordeão. Especificamente para esta exposição, juntou-se um conjunto de pequenos vídeos realizados durante os confinamentos para ver de terça a domingo das 10:00 às 18:00. E agora é um desafio: pode-se ou não vestir uma obra de arte? Apresento-lhe Sonia Delaunay e a sua arte vestível. Sonia Delaunay foi uma artista e estilista francesa, nascida na Ucrânia, que passou a maior parte da sua vida a trabalhar em Paris. Juntamente com o marido, ele próprio um pintor de renome, o francês Robert Delaunay, foi cofundador do movimento de arte Orfismo, conhecido pelo uso de cores fortes e formas geométricas. O seu trabalho estendeu-se à pintura, design têxtil e cenografia. Foi a primeira artista viva a ter uma exposição retrospetiva no Louvre em 1964. E em 1975, foi agraciada com o título de Oficial da Legião de Honra Francesa. Até à sua morte, há 42 anos, o seu trabalho em design moderno exibiu conceitos de abstração geométrica e cores vivas, bem como a integração de móveis, tecidos, papéis de parede, talheres, joias, roupas e até automóveis. Delaunay tinha um estúdio parisiense dedicado à criação de tecidos e roupas e abriu uma casa de moda chamada, como não poderia deixar de ser, Sonia. E atraiu clientes ricos. Em 1925, fez um casaco em lã bordado e um maiô de banho para a estrela de cinema Gloria Swanson, em tons geométricos de vermelhos, castanhos e cremes vivos e picantes. Ao longo de mais de quatro décadas, Sonia Delaunay projetou tecidos para a loja de luxo Matts & Co, de Amesterdão, e posteriormente para a Liberty londrina. Na década de 1930, ela estava ciente das possibilidades da produção em massa e mecanizada, e chegou a dizer: "Desta forma, a moda tornar-se-á democrática e isso só pode ser bem-vindo, pois vai elevar os padrões gerais." Isto soa vagamente à conversa da Zara ou da H&M quando apareceram meio século mais tarde, certo? Muito bem, é tudo por hoje. O 79º "K4" fica por aqui. Fazemos aqui uma pausa. Voltamos para uma quarta temporada em setembro. Até lá, bom fim de semana, boas férias, se for caso disso, e boas exposições. Eu sou o João Paulo Secadura, conto consigo no próximo "K4" aqui na Rádio Observador.