Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindo ao 77º K4. É o terceiro da terceira temporada, o 14º. Esta mostra da cultura moderna e contemporânea da Rádio Observador. Eu sou o João Paulo Secador e, como é habitual, arranco o K4 na companhia de alguém ligado ao mundo da arte. E hoje comigo está Vítor Pomar. No fim, sugiro-lhe três exposições: instrumentos musicais que dialogam com um quadro em Alpiarça, um filme de Portugal de lés a lés e arte contemporânea no Museu de Arqueologia. Mesmo a fechar, falo-lhe de uma tela recuperada pelos Monuments Man, que esta semana foi vendida num leilão em Londres. Hoje no K4 está Vítor Pomar. Ele é um destacado artista plástico português desde os princípios da década de 70. A sua obra começou a ser realizada na Holanda, onde estava nessa altura em formação. Influenciado pela meditação budista, o trabalho de Vítor Pomar cruza a pintura com a experiência do desenho, fotografia e filme, mas também instalação, escultura, objetos e texto. A sua mais recente exposição está patente até dia 25 no Palácio Anjos, Centro de Arte Contemporânea, em Algés. Unsurpassable, imbatível, é uma mostra antológica que confronta a sua produção recente com sua extraordinária diversidade de suportes, linguagens e materiais. Olá, Vítor, obrigado por ter aceitado este convite para estar no K4. Bem-vindo ao Observador.

Olá, obrigado pelo convite.

É um prazer. O Vítor, claro, é o filho mais velho do Júlio Pomar?

Não.

É o segundo?

É o segundo.

Pronto, é o segundo filho. Então o Alexandre é mais velho que o Vítor?

É, 14 meses.

Que herança é esta, Vítor? A gente confronta com ela ou não, ou está um bocadinho farto disso?

É uma coisa que eu estou habituado desde que nasci. O que tem variado é a imagem e a presença da imagem do Júlio no exterior, etc. Isso variou. Veio crescendo.

Veio crescendo, claro.

Mas fora isso, tudo bem. Não me faz mossa. Tem coisas que são um bocado estranho, porque já tem o nome feito e, por outro lado, também é inconveniente, porque tenho de lidar com isso e as pessoas têm de lidar com isso, o que nem sempre é óbvio.

O Vítor é um artista de mão cheia, como se vê, aliás, por todas as suas exposições, mas sente que muitas vezes as pessoas olham para si e dizem: "Só está onde está porque é filho do Júlio Pomar."

Eu penso que isso não acontece, até porque eu não estou muito visível. Passei muitos anos fora. Eu não fiz a guerra. Fui pra Holanda, descobri a Europa, foi um passeio. 16 anos estive lá, depois voltei. Já o 25 de Abril, já tinha passado as primeiras agitações. E depois eu tenho vivido um bocado fora também de Lisboa, de maneira que a minha presença não é muito marcante, não é muito social.

É engraçado também, passou pelo México em 74, onde chegou a expor. Depois, mais tarde, esteve também por Nova York, onde também chegou a expor.

Justamente, isso tudo são umas exposições muito feitas lá em casa. O México foi realmente uma bolsa de estudo que eu tive do Ministério da Cultura Holandesa, que coincidiu com o 25 de Abril. Portanto, eu não vim ao primeiro de maio, porque eu saí primeiro: "Vou ao México" e depois era ao vemos. Então quando cheguei cá era dezembro. Estive lá dois meses. É um bocado pioneira essa atividade do que hoje é muito corrente, que são as residências de artistas.

Exatamente.

Eu tenho um textinho chamado "Residências", mas que não tem nada a ver com a residência de artistas, mas é inspirado nessa realidade. Mas isso não posso dizer, porque é um título

Ousado.

Não, é um título em sânscrito, de maneira que posso dizer: "O lingam de Shiva reside no yoni da Shakti."

Já estão todos a ter uma ideia do que isto quer dizer. Isto vem também da sua experiência na Índia e com o budismo também.

Com o sagrado que existe na mitologia hindu e budista, que integra todos os aspectos da vida. Agora não vou dissertar nas coisas que não integram.

Sim, claro. Diga uma coisa, esteve mais de uma década na Holanda, com uma experiência de cultura, uma vida de arte agitada e importante. Depois em Nova York também, outro tanto. Cá em Portugal, nós estamos um bocadinho a esse nível de ter uma vida cultural mais intensa hoje em dia? Acha que ainda estamos a anos-luz do que já viveu?

É diferente. A chegada à Holanda realmente é espantoso, ter acesso a grandes exposições, a retrospectivas de grandes artistas americanos, etc. Foi um bom banho de cultura. E depois fui ficando por lá. As coisas vão sempre mudando. E aqui em Portugal, já há muita coisa, não tem nada a ver com o que era antes.

O que era antigamente. Esta ideia que eu tenho também é que o Vítor cruza uma série de técnicas e de suportes. Gosta sempre de experimentar. Há muita gente que acha que o Vítor é pintor. E não passa disso. Mas não, quando a gente vê as suas exposições, vê uma série de suportes que gosta de experimentar.

Eu penso que a pintura é realmente o centro visceral de tudo. É a prova real. O resto são derivações. Nós, às vezes, para observarmos a própria realidade, temos que fazer uma derivação. Tirar fotografias, filmes, etc. E a pintura é a mesma coisa. Precisamos de dar umas voltas para saber onde é que se enquadra, que valores, que referências é que podem ser úteis. Toda a criatividade é uma grande incógnita para nós. Eu penso que agora não sei, eu podia continuar por aí fora.

Por exemplo, Vítor, a questão da fotografia é muito importante. Já em 73, quando estava na Holanda há dois, três anos, já expôs fotografia em Roterdão.

Já não me lembro disso, mas sei que a fotografia foi realmente a prática que era mais simples, mais imediata possível de abordar. Eu abordei, quando cheguei lá, comprei uma máquina fotográfica relativamente minimamente boa em prestações. E fui fazendo fotografias. E neste momento Tenho um projeto que vai ser visível em breve, justamente de fotografias desses anos, e que é uma grande peça em dimensões.

Vai estar onde? Já tem um sítio? Ou ainda é segredo?

Ainda não posso falar. Vai ser divulgado. Acho que é indelicado para acabarmos aqui.

Também fez filmes experimentais em Super 8 e 16 mm. Também foi uma coisa que o atraiu durante um tempo.

Sim, desde logo. Eu trabalhei, portanto, numa academia livre de arte chamada Psychopolis, em Haia. Haia, para quem não sabe, é uma cidade extremamente burocrática onde reside o governo, palácios de rainhas, essas coisas todas.

Exatamente, é a capital.

E tem representações de muitas empresas e, portanto, é muito burocrática. E no meio disso, há uma academia de arte completamente anarca. Se fosse em Amsterdã, não podia existir. O diretor recebia-me com o punho fechado a dizer: "Os fascistas não passarão". E eu respondia: "Já passaram há muito tempo, não me lixes".

Engraçado que Amsterdã é o contrário. Amsterdã é toda uma academia livre e depois teria que ter uma escola muito certinha. Em Haia é o contrário. E onde ensinou serigrafia, também é verdade?

Ensinei durante dois anos, mas eu não tinha empatia para funcionar nesse esquema. E ao fim de dois anos, aquilo deixou de acontecer e eu passei realmente a um regime que foi muito interessante. Durante 10 anos, eu cabia completamente dentro das regras, dos regulamentos e tudo. Tinha terminado os estudos em Roterdão, tinha passado dois anos a trabalhar na academia em Haia e, portanto, candidatei-me ao que chama de regime dos artistas plásticos. E durante 10 anos tinha um salário fixo, que eles compravam telas até um certo montante. E portanto, tinha esse modo de vida.

Tinha aquele acordo. Exatamente.

Isso fez muito bem, eu pude durante 10 anos. Depois, só ao fim desses 10 anos, comecei a preparar a transição para Portugal.

Quando veio, voltou em 85, aí interrompeu um pouquinho a sua produção artística, mas fundou a famosíssima e fabulosa Casa Museu Álvaro de Campos, uma casa museu do escritor imaginado.

Sim.

É extraordinário, que vingou durante muitos anos.

Sim, portanto, eu vinha um bocadinho com aquela ideia romântica de ir para o Algarve, porque ainda pensei andar cá e lá, mas isso não dava, eu nunca fiz isso. Mas instalei-me no Algarve durante a maior parte anos. E o que eu fiz? Achei que o Álvaro de Campos dava-me proteção para fazer aquilo tudo que eu queria. Era um modernista, tinha estado no Oriente, e portanto, permitia-me fazer tudo que eu queria. E mais ou menos o que aconteceu, organizei exposições, organizei seminários e convidei, nessa altura também, o Mestre Zen. Comecei a organizar a vinda dele cá. Essas coisas assim.

A filosofia oriental e o budismo Zen influenciou sempre muito. Gosta muito da meditação. Teve no total um ano e meio pela Índia, em mosteiros. Sempre o influenciou muito na sua obra e agora também se pode ver isto nesta exposição.

Isso é uma coisa que vem realmente desde muito longe. Eu lembro-me dos primeiros artistas que eu tive conhecimento, era o Yves Klein, que era um tipo com muita ligação com as artes marciais orientais. Portanto, naturalmente, isso já existia. Quando estive em 80, 82, em Nova York, também andei à procura do Zen, andei à procura do yoga, etc. Mas ainda é tudo muito imberbe.

E depois passeou pela Índia, esteve em várias etapas.

Sim, isso foi no princípio dos anos 90. Após esse período bastante estritamente Zen com o mestre, não era brincadeira, era mesmo uma coisa muito interessante, era séria. E depois eu precisei de completar com outros ensinamentos, porque só o Zen não era suficiente. Por isso é que fui à Índia e realmente deu um contato direto com a coisa viva. Nessa altura ainda era viável, ainda não havia muita gente, ainda não era caro, etc. Isso foi no princípio dos anos 90 e hoje já está muito complicado. Está muito diferente.

"Unsurpassable", imbatível, é uma das mais importantes posições de Vítor Pomar, que está no Palácio Anjos, em Algés, até dia 25. Por que este título?

Agradeço a pergunta, porque de qualquer maneira ia lá ter. Porque é o seguinte: não é eu ou a dita obra que é imbatível, mas é os textos a que eu me refiro, que são realmente hiper abrangentes, e é por isso que eu insisto naqueles textos, chamo a atenção, porque eles abordam temas que na nossa filosofia ocidental não têm ferramentas para abordar. São as ferramentas contemplativas, são gente extremamente dotada, que foram ao fundo da questão da existência e da realidade e vieram dizer como é e como se pode, cada um por si, experimentar, chegar a essa conclusão, verificar aquilo que é dito. Não há uma atitude missionária, não há um dogma, mas é experiencial. E é isso que me fascina nessas filosofias. E tenho acesso, realmente, através deles, de questões como a criatividade, a espontaneidade, a intuição, que na psicologia e na filosofia ocidental, coitados, não sabem, nem sequer a alegria, o que é alegria, o que é felicidade. Não sabem. Ao fim de 20 minutos dessas coisas, ficam aborrecidos. Não dá.

Sim, exatamente. Encontrou uma porta para poder expandir todos esses sentimentos e essa intuição.

Isso é imbatível. Isso é unsurpassable.

Muito bem. Nota-se certa influência oriental. Tem aquele sino de vento gigante que está lá em cima naquela sala da parede enorme, que eu gosto muito, neste Palácio Anjos. Agora tudo aquilo vai mudar, vai entrar em obras, estão agora. Aquilo vai entrar em obras durante seis meses, vai ficar fechado e vão mudar aquela estrutura interior. Vamos ver o que vai acontecer ali. Mas outra coisa que eu vejo da sua obra e que acho muita piada é o formato. Muitos formatos gigantes. Gosta muito daquela escala grande das suas obras?

Acontece que este espaço permitia isso.

É verdade.

Por um lado. Por outro lado, aquelas coisas não podem ser feitas em pequeno formato. É muito difícil. Eu espero, em breve, conseguir trabalhar num formato mais pequeno, um metro, um metro e meio. Acho que é uma aposta, é um desafio. Mas de facto aquilo passa-se no chão, desenrolo 10 metros de tela, com jeitinho lá vou fazer umas festas àquilo e depois quando aquilo estaria possivelmente pronto, corto aquilo aos bocados e ponho na vertical. E esta exposição mostra a deriva desse processo. É em termos de processo que nós temos de ver e não em termos de resultado final. Não há camadas sobrepostas que escondem o que está por trás. Não, está tudo à vista.

Quando é que para si uma obra de arte está completa?

É uma questão de fé, "might I dare".

Fé mesmo? Fé?

Fé.

Acredita que está feita e acabou, passa para a seguinte?

Eu estou a falar de fé nesse sentido, quer dizer, não há nada que justifique a arte, que um quadro está pronto ou não, senão aquela confiança que a gente tem.

Há um clique que diz.

Aquela visão interior, que é uma visão quase que pode, em termos de zen, é uma visão unitária. Unitária quer dizer, em que não há separação global. E a partir daí, aquilo está pronto e ultrapassa-nos.

Muito bem.

Eu tenho vindo a conseguir a concordância de alguns mestres das artes, neste sentido. Agora não vou dizer quem. Adivinhem.

Esta entrevista fica todo um mistério para os nossos ouvintes. Última coisa: custa separar-se das suas obras? Há obras que não dá, não vende, por mais que lhe peçam e outras que como muito bem.

Há muito poucas, há um ou dois mascotes.

Que gosta de guardar para si. Mas todo o resto são como filhos, despacha-os e acabou?

Não é despacho e acabou, eles têm de fazer a vida deles. Os filhos também, não são propriedade nossa.

É verdade. Sim, senhora. Muito bem, então nós, Vítor, não temos tempo para mais.

Isto de rir é muito bom, porque faz massagem aos órgãos internos, sabia?

Então massageados internamente, temos que infelizmente acabar este tempo, desta conversa com o Vítor. Quero-lhe agradecer a disponibilidade, Vítor, por vir aqui ao Observador. Mas fica também o convite a si que nos ouve para visitar então o Palácio Anjos, em Algés, onde está patente até dia 25. Tem mais uma semana e poucos dias. Aproveite esta exposição Unsurpassable, Imbatível. É a última de Vítor Pomar, com entrada livre, de terça a domingo das 11 às 17h. Além de imbatível, é imperdível. Não perca. E pronto, Vítor, bem-hajas. Até breve.

Obrigado.

No K4 deixo-lhe agora três sugestões: instrumentos musicais que dialogam com um quadro em Alpiarça, um filme de Portugal de lés a lés e arte contemporânea no Museu de Arqueologia. Até 15 de agosto está patente na Casa dos Patudos, museu de Alpiarça, a exposição O Som da Pintura, onde uma tela de Bartolomeu Beterra, a única do mestre bergamasco documentada em Portugal, dialoga com seis instrumentos do espólio do Museu Nacional da Música. Um alaúde, um violino, um citarroni, um violoncelo, uma charamela e uma viola barroca. É uma reflexão sobre o protagonismo dos instrumentos musicais na obra de arte em redor da tela mencionada. De entrada gratuita, inserida no Festival Entre Quintas, a mostra está em Alpiarça, na Casa dos Patudos, que foi do melômano José Relvas. Pode visitá-la de terça a domingo, das 10h às 17h30. E na Galeria da Boa Vista, uma das galerias municipais, pode ver até 26 de setembro a exposição de vídeo e fotografia 1421, de Duarte Amaral Neto. Em maio de 2014, com o anúncio da saída da Troika, Duarte Amaral Neto decidiu atravessar Portugal de norte a sul pelo centro. Inquietava-o a ideia de conhecer o país. O resultado dessa jornada é um retrato pessoal do país que tem tanto de analítico, de crítico, de poético. Um abalo maior, e que tornaria visíveis todas as debilidades da estrutura socioeconômica portuguesa, chega-nos agora com a pandemia, que oferece pano de fundo à primeira incursão de Duarte Amaral Neto pelo território do cinema, na qual questiona a nossa vida este ano. 1421 para ver na Galeria da Boa Vista, ao Cais do Sodré, terça a domingo das 10h às 18h. E até ao fim de outubro está a decorrer a exposição polonuclear Clamor de Maré Cheia, da artista portuense Cristina Rodrigues. Um dos polos é a instalação Site Specific, no jardim do Museu Nacional de Arqueologia, nos Jerónimos, da iniciativa Programação Cultural em Rede, que envolve o MNÁ e três municípios do Norte: Baião, Vila do Conde e Valongo. Os quatro espaços vão exibir obras de Cristina Rodrigues. As duas instalações com o título Clamor de Maré Cheia, a expor no MNÁ e em Vila do Conde, são compostas por 24 esculturas de barcos em ferro e redes de pesca que aludem ao homem como ser explorador, criador de um objeto capaz de atravessar o mar rumo ao desconhecido. E na semana passada, um retrato do artista flamengo Cornelius de Vos e a sua família, feito por Anthony van Dyck, então um pintor flamengo em início de carreira, com apenas 20 anos, foi à barra no leilão vespertino dos Old Masters na Sotheby's londrina. A tela recuperada pela famosa equipe de especialistas de arte da Segunda Guerra Mundial, conhecida como os Monuments Men, e devolvida aos seus proprietários originais, judeus holandeses, em 1948, acabou por ser vendida por 2,9 milhões de euros, tornando-se a sexta obra mais cara do artista vendida em leilão. Entre os pintores barrocos flamengos mais conceituados, Van Dyck teve uma carreira prolífica como retratista no século XVII, conhecido pelas suas representações de modelos ricos, em particular membros da realeza britânica, e tornou-se um dos mais vendidos na categoria dos mestres antigos em leilões. Muitas das suas obras mais valiosas foram consideradas redescobertas quando foram pela primeira vez a leilão. As vendas para museus importantes aumentaram o valor das pinturas de Van Dyck nos últimos anos. Em 2014, a National Portrait Gallery de Londres compra um autorretrato feito pouco antes da morte do artista, em 1641, por 13,5 milhões de euros. Isso marcou um aumento da sua cotação, desde que o mesmo autorretrato bateu o recorde em leilão do artista em 2009, quando foi vendido por 11,4 milhões. E em 2018, o Museu de Belas Artes de Budapeste comprou o retrato de casamento da filha do Rei Carlos I por Van Dyck, noutro leilão vespertino de Old Masters, desta vez na Christie's londrina, por 6,3 milhões. E é tudo por hoje. O 77º K4 fica por aqui. Bom fim de semana, boas exposições. Eu sou o João Paulo Secador e conto consigo no próximo K4, aqui na Rádio Observador.