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Bem-vindo ao 76º K4, é o 13º desta terceira temporada da montra da cultura moderna e contemporânea da Rádio Observador. Eu sou o João Paulo Sacadura e, como é habitual, arranco o K4 na companhia de alguém ligado ao mundo da arte. Hoje comigo está Hugo Cardoso, coordenador da GAO Galeria de Arte Urbana da Câmara Municipal de Lisboa. No fim, sugiro-lhe três posições: o Porta, que abre em Leiria, fotografias marginais no Porto, os mitos absolutamente belos de Quaresma. Mesmo ao fechar, falo da nossa mais famosa pintora contemporânea que faz furor em Londres. Hoje comigo no K4 está Hugo Cardoso, da GAO Galeria de Arte Urbana da Câmara Municipal, para falar da quarta edição do Muro Lisboa 2021, a decorrer até domingo no Parque das Nações, com mais de 60 artistas nacionais e internacionais, 25 intervenções de arte urbana, três exposições, duas instalações e um workshop. Olá, Hugo, e muito obrigado por teres aceitado este convite para estar no K4. Bem-vindo de volta ao Observador, tu já és um amigo da casa.
É verdade, é sempre um prazer.
Já vieste cá há um ano e meio, em janeiro de 2020.
Sim, praticamente por causa do último Muro.
Da terceira edição do Muro, que foi no Lumiar. Muito bem. A GAO, eu gosto sempre de falar nisto, para mim simboliza este apoio grande que a autarquia lisboeta tem dado nestes últimos 13 anos, a fazer de Lisboa uma capital da street art a nível mundial. Temos já grandes nomes que também fazem furor lá fora, o que é muito bom. É bom vê-los lançar. Para ti é um bocado os teus meninos também, não é? Quando os vês lá fora a brilhar, ficas também todo contente.
Meninos, não. Eu penso que é sempre importante, eu acho que trabalhamos todos. É uma comunidade relativamente grande, mas é uma comunidade relativamente fechada. Conhecemo-nos praticamente todos, mas é de facto muito interessante perceber como uma comunidade destas, que teve a visibilidade e o boom que teve em tão pouco tempo e de repente estão a conquistar o mundo, é sempre um prazer.
E é incrível. Eu sigo algumas coisas da street art e vejo o talento. É uma coisa aclamada em todo o mundo, é impressionante. As coisas do Bordalo, as coisas do Ó, do Odeith, as coisas do Corleone, as coisas do Vhils.
Claro.
Em todo o mundo as pessoas falam deles.
E tão diverso. Não é uma estrutura ou uma expressão artística que seja verdadeiramente fechada sobre si mesma. Tem-se diversificado, tem crescido, tem sabido consolidar, tem sabido abraçar novos desafios, qualquer um deles. O trabalho do Corleone no Festival Eminente no ano passado, de repente, está a fazer um vitral. É impressionante.
Incrível, no Panorama Monsanto, uma coisa deslumbrante.
E mesmo respostas que nós temos, por exemplo, em empresas antigas que estão a trabalhar com artistas de arte urbana, como por exemplo a Viva Lamego, a fazer uma coisa impensável, se calhar há muito pouco tempo, mas com um dos artistas de referência norte-americanos, como o JonOne, a fazer uma peça de azulejos na Ajuda. É impressionante.
Impressionante. E é muito curioso também, como tu disseste, e muito bem, essa palavra que tu empregaste, a diversidade, que é muito giro. Tivemos cá também a ANA, por exemplo.
Exatamente.
Incrível, com ponto cruz.
Exatamente.
A originalidade, pelos azulejos, pelo vitral, até pela lã e pelos sprays, é uma coisa impressionante. Esta emissão da GAO, um departamento da Câmara Municipal de Lisboa, a promoção do grafite e do street art em Portugal, uma estratégia em prol da arte urbana. Este festival Muro, depois de Carnide, do bairro Padre Cruz, que foi em 2016, e depois de Marvila no ano seguinte, 2017, teve esta terceira edição no Lumiar, no bairro da Cruz Vermelha, que foi em maio de 2019, esta terceira edição, vieste cá falar disso. E nestes três anos houve um balanço de 157 artistas que criaram 112 peças importantes de arte urbana, pintaram mais de 17 mil metros quadrados. É impressionante. E agora estamos na quarta edição, de 3 a 11 de julho, está a decorrer no Parque das Nações, em conjunto com a Junta de Freguesia do Parque das Nações e com a GEBALIS. Os três organizam esta quarta edição do Festival Muro. Aqui estão em curso ações com mais de 60 artistas. É realmente um mega festival.
É um mega festival, não só pela quantidade ou pela diversidade que temos, mas também pela altura ou pela monumentalidade que estamos a empregar aqui. Conversávamos antes do programa de termos, no último festival, a maior empena que tivemos, tinha cerca de 20 e poucos metros, 23, 24. Neste momento, estamos a trabalhar com empenas a 36 metros, a 40 metros. Pilares da ponte, é algo que muitos dos artistas, quando nós lançamos o convite, por exemplo, o WHATE, que está a fazer a exposição individual conosco, é alguém com quem nós já queríamos trabalhar há muito tempo. E quando lhe lançamos o desafio, ele próprio disse numa das entrevistas que fez, o desafio de pintar um pilar de uma ponte, a obra de arte no termo técnico de engenharia que é a VITO, ele próprio disse: "Nunca imaginei que me convidassem para pintar um pilar da ponte, mas era alguma coisa que eu queria mesmo fazer." Nunca fez.
Incrível.
Portanto, qualquer um dos artistas que está presente hoje no Parque das Nações nunca pintou à escala em que está a pintar. Todos eles abraçaram esse desafio, todos eles estão a corresponder com diversidade, com capacidade, com grande empenho e grande criatividade. Talento. É alguma coisa impressionante aquilo que deixam no Parque das Nações. Depois, uma questão que também achamos importante, foi um desafio que a Junta de Freguesia do Parque das Nações nos lançou, que é de que forma é que nós abraçamos a freguesia toda e de que forma é que nós conseguimos ligar pontos que vão desde um território que é muito importante para nós naquilo que é a nossa parceria com a GEBALIS, que é a empresa de património municipal, que faz a gestão do património municipal, como é que nós valorizamos esse patrimônio municipal, mas como é que o ligamos a outros territórios da própria freguesia. Isso foi o desafio que nos lançou a Junta de Freguesia. O presidente da Junta de Freguesia é um aficionado à arte urbana também, portanto, lançou-nos esta semente de deixarmos noutros locais Que tornam a atractividade ou a atractilidade daquele território um percurso bastante completo desde os Pilares da Ponte ao Bairro Casal dos Machados, à Avenida de Pádua ou ao Gare do Oriente. É uma área, em termos de perímetro de festival, também para nós completamente nova, gigante, nos quais convidamos as pessoas a irem visitar e munirem-se de água, porque vão ter muito pra percorrer, mas que receberemos com agrado neste fim de semana, mas que ficam disponíveis pra qualquer pessoa lá ir pelos próximos anos.
Exatamente. É curioso, porque vocês têm sempre esta preocupação de contratar artistas emergentes, mas também há uma série de artistas que se estreiam em Portugal e, portanto, vêm colaborar com este festival. O grafite está em grande destaque, obviamente. Falaste nos Pilares da Ponte, falaste da Gama, mas também há a parte das empenas de prédios, claro, atravessamentos pedonais, muros de comboio, campo de basquete. É muito importante o desporto. Vocês também vão ter uma área dedicada a isso.
É uma estratégia que nós definimos na sequência do último festival, que havia aqui dois caminhos que a Galeria de Arte Urbana queria desenvolver em termos de intervenção em espaço público e que era importante para nós. Até porque 2020, neste caso, 2021, é a Capital Europeia do Esporte. Era uma estratégia que nós definimos também com o departamento de esporte, de que forma é que nós podemos promover o desporto em espaço público. E aqui, percebendo até por altura do confinamento e depois do primeiro confinamento, a importância que o espaço público e o desporto feito em espaço público assumiu, porque de repente as pessoas deixam de poder praticar desporto em pavilhão e têm que ter espaços desportivos à altura.
E ao ar livre também.
Ao ar livre, claro. O primeiro que nós pintamos foi em 2019, exatamente no último festival com o AKACorleone no Campo Santana.
Campo Santana, exatamente, aquele magnífico campo de basquete.
De então pra cá, nós temos estado a desenvolver essas estratégias já muito consecutivamente. Pintamos um também em Chelas, que se chama Chicago Chelas, com o Half Studio.
Na Amaisoeira, agora.
Na Amaisoeira, um só pra miúdos. Um campo que tem uma empena gigante. Foi a primeira grande empena que o Hélio Bray, que é um artista muito conceituado internacionalmente, é português, embora a maior parte das pessoas achem que ele é americano, mas é um writer de rua, é alguém que trabalhou também conosco e que faz parte de um coletivo que trabalhou conosco para pintar os três campos de basquete que estão ao lado dos Pilares da Ponte, ao lado do skate park, ao lado da pista de vert BMX, portanto, criando aqui uma confluência de desportos, em muitos casos que vão ser modalidade olímpica e também era importante pra isso. O basquete 3x3 e o skate vão ser modalidade olímpica este ano.
É muito curioso, até porque o lema este ano é "o muro que nos reúne".
Exatamente.
E é muito engraçado vocês terem pegado nesta temática do muro, que em todo o mundo é uma coisa que divide e que tem dado muito o que falar. Vocês aqui é o muro que nos "reúne", reúne entre aspas. Muito curioso. Estas três zonas do Parque das Nações que estão ligadas, vocês têm três núcleos, este núcleo da multiculturalidade no Casal dos Machados, onde vão atuar três vencedores daquela open call que vocês fizeram aos artistas, já que tinham lançado há algum tempo. Vão ter também este núcleo da sustentabilidade, na Avenida de Pádua, que tu falaste nisso, onde vai, por exemplo, estar o Bordalo II, o grupo Visagardo e a dupla RCLS. E este último núcleo da cultura urbana, onde talvez é o mais notável deste festival, no Parque do Tejo, onde vai ter peças do Sérgio Odaís, a colombiana Zurik, que ela não conhecia, mas é também muito famosa por este jogo que ela cria entre o orgânico, o geométrico e os volumes de desenho técnico.
É uma writer graffiti que já andamos a seguir há algum tempo.
Finalmente.
A questão de presença de mulheres também é importante pra nós, a assunção, de fato, desta diversidade de gênero também naquilo que é o grafite.
Isso é tão importante também.
Exatamente, não é um esporte de homens somente. Temos a presença de muitas mulheres no festival. É alguma coisa que também nos agrada. E depois, ainda por cima, é uma mulher que pinta grafite, portanto, que é alguém que o grafite e a cultura urbana era alguma coisa que nós queríamos trazer mesmo pra dentro do festival e que queremos afirmar nos próximos anos. Normalmente, o grafite é muito mais associado. Toda gente gosta da monumentalidade. O grafite às vezes é um pouco maltratado no discurso cotidiano, porque ainda acham que é um processo muito vandálico, mas é um processo muito válido e é onde muitos destes artistas que trabalham conosco começaram.
Exatamente.
E em peças às vezes pequenas. Nós valorizamos muito a monumentalidade, mas há também peças pequenas que são importantes e que são interessantes. É uma das coisas que nós temos também no festival, que é um espaço de pintura livre e que vai permanecer pro futuro. E isso é uma estratégia que nós queremos ter no futuro na cidade. Penso que até no último programa tinha falado disso.
Era isso.
Os muros que pintaram pela cidade toda.
O parque de pintura livre, exatamente.
Exatamente. Queremos muito que ela se concretize. Neste momento, temos cerca de cinco. Esperamos ter até final do ano que vem, cerca de 40 pela cidade, portanto, que promova aquilo que muitos dos writers às vezes reclamam, que é terem espaços pra pintar, pra se encontrarem com os amigos, pra fazer meeting of styles ou hall of fame, ou estarem só a pintar, ou artistas emergentes pra nós conhecermos.
Vai haver também três posições na Gare do Oriente, que é no fundo o ponto de partida deste festival. Esta Obliquity do Sérgio Odaís, com os seus objetos 3D e anamórficos, que já por aqui passou também ele. Este Karma, uma retrospectiva das Crack Kids, uma exposição de serigrafias também, muito importante, e The Plastic Eye. São estas três posições, instalações. Isto é acesso livre, certo?
É acesso livre, é gratuito. Venham ver e venham, sobretudo, aproveitar. Eu diria que a exposição do Sérgio tem esta importância ou tem esta grande diversidade que é Nós, normalmente, quem segue, e ele é muito seguido nas redes sociais, normalmente vê a fotografia final e, portanto, não tem noção do trabalho, que é uma coisa gigante e que não está ao alcance de muitos. Ter um artista destes em Portugal é alguma coisa que é incrível. Mas nós podemos ver, neste momento, aquilo que é não só o anamorfismo que ele faz nas peças, mas de repente ver a desconstrução do mesmo. Ou seja, normalmente só quem segue verdadeiramente o processo dele e que vai para uma fábrica abandonada, que é o espaço natural dele, onde ele está. Nesta exposição vai poder ver essa distorção, que de repente estamos a ver a tridimensionalidade da peça. Há uma peça logo de entrada, vale a pena ver e perceber, porque vamos percorrer ao longo da parede a forma de estar. Há aqui duas formas de ver.
Procurar o ângulo certo.
Não, o ângulo está assinalado no chão e podemos depois seguir exatamente o trajeto que ele faz. Há duas formas de ver, de facto com o telefone, que tem uma câmara preparada para ver essa tridimensionalidade, ou quem tapar um olho a ver, automaticamente percebe no ponto de vista que é assinalado no chão, vê e percebe aquela tridimensionalidade na parede. É impressionante.
É giro, porque ele faz também aquelas coisas no Instagram que é: "O que é que eu pinto aqui?" Tem um bloco enorme dentro de uma fábrica abandonada. E depois ele já teve a ideia e toda a gente dá ideias para lá. Ele recebe centenas de sugestões e depois lá pinta. É um camião abandonado ou era não sei o quê. É impressionante. Realmente está ali um camião onde aquilo era um buraco na parede, não é possível. E depois também vão ter, finalmente, um workshop, o workshop Sopa de Letras.
Vamos ter vários. Temos inscrições abertas desde há duas semanas.
Que corre nos fins de semana, que tem um número limite de pessoas, sete, oito pessoas.
Exatamente. Os workshops duram uma hora. Neste momento estamos muito limitados em termos de presença a oito pessoas por cada hora, mas em termos de visitas, vamos ter cerca de 81 visitas possíveis para realizar. Muitas hoje, outras no sábado e no domingo, e depois workshops, os que já aconteceram no fim de semana 3 e 4 no Largo de Azaleos de Machados, e que vão acontecer amanhã e depois de amanhã num pilar da ponte. Portanto, os vândalos da cidade que quiserem vir pintar um pilar da ponte são convidados a inscreverem-se e esperemos ter capacidade de receber todos os que queiram.
Toda a informação depois, já sabe que pode ir a www.festivalmuro.pt. Tem lá a informação toda, mapas, está lá tudo, certo?
Mapa existe na freguesia, estão disponíveis para descarregar também no próprio site. Está toda a informação no site, tem inclusivamente as localizações, tem biografias do artista, já tem algum work in progress e algumas peças finais das peças que já estão terminadas, mas não é a mesma coisa que ver ao vivo.
Exatamente. Vale a pena então deslocar isso. Nós infelizmente não temos tempo para mais. Bem-hajá, Jesus Cardoso, mais uma vez, pelo tempo de disponibilidade. Fica aqui então o convite a ti que nos ouve para visitar então esta quarta edição do MURO, o Festival de Arte Urbana 2020/2021, a ver estas peças que estão espalhadas pelo Parque das Nações. Vá ao site festivalmuro.pt e descubra onde. Tem lá o mapa, tem lá as biografias dos artistas, como ouviu. Vale a pena conhecer tudo o que se tem feito e tudo o que se faz e que se continua a fazer. Um grande apoio legal nesta bonita arte que está a fazer cada vez mais de Lisboa uma capital cheia de tesouros nas paredes e agora também nos pilares destas obras de arte. São obras de arte, nas obras de arte que são as pontes, como falávamos há bocado.
Exatamente.
Hugo, muito obrigado. Bem-hajas. E agora aqui no K4 deixe-lhe três sugestões: o Porta, que abre em Leiria, fotografias marginais no Porto e os mitos absolutamente belos de Quaresma. No passado fim de semana abriu em Leiria o Porta. É o festival de arte que dura três fins de semana e que termina dia 18. A sexta edição pretende ser um espaço de encontro da cidade com a cultura, a sua história, a sua memória. O cartaz inclui concertos, conversas, instalações e cinema. O eixo central é o espaço da Vila Portela, ocupado por um conjunto de instalações inéditas de criadores locais e nacionais. Coletivo Till, Mais Menos, Tenório, Frame Coletivo e Patrick Haban são os artistas convidados. De entrada livre, a sexta edição do Porta 2021 decorre sextas, sábados e domingos nos dias 9, 10 e 11, 16, 17 e 18 de julho. Obriga a reserva de bilhete para cada sessão. Até 10 de outubro, o Centro Português de Fotografia no Porto acolhe a exposição "My Mind is a Cage" do americano Roger Ballen. Uma exposição inédita em Portugal que apresenta as principais séries do autor, fotografias realizadas entre 1980 e 2020. Imagens marcantes da sua trajetória artística de quase 50 anos, partilhando imagens perturbadoras captadas em lugares ruinosos, habitados por pessoas que vivem de forma extrema, à margem da sociedade. O objetivo de Ballen sempre foi o mesmo: questionar o significado da existência humana, o absurdo da condição humana. No Centro Português de Fotografia, até outubro. E até 5 de setembro, o Teatro Romano de Lisboa, único no país, exibe a reinvenção do mito. Uma exposição de figurinos e adereços clássicos de Valentim Quaresma, que subiram ao palco no Teatro Romano nos últimos dois anos, nas peças "Rei Édipo" e "Medeia", de Sófocles e Eurípides. Isto no mês em que o Teatro Romano acolhe "Antígona", de Sófocles. Os figurinos e adereços que se exibem são verdadeiras obras de arte que nos levam a sonhar com histórias e mitos, com pessoas que viveram tragédias tão marcantes que sobrevivem no nosso imaginário. Criações de Valentim Quaresma, designer de moda e joias, que de forma surpreendente e absolutamente bela, reinventa adereços que caracterizam personagens históricas e míticas que nos acompanham até hoje. A história final é apenas mais uma sugestão, e que sugestão. Paula Rego, 86 anos, provocadora incansável, perturbada, perturbadora, pintora da solidão e do desespero, da frustração e do desejo, da liberdade e do encarceramento, da infância atravessada pela maturidade. Influenciada pelo surrealismo e pelo dadaísmo, pinta o pecado que imagina, o arrependimento, o purgatório, a moral e a falta dela. É a artista portuguesa que nenhuma instituição tratou tão bem como as britânicas National Gallery, que a acolheu há 30 anos, e a Tate Britain Londres, que desde quarta volta a dedicar-lhe uma retrospetiva, a sua maior de sempre, chamada simplesmente Paula Rego. Pinturas, colagens, desenhos, esculturas e bordados. São mais de 100 obras criadas entre 1950 e 2010, ano em que foi distinguida pela Rainha Isabel II com a Ordem do Império Britânico pela sua contribuição para as artes. Uma boa ocasião para apreciar todas as suas artes e fases do seu extraordinário percurso de 60 anos. Celebra-se o seu lugar único na história da arte europeia e no feminismo, marcado pela representação única, crua e omnipresente da mulher. Paula Rego mudou-se para Londres em 52, vive ininterruptamente em Inglaterra desde 74 e todos os dias trabalha naquele estúdio lugar, saído de um conto de fadas, onde se misturam galos de Barcelos com vestidos comprados na Royal Opera House, telas e bonecos maiores que o natural. A exposição fica mais três meses na Tate, no centro de Londres, até 24 de outubro. Se puder ir, não perca. Só por si, vale bem a viagem a Londres. Do país onde nasceu, merecia mais, muito mais. E é tudo por hoje. O 76º K4 fica por aqui. Bom fim de semana, boas exposições. Eu sou o João Paulo Secador e conto consigo no próximo K4, aqui na Rádio Observador.