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Bem-vindo ao 85º K4, é o sexto da quarta temporada da Montra da Cultura Moderna e Contemporânea da Rádio Observador. Eu sou o João Paulo Secador e, como sempre, arranco o K4 na companhia de alguém ligado ao mundo da arte. Hoje estou com a Sara Cavaco, que nos vem falar da quarta edição da Drawing Room Lisboa, que decorre para a semana. No fim, sugiro-lhe três exposições: duas galerias ao ar livre, em Lisboa e Braga, e no Porto, Serralves, que sem medos, mostra 100 obras. A fechar, é o caso da diva, que o drama persegue mesmo depois de morta. Hoje converso com a Sara Cavaco, que nos vem falar da quarta edição da Drawing Room Lisboa, a decorrer de quarta a domingo da semana que vem, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. Olá, Sara, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite para falares no K4. Bem-vinda ao Observador.
Obrigada, olá.
É um prazer estar aqui contigo.
E para nós, e falo sempre na terceira pessoa, porque falo em nome da equipa da Drawing, é um prazer estarmos aqui contigo.
Muito bem, muito obrigado. Estamos a falar da Drawing Room Lisboa. Já é a quarta edição, nós já a temos divulgado aqui. É uma feira de arte contemporânea especializada em desenho. Vai decorrer entre 27 e 31 de outubro na Sociedade Nacional de Belas Artes. É a quarta edição. Sara, diz-me só uma coisa: isto é uma iniciativa ibérica, não é? Já há também um certame em Madrid.
Correto. A Drawing Room é uma feira que já existia em Madrid. Vai na sua oitava edição em Espanha. É fundada pela Mónica Álvarez Careaga, que assegura também o comissariado e a direção da feira em Lisboa. Depois de quatro edições em Madrid, achou que estava na altura de poder alargar a feira e trazê-la a Portugal. E nós estamos desde o início, desde a edição um, a produzi-la, a implementá-la e a adaptá-la, porque efetivamente, apesar de serem ambas feiras dedicadas ao desenho contemporâneo, têm contextos diferentes. Naturalmente, em Portugal trabalhamos muito mais com galerias portuguesas e com artistas portugueses, e em Madrid tem outro tipo de contexto e de enfoque.
Muito bem. Como é que decorreu o ano passado? Eu sei que foi online, houve uma edição única, mas vi algumas críticas a dizer que tinha sido um sinal de esperança. Houve vendas de obras, programação paralela. Para todos os intervenientes do setor, não foi tão mau como se preparavam, se calhar.
De todos. Deixa-me só acrescentar que ela não foi só online, ou seja, a feira mantém-se presencial consecutiva desde a sua edição um, em 2018. Portanto, no ano passado trabalhámos num plano obviamente diferente. A feira em Portugal é uma feira com uma dimensão e com uma escala humana. Não são 300 galerias e 10 pavilhões para percorrer. É uma lógica de cerca de 23, 24 galerias no programa geral. E aquilo que aconteceu o ano passado foi que houve obrigatoriamente um ajuste. Em vez de termos uma metade destas galerias nacionais e outra metade com representações internacionais, concentrámo-nos obviamente naquilo que eram as galerias portuguesas e os artistas portugueses. Tudo o que eram propostas de galerias internacionais, aí, sim, criámos uma plataforma e passou a coexistir a feira, a Drawing Room online.
Que este ano continua, certo?
E que continua.
Um bom começo. Exatamente.
Sim.
Ficou parte do ADN desta feira.
Todos nós. Em todos os setores, em todas as áreas, acho que acabámos por criar alternativas e soluções, depois passar a integrá-las e perceber o que faz sentido continuar. E esta é uma delas.
E a Drawing Room realmente é uma plataforma pioneira na valorização e comercialização do desenho. É muito curioso. Este ano haverá cerca de 27 galerias nacionais e internacionais, certo?
Correto.
São mais de 90 artistas.
Certíssimo.
Pois, incluí desde Pedro Calapez, Jorge Molder, Cabrita Reis, Luísa Cunha, uma série de nomes. E vocês recuperaram, já havia, mas está muito recuperado este caráter internacional também, além do tal foco especial este ano.
Certo. No ano passado, a edição teve que abolir aquilo que é o seu foco internacional, que normalmente destaca a cena artística no contexto do desenho de uma cidade no mundo. E no ano passado, esse foco não existiu em formato presencial. Existiu só na versão online. Este ano já conseguimos fazê-lo e, portanto, recuperamos o foco Berlim. Este ano trazemos a vibrante cena artística de Berlim e, curiosamente, com três galerias que sendo de Berlim, acabam por trabalhar artistas de outras nacionalidades. Portanto, acaba por ser um cruzamento muito interessante. Temos artistas alemães, claro, mas búlgaros, da Roménia, do Paquistão, da Noruega, do Reino Unido. Acaba por ser um bocadinho este melting pot que acreditamos que faz sentido.
Claro. Eu tenho uma ideia que o desenho, Sara, ainda é uma disciplina subvalorizada face, por exemplo, à pintura e à escultura. Que espaço é que ocupa o desenho no setor da arte contemporânea e, sobretudo, cá em Portugal? Há que fazer ainda um grande forcing ou está a tomar terreno?
Vou tentar ajudar a enquadrar. Não é uma pergunta simples, é uma pergunta muito complexa. A Mónica Cariaga, que é diretora da feira, diria seguramente que o desenho está muito valorizado. E sim, é verdade, o desenho, até pelo seu histórico em mercados asiáticos que têm firmado e têm tido um crescimento muito grande. Tem vindo a assumir um papel, uma importância e uma relevância até comercial bastante diferente. Independentemente disso, o desenho é, se olharmos para ele e sobretudo se pensarmos o desenho numa lógica de desenho expandido, uma base de pensamento para muitas áreas. O desenho é comum a muitas outras disciplinas. E com isto não estou a querer dizer que o desenho é acessório. De todo. O desenho vale por si e a verdade é que nós temos desde artistas emergentes que optam por desenho por diversas razões. Uma delas porque é mais fácil e económico, outras porque têm efetivamente a motivação do traço, do desenho no formato mais convencional, de papel, sobre papel. E depois chegamos a ter os grandes mestres, daquilo a que chamamos os primeiros mercados, os artistas de primeiro mercado, que continuam consecutivamente. Todos aqueles que fazem escultura, pintura, regressam regularmente ao desenho. E não é por acaso. Efetivamente, ele tem um papel. E isto é a perspectiva do lado artístico. Agora, do ponto de vista do mercado e da sua aceitação, o desenho tem vindo a ganhar muito mais espaço por aquilo que falámos. Porque efetivamente o mercado asiático tem um histórico.
Então é um grande motor. O mercado asiático tem sido. Ok.
E tem uma tradição gigante de desenho. E, por outro lado, porque o desenho acaba por ser, muitas das vezes, uma primeira forma de contacto até para potenciais novos colecionadores. Não só pela sua acessibilidade de valor, mas também porque é uma obra com a qual há uma maneira de se relacionar mais empática, mais imediata. E depois daí evolui-se para outras experimentações.
Sara, estava a pensar agora numa coisa. Pergunta fora da caixa, mas que lembrei-me agora. Será que o mercado asiático-- agora estou a pensar: a nossa língua escrita, no mundo ocidental todo, é uma coisa muito básica e que nós já estamos habituados e propriamente não desenhamos. Talvez no tempo gótico desenhava-se. Hoje em dia, não. É uma coisa muito básica e muito desenhada. Ao passo que os caracteres chineses, os caracteres japoneses, mesmo o cingalês, na Tailândia. Só a escrita deles é muito desenhada. Será que isso também influencia? Eles têm muito mais amor ao desenho e mais prática. Porque escrever uma coisa simples para eles já é uma obra de arte. Escrever um haiku já é um desenho, é uma coisa linda esteticamente. E se calhar tem um bocadinho a ver com isso. Essa apetência por desenhar e por criar uma imagem estética bonita.
Estando no campo dos pressupostos, sim, faz sentido isso. Mas teríamos que trazer aqui para esta conversa um historiador de arte para nos conseguir enquadrar. Agora sim, claro que faz sentido e é verdade. É comummente aceite que toda a Ásia tem uma grande tradição do papel, dos papelinhos, dos desenhos, dos vários tipos de pincéis, das várias representações em desenho.
Da caligrafia, exatamente.
E é a tradição. Claro que terá o seu peso, mas haverá aqui com certeza outros ingredientes que também suportam isso.
Este ano também na Drawing Room vamos continuar com aqueles prémios, os prémios da Fundação Milênio BCP. Estou-me a lembrar do Talento Emergente, isto são 1500 euros. O Projeto Artístico Destacado, o Projeto Curatorial Galeria. Além do prémio Novo Talento Desenho, o prémio Viarco, que dá aquela residência artística. Isso é um prémio também muito apetecível. Todos os anos?
Todos os anos. É muito importante uma feira poder ter, independentemente de constituir um espaço de encontro entre o público em geral e os artistas e as galerias, mas ter também um lote de prémios que permita de alguma maneira sinalizar os diferentes atores do setor.
Exatamente, os dedicados ao marketing, os dedicados aos próprios artistas. E galerias.
E que dá essa valorização. E, portanto, os prémios da Fundação Milênio BCP. Certo, tal e qual. Acho que acabam por contribuir nessa perspectiva e, portanto, já é a terceira vez que a Fundação Milênio BCP aposta nos prémios na feira. Dentro daquilo que são as galerias e os artistas representados na feira, elege uma obra para adquirir para a sua coleção, um talento jovem. Depois tem os outros dois prémios, que é um prémio do artista destacado, ano passado foi atribuído ao artista Pedro Calapez. E ainda o prémio de melhor projeto curatorial na feira de uma galeria. Porque também há que valorizar o papel dos galeristas e a forma como decidem levar e mostrar o trabalho dos artistas.
Os intermediários são muito importantes nesta valorização e nesta venda do trabalho. Por mais que tu faças, se ninguém mostra, se ninguém expõe, acaba por ninguém saber que existe. Portanto, tem um papel importantíssimo. E depois há então esta quarta edição do Novo Talento Desenho da Drawing Room e da Viarco. E há uma novidade este ano
Sim, além da quarta edição do Prêmio Viarco. E que é importantíssimo por uma particularidade, que assenta não só num kit de material, mas numa residência artística na fábrica, por um motivo muito bonito e muito simples: a Viarco é a fábrica nacional que ainda tem, pelo seu processo produtivo, uma capacidade de adaptar os materiais, porque não é uma tecnologia século XXI, de ponta, onde já não se consegue mexer na cadeia de desenvolvimento do produto. Portanto, isto significa que um artista, naquele contexto, consegue experimentar diferentes tipos de materiais e solicitar pequenas alterações que podem fazer toda a diferença na forma como depois vai desenvolver as suas obras. Tem sido muito interessante, porque têm passado por lá, desde a primeira edição da Drawing, diferentes artistas, nacionais e internacionais, e os resultados disso acabam por ser uma verdadeira mais-valia para os dois lados. Para o lado do artista e para a própria Viarco, que assim também toma contacto com aquilo que são as necessidades de um público que lhe é tão caro.
Este ano nasce então o Prêmio FLAD, não é?
O FLAD, exatamente.
A Fundação Lusótona para o Desenvolvimento. Um prêmio valioso. Já estão escolhidos os 10 finalistas, vão ser anunciados no fim do mês, dia 30, em plena feira.
Na feira.
Exatamente. E são €20.000. Apetece muito. Nesta altura.
Isto acho que responde à questão que colocavas há pouco, que é: em que pé é que está a valorização do desenho? Este é um bom indicador. Aqui está um prêmio de desenho com determinado tipo de valorização e aquilo que vamos tentar fazer na feira é oferecer a exposição destes 10 finalistas do prêmio. São 10 propostas muito distintas entre si e onde poderemos perceber o que é que são estes tais campos ou limites do desenho expandido. Porque, no limite, nós poderemos até ter uma escultura em papel. E é desenho.
Estamos cheios de curiosidade de ir ver. Também vai haver aquela programação paralela, como por exemplo, os desenhos na cidade continuam, com o mecenato da Fundação PLMJ e a colaboração da Câmara.
EDP. Este ano é a Fundação EDP.
Este ano é a EDP, Fundação EDP, e a colaboração mesmo da Câmara, porque vão encher os mupis da cidade com muitos desenhos dos finalistas de desenho, quer do Arco, quer da Faculdade de Belas Artes.
Belas Artes.
Que é uma ideia muito engraçada.
É mais uma das que acabou por surgir em contexto de pandemia, que foi os finalistas que estavam a terminar e como estava tudo encerrado, não puderam fazer o seu debut, a sua apresentação. E de repente fazia-nos sentido trazê-los e dar-lhes esse espaço de uma forma diferente, não convencional. Não substitui as apresentações finais, que agora já podem voltar a fazer, mas dá um outro cruzamento também com estes jovens artistas que estão agora a começar.
Exato, dá uma visibilidade importante para quem está a começar. Muito importante. E também é possível combinar nesta feira, o nosso tempo está a chegar ao fim. Também é possível visitas a ateliês, que é possível visitar alguns ateliês de artistas com marcação prévia, claro. A Filipa Valadares também coordena uma série de apresentações de publicações no espaço editorial, há todos os anos. É um certame que vale muito pena visitar. Vai ser entre 27 e 31, sobretudo na Sociedade Nacional de Belas Artes, quarta a domingo, na Rua Barata Salgueiro, 36, em Lisboa. Nós, infelizmente, já não temos tempo para mais. Sara Cavaco, quero te agradecer muito a tua disponibilidade em vir ao "Observador".
Nós é que agradecemos.
Muito obrigado. A si, que nos ouve, aproveite para visitar esta quarta edição da Drawing Room Lisboa. A não perder. Nós, Sara, muito obrigado e até breve.
Até breve. Obrigada. Vemo-nos na feira.
Vemo-nos na feira, claro. Lá estaremos. E agora aqui no K4, vou deixar-lhe três sugestões: duas galerias ao ar livre, uma em Lisboa, outra em Braga e, no Porto, Serralves, que sem medos mostra 100 obras. Durante o mês, até 15 de novembro, a EGEAC apresenta a segunda parte do projeto Coleção Primavera-Verão, que decorreu entre abril e maio nas lojas tradicionais da capital. A coleção Outono-Inverno vai então adornar as vitrines de algumas das lojas mais antigas da Baixa de Lisboa, com uma nova coleção de arte contemporânea. O convite é, afinal, para uma galeria ao ar livre que se estende pela Baixa, em várias lojas, como a Livraria Trindade, Barbearia Oliveira, as Ferragens Guedes, a Luvaria Elíses, a Bertrand, a Ourivesaria Sarmento ou a Ginjinha Sem Rival, cujas montras vão colher obras de artistas como Ana Vidigal, Vasco Araújo, Adriana Proganó, Isabel Cordovil ou Sara Sangliano. Até 6 de março, Serralves apresenta Modus Operandi, que reúne 100 obras da coleção do museu, uma homenagem ao artista alemão Joseph Beuys, de 30 artistas internacionais como Julião Sarmento, Robert Mapplethorpe, Júlio Pomar, Lourdes Castro, Ângelo de Sousa e muitos outros, da década de 60 até aos dias de hoje, que provam que a arte contemporânea é o modo de expressão que luta contra as convenções, seja política, estética, ambiental e sempre experimental, como defendia Beuys. A exposição arranca numa sala com 28 gravuras e um objeto, mas à medida que se avança, a pintura vai dando lugar a outras disciplinas como a música, a performance, a escultura e o cinema. Museu de Serralves, no Porto, segunda a sexta, das 10:00 às 18:00, aos fins de semana até às 19:00. E até 9 de novembro está patente na Praça da República, em Braga, a exposição de fotografia Terra de Sonhos, que mostra a singularidade e a assimetria do mundo rural da Índia. São 40 fotografias da espanhola Cristina García Rodero, que ao fundir-se na alegria e no sofrimento daqueles que encobrem com dor e graciosidade o claro escuro da sua própria existência, pretende dar voz às mulheres das comunidades rurais de Anand Tapur e destacar o seu poder transformador de comunidades. Esta exposição faz parte do programa Arte na Rua, que visa aproximar a arte às pessoas fora do contexto habitual dos museus e das salas de exposições. Uma escultura pública está a provocar a indignação em Atenas. Trata-se de uma estátua de Maria Callas, pensada pelos fãs e que levou anos a ser executada por Afroditi Lite, uma professora de escultura da Escola de Belas Artes de Atenas. Foi inaugurada pelo presidente da Câmara ateniense, sábado passado, no pequeno jardim aos pés da Acrópole, frente ao Odeon de Herodes Atticus, onde a soprano grega, nascida em Manhattan, se estreou a interpretar Beatrice na ópera de Boccaccio, com a Ópera Nacional Grega, em 1941, faz agora 80 anos. A estátua de bronze, com 1,80 metro e ofuscantemente dourada, foi criticada por ser kitsch, imprópria e, pior ainda, não ter nenhuma semelhança com La Divina. Desde então, tem sido objeto de ridículo nos media e, sobretudo, nas redes sociais. Em primeiro lugar, pela postura. Michael Mouzo, ex-cantor lírico e diretor artístico do Festival de Atenas, diz que nada poderia ser menos representativo de Maria Callas, já que nenhuma cantora de ópera, nem mesmo uma estudante do segundo ano da escola de música, jamais adotaria tal pose com os braços cruzados frente ao peito, pois isso iria bloquear a produção da voz. Ópera é cantar e libertar a voz. Mas a estátua provocou uma verdadeira tempestade viral de memes e críticas nas redes, sendo comparada a um droide trapalhão C-3PO, da Guerra das Estrelas, ao exterminador implacável do futuro, ao Gandhi de saltos altos e à estatueta do Oscar, mas sem o brilho de Hollywood. Tudo, menos a prima de todas as donas. Parece que o drama persegue a diva mesmo após a sua morte. É tudo por hoje. O 85º K4 fica por aqui. Bom fim de semana, boas exposições. Eu sou o João Paulo Sacador e aconteça o que acontecer, conto consigo no próximo K4, aqui na Rádio Observador.