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Bem-vindo ao K4: Montra da Cultura Contemporânea da Rádio Observador. Eu sou o João Paulo Secador e todas as semanas, a abrir o K4, converso com alguém ligado à arte. No fim, sugiro-lhe algumas exposições e conto-lhe a história curiosa de um quadro ou a história de um quadro curioso. Hoje tenho comigo Ana Vasconcelos, a curadora da exposição "Sara Afonso e a Arte Popular do Minho", patente na Fundação Calouste Gulbenkian até dia 7 de outubro. Bem-vinda, Ana, e muito obrigado por ter aceitado este nosso convite.

Obrigada.

Ana, para falar desta exposição, para já vamos dizer que está na Coleção do Fundador, a galeria do piso inferior da Fundação Calouste Gulbenkian, até 7 de outubro, como disse. É a curadora desta exposição. Ana é mestre em História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova. Tenho que lhe perguntar isto: trabalha na curadoria já há 23 anos, desde 96, e realiza curadoria de exposições desde 1999. O que é que faz exatamente uma curadora? Explique-me isto. Ela escolhe os quadros, pesquisa, pede emprestado, é ela que investiga, o que é que faz?

Uma definição que eu gosto muito, não é minha, é uma espécie de pequeno chefe de orquestra ou é um chefe de orquestra. É uma pessoa que investiga, normalmente, mas tem uma dimensão também prática, de mãos sobre os assuntos. E portanto, coordena e normalmente também propõe a ideia ou recebe-a e transforma ideias em visões, em espaços visuais. Portanto, seleciona, trabalha, faz textos, trabalha com as equipas, neste caso da Sara, sobretudo a produção, que é importantíssima, porque são as pessoas que levam a cabo as logísticas da montagem das peças, dos empréstimos, etc.

É ela que convida o museólogo, é ela que convida o arquiteto.

Exato. E com a arquiteta, neste caso foi uma arquiteta da exposição, portanto, toda a especialidade, de facto, depois como se vai mostrar o que se tem na ideia e o que se tem na cabeça.

Porque às vezes há exposições, eu acho que deve haver exposições que são completamente arruinadas pela maneira como se mostram mal.

Exatamente.

E outras que são: "Esta está muito bem conseguida, devo dar os parabéns, foi muito bem escolhida a arquiteta".

Muito obrigada.

Ana já esteve ligada também no âmbito da arte portuguesa, também esteve com os estrangeiros, mas na arte portuguesa investigou e expôs a obra, por exemplo, de Rui Leitão, de Alfares, do José de Almada Negreiros, por exemplo, Teresa Magalhães e Sara Afonso. Já tinha feito uma exposição da Sara Afonso com este tema, então.

Sim, imagine. É muito curioso, porque a proposta não era minha na altura, veio do Museu Municipal de Viana do Castelo, porque a Sara tinha esta permanência em Viana muito jovem.

Na sua infância, era o centro.

E então fizemos no centenário do nascimento dela, em 1999, há 20 anos, uma exposição que no fundo era um pouco esta, mas muito menor e muito menos desenvolvida. Era a relação dela com o folclore, com a arte popular, mais arte popular do que folclore, até. Mas em pequenos enunciados que aqui são muito mais trabalhados, expandidos e problematizados.

Entretanto, também colaborou na curadoria do José de Almada Negreiros: Uma Maneira de Ser Moderno, uma exposição que teve um grande sucesso na Gulbenkian há dois anos.

Exato. O Almada é um artista da casa, é um artista que está, mesmo fisicamente, quando se entra na Gulbenkian, o painel "Como Sar" recebe toda a gente na sede. E é uma figura imensa, não só da arte, da cultura portuguesa. E para mim foi um prazer imenso conseguirmos propor e concretizar, portanto, programar a exposição. Depois com a Mariana Pinto Santos, que foi a comissária científica da exposição. E foi uma alegria enorme, porque percebi muita coisa do universo Almada. E isso agora é muito curioso, porque também esta exposição da Sara, no fundo, surgiu a ideia também de a pôr na programação por causa também do êxito do Almada, sejamos honestos.

Claro.

Ela é o escondido do Almada, o que não se sabia. E quando se trabalha a Sara, artista, autónoma, encontra-se pistas para o Almada, que quem trabalha só o Almada sem olhar a Sara perde.

Poderia não detetá-las.

Portanto, com o que eu ganhei com o Almada no trabalho da exposição, agora a Sara ficou muito mais rica e é uma artista fantástica.

E faz sentido, por isso, depois dessa exposição que fez do centenário, agora vir a Lisboa celebrar os 120 anos de nascimento, que é isso que estamos a celebrar com esta exposição, e aquela que está em paralelo no Museu do Chiado, que já lá vamos falar. A exposição do Almada Negreiros foi uma coisa espantosa, de 400 obras, muitas inéditas, 150 mil pessoas, foi uma coisa também muito boa. E a Ana então é conservadora especialista no Museu Calouste Gulbenkian, Coleção Moderna, atualmente responsável pela Coleção de Pintura. Falemos agora de Sara Afonso e a Arte Popular no Minho. Já dissemos que está patente até dia 7 de outubro, todos os dias, menos às terças, das 10h às 18h. E é este 120 anos que nós celebramos, que foi uma mulher fundamental para Portugal, não só porque foi casada por Almada Negreiros, é isso que as pessoas referenciam normalmente, mas a Ana quis, no fundo, dar um bocadinho de ideia, e valeu a pena quando eu já visitei, resgatá-la um bocado e dizer: "Ela tem lugar próprio, tão multifacetada, tão variada e tão inspirada nas artes portuguesas, mas que é muito desconhecido."

Exatamente. E voltando um bocadinho atrás ao que estávamos a dizer sobre o Almada, eu penso que as pessoas gostam destas exposições e precisam delas, porque são exposições que lhes devolvem o seu país. Foi um país com uma mudança muito rápida desde o 25 de abril, é um país com uma evolução incrível e este trabalho é importante nessa devolução de um olhar sobre nós próprios e a certeza de que temos realmente gente interessantíssima, e que fizeram coisas e que lutaram por coisas. A Sara, no fundo, deixou-se ficar à sombra do Almada, mas é muito curioso, a Maria José Almada Negreiros, a nora, quem publicou as conversas com a Sara e depois o livro da Imprensa Nacional, interroga o que seria do Almada sem a Sara. O que teria sido da Sara se não se tivesse casado com o Almada? O António Pedro, que era amigo dos dois, em Molelos, partilhava esse Minho imaginário, disse à Sara: "O Almada faz um bom casamento, tu não." No sentido em que adivinhava-se o-

Que ele seria a projeção dele em relação à dela.

Exato, porque quando se casam, há de facto encomendas que chegam ao Almada. É o homem da família em 30, 34. E a Sara depois vai ter o primeiro filho, o José, e portanto ela no fundo é sempre remetida socialmente para um segundo plano. Isso é o carma das mulheres e das mulheres casadas. Ela era mais livre como solteira. 28, 32 são os grandes anos também da Sara na sua produção como pintora. O que nós encontramos, e no Chiado também está patente, porque não é o ensaio da Gulbenkian, nem a relação com o popular. No Chiado está o resto da Sara.

Mais abrangente, a pintora.

Exato. A ilustração, até a arquitetura paisagista, numa coisa incipiente, mas muito ativa. Ela tinha um dedo verde. Portanto, ela vai criativamente sempre transformar o seu ambiente e transformar o ambiente para o Almada e para os filhos. Portanto, é de facto uma mulher que se afirma e que luta por valores, pela família e por ela própria, mas que se coarta como pintora. E por isso a citação que está na Gulbenkian, que é do Almada, e já tive reparos, sobretudo de estrangeiros, que dizem: "Não é preciso pôr lá o que o marido diz sobre a mulher", mas para os portugueses e para os amantes do Almada, é importante perceber que ele diz: "Tu estás no campo da pintura", porque ele, Almada, não se considerava no campo da pintura. A Sara estava no campo da pintura. E isso é incrível. Nós neste trabalho, e também com o Chiado, encontrámos de facto que é uma grande mulher.

Esta dimensão enorme e tão pouco investigada, tão pouco dada a conhecer, sobretudo às gerações novas. Vale imenso a pena, a exposição é maravilhosa e só esta na Gulbenkian vale a pena por si. Ela era uma mulher corajosa também. Ela foi a primeira mulher, por exemplo, que ia à brasileira, no Chiado.

Exatamente, isso é muito engraçado. Quando ela vem de Paris, tudo isso lhe devia parecer pequeno. E nas memórias, nas conversas, ela diz: "Eu não tive medo nenhum de ir para Paris. Eu tinha era medo de me casar com um estrangeiro". Portanto, é esta a ideia de uma portuguesa.

Ligada à terra.

Exato. Isso para mim é muito-

À sua terra.

À sua terra, é muito engraçado. E portanto, esta ideia também de conseguir transformar as coisas, de fazer os ambientes e de trabalhar sempre.

Ela viveu até aos 15 anos no Minho, portanto, estamos a falar de Viana do Castelo, entre 1904 e 1915, e ela dizia: "Esta é uma terra à espera de pintores", que é uma coisa muito curiosa, e ela foi uma grande representante também dessa geração.

Exato. Ela escreve à Fernanda de Castro, que era a sua grande amiga, até do tempo de solteira da Fernanda, antes de casar com António Ferro, porque depois as cartas próprias dela para o Almada não subsistiram. Há a correspondência inversa, do Almada para ela, mas ela não se considerava escritora. Eu penso que teria graça, porque as cartas que subsistem para o Manuel Mendes e para a Fernanda de Castro são muito giras. Mas essa ida ao Minho, e isso foi um papel também muito engraçado do antropólogo que colaborou comigo na exposição, que é o professor António Medeiros do ISCTE, que é essa ideia que ele diz que é a posteriori. No fundo, ela tinha vivido no Minho e em Viana, em pequena, e tinha absorvido tudo aquilo. Mas depois é a posteriori que ela regressa, e quando vai com o pai e escreve à Fernanda de Castro: "Eu encontrei a região à espera de pintores". É um Minho artístico, é um Minho que já está filtrado pela ida a Paris, pelo que ela tinha vivido internacionalmente. E isso leva também àquela questão de que ninguém pintava assim em Portugal, com aquela veracidade.

Ana, qual é esta diferença que tem entre a pintura naïf e esta arte popular? Porque eu revejo muito no casamento de aldeia, estes coretos, estas procissões, vejo muito também este género de pintura.

Exato. Não é. Porque a pintura naïf é de pintores sem escola. É a pintura sem escola. O Douanier Rousseau, que é uma referência para a Sara, é a grande figura na história da arte da pintura naïf, depois com todos os outros que vêm por ali. A Sara não tem nada de naïf nesse sentido, porque a Sara fez uma escolaridade intensa, artística, que era em Portugal, onde foi aluna do Columbano.

Foi a última aluna dele nas Belas Artes.

Ele lhe dava as de propósito, ela gradua-se com uma enorme nota em pintura. Depois há o Mário Domingues, o jornalista, que diz para ela ir embora, que já não tem mais nada que aprender cá. Vai para Paris, para a Grande Chaumière, onde uns anos mais tarde, poucos, irá a Vieira da Silva, onde conhece o Arpad. Portanto, ela é uma artista formada, academicamente rica, que vai visitar em Paris exposições com o Diogo Macedo, com o Francisco Franco, portanto, tem uma tertúlia de amigos, escritores, intelectuais, muito forte. E não há nada de naïf. O que ela faz é uma chamada ao popular, mas com um intuito modernista e muito artístico. E isso é um ponto que eu queria vincar muito e que ficasse entendido, porque depois também há outra ligação, que é com a iconografia do Estado Novo, e mais uma vez são Questões que correm paralelas.

Estamos a falar de António Ferro e toda uma panela.

Amigos, e estavam juntos. Mas ela demarca-se, apesar de parecer até atender a princípios do Ferro, nomeadamente na maneira como os artistas modernos iam absorver o popular para criarem o moderno, ela segue um percurso artístico forte, pessoal, vincado e que não tem paralelo em Portugal.

Muito interessante esta exposição e está muito completa, muito bonita, porque, por exemplo, ela era uma bordadeira extraordinária, ela tem aquele vestido de batizado. Lindo de morrer, que também me fez lembrar aqueles lenços desorados de Viana. E muitíssimo bem bordado, com cenas lindíssimas e bíblicas, de Jesus.

Sim, e as alminhas que ela também faz. Ela era uma bordadora excepcional.

Excepcional. Grande qualidade.

E era uma formação que ela tinha desde miúda na escola de São José de Cluny, na escola de Viana, uma escola de freiras francesas. Portanto, ela teve desde pequena uma escolaridade interrompida depois pela República, quando as escolas religiosas fecham.

Ela bordava como pintava, era uma coisa extraordinária.

Isso é muito engraçado. Se ela deixou escrito que a pintura lhe traria angústia: "A pintura não me dá toda a felicidade que eu posso ter na vida". E ela até faz isto como uma autojustificação para deixar. Ela diz também que bordar lhe dá uma satisfação. E é engraçado porque na década de 20, com o José Tagar, elas põem designs e pintura. Portanto, não hierarquizando as artes como nós até depois viríamos a fazer. O bordado é o popular e a pintura e o desenho é o erudito. E expõem juntos.

Exatamente. Expõe-se também a filigrana, por exemplo, aquele coração grande e a história da Rainha Dona Maria Pia. Isto é tudo coisas para as pessoas poderem ver aquela exposição, que vale a pena, e o figurado de Barroque, que era da coleção dela, também tinha.

Exato. Curiosamente, não tinha músicos das bandas, que são fantásticos e que estão lá. Mas ela tinha muito figurado e vai pintar especificamente os bois e os músicos no coreto e na estampa popular, que é o conhecido casamento na aldeia.

Vale muito a pena conhecer esta exposição e até porque está todo aquele conjunto de iconografia das festas da Senhora da Agonia, todos aqueles postais e aqueles posters. Vale muito a pena, é uma viagem ao Minho e ao Minho daquele tempo, e ao Minho que ainda subsistem muitas tradições importantes. Mas é sobretudo importante para conhecer esta pintora, que mais do que uma pintora, é uma artista que quebrou muitas hierarquias nas artes e que é importante dar a conhecer. Portanto, já sabem, aqui neste Sara Afonso e Arte Popular do Minho, que está no Gulbenkian até dia 7. E já agora também, que vai estar até 22 de março de 2010 no Museu do Chiado, Sara Afonso: Os dias das pequenas coisas, com curadoria de Maria Aires Silva e Emília Ferreira. Portanto, são duas posições que eu recomendo muito. Nós infelizmente não tivemos tempo para mais, mas mais uma vez espero que a arte desta mulher tão importante na nossa história da arte, ainda relativamente desconhecida, esteja aberta a mais gente a poder conhecer e valorizar.

Muito obrigada.

E nesta altura, deixo-lhe então três sugestões de exposições a não perder. Não temos tempo para mais e aqui vamos com a outra exposição dedicada a Sara Afonso, neste ano em que se celebra os 120 anos do nascimento da artista modernista Sara Afonso: Os dias das pequenas coisas. Construídas de modo dialogante, as duas posições pretendem criar uma visão abrangente da herança artística de uma autora que, embora inscrita na história da arte nacional, permanece desconhecida do grande público e reduzida à imagem de mulher de Almada Negreiros. Esta mostra no Chiado, patente na ala Capelo, oferece uma abordagem ao conjunto da sua obra, propondo um percurso biográfico e criativo. Aborda-se a sua formação artística, revela-se uma artista multifacetada, com obra múltipla, do desenho à pintura, passando pelo bordado, e que se manifesta de modo muito particular na relação com a paisagem. No Museu do Chiado, até 22 de março do ano que vem, terça a domingo, das 10:00 às 18:00. Centro Cultural de Cascais pode ver António Lopes Visionary Writing: Drawings, Films, Photographs. Uma exposição antológica do fotógrafo e ilustrador porto-riquenho, que foi considerado pelo New York Times o maior ilustrador de moda do mundo. Os seus trabalhos marcaram época e estão imortalizados em publicações como a Harper's Bazaar, Vogue, Elle e The New York Times. Ficou célebre por dar a conhecer Jerry Hall, Grace Jones e Jessica Lange, por colaborar com Andy Warhol, por trabalhar com Karl Lagerfeld e Yves Saint Laurent, entre outros grandes da moda. Em foco está a ilustração de moda, mas também os seus instantâneos, diários e filmes, documentando o seu processo de criação e ao mesmo tempo retratando a época em que viveu. No Centro Cultural de Cascais até 12 de outubro, terça a domingo, das 10:00 às 18:00. E o CascaiShopping acolhe a exposição Keith Haring: entre a arte, o ativismo e a moda. Figuras coloridas, traços simples, bases street. O estilo icónico da pop art e grafiti de Keith Haring é reconhecido por todo mundo, seja em museus, paisagens urbanas ou T-shirts. O artista norte-americano afirmou-se também enquanto ativista, envolvendo-se em causas como a luta contra o racismo, as armas nucleares ou a SIDA, que o vitimou aos 31 anos. Esta exposição reúne 17 obras com a sua assinatura e teve direito a demonstrações de arte ao vivo, como a que aconteceu com o artista AKA Corleone, que decorou, inspirando-se na arte de Haring, um comboio da linha de Cascais e a estação de comboios da vila, transformando-a numa verdadeira galeria. Na inauguração, houve uma live performance com body painting, à semelhança do que Haring fez em 1987 com a supermodelo e cantora Grace Jones. CascaiShopping, entrada livre até 10 de novembro, todos os dias das 20:30 às 23:00. A Última Ceia é uma das pinturas mais conhecidas de Leonardo da Vinci, o humanista por excelência do Renascimento, e trouxe fama e glória ao pintor, então já com mais de 40 anos. Foi encomendada em 1492 por Ludovico Sforza, Duque de Milão, para o refeitório do convento dominicano de Santa Maria delle Grazie, em Milão, hoje Patrimônio da Humanidade. Leonardo demorou quatro anos a completar o fresco de 4,60 metros por 8,80 metros, tão grande como os mistérios que o rodeiam. Na mesa, por exemplo, vê-se água, vinho, laranja, pão e peixe. Não consta nem o cordeiro pascal, nem o cálice sagrado. Diz-se que Leonardo se autorretratou em Judas Tadeu. E segundo escritos de Da Vinci, a figura à esquerda de Jesus é João, o apóstolo amado, que era descrito como puro. No Renascimento, a pureza era representada com traços femininos, daí as teorias da conspiração que veem nele Maria Madalena. Segundo o Evangelho de São João, antes da sua captura, Jesus anunciou na Última Ceia que um dos seus o trairia. É este momento de espanto e confusão retratado. Conta-se que para o pintar, Leonardo procurou 13 homens que servissem de modelo às diferentes expressões que idealizava. O modelo de Jesus foi o primeiro escolhido. Após semanas de pesquisa entre centenas de candidatos, um jovem de 19 anos posou seis meses para o mestre. Nos quatro anos seguintes, os outros 12 foram escolhidos e pintados. Judas Iscariotes foi deixado para o fim. Leonardo procurou meses um homem de face endurecida, com o rosto marcado pela mentira e crime, o rosto de alguém que trairia o seu melhor amigo. Foi-lhe dito que um homem assim estava numa prisão em Roma, um condenado à morte por assassinatos. Da Vinci pediu que o levassem e viu-se diante do modelo perfeito para o traidor. Com permissão do rei, o criminoso posou seis meses para Da Vinci. Quando terminou, mandou-o de volta para a prisão. Foi então que o meliante gritou: "Olha para mim, Leonardo, não sabes quem eu sou?" Da Vinci confessou que não. "Meu Deus, terei caído tão baixo? Olha de novo, porque eu sou o mesmo que tu pintaste há quatro anos como a figura de Cristo." É uma bela lenda. Sabe-se apenas que Leonardo usou modelos vivos e procurou um preso para representar Judas, mas o facto de ser o mesmo que posou como Jesus não está comprovado. É caso para dizer que "se non è vero, è ben trovato". É tudo por hoje. Bom fim de semana, boas exposições. Eu sou o João Paulo Sacadura e conto consigo no próximo K4, aqui na Rádio Observador.