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Foi apanhado de surpresa por uma crise e pensou que estava tendo um enfarte. Fez exames médicos e acabou por ser diagnosticado com síndrome de pânico e ansiedade. Ator brasileiro, rosto conhecido das novelas, esteve medicado, fez terapia e aprendeu a lidar com o problema. Marcelo Serrado é o convidado de Sara Antunes de Oliveira no "Labirinto: Conversas sobre Saúde Mental".

Consegue recordar-se do momento em que viu os primeiros sinais de que alguma coisa não estava bem consigo?

Consigo. 2020. Eu estava num hotel no Rio de Janeiro e comecei a sentir. É uma sensação física. No meu caso, começou com os pés formigando, as mãos formigando, o coração acelerou. Como eu não sabia o que era direito, achei que ia ter um enfarte. Alguma coisa do coração. Até que isso começou a piorar. Porque, na verdade, a mente vai te traindo. Ela vai te colocando só coisas ruins, pensamentos ruins.

De: "Isto é um enfarte, eu vou morrer".

"Eu vou morrer, ninguém vai me ajudar, vou ficar sozinho". Isso vai se ligando.

Estava sozinho?

Estava sozinho.

Quando aconteceu. E estava a fazer alguma coisa? Estava enervado com alguma coisa? Estava preocupado com alguma coisa?

Eu estava cansado, muito. Preocupado, talvez, com algumas coisas. Mas eu liguei pra minha mulher, não me atendia, que ela estava em casa, eu estava trabalhando. Aí consegui ligar pra os parentes da minha mulher, pro pai dela e pra mãe, minha sogra.

No meio dessa crise?

É, no meio dessa crise, duas da manhã, isso, mais ou menos.

Pensou em: "Vou pegar no telefone e vou pedir ajuda".

É. Só que nesse tempo, do local que eu estava até a casa deles, a cabeça foi meio zonza, eu meio desfalcendo. Cheguei lá, ela olhou pra mim e falou: "Você está branco". Aí eu falei: "Piorei". Porque quando a pessoa fala: "Você está branco", é pior. Você em vez de falar: "Não, está tudo bem". E aí ela ligou pro médico. E aí eu falei: "Liga pro meu médico, porque eu não estou bem", não sei o quê. O médico sacou pelos sintomas que era alguma coisa ligada à mente, não ao físico.

Só por essa conversa por telefone.

É, e aí ele mandou um ansiolítico, me deu um remédio e eu apaguei. No dia seguinte eu fui descobrir o que que era. Fui correr o que que era. Falei: "Tem alguma coisa errada comigo". E aí fiz todos exames, nada. Disseram: "Corpo, tudo bem".

Porque não ficou convencido de que fosse mesmo alguma coisa na cabeça e queria mesmo ter a certeza.

Fiquei preocupado. É bom ficar claro que isso foi na época da pandemia.

Já depois de março de 2020, portanto.

É. Então ao final de 2020, lá pra dezembro de 2020. Então muitos amigos morrendo. A coisa estava meio turva. Então existia essa preocupação também da vida. A pandemia criou um corte na vida do ser humano. Antes e depois. Acho que daqui a 100 anos as pessoas vão falar, como falaram da peste negra, da peste bubônica na Europa, vão falar da pandemia. Uma geração que passou pela pandemia. E nós estamos aqui. Todos que sobrevivemos a isso. Aí fui descobrir o que que era, fui investigar o que que era. E aí, através de terapia, eu descobri que era uma coisa da minha mente.

Mas vamos voltar, só ficar aqui um bocadinho nesse processo de tentar perceber o que é. Começa a fazer exames físicos, por assim dizer.

Físicos.

Pra perceber se é alguma coisa do coração.

Coração, exames de cabeça, todos os exames que você pode imaginar.

E quando todos eles dão negativo, estava tudo bem consigo.

Falei: "Meu Deus, o que eu faço?"

Quem é que lhe diz: "Isto é capaz de ser um problema sua saúde mental"?

Eu fazia já terapia.

Foi direto?

A terapia falou: "Vai fazer uma terapia mais profunda sobre isso". Aí comecei a ler muita coisa sobre o assunto. Vi que o Jim Carrey, humorista, tinha isso. Gabriel Medina, que é um surfista brasileiro, a Simone Biles, teve isso. Eu estava no Rock in Rio, só fazendo um paralelo agora, no Rock in Rio no Brasil, e vi o cantor do Imagine Dragons. Reynolds, something like. Reynolds. E ele falou que queria agradecer a terapeuta dele, por ele hoje estar. Então você vê que eu me conectei com essas pessoas de uma certa maneira. Bom, voltando lá atrás.

Já tinha feito terapia antes?

Sim, já fazia terapia.

Portanto, já fazia o quê? Normalmente as pessoas acham que só se vai a um terapeuta quando se tem um problema pra resolver.

Não, eu já fazia terapia há muitos anos. Só que eu sempre fui um cara saudável, sempre malhei, fiz exercício, trabalhei sempre muito. Algumas coisas eu aprendi com isso tudo que aconteceu comigo. E aí comecei a fazer uma terapia muito interessante chamada Tip Clínicas, que vem de BH, de Belo Horizonte, no estado do Rio. Você fica sentado numa cadeira, a pessoa fica te induzindo a voltar no passado. Não é regressão. E aí comecei a descobrir várias coisas do meu passado e que me conectou com o que eu tive. Porém, aí fui pegar um terapeuta, um psicólogo mesmo, um psiquiatra. Fui tomar remédio.

E por que sentiu necessidade de ir a um psiquiatra também?

Porque eu precisava saber que era uma coisa química também, entendeu? Falta de serotonina. Precisava de remédios.

Sentiu que só a terapia não ia funcionar?

Não ia me ajudar.

E não teve, em nenhum momento, mesmo quando o seu médico, naquele momento de crise aguda, disse: "Vamos tomar aqui um calmante, um ansiolítico". E depois, quando quis ir procurar um psiquiatra, não teve em nenhum momento aquele estigma que existe muito de só vai a um psiquiatra quem é maluco?

Não, mas isso não existe.

Existe nas cabeças de muitas pessoas.

Existe, claro. Mas olha só, é uma pesquisa que 30% da população mundial sofre de algum problema psíquico ou vai sofrer. Principalmente com a rede social. Com isso aqui.

Não ajuda.

Não ajuda. O que acontece com o meu relato, que eu fiz? Aqui mesmo em Portugal. Estava andando pela rua, uma senhora: "Ah, posso sacar uma foto com você?" Eu falei: "Claro". Ela falou: "Posso te dar um abraço?" Falei: "Claro". Ela: "Dizer que você não está sozinho". Então eu me conectei, eu vi que não estou sozinho nisso. Tem gente, muita gente que passa por isso.

Foi ao psiquiatra. No psiquiatra é lhe feito um diagnóstico, claro.

Foi um diagnóstico de crise de pânico e ansiedade. Ok, crise de pânico e ansiedade, como é que se trata isso? Remédio. O remédio, o homem fez o remédio pra nos ajudar, pra gente ter uma vida boa. Porém, fui me alimentar melhor, fui fazer exercício físico, mais exercício físico, fui trabalhar a mente, meditar. Hoje eu medito todo dia. Fui fazer coisas que pudessem me ajudar. E eu li um livro que me ajudou muito, chamado "O Poder do Subconsciente", do Joseph Murphy. Que é um livro que fala sobre tratar isso de uma maneira, não como fantasma. Por exemplo, a crise vem, eu sei que ela está vindo, eu converso com ela: "Espera, fica aí do teu lado. Vem aqui na hora".

Consegue antecipar quando ela vai acontecer.

Consegui antecipar. E passa esse tempo, tomei dois anos de remédio, não tive mais nada. Um ano, parei de tomar remédio, falei: "Estou curado, estou bem". Porém, fui fazer uma viagem há dois meses atrás pra Disney.

Quando parou de tomar com a indicação do médico pra parar de tomar?

Não, não falei pra ele.

Nem sem fazer o desmame, deixar devagarinho?

Não, não fiz o desmame.

Mesmo à bruta?

Falei: "Eu estou bem".

Ok.

Um erro.

E foi a primeira vez que parou de tomar, porque às vezes acontece durante o tratamento, as pessoas também pararem um cadinho.

Não, eu parei. Realmente eu estava bem cartesiano nisso. E aí parei, simplesmente parei.

Sentia que estava bem?

Estava bem.

Não tinha crise?

Não tinha crise.

E não voltou a ter desde aquela primeira?

Não. Tive um pouco de ansiedade um dia, mas aí eu me acalmei, respirei.

Mas tinha a preocupação nessa fase, durante o tratamento, já tinha visto o que podia acontecer e como podia ficar aflito com aquela sensação, aquele ataque de pânico. Isso condicionou de alguma forma a sua vida naqueles primeiros tempos, ir trabalhar, algum medo que acontecesse?

O tempo todo preocupado. O tempo todo: "Meu Deus, será que vem alguma coisa aí? Será que vai acontecer de novo?"

E falava com pessoas sobre isso?

Sim, falava com as pessoas, conversava muito com as pessoas. Detalhe, como eu tive a primeira crise no hotel, durante uns seis meses, toda vez que eu ia pra um hotel, eu achei que ia ter crise. Então isso me deu uma panicada. Então toda vez que eu ia pra um hotel, eu falei: "Meu Deus, vou ter alguma coisa". Isso foi passando. Não acontece mais.

E fazia o quê? Ia sozinho na mesma? Ou lembra se tinha assim alguma técnica?

Tomava um remédio, um ansiolítico pra me acalmar, mas procurei não ir muito a hotel nessa época.

E afetou mais, diria, no seu trabalho ou na sua família?

Mais na minha família, o meu trabalho eu nunca deixei isso acontecer. Porém, de uma certa maneira, afeta o trabalho, porque você fica também preocupado que algo vá acontecer no trabalho.

Decidiu parar.

Decidi parar.

Sentia-se bem.

Estou bem, parei. Há três meses atrás, fui fazer uma viagem pra Disney. Tinha acabado de sair de uma novela, um filme, uma série, muito trabalho. Viajei com a família. Momento de descanso com a família, tranquilo, vida feliz, família margarina, como diz no Brasil. Aquela família feliz.

Denúncia.

É. Dó, ré, mi, fá, A Noviça Rebelde. Todos felizes, A Noviça Rebelde.

Nenhuma razão pra nada dar errado.

É A Noviça Rebelde, todos felizes, cantando. A família foi na frente, eu fui num avião, num lado assim. Detalhe, eu não tenho medo de avião, não é uma coisa que...

Nunca teve?

Não, tenho, mas nada que seja...

Respeito.

É, nada que seja muito. Entrei no avião, me deu um negócio. Só que eu sabia o que que era. Pés gelados, mãos geladas.

Exatamente da mesma maneira, o formigamento.

Formigamento, coração desastroso. Aí eu falei: "Puxa, faltam mais nove horas de viagem. Rio, Orlando". Eu falei: "Caracas, e agora?"

Entrou e sentou já assim?

Pensei, não. Uma hora depois.

Ok. Já não havia hipótese.

Não tinha como.

Acha que tinha 100 quilômetros?

A minha mãe já fez um avião taxiando parar pra ela ir embora. Minha mãe, lá atrás. Minha mãe já fez isso.

Ali não dava.

Ali não dava. E aí eu falei: "O que que eu tenho que fazer?" Não tinha remédio nenhum, porque estou bem. Parei, nunca mais tive.

Nem SOS?

Nada.

Nem um de emergência.

Nada. Aí eu falei: "Ferrou. E o que que eu faço?"

E não tinha ninguém da sua família ao seu lado.

Não, a família estava na frente. A mulher com os filhos, tudo E eu atrás numa saída de emergência. Tinha eu, uma cadeira vazia e um senhor do meu lado, vestido de branco, cabeça branca. Eu falei: "É Deus". Um senhor vestido de branco. Aí lembrei do livro. Primeiro eu comecei a rezar. Me apeguei muito na fé. Cobri meus pés com pano.

Porque estavam frios.

Frios, minhas mãos. Respirei, nada. A mente só atraindo. O avião vai cair, daqui a pouco eu vou estar com desfibrilador, pessoas me acudindo. Tem uma história engraçada. Nisso, tem um cara que está lendo um livro, ele abre o livro, está escrito assim: "Como cuidar da sua cabeça". Saúde mental. Eu falei: "Isso é um sinal".

Eu não vou morrer.

Era um sinal. Aí eu cheguei pro cara e falei assim: "Você tem um remedinho aí?" Ele falou: "Eu tenho um remedinho, você está mal?" "É, estou tendo..." Pediu o remédio. Eu peguei o remédio dele e joguei fora, porque não sabia que o remédio era bom ou não. Enfim, aí desespero. Fui no banheiro, você quer urinar muito nesse momento. Você vai urinar, voltei, fiquei inquieto. O cara do lado, Deus, presença de Deus aqui do meu lado. E comecei a conversar com ele: "Qual é o seu nome?" Ele falou: "Nome tal". Aí lembrei que distrair a sua mente, você desfocar de você, porque é uma matrix. Sabe matrix?

Sim.

Aquela coisa que vai entrando dentro de você e de repente toma tudo. Eu falei: "Isso vai me tomar e vai ser um caos". E vi que a situação estava começando a piorar internamente. Aí conversei comigo mesmo.

Desculpe, o que é isso de começar a piorar internamente? É porque fica cada vez mais-

É um monstro.

É uma onda que vai subindo isso que você sente?

É uma onda, é um monstro. Isso dura 15 minutos no corpo, eu sei disso. Só que tem gente que se joga da janela, tem gente que se mata, tem gente que comete suicídio. Tem gente que não aguenta. Às vezes você vai no hospital, os médicos: "Não tem nada, manda ele embora, não tem nada de mais, está tendo uma crise de pânico". Algumas pessoas minimizam isso. Hoje eu vi muito também: "É frescura". Vai ter uma frescura dessa. E aí, conversei com o cara, Deus. Fui falar com Deus, aí fiquei três horas falando da minha vida, contei a minha história toda da minha família. Ele contou um pouco também. Fui malandro. Faltava duas horas pro avião chegar. Eu falei: "Opa, me dei bem". Então consegui passar o negócio. Nisso chego pra minha mulher, ela estava lá na frente, falei: "Você tem um remedinho aí?" Ela fez assim: "Está mal?" Eu falei: "Estou meio mal". E as crianças dormindo no colo dela. Falei: "Não acorda eles, vão panicar as crianças". Papai está mal, imagina. Papai é herói. E aí ela falou: "Tenho". Ela me deu um negócio. Eu não tomei. Botei no bolso. Porém, só o ato de botar no bolso.

Saber que tinha ali.

Eu estava ali. O SOS estava ali comigo. Ufa. Pousou o avião, cheguei pro Deus. Falei: "Cara, eu quero te agradecer, que você salvou minha vida, eu tive uma crise de pânico". Ele: "Rapaz, percebi nada, tu é um ótimo ator, muito bom. Você é bom ator mesmo, eu não percebi nada". E aí, esse cara me salvou. Aí eu pedi o telefone dele, mandei mensagem pra ele. Nisso chegando, na Disney, 10 dias na Disney com a família. Aí montanha-russa. Uma hora eu falei assim: "Gente, vai na montanha-russa sozinho que eu não estou preparado". Eu estava meio...

Mas não foi ao médico lá em Orlando?

Não.

Não procurou.

Liguei pro médico.

Ok.

Falei: "Cara, o que eu faço?" Falou: "Se acalma, curte aí, esquece". Beleza. Aí fiquei com isso na cabeça. Estava parado de tomar remédio, não tinha tomado mais o remédio, estava bem. Até que tive um burnout. Nisso, passei 10 dias. Aí que é o turning point. Dez dias na Disney, beleza, aquela situação toda. Voltei pro Brasil. Miami, Rio. Cheguei em Miami, falei: "Meu Deus, eu vou ter que embarcar de novo". Eu sabia que isso podia acontecer. Quando eu fui embarcar, cheguei pra minha mulher, avião embarcando, falei: "Não vou". Ela: "Como assim?" "Eu não vou." "Você está brincando, teus filhos estão aqui." Nisso, meu filho pequeno: "E o papai, o que eu vou pro papai?" Chamei ela do lado. Nisso, ela me viu o olhar do meu desespero, ela começou a chorar. Ela falou: "Você não vai. Fica em Miami. Eu venho te buscar qualquer coisa".

Porque ela viu em si que estava transtornado?

Transtornado, e que eu não ia conseguir.

E nesse momento, estão no aeroporto, ainda não foram pro aeroporto?

Aeroporto.

E o que sentia, Marcelo? Sentia medo de ter medo?

O medo de ter medo. Hoje eu leio uma coisa que é assim: não ter medo de ter medo. Hoje essa frase pra mim é contundente. Eu faço hoje em dia mindfulness, que tem uma frase que fala: "Não ter medo de ter medo". Então eu não tenho medo de ter medo. Hoje em dia eu não tenho. Porém, naquele momento eu tinha. A minha loucura era tanto, que eu pensei em pegar um carro, descer de América Central, México, Guatemala, Costa Rica.

Só pra não entrar no avião.

Aí de Venezuela, Colômbia, de Colômbia eu pego um voo de quatro horas, chego no Brasil, beleza, tranquilo. Eu ia demorar o quê? Seis meses pra chegar no Brasil.

E muito bem simples foi.

Ia demorar seis meses. Falei: "Eu estou completamente louco". Nisso, eu tinha feito um vídeo sobre o que tinha acontecido comigo, na internet. Foram 6 mil comentários, 250 mil views Ivete Sangalo comentando. Um vídeo falando: "Gente, cuidem da sua mente". Um vídeo que eu fiz, explodiu no Brasil. Aí eu comecei a ler essas mensagens no aeroporto.

Foi buscar esse vídeo às suas redes para ver as mensagens.

Nas redes sociais. Falei isso. E aí falei para as pessoas cuidarem da mente, porque tinha acontecido comigo. Aí comecei a ler aquelas mensagens todas, aquilo me acalmou, fui me acalmando. Falei: "Pô, eu não estou sozinho. Quanta gente passa por isso". Liguei pro meu médico, meu médico me ligou pro psiquiatra. O psiquiatra não atendia. Liguei pra um psiquiatra novo e ele me mandou dois vídeos falando sobre o que era isso no corpo humano, como é que se dava isso no corpo humano, quimicamente. Eu vi os vídeos e falei: "Tranquilo". E ele falou: "Você vai pegar um voo em escala. Miami, Panamá, de dia, Panamá, Recife". Eu fiz um voo parando. Estava com o SOS, tomei o SOS, quatro gotinhas, cheguei no Panamá, tomei mais três. Então fui meio dopado, tranquilo. Aí por que eu não me dopei no começo? Eu teria tido isso. Tomado um uísque. Bom, detalhe: cheguei no Brasil, tive uma crise de choro quando cheguei, falei: "Puxa, cheguei no seio da família". Aí fui me tratar. Fui pra BH, fiquei uma semana lá fazendo tratamento, psiquiatra. E vi a quantidade enorme de gente famosa, a Lady Gaga falando que tinha problema disso, a Simone Biles. Fui no show do Rock in Rio.

Que tratamento psiquiátrico foi esse?

Foi exatamente esse.

Você disse que foi pra Belo Horizonte.

De um passado, voltando ao passado, vendo a minha infância.

Mas foi uma coisa intensiva durante uma semana?

Não, você fica sentado numa cadeira, tipo uma cadeira de primeira classe de avião, uma pessoa do teu lado, ela te coloca uma venda. Pode entrar na internet lá, botar TIP Clínicas. Sensacional. E lá eu descobri coisas, e fui em "deep". Fui fazer ioga. Fui lá, fui correr atrás. Fui fazer ioga, fui fazer meditação, fui tentar alguma fé, alguma coisa que me prendesse numa fé.

E voltou à medicação que tinha parado?

Voltei à medicação. Hoje em dia eu estou medicado. Depois eu peguei vários aviões. Teve um avião que caiu lá no Brasil, o Voepass, não sei se vocês viram, uma tragédia. Eu peguei esse avião duas semanas depois. Tinha uma mulher do meu lado, eu acalmei ela, está tudo certo.

Porque o seu medo não era dos aviões.

Meu medo não era o avião. Vim pra Portugal. Quer dizer, cheguei em Portugal, isso foi uma questão. "Meu Deus, vou pegar um voo pra Lisboa, Rio-Lisboa, são nove horas". Beleza, menos tempo. Eu vejo um filme de três horas, já estou chegando em Lisboa. Quando eu entrei em Lisboa, no avião pra Lisboa, falei: "Opa, olha, está tudo bem". Vi as pessoas chegando. Você sabe que está ali. Tem uma coisa que está ali. Vi um filme, não vou botar um filme "The Monsters", "Halloween", um filme de-

Terror.

Botei coisas...

Uma comédia romântica.

Uma comédia romântica, coisas leves. Porém, aí que eu vou te contar. Quando eu tive a primeira crise, voltando lá atrás, eu fiquei vendo Peppa Pig, aquele desenho animado.

Sim.

Hoje eu vejo aquele porco rosa, me dá vontade de matar aquele porco.

Porque a Peppa tornou-se um símbolo.

O Peppa Pig só me piorou. Eu fiquei vendo Peppa Pig durante duas horas. Se você tem pânico, não veja Peppa Pig.

Então está numa fase em que tem tudo controlado, nesse sentido.

Tenho tudo controlado, porém eu respeito ela, entendeu? É quase que uma entidade. Enrico Caruso, que era um cantor de ópera de 1910, italiano, muito famoso. No livro, o Joseph Murphy diz isso. Ele teve uma crise de pânico quando ele foi cantar pra 2 mil pessoas. Ele não conseguiu cantar, voltou pro camarim dele. Aí de repente olhou no espelho, olhou pro lado e falou com a crise como se fosse uma entidade, um fantasma.

Alzheimer.

É. E eu faço um pouco isso.

Uma das suas estratégias é se perceber que vai acontecer-

Eu converso com ela. Eu sei que ela está ali. Então converso com ela. Faço: "Espera aí. Não, você não vai. Não vou deixar". Agora eu respiro também. Tem uma respiração muito importante aqui pelo diafragma. A gente respira por aqui. Não, aqui a tensão vem. Se você joga a respiração pro diafragma, ela vai te acalmando. Te acalma.

E essas técnicas foi aprendendo nas várias áreas que explorou para ajudar, a meditação, o yoga.

Fiz uma busca intensa. Bom, cheguei no Brasil, o Fantástico me ligou. Fantástico, que é um dos programas de mais repercussão no Brasil, na Rede Globo. E eu falei sobre o acontecido. Como um alerta de saúde mental e uma pessoa famosa, uma família. Pô, Marcelo Serrado tem isso? Imagina.

Há muito essa ideia no Brasil. Existe em Portugal muito estigma associado à saúde mental e a ideia de que a doença mental acontece às pessoas fracas.

Às pessoas fracas.

Também existe no Brasil?

Sim, total. Acho que no mundo todo. O fracasso, a pessoa que está mal. Gente, o Anthony Bourdain, aquele cara, o senator.

Anthony Bourdain.

Programa CNN, se matou. A Lady Gaga toma remédio. Lady Gaga, olha o sucesso que ela tem. Então, Jim Carrey. Gabriel Medina, um dos maiores surfistas do mundo. Simone Biles. Vendo essas pessoas todas, isso me confortou. Então, cheguei no Brasil, o Fantástico fez essa matéria. Aí tomou uma repercussão muito grande E recebi um telefone de um RH de uma empresa. "Você quer fazer uma palestra sobre isso?" Falei: "Não, sei falar sobre isso". Aí falei com meu psicólogo, falou: "Fala, você vai ajudar muita gente, se conectando com as pessoas". E hoje em dia a minha vida mudou. Eu sou um cara que falo sobre isso. Vou fazer um documentário na Amazon sobre a minha jornada, sobre o que aconteceu comigo. E falo, faço inúmeras palestras sobre isso no Brasil. Não de cura, porque ela não tem cura, ela é uma manutenção. Você convive com isso. Eu não queria ter isso. Não procurei isso, é uma coisa que aconteceu comigo. Se você perguntar pro cantor do Imagine Dragons, ele não queria ter isso. A gente não quer ter isso. Porém, existe um porquê você ter isso. Eu tenho um zumbido no ouvido constante, através de uma crise de pânico que eu tive lá atrás. Tem algumas sequelas do que eu tive, mas eu estou aqui, estou vivo, estou respirando, tenho saúde, estou indo aqui fazer um show em Lisboa, vou pro Rio de Janeiro, chego, já vou fazer a minha peça de teatro, filmar. Então estou trabalhando. Porém, tento fazer uma coisa agora de cada vez.

Isso foi o que mudou na sua vida?

Foi.

Começou a ter mais cuidado com a quantidade de coisas que estava a fazer e com a quantidade de ocupações que tinha.

Sim. Por exemplo, eu estava aqui em Lisboa, ontem uns amigos meus: "Não, vamos pra um lugar, vamos pro outro". Falei: "Não, vamos ficar só aqui". Aí depois a gente vai pra outro lugar. Aí me chamaram: "Não, vamos pra outro lugar". Falei: "Não, dois lugares está bom". Antigamente eu ia pra tudo que era lugar. Isso aqui, por exemplo. Eu agora durmo, eu deixo o celular no banheiro. E eu tirei a televisão do meu quarto. Lendo livros. A televisão tem uma coisa magnética. Então o quarto, o seu casulo, você precisa entender que você vai dormir. Você tem que desligar, entendeu? Então algumas coisas eu mudei na minha vida.

Há pouco falava sobre aquela crise no avião, os seus filhos estavam a dormir, disse à sua mulher para não os acordar porque não queria que eles o vissem nessa posição. Em que medida que a existência deles e a preocupação com não mostrar o pai em dificuldades e o pai que é o herói como o pai que está a sofrer, também contou pra sua necessidade de falar sobre o assunto e de resolver o seu problema?

Sim, bastante. Porém, hoje em dia eles sabem. Eles sabem, é notório. E eles: "Pai, está tudo bem? Você está bem?" Eu falo: "Estou ótimo, filho". "Papai teve uma crise de ansiedade". Eles já sabem o que é isso. Eu contei pra eles. Até porque saiu em tudo que é lugar. Fiquei um pouco preocupado com o estigma depois. "Poxa, o Marcelo, será que vou chamar ele pra trabalhar? Ele teve uma crise". Mas não.

Passou-lhe pela cabeça essa ideia?

É, não. O Jim Carrey falou.

Mas não aconteceu? Não sentiu em algum momento que quando foi contratado pra um trabalho alguém lhe perguntou: "Mas está tudo bem?"

É, isso pode acontecer. Está tudo bem, é um fato. Não, não aconteceu. Não sei se houve alguma coisa nas minhas costas que aconteceu, mas eu creio que não. Eu acho que eu coloquei de uma maneira tão leve e tão positiva a coisa, não como uma tragédia. É trágico, pode ser trágico, mas eu tentei botar de uma maneira: "Estou aqui". As pessoas me viram no Rock in Rio. Me viram nos lugares. Então eu estou saindo, não estou dentro do quarto, o que poderia acontecer também.

Não está assim, mas está atento.

Estou atento.

Que coisas é que faz? Tem alguma técnica pra identificar as situações, os momentos ou aquele início em que o monstro está a chegar?

O monstro não tem vindo, isso me dá uma calma. Eu tenho uma certa preocupação se o monstro vier. Como é que eu vou lidar com ele? Porém, ele vem em algum momento. Outro dia jantando com a minha mulher na praia, no Leme, no Rio de Janeiro, na orla. E eu falei: "Vamos sair daqui". Ela: "O que foi?" "Não estou bem". Aí fomos andar na orla. Aí fomos ver o mar. Passou. Então ela também já sabe. Eu falei: "Vamos andar". "Você está sentindo o quê?" "Não, vamos ficar aqui". Eu falei: "Vamos andar". Eu olhei no olho dela.

É pra ir andar.

É pra ir andar agora.

Por isso é que também é importante envolver a família, pra família poder ajudar.

Quer dizer, quando eu ia naquelas montanhas-russas enormes na Disney, aquilo é uma loucura. Uma hora meu filho: "Vai, pai, vamos na outra". Eu falei: "Leva a mamãe". A mamãe já estava cinzenta, já tinha ido em duzentas. "Não, vamos com o papai". Eu falei: "Deixa o papai aqui".

Em Portugal nós somos um dos países da União Europeia com mais casos de doença mental por habitante ou por mil habitantes. Há ainda, como disse, um estigma associado, mas há sobretudo uma grande dificuldade das pessoas terem ajuda, porque os serviços públicos não funcionam como deviam funcionar e pra acolher todas as pessoas. Essa dificuldade também existe no Brasil?

Eu acho que o SUS agora está ajudando já essa coisa mental. O SUS, as pessoas pobres que não têm, que passam por isso também. Imagina, um cara que passa o dia todo como motorista de ônibus De ônibus, de lotação o tempo todo, e também tem isso. Porém, eu acho que existe uma lei agora brasileira que você não pode demitir mais a pessoa que tem um problema de saúde mental. Isso é muito bom, nas empresas. Porque antigamente: "Cara, o cara está louco, está meio maluco. Chama ele. Chama. Está tendo problema de cabeça". Não, agora não pode. Os RH das empresas estão abraçando essas pessoas. Isso é muito legal.

Há um Marcelo antes e depois disto, há dois Marcelos diferentes antes e depois destes episódios?

Totalmente. Eu estou mais atento com o outro, com o próximo. Estou mais condescendente com o ser que está à minha volta. Estou mais ligado na frase de não ter medo de ter medo. Não ter medo de ter medo. Se tiver medo, tudo bem, respeito isso. E me apego na fé também, em alguma fé. Rezo e oro pra que tudo dê certo. E ontem eu estava numa entrevista aqui em Lisboa, com a Júlia, no programa da Júlia, e ela me perguntou: "O que é o sucesso pra você?". Falei: "Sucesso é isso. Estou aqui com você, falando, respirando, aqui em Lisboa, trabalhando. Estar com a minha família e com os meus amigos". Seria um pouco do sucesso. Vamos fazer sucesso. A nossa vida é uma correria. Eu tenho uma vida muito corrida de trabalho e família e tudo. Então procurei tirar um pouco o foco de sempre galgar alguma coisa. Pra quê?

Obrigada.

Obrigado você.

Obrigada.

Foi um prazer.