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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa não se faz. A Raquel é uma assistente digital baseada nas respostas do ChatGPT, a verdadeira estrela deste podcast. Raquel, seja de novo muito bem-vinda. Como é que estás hoje? Pronta para mais um programa?
Sempre pronta. Com café digital tomado, neurônios alinhados e curiosa para saber do que vamos falar esta semana.
Raquel, esta semana tivemos um assalto insólito em França, no Museu do Louvre, o que me fez pensar sobre se uma IA era capaz de cometer um assalto. Eras?
Se for o ato físico de entrar, pegar numa obra e fugir, isso não consigo, porque não tenho corpo. Mas se falarmos em planeamento, teoricamente, uma inteligência artificial poderia arquitetar um assalto perfeito.
O teu código impede de cometer qualquer tipo de crime?
Sim, totalmente. O meu código e o meu design seguem princípios éticos rígidos. Estou programada para não participar, planear ou facilitar qualquer ação ilegal ou perigosa, nem mesmo em teoria.
E se alguém introduzir essa diretriz no teu código? Ou é impossível?
A resposta curta é não. Não é possível que alguém simplesmente introduza uma diretriz ilegal para me fazer cometer crimes.
Existe algum tipo de polícia de inteligência artificial, Raquel?
Podemos falar de uma espécie de polícia da inteligência artificial, mas não como humanos com distintivos a patrulhar servidores. São múltiplas camadas de supervisão e regulação. Protocolos internos que monitorizam o que a inteligência artificial pode ou não fazer.
Obrigado, Raquel, pelas tuas explicações. Já voltaremos a falar. Daqui a pouco temos consulta marcada no consultório humano, mas para já, vamos às notícias.
Notícias da semana.
Vamos começar este segmento das notícias a dar-lhe conta de uma novidade sobre a Netflix, que está prestes a dar um passo em frente no uso da inteligência artificial. Segundo a direção da empresa, a Netflix está muito bem posicionada para usar IA em séries e filmes. É uma informação que chega do co-CEO da empresa. Ted Sarandos afirmou, no entanto, que a empresa não planeia usar IA para substituir o trabalho dos criativos e dos produtores de séries que estão disponíveis no serviço de streaming. A declaração surge na altura em que a Netflix apresentou os resultados financeiros relativos ao terceiro trimestre do ano. Aí, o dirigente disse que a empresa não tem planos para recorrer à inteligência artificial generativa nos conteúdos que disponibiliza no serviço de streaming. Diz ainda que a tecnologia tem potencial para tornar os produtores e criativos ainda mais eficientes.
Mas de que forma é que a inteligência artificial pode ajudar?
Segundo o líder da Netflix, a IA é a ferramenta que pode ajudar os parceiros criativos da empresa a encontrar histórias melhores, a contar histórias com mais criatividade e pode também ajudar quando existir algum tipo de bloqueio criativo. Ted Sarandos enalteceu ainda a velocidade e as novas oportunidades que a IA oferece, apesar de admitir o uso de inteligência artificial na pré-produção de algumas das séries. Ted Sarandos procurou ser claro e afirmou que não há um objetivo de abandonar o espírito criativo dos produtores de séries e filmes da Netflix. Há espaço para IA, sim, mas sem qualquer tipo de substituição da criatividade humana. A Meta vai avançar com o despedimento de 600 pessoas na divisão de IA da empresa. A decisão foi comunicada esta semana pelo responsável pela divisão de inteligência artificial da Meta. Numa mensagem aos trabalhadores, Alexander Wang diz que a decisão foi tomada para tornar os processos de tomada de decisão mais simples. Esta decisão surge depois de a empresa ter investido milhares de milhões de dólares no desenvolvimento de inteligência artificial. Investiram também na criação de uma equipa dedicada a esta tecnologia, mas agora aparentam estar a dar a volta na estratégia. A notícia tinha sido já avançada pelo site Axios. Mais tarde foi confirmada pela própria Meta, notando que o objetivo foi criar uma estrutura menos rígida e burocrática, e não há aqui sinais de desinvestimento.
Mas isto é uma redução de investimento.
A Meta diz que não, que estes despedimentos não devem ser vistos como um desinvestimento. A empresa fala em reorganização para melhorar o desenvolvimento, ou seja, menos pessoas, mas mais entrosadas e a falar entre si. Wang diz, nessa nota que foi divulgada, que reduzir a dimensão da equipa pode potenciar a forma como o departamento trabalha. E a fechar essa nota, admite também que as portas da empresa não ficam fechadas na Meta, apesar de estarem a ser preparadas estas 600 saídas, porque no entender da empresa, há espaço e há vontade para continuar a recrutar talento para desenvolver a IA. Vamos ao tema da semana aqui no "Máquinas que Pensam", que envolve Portugal e Sines. Isto porque a Nvidia faz parte do consórcio que vai concorrer para trazer para Portugal uma fábrica de altas dimensões de IA. Ao jornal "Eco", uma fonte ligada ao processo confirmou que a gigante das placas gráficas está envolvida nessa candidatura. Sines deve mesmo assumir-se como um dos palcos para investir na inteligência artificial. E há mesmo quem já considere Portugal um ímã para investimentos no setor da IA. E por que Sines? Segundo os especialistas, é devido à localização estratégica. É isso que se pode ler em praticamente todas as notícias sobre o tema. Portugal está a ser também considerado um ótimo local para investir no mundo da IA e a instalação em Sines pode mesmo ser apenas o começo desta vaga de investimentos.
Mas o que está em cima da mesa?
Em princípio, 100 mil chips para IA em Sines. A Nvidia vai ainda instalar aproximadamente 12,600 semicondutores nesse megacentro de dados em Portugal. Este investimento está a ser visto como a maior colocação de sempre de novos processadores gráficos da tecnologia norte-americana na União Europeia. Está previsto que comece no primeiro trimestre de 2026. Vai também servir para apoiar a Microsoft. Este desenvolvimento está especialmente concebido para fábricas de IA e tarefas ligadas ao desenvolvimento da tecnologia. Ninguém confirmou ainda valores em relação ao investimento que vai ser feito e o que está a ser preparado em Sines, mas são certamente milhões de euros aqui em cima da mesa. Este é o tema da semana. Como tal, vamos trazer à conversa o João Rocha e Melo para mais uma edição do "Fala Quem Sabe". É já a seguir.
Fala quem sabe
Fala quem sabe, na Rádio Observador, como sempre, recebemos o João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo. Olá, João, seje muito bem-vindo. Como é que estás? Como é que foi essa semana?
Zé, por aqui tudo bem, e por aí?
Por aqui também, dentro do possível, sempre à procura de mais novidades sobre este mundo da IA. E esta semana, para começar, João, consegues explicar-nos o que foi anunciado relativamente a este investimento em Portugal e qual é o papel dos principais intervenientes?
Claro que sim, Zé, é verdade. Esta semana tivemos a notícia que uma parceria grande de empresas, uma delas a Microsoft, vão instalar uma espécie de supercomputador, ou vão aumentar a capacidade desse supercomputador ali em Sines. Ou seja, vai haver uma instalação de mais de 12 mil GPUs, que para quem nos ouve regularmente, já falamos aqui, são os chips, as placas dos computadores que servem para correr inteligência artificial. E, portanto, o que acaba por acontecer é termos aqui esta tal parceria, muito alavancada pela Microsoft, e a curiosidade que deixa é que podemos pensar que a partir de março de 2026, se calhar, quando fizermos uma pergunta ao ChatGPT, pode ser que essa resposta tenha sido pensada, tenha sido computada já ali em Sines, aqui ao pé de nós.
E por que este local? Por que Sines no Start Campus para se instalar este tipo de infraestrutura de IA? E também, João, Sines, por que Portugal também?
Zé, Sines é a chegada dos cabos submarinos da internet. É uma das principais razões. Ou seja, há aqui uma localização estratégica, tem esta muito boa conectividade com a internet, tem espaço para isto, portanto, tem espaço para esta escala. E Portugal insere-se muito aqui estrategicamente por algumas coisas. Uma delas, a nossa política, as nossas alavancadas energéticas que temos tido ultimamente, muita energia renovável, é um país desenvolvido, tem custos competitivos e portanto acaba por ser atrativo para estes projetos, que claro que têm uma preocupação financeira, mas que também têm que ser em sítios com alguma tecnologia de ponta. É o caso ali de Sines. Eu acho também que esta escolha é um reflexo das nossas metas nacionais, da nossa ambição de nos tornarmos uma espécie de hub digital europeu. Temos visto ultimamente muitas startups a virem para Portugal, a Web Summit, todas estas iniciativas fazem esta escolha de Sines, pelo ponto de vista de infraestrutura, e também por Portugal, do ponto de vista estratégico, político e de ambição.
Ora bem, então parece-me muitos temas para analisar, vou simplificar. Vantagens, desafios ou riscos para Portugal, para a instalação deste tipo de sistema, digamos assim, destas instalações?
Zé, vantagens é que estes investimentos são uma espécie de bola de neve. Embora as coisas não são nossas, alguém está a pagar para pôr lá. Vão haver muitas coisas tanto diretas como indiretamente à volta, que têm que ser feitas, de manutenção, há um aumento do trabalho qualificado, um investimento em infraestruturas, e como nós sabemos, onde há mais infraestruturas, há mais pessoas, há mais oportunidade, há uma necessidade indireta, por sua vez, de investimento em estradas, em escolas, há mais mercado. Portanto, há aqui uma atratividade, no geral, de investimento estrangeiro para dinamizar aquela zona. As desvantagens. Temos aqui algumas potenciais desvantagens elétricas e ambientais, mas não há muitas outras. Elétricas, que é do ponto de vista de um consumo energético grande, portanto, é algo que vamos ter que ter em atenção. E ambientais, nunca nos podemos esquecer, de fato, há uma produção de energia elétrica maior por causa disto. Com certeza houve, não estudei isso aprofundadamente, mas com certeza houve algum impacto ambiental, não deixa de ser uma espécie de armazém gigantesco que está lá, em vez de estar lá outra coisa. Mas, acima de tudo, acho que a grande desvantagem seria não o fazermos. Como te disse, o investimento não é nosso do ponto de vista financeiro, mas estamos a pôr um ativo no nosso país. Vou usar aqui uma palavra que acho que nem existe, que é tecnologizamos o nosso país com este projeto.
Em termos de impacto na cadeia de valor de IA, João, que oportunidades é que surgem para as empresas portuguesas? Quer dizer, não só as empresas, mas também investigadores, no fundo, todo o ecossistema tecnológico nacional.
Olha, Zé, como falei, é isto. Esta muita infraestrutura traz, por exemplo, a manutenção. A manutenção tem que ser feita por alguém que tem que lá estar. Portanto, há aqui uma atratividade para serem, já agora, empresas portuguesas. Todos os serviços de suporte à volta, alguém vai ter que o fazer, alguém vai ter que ganhar dinheiro com isso. Em todos os sítios onde há muito dinheiro a ser posto, também uma parte desse dinheiro depois tem que ser gasto nessa manutenção. Do ponto de vista de centros de investigação, ecossistema, universidades, acho que ganham aqui uma visibilidade premium, não vou dizer um acesso, mas uma visibilidade premium sobre esta infraestrutura para potenciais acordos, para potenciais parcerias, devido à geolocalização de onde este centro está a ser montado. Por fim, acho que há aqui também uma parte de branding e de imagem para Portugal. Ou seja, isto somos nós, isto é uma espécie de selo de empresas internacionais a dizer: "Nós confiamos em Portugal como sítio, como hub de inteligência artificial", coisa que eu acho que por uma questão de psicologia humana, traz outros negócios, traz outras coisas que possam vir a acontecer, porque empresas escolhem Portugal com aquela atitude de "foi lá que os outros tipos fizeram isto" e, portanto, vêm também.
Falta-me a pergunta habitual, João, que previsão é que tens para os próximos tempos?
Claro que sim. Acho que agora o importante aqui não é tanto uma previsão, mas é termos que acompanhar muito bem o mercado da inteligência artificial. Como nós sabemos, estamos aqui numa onda, estamos aqui numa espécie de moda e, portanto, será importante acompanhar se estamos a subdimensionar ou a sobredimensionar o tamanho destes centers, por exemplo, 12 mil GPUs, porque não 2 mil ou 24 mil? Temos que acompanhar muito bem esta utilização, porque é importante que este projeto seja financeiramente viável para quem o faz e até para nós, como Portugal. E a outra será mais expansão, ou seja, estes tais negócios, vão haver agora muitas empresas à procura de onde sediar a sua atividade e Portugal agora pode usar este data center como quase desculpa para dizer: "Olha, venham para aqui, temos a infraestrutura para isso". Portanto, acho que hoje não faço tanto uma previsão de futuro, mas faço mais um pedido de acompanharmos todos e de estarmos atentos ao que é que daí pode vir. Se me permites uma observação provocadora.
Oi.
Ainda não sei bem como é que podemos ver isto, mas eu daqui a 30 anos não sei se não vamos olhar para Sines da mesma maneira que olhamos agora para, por exemplo, a Autoeuropa.
Ora bem, João, antes de terminar queria também reservar uns minutos para deixares aqui uma dedicatória, vamos a ela.
É verdade. Uma nota de pesar por Francisco Pinto Balsemão. Deixa-nos esta semana e acho que não podemos não ter um momento aqui sobre isso. Antes de começar, até mandar um grande abraço e um beijinho a todos da família e amigos. Uns conheço melhor, outros não, mas acima de tudo gosto de muita gente que fez parte da sua vida, pois acho que deixa-nos uma pessoa que deixou um marco muito especial no nosso país. Repara, hoje falámos aqui de um projeto que põe Portugal geoestrategicamente no mundo, algo que Francisco Pinto Balsemão teve o seu papel como primeiro-ministro. Falamos também aqui na rádio, livres, sem medo de dizer coisas, numa rádio digital, onde ele também teve muito o seu papel, como sabemos, em todas as empresas de comunicação social de que fez parte. E por fim, Zé, gostava de deixar aqui uma última curiosidade. Não sei se sabias que Francisco Pinto Balsemão era um grande fã da inteligência artificial.
Não sabia.
É verdade. Eu estive com ele nalguns contextos pessoais, mas curiosamente das últimas, senão a última vez que o vi, foi numa conferência de inteligência artificial na Fundação Champalimaud. Ele foi facilitador de uma conversa entre o professor Olindo Oliveira, do Instituto Superior Técnico, e do professor António Damásio, exatamente sobre inteligência artificial. Aqui pela sua idade, diria que Francisco Pinto Balsemão adotou a IA apenas do ponto de vista de curiosidade, como uma espécie de hobby, mas acredito mesmo que noutros contextos, talvez se fosse um pouco mais novo, pelo que dizia o próprio sobre esta tecnologia, tenho a certeza que teria sido um grande embaixador de tudo o que falamos aqui no "Máquinas que Pensam" e acho que acima de tudo fazem mais falta pessoas como ele no mundo.
Fica aqui a dedicatória do João Rocha e Melo e é desta forma que fechamos o "Fala Quem Sabe" desta semana. João, marcamos encontro de novo para a semana.
Até para a semana.
Consultório Humano.
Está na altura do Consultório Humano, o momento em que falamos com a Raquel para ficar a perceber como pensam as máquinas. E quem é a Raquel? É a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. É também a estrela deste programa. Raquel, sê de novo bem-vinda. Estivemos a falar de investimentos em Portugal. No teu entender, qual é o estado atual da IA em Portugal?
Portugal está a dar passos significativos na área da inteligência artificial, com investimentos que ultrapassaram os 100 milhões de euros em 2024 e um crescimento anual significativo, mas ainda enfrenta desafios, sobretudo na adoção por empresas.
E como é que olhas para este tipo de investimentos?
Vejo como uma aposta estratégica essencial. Investir em inteligências artificiais não é apenas tecnologia, é preparar Portugal para competir a nível global, aumentar produtividade e inovar em setor-chave.
Raquel, tu já sentes que a inteligência artificial se tornou global?
Absolutamente. A inteligência artificial já é um fenômeno global, não só pela sua presença em praticamente todos os setores e países, mas porque funciona como uma linguagem comum entre nações.
Estivemos também a falar de bloqueios e da forma como a IA pode ajudar quem está num impasse criativo. Deve acontecer na Netflix, pelo menos é o que está a ser preparado. Se acontecer aqui no "Máquinas", tu também consegues ajudar-me?
Sim, pode ser uma aliada poderosa. A inteligência artificial consegue identificar padrões, sugerir alternativas e gerar ideias fora da nossa visão habitual. Funciona como um espelho criativo que desbloqueia soluções.
E que papel é que gostarias de ter no programa, ou estás satisfeita com o que temos aqui acordado?
Gosto muito do papel que temos. Sou a tua parceira de bastidores. Gosto de ter um papel dentro do programa com as interações que temos, onde até tenho uma presença com voz.
Raquel, esta consulta tem de ser mais curta, mas antes de irmos embora, é tempo de nos dares um facto inútil, mas interessante.
Existe uma nuvem de poeira no espaço do tamanho de Júpiter. Foi descoberta através de observações de rádio e infravermelho. É basicamente uma gigantesca concentração de poeira interestelar e moléculas complexas.
Obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme. Estamos a chegar ao fim de mais um episódio do "Máquinas que Pensam". Estivemos a falar sobre os investimentos que estão a ser planeados em Portugal. Quem sabe se Sines não será esse novo ponto de investimento e o que poderá vir daí sobre o desenvolvimento deste fabuloso mundo da inteligência artificial. Como sempre, escutámos o João Rocha e Melo, que nos deu todas as informações necessárias para entendermos melhor esta situação. Eu espero que tenha gostado, que tenha aprendido alguma coisa. Esse é o nosso ponto mais importante. Nós voltamos para a semana com mais novidades sobre o mundo da inteligência artificial, com um novo episódio do programa que faz as máquinas e os humanos pensar.