O Papa Leão XIV concluiu esta segunda-feira uma visita de quatro dias a França marcada por uma mensagem central: a Europa secularizada continua a ter “sede” de Deus. Leão aterrou em Paris na sexta-feira para uma visita histórica, já que desde 2008 que o líder da Igreja Católica não visitava oficialmente o país. E aterrou consciente do lugar particular que visitava: nação histórica do Cristianismo europeu, França tornou-se o rosto mais evidente da laicidade e da secularização europeia, da Revolução Francesa ao Maio de 68. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, é dali que parecem surgir alguns dos mais claros sinais de que, após o afastamento da religião, poderá estar em curso uma redescoberta da fé na Velha Europa.
A agenda intensa dos quatro dias de Leão XIV em França traduziu as grandes linhas programáticas do seu pontificado e da sua visão da Europa e do mundo: o apelo à construção da paz, a denúncia da “ilusão do armamento” ao lado de um Presidente que anunciou este ano o aumento do número de armas nucleares no seu arsenal, a condenação de quem invoca o nome de Deus para “legitimar” a violência e os alertas para a necessidade de preservar a dignidade humana numa era de acelerado desenvolvimento científico e técnico foram temas omnipresentes nas intervenções do Papa ao longo dos quatro dias, marcados pela afluência de multidões muito superiores às esperadas nas principais celebrações. Na missa da Praça da Concórdia, em Paris, ponto alto da visita, estiveram mais de 800 mil pessoas.
O simples facto de enormes multidões terem acorrido às celebrações com o Papa num território amplamente visto como o baluarte da Europa secularizada será um dos principais aspetos desta visita. Desde que Bento XVI esteve em França, em 2008, que o país não recebia uma visita pontifícia. Francisco, o Papa das periferias, visitou lugares como a República Centro-Africana, o Uganda, a Papua-Nova Guiné ou até a minúscula comunidade católica da Mongólia, mas nunca fez uma visita formal a França nem à maioria dos países europeus. Pisou por duas vezes território francês — uma para ir ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e outra para uma cimeira sobre migrações em Marselha —, mas fez questão de que nenhuma das ocasiões fosse uma visita de Estado a França.
A prioridade dos doze anos de pontificado de Francisco, o primeiro Papa oriundo da América Latina, foram as periferias — humanas, geográficas e existenciais —, o que o levou a concentrar as suas viagens apostólicas em alguns dos países mais remotos e mais pobres do mundo, bem como nos países em guerra ou naqueles em que os cristãos são minoritários. Leão XIV, porém, voltou-se para a Europa das catedrais imponentes, mas vazias: após décadas de secularização, o Papa quer agora estimular a revitalização da fé cristã no território onde ela se afirmou, mas que mais dela se afastou.
▲ O Papa Leão XIV durante uma oração na gruta de Lourdes
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“Não é possível falar da Europa sem fazer referência ao Cristianismo”
Um dado estatístico tem alimentado praticamente todas as conversas sobre o Cristianismo em França nos últimos meses: na Páscoa de 2026, cerca de 20 mil jovens e adultos foram batizados naquele país. Um número recorde que serviu de mote a uma pergunta: a religião está de volta ao principal bastião da secularização europeia? Os dados precisam de algum contexto para serem interpretados (por exemplo, é impossível olhá-los sem ter em conta, precisamente, a grande secularização das últimas décadas, que fez com que o número de batizados na infância descesse, gerando margem para a existência de mais adultos não batizados), mas têm alimentado o debate em torno do ressurgimento religioso da Geração Z, que tem levado a Igreja Católica a abraçar cada vez mais o universo das redes sociais.
Há várias teses para explicar este ressurgimento, que não se insinua apenas em França: a desilusão com as promessas falhadas do secularismo, o vazio provocado por uma modernidade arreferencial, o impacto traumático da pandemia nos adolescentes, a ausência de certezas e seguranças económicas que afeta os jovens da Geração Z e até a radicalização política à direita, que se tem traduzido de forma expressiva entre os jovens rapazes. Mas a pergunta continua a ecoar: a religião está de volta? A Europa está a regressar às suas raízes cristãs?
A viagem do Papa Leão XIV a França colocou esta questão no centro do debate público. “Não é possível falar da Europa sem fazer referência ao Cristianismo”, vincou o Papa, num discurso no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz, esta segunda-feira, último dia da viagem. A paragem em Metz, cidade com uma longa história de conflito que se tornou num símbolo da reconciliação entre França e Alemanha e, por conseguinte, da construção europeia, permitiu a Leão XIV participar num encontro dedicado às “raízes da Europa”. No lugar de origem do católico Robert Schuman, pai fundador da União Europeia, o Papa Leão XIV lamentou que hoje em dia as relações entre os Estados estejam “cada vez mais bárbaras” e assinalou que a Europa conseguiu “pôr fim” a uma “espiral” de violência e guerras “graças ao respeito pelo outro que soube cultivar”.
Dias antes, em Paris, numa celebração perante mais de 800 mil pessoas na Praça da Concórdia, o Papa Leão XIV tinha falado diretamente às sociedades europeias. “Qual é a nossa sede mais profunda? O que procuramos realmente na vida? Todos aspiramos à felicidade, ao amor, à realização. Mas em que fonte procuramos saciar a nossa sede? Contentamo-nos com os bens materiais, com satisfações imediatas, com tantos pequenos ídolos que prometem mundos e fundos, deixando o nosso coração vazio?”, perguntou o Papa, reconhecendo o “vazio interior ainda mais profundo” que sentem aqueles que vivem aparentemente realizados com o sucesso profissional. “Na sua essência, o ser humano é um ser que ‘deseja’ e só Deus pode preencher este vazio interior.”
É essa “sede”, denunciada pelo vazio interior, a explicação para uma renovada aproximação da Europa à fé cristã? Leão XIV pegou nesta explicação para logo se dirigir aos mais de 20 mil jovens adultos recém-batizados em França, pedindo-lhes que não guardem a fé para si mesmos, mas que levem “a esperança onde reinam o desânimo e a aridez espiritual”. Noutro momento da viagem, durante uma visita ao Instituto Católico de Paris, onde se encontrou pessoalmente com vários destes jovens adultos recém-batizados, Leão XIV admitiu que “pode parecer paradoxal que este fenómeno, em que tantas pessoas redescobrem o Evangelho e abraçam a fé, aconteça no contexto de uma sociedade como a francesa, marcada por uma cultura fortemente secularizada”.
Papa Leão XIV sublinha “sede de sentido” perante cerca de 800 mil fiéis em Paris
Este fenómeno, assumiu Leão XIV, tem de ser interpretado como um sinal divino que “vai além das análises estatísticas e sociológicas”, ao mesmo tempo que “contradiz qualquer atitude derrotista e aquilo que o Papa Francisco chamava de ‘pensamento estéril’”, pelo que “deve ser acolhido com espírito de responsabilidade”. De resto, num país que é um ícone da secularização e da laicidade, Leão XIV fez questão de, no Palácio do Eliseu, sublinhar que “uma correta laicidade não consiste em excluir a religião do espaço público ou do ensino”, mas sim em promover o diálogo entre o Estado e as comunidades religiosas para que “unam forças ao serviço do bem comum”.
Do ponto de vista de uma Europa a reafirmar a sua dimensão religiosa, nenhum momento foi tão simbólico como a oração de Leão XIV na emblemática catedral de Notre-Dame, no centro de Paris. O Papa recordou o incêndio que destruiu parcialmente a catedral em 2019, afirmando: “Naquela hora dramática, percebemos que Notre-Dame é mais do que um monumento. A participação coletiva na reconstrução e, hoje, o esplendor do resultado, revelam que neste lugar bate o coração de um povo, que estamos no centro vital de uma civilização, que o passado e o futuro se abraçam, que o céu e a terra se encontram.”
“A catedral não é um embrulho de pedra para admirar, ela vive dentro do mistério sagrado que nela é celebrado”, vincou ainda o Papa Leão XIV, numa frase que ressoa um pouco por todo o continente, onde as imponentes catedrais que formam a paisagem tradicional das cidades europeias se esvaziaram de fiéis para se encherem de turistas. Na celebração com o clero francês, no interior da catedral, Leão XIV comparou o renascimento da catedral depois do incêndio ao renascimento da fé em França e pediu aos participantes que olhassem “para a estátua do século XIV da Virgem com o Menino, que o incêndio não conseguiu danificar e que volta a resplandecer diante de nós”.
O alerta contra a “ilusão do rearmamento” ao lado de Macron
A viagem não serviu, contudo, apenas para falar para dentro de portas e para manifestar otimismo numa Europa a redescobrir a fé cristã. Leão XIV fez uma visita de Estado a um país vital da União Europeia e a uma potência nuclear num tempo em que o mundo está mergulhado na guerra — e fez da defesa da paz a principal bandeira das suas intervenções.
No discurso que fez no Palácio do Eliseu, após um encontro privado de cerca de meia hora com o Presidente francês, Emmanuel Macron, o Papa Leão XIV alertou de forma contundente para o erro do armamento. “Vai-se difundindo cada vez mais a convicção errada de que a posse de armas nucleares constitua uma garantia de segurança, alimentando uma nova corrida ao armamento dificilmente controlável”, afirmou, ao lado de um Presidente que, seis meses antes, anunciara com pompa o aumento da capacidade nuclear francesa. “Na verdade, a paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça.”
Recuperando as palavras históricas que disse na varanda da Basílica de São Pedro no momento da sua eleição como Papa, Leão XIV pediu que França seja “fiel aos seus valores”, abrindo “caminho para uma paz desarmada e desarmante” e contribuindo para a paz no mundo. A visita a um centro de acompanhamento e integração social batizado com o nome de Santa Josefa Bakhita, uma escrava sudanesa do século XIX que escapou à escravidão e seguiu a vida religiosa, foi o pretexto para Leão XIV dar voz e palco a vários refugiados e migrantes de vários pontos do mundo e para colocar as muitas faces da guerra contemporânea no centro do debate.
“A história da Igreja e da humanidade, se bem observada, não é escrita por quem parece vencer, impondo-se e ocupando o espaço, mas por quem abre espaço, inicia processos de paz, gera confiança e encoraja à vida”, afirmou na ocasião. Mais tarde, já no fim da viagem, no encontro europeu em Metz, novamente ao lado de Macron, Leão XIV voltaria a lançar um forte alerta para a construção da paz.
▲ O Papa Leão XIV criticou a corrida às armas perante o Presidente francês, Emmanuel Macron
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“A Europa é um continente onde se prefere o diálogo em vez de se recorrer às armas; onde os recursos são partilhados para garantir que qualquer guerra se tornará não só impensável, mas materialmente impossível”, disse, evocando Robert Schuman e alertando para a “ilusão do rearmamento” — palavras que deverão ressoar de forma particularmente audível em Bruxelas, onde, no ano passado, a Comissão Europeia apresentou o plano “ReArm Europe” justamente para rearmar a União Europeia como resposta a um mundo em guerra. Leão XIV foi claro em pedir aos líderes europeus que se empenhem “num diálogo paciente”, demonstrem “coragem nas negociações” e estejam dispostos “a sacrificar algumas posições em prol do bem maior da paz”.
“A reconciliação só é possível quando se tem a coragem de quebrar a cadeia do ressentimento”, acrescentaria, mais tarde, na missa em Metz que encerrou a viagem.
Na manhã desta segunda-feira, antes do encontro sobre as “raízes da Europa”, Leão XIV tinha estado presente num encontro inter-religioso com representantes de várias religiões. Nessa ocasião, o Papa condenou explicitamente quem invoca “o nome de Deus para legitimar a violência ou a opressão”. Fazê-lo é “uma profanação” do nome de Deus, acrescentou Leão XIV, numa declaração dura com reminiscências da controvérsia que opôs o Papa e a administração Trump, em abril deste ano, a pretexto da guerra no Irão e dos argumentos religiosos esgrimidos por Washington para justificar a violência bélica.
Leão XIV também levou o tema da paz para outro dos pontos altos da visita a França: a passagem pelo Santuário de Nossa Senhora de Lourdes. Ali, além de rezar pelos pobres e pelos doentes, pediu também “governantes sábios e generosos, dispostos ao sacrifício de si mesmos, capazes de enfrentar os desafios e desejosos de servir o bem comum”, defendendo “a paz no mundo, rejeitando para sempre as lógicas da guerra”.
A passagem por Lourdes também colocou outro assunto crucial na agenda do Papa: a crise dos abusos sexuais. A visita ao santuário estava já envolvida em polémica devido aos mosaicos do padre esloveno Marko Rupnik, famoso artista plástico do meio religioso que terá abusado de dezenas de mulheres. As obras de Rupnik que adornam o santuário foram cobertas para que não tivessem protagonismo durante a viagem de Leão XIV — e o Papa aproveitou as horas que esteve em Lourdes para se reunir em privado com sete sobreviventes de abusos de menores, ouvir as suas histórias e afirmar publicamente o compromisso da Igreja para que “o mal que vivenciaram nunca mais se repita”.
“O que é legal não é necessariamente moral”
Ainda a propósito da defesa da paz, o Papa Leão XIV não deixou de fora um dos grandes temas do seu pontificado: o alerta para a necessidade de salvaguardar a dignidade humana na era da inteligência artificial. Numa visita à sede da UNESCO, em Paris, Leão XIV lançou a pergunta: “O que significa ser humano?” Pedindo aos responsáveis da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura que procurem respostas à pergunta “fundamental” dos dias de hoje, o Papa salientou que a humanidade é capaz do melhor e do pior — o que se descortina particularmente no modo como se relaciona com o progresso científico e técnico.
“O progresso científico, quando separado da sabedoria, pode transformar-se numa arma devastadora”, afirmou, sublinhando que a mais “terrível das obras humanas é a guerra, porque nela a própria ciência é colocada ao serviço de uma vontade desumana de destruir e matar”.
“Os nossos esforços neste sentido devem fazer com que as novas tecnologias continuem ao serviço da pessoa humana, em vez de se tornarem um novo instrumento de domínio e injustiça”, acrescentou ainda, reiterando, no essencial, o conteúdo da encíclica Magnifica Humanitas, publicada em maio deste ano e dedicada à salvaguarda da dignidade humana na era da inteligência artificial. “Enquanto a ‘inteligência’ é atribuída aos sistemas computacionais, temos dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável da pessoa humana, cuja vida é avaliada com base no critério da eficiência e, quando considerada já não produtiva, é rejeitada e descartada.”
▲ O Papa Leão XIV durante uma celebração em Lourdes
GUILLAUME HORCAJUELO/EPA
Em Lourdes, também tocou nestes temas, criticando as “correntes atuais que procuram redefinir o valor da vida humana face à doença, ao sofrimento ou à velhice”, num momento histórico em que a sociedade busca o progresso e o bem-estar material ao mesmo tempo que se sente “tentada a esquecer o horizonte da eternidade”.
Ao lado de Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu, o Papa Leão XIV também não escondeu as suas críticas diretas à eutanásia e ao suicídio assistido, que foram aprovados em julho deste ano pelo parlamento francês. O líder da Igreja Católica fez questão de vincar, “com veemência, que a salvaguarda do direito à vida constitui o fundamento imprescindível de todos os outros direitos humanos”. Leão XIV sublinhou a exigência moral de “acolher a vida incondicionalmente” e de “amparar a fragilidade com ternura”, alertando para a “tentação de esperar da ciência solução e conforto para todos os nossos sofrimentos”.
“Quando a ciência e a tecnologia não são orientadas pela consciência, podem propor soluções imediatas que parecem responder aos desejos e às dores dos homens e das mulheres, mas que, na realidade, podem desviá-los gravemente do bem a que aspiram profundamente”, assinalou, criticando a deturpação que transforma a ciência e a tecnologia em “empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, o tráfico de órgãos ou a oferta de uma morte programada”.
Além disso, durante uma visita a um centro de acolhimento de doentes, foi ainda mais claro nas críticas. “Sei que, para alguns de vós, devido a determinadas doenças e a dores por vezes terríveis, o horizonte pode parecer sombrio, incerto, sem saída. Mas nenhuma lei humana deve levar-vos a perder a certeza da vossa dignidade. Pelo contrário, é precisamente em nome desta dignidade inalienável da pessoa humana que a tentação de tirar a vida sob o pretexto de uma falsa compaixão deve ser firmemente rejeitada. Não é possível aceitar como algo normal tirar a vida. O que é legal não é necessariamente moral.”
O Papa Leão XIV regressou esta segunda-feira a Roma após uma missa na catedral de Metz. Entre 6 e 17 de novembro, o líder da Igreja Católica estará na América Latina, para uma visita apostólica ao Uruguai, à Argentina e ao Peru, país onde foi bispo da diocese de Chiclayo entre 2013 e 2015.
[Dois meses após o desaparecimento, e já depois de o genro, Raymond Quendoz, lhes ter anunciado que ia divorciar-se dela, os Silva Pais recebem finalmente notícias da filha. Annie está bem. Recusa dar detalhes sobre o seu paradeiro mas há cada vez mais evidências de que fugiu do marido para se juntar à revolução cubana. E, se isso aconteceu, uma coisa é certa: Annie tem de ter tido a ajuda e o aval do próprio Fidel Castro. Resta apenas saber porquê. Já pode ouvir o segundo episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]