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Bem-vindos à Aula Prática, uma conversa a três que faz parte da série Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre investigação científica em Portugal. Nestas Aulas Práticas, juntamos especialistas com projetos diferentes, currículos diferentes e idades diferentes também. Temos sempre um investigador sênior, líder de um grupo de investigação e um jovem investigador a dar os primeiros passos na profissão. Eu sou o Paulo Farinha e tenho comigo João Marques, licenciado em Ciências Farmacêuticas, com mestrado em Microbiologia, um doutoramento em Neurociências. Fez o primeiro pós-doutoramento também em Neurociências em Harvard. O segundo foi já na Fundação Champalimaud, onde é atualmente Research Associate Investigator. Temos também Carmo Fonseca, licenciada em Medicina, doutorada em Biologia Celular, com pós-doutoramento em Biologia Molecular, concluído em Heidelberg, na Alemanha. Foi fundadora e primeira diretora do IMM, o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes. Foi presidente da mesma instituição e agora é investigadora do Gulbenkian Institute for Molecular Medicine, que resulta da fusão do IMM com o Instituto Gulbenkian Ciência. Recebeu o Prêmio Gulbenkian Ciência em 2007, o Prêmio Pessoa em 2010 e o Prêmio da Universidade de Lisboa em 2023. Carmo Fonseca, começo por si. Quantos alunos de doutoramento e pós-doutoramento já orientou ao longo da sua carreira? Sei que não tem o número na ponta da língua, mas se tivesse que fazer umas contas por alto, atiraria para quantos?
Cerca de 20 e tal alunos de doutoramento diretamente, e eu já vou explicar porque estou a usar a palavra diretamente, outros tantos indiretamente e cerca de 30, já não se chamam alunos, mas investigadores na fase de pós-doutoramento. Eu digo que distingo os alunos de doutoramento indiretos e indiretos, porque quando eu regressei a Portugal depois do meu pós-doc, nessa altura era o grande desenvolvimento.
Estávamos em que ano?
Estávamos no início dos anos 90.
Muito bem.
E era o desabrochar da atividade de investigação científica em Portugal. E um dos grandes objetivos era treinar os nossos jovens. E como não havia em Portugal laboratórios que os pudessem acolher e treinar, houve programas específicos de selecionar os melhores e enviá-los para centros de excelência no estrangeiro. Mas eles depois, na maioria dos casos, vinham defender o doutoramento nas universidades portuguesas e precisavam de um patrono português. E eu servi de patrono a muitos. E por isso é que digo que influenciei indiretamente outros tantos estudantes de doutoramento, para além daqueles que estavam no meu laboratório.
Desde o início dos anos 90 até à data, as coisas mudaram bastante, as realidades também, mas continua a ser empolgante orientar um jovem para os caminhos da ciência?
Eu acho que aí não mudou absolutamente nada. O que mudou em Portugal foi o ambiente. Começamos quase do zero. Obviamente, não foi do zero, mas quase do zero. E agora temos imensos investigadores, imensos institutos de investigação. E isso para mim é um enorme orgulho. Relativamente a orientar um jovem, eu oriento os jovens com o mesmo entusiasmo que orientava quando eu comecei.
Quando começou a fazê-lo.
Quando comecei a fazê-lo.
Carmo Fonseca, posso perguntar a sua idade?
65.
Já leva três décadas e meia, sensivelmente, de investigação científica. O facto de agora, no Gulbenkian Institute for Molecular Medicine, não ter nenhum cargo de direção, isso dá um prazer acrescido por poder estar só concentrada na ciência e na orientação de jovens investigadores?
Sabe que eu sou uma cientista e, portanto, eu preciso fazer uma experiência para chegar a uma conclusão. E ao longo da minha vida, eu fui fazendo várias experiências. Fiz a experiência de ser professora, que gosto muito. Fiz a experiência de ser investigadora, que adoro. E fiz a experiência de ser diretora ou presidente de um instituto. E a conclusão é: o que eu mais gosto é de fazer investigação. Portanto, eu digo com toda a propriedade e com evidência científica de que a minha função agora, o meu cargo agora como investigadora, é o cargo que mais prazer me dá.
Que mais prazer lhe dá. João Marques, bem-vindo. Nós conversamos há aproximadamente dois anos, creio, aliás, também já tinha tido a oportunidade de conversar com a Carmo Fonseca. Na altura, o João Marques estava a investigar os mistérios do movimento. Eu sei que isto é uma forma um pouco redutora, já falaremos sobre isso, mas em que fase está esse seu projeto? O seu pós-doutoramento foi concluído entretanto?
Sim, o projeto vai terminar este mês. Estamos mesmo a terminar o projeto.
Estamos na altura, não podia ser melhor combinado.
Sim, e acho que correu bem. Eu estudo uma larva do peixe zebra, que tem um cérebro muito pequeno, só com 100 mil neurônios. E então a ideia do projeto era nós usarmos uma tecnologia nova para conseguirmos medir todas as células, todos os neurônios do cérebro, enquanto eles estão a fazer os diferentes movimentos, os tipos de movimentos que o peixe tinha. E concluímos o projeto, estamos agora a publicar o último paper. E agora já tenho novos projetos.
Quem está a ouvir esta conversa na Rádio Observador, pode também depois vê-la em vídeo. Quem está a ver em vídeo Está a ver o João Marques a fazer alguns movimentos com as suas mãos enquanto conversamos. Estes movimentos que nós fazemos todos os dias e a quantidade de movimentos que fizemos para entrar neste estúdio, para nos sentarmos, para colocarmos os auscultadores que temos neste momento na nossa cabeça, que são movimentos que nós fazemos de forma involuntária, quer dizer, nem damos conta que os fazemos. Por que é tão importante entender todos estes movimentos que fazemos a toda hora? Por que isso é tão importante para a ciência?
Primeiro, há imensas doenças neurológicas que afetam os movimentos, como por exemplo, Parkinson, Huntington e muitas outras doenças que são devastadoras. E há uma base neuronal para estes movimentos. Efetivamente, é um grande mistério como é que o cérebro consegue fazer um repertório de movimentos tão diverso e altera ao longo da vida. E como é muito difícil num ser humano ou num mamífero, nós conseguirmos medir todas as células do cérebro, porque os cérebros são gigantes, nós tivemos a ideia de fazer isto num cérebro muito mais pequeno, que é a larva do peixe-zebra, que só tem 100.000 neurônios, mas que também tem este problema de ter um repertório de movimentos e de escolher qual é o apropriado para conseguir sobreviver.
Eu conversava há pouco com a Carmo Fonseca sobre investigação e os prazeres da investigação e de orientar alunos de doutoramento e pós-doutoramento. Já perguntei a idade à Carmo Fonseca, que idade tem o João Marques?
Eu tenho 43.
Quando decidiu, há uns anos, ser investigador e quando decidiu enveredar pela ciência e vir a ser investigador, houve uma série de dúvidas que nasceram na sua cabeça enquanto estava a fazer o seu doutoramento e cujas conversas com líderes de grupo ou orientadores, como é o caso da Carmo Fonseca, ajudaram-no a tomar decisões?
Efetivamente, penso que não. Quando eu comecei, era uma pessoa muito audaz e queria ser cientista e fiz o doutoramento, fiz o pós-doc e tudo isso. Penso que as dúvidas apareceram um pouco depois, quando uma pessoa começa efetivamente a querer fazer disso uma profissão. E acho que essa fase é muito mais difícil do que o início.
Por quê?
Porque efetivamente o sistema é um sistema basicamente piramidal, onde há muito poucas posições de líder de grupo e há muitas posições para doutoramento e há muitas posições para pós-doc. Portanto, é extremamente competitivo. E dessa maneira, por exemplo, quando uma pessoa começa a fazer ciência, e nós fazemos ciência pela nossa curiosidade, por exemplo, ou que achamos que é importante, mas acho que é muito importante, por exemplo, ter uma estratégia para pensar no futuro. "Ok, eu vou estudar isto, porque isto vai ser importante para eu fazer um grupo no futuro." E essa realização só aconteceu muito mais tarde, mas acho que devia ter acontecido logo no início, porque a ciência demora muito tempo a acontecer.
E por que essa realização só chegou mais tarde?
Porque efetivamente quando eu comecei, quando estava fazendo meu pós-doc, estava no estrangeiro e queria voltar para Portugal e efetivamente queria conseguir uma posição de PI.
PI, investigador principal.
Investigador principal. Compreendi que, por exemplo, a minha carreira foi muito tortuosa, que eu, por exemplo, comecei a fazer investigação em química orgânica e depois passei para microbiologia e depois passei para neurociências. E de certa maneira, como eu sempre fiz avanços nos diferentes campos, mas não havia uma coerência na minha carreira. E quando eu fiz isto, nunca pensei que isto fosse prejudicial para a minha carreira, mas agora penso que é um pouco prejudicial. Teria sido melhor se eu tivesse continuado sempre no mesmo campo, porque aí tinha feito mais trabalho naquele campo, era mais conhecido.
Mas aí não tinha as certezas que se calhar tem hoje em relação àquilo que queria fazer no futuro?
Sim. Foi um processo, como é óbvio. Efetivamente, foi um processo e para eu descobrir as neurociências, se calhar, tive que fazer microbiologia para dizer a verdade.
E o papel de um líder de grupo ou de um orientador de doutoramento ou de pós-doutoramento é muito importante numa situação dessas?
Sim, penso que é muito importante. Não sei se acontece em todas as situações, mas se for um bom supervisor, acho que ajuda o aluno ou o pós-doc a efetivamente criar a sua visão ou estabelecer uma estratégia para depois ter sucesso naquilo que eu quero fazer.
Carmo Fonseca, orientar um aluno ou orientar um jovem investigador numa experiência é uma coisa, orientá-lo na carreira é outra. Mas as duas coisas andam a par e passo, não é verdade? Ou não tanto?
Eu acho que não tanto. Eu não partilho a opinião de que a carreira deve ser muito bem planeada, premeditada. Eu daqui a dois anos vou estar aqui, daqui a quatro anos vou estar ali. A vida é feita de oportunidades, de acasos e de reações. Eu, na minha carreira, toda a minha carreira foi feita completamente não planeada.
Aliás, a sua formação de base, a Carmo Fonseca fez medicina.
Exatamente.
Inicialmente, tinha a ideia em ser médica?
Não. Não, a minha ida para medicina foi simplesmente porque os meus pais, e sobretudo o meu pai, achavam que eu tinha que ter uma verdadeira profissão. E naquela altura-
Uma profissão séria.
Uma profissão a sério, exatamente. Porque naquela altura, fazer investigação ou ser cientista não era reconhecido como uma profissão e, portanto, eu tinha que ser engenheira ou médica.
E a medicina deu-lhe essas bases, essa cama em cima da qual depois pôde fazer todas as suas opções?
Na verdade, eu comecei a fazer investigação logo a partir do meu primeiro ano, porque com as aulas de Biologia Celular, fiquei imediatamente apaixonada, contactei o professor, perguntei se podia estagiar no laboratório, que por acaso foi O Instituto Gulbenkian de Ciência. E todo o meu tempo livre, quando não estava a estudar para os exames, estava no laboratório. Eu já tinha as minhas primeiras publicações científicas enquanto era estudante.
Estas dúvidas de que o João Marques falava são comuns? São dúvidas com que a Carmo Fonseca se depara nos seus alunos e em muitos jovens investigadores?
São. E neste momento estão institucionalizadas, porque neste momento há uma preocupação muito grande em fazer o planeamento das carreiras. Na verdade, há programas que estão tão estruturados que nós temos que nos sentar com os nossos alunos e pôr no papel.
Isso é bom?
Eu acho que é completamente artificial. Fazemos, é um exercício, mas acho que é completamente artificial.
A carreira de investigação em Portugal tem as suas grandes dificuldades, aliás, é muito difícil fazer ciência em Portugal.
Eu posso lhe garantir que não é só em Portugal. As dificuldades que nós sentimos são partilhadas pela maior parte dos países.
E que dificuldades é que nós temos cá que noutros países, com outros meios, não têm? São exatamente as mesmas?
São exatamente as mesmas proporcionalmente. Quanto mais meios existem no país, mais fontes de financiamento existem. Mas também existe uma maior população a competir para essas fontes de financiamento. Por isso, no final do dia, estamos em situações muito semelhantes com a maioria dos outros países.
João Marques, ao longo do seu percurso, quer com os seus colegas de licenciatura, quer com os seus colegas de mestrado, doutoramento, houve alguns que já abandonaram o caminho da ciência e que desistiram, ou que fizeram experiências e tomaram outras decisões?
Sim, efetivamente. Por exemplo, eu também sou dos últimos programas do IGC para formar investigadores para ir para fora, fazer o doutoramento fora.
O IGC é o Instituto Gulbenkian de Ciência.
Exatamente. E nós éramos, penso que 12, e eu acho que só dois estamos ainda em ciência.
Isto não quer dizer que eles tenham desistido, porque eles encontraram outras vias onde podem desenvolver a sua formação científica. E por isso é que há muito mais doutorandos e pós-doutorandos do que investigadores principais. O objetivo da formação científica é dar uma base que depois pode ser usada em muitas profissões.
Ora, mas muitas vezes esse caminho acaba por ser, e voltamos ao chavão de que é um pouco difícil fugir, vai dar origem à inevitável ou não fuga de cérebros. Porque formamos uma série de especialistas em várias áreas, nomeadamente ciência, mas a verdade é que não temos centros de investigação em Portugal suficientes para albergar todos estes cérebros que preparamos, ou isto é uma falácia?
Eu não quero estar a monopolizar, mas eu voltaria à comparação com os outros países. Isto acontece em todos os países. Como o João disse muito bem, a carreira de investigador, de responsável por um grupo de investigação, é uma carreira muito piramidal, em que poucos-
Conseguem chegar ao topo.
Não é que conseguem. Chegam ao topo. Não é uma questão de não conseguir, é porque encontraram outras soluções, outras vias de desenvolvimento. Não é que não tenham competência para ser investigadores principais. Isto é mesmo uma questão de gosto e uma questão de: eu quero dedicar a minha carreira e quero prosseguir uma carreira neste sentido. Muitos dos meus ex-alunos não se sentem realizados nesta procura constante de ter bolsas e de ter grants e querem fazer a sua realização profissional-
Por outra via.
Por outras vias.
João Marques, a Carmo Fonseca agora tocou num ponto que é importante. Há um pouco a ideia que um investigador científico está a fazer trabalho de bancada, atrás do microscópio, está a olhar para uma série de moléculas e células. Ora, boa parte do trabalho de um investigador, e no caso de um investigador principal ainda mais, é feito atrás de um computador a fazer candidaturas. Isso é algo para que vos preparam? Faz parte, é normal, mas é algo para que vos preparam quando saem da faculdade?
Não, especialmente em Portugal. Por exemplo, eu acho que a skill mais importante em ciência é saber escrever. Acho que, por exemplo, noutros países as pessoas aprendem melhor a escrever na faculdade. Eu senti isto especialmente porque temos que escrever em inglês para escrever as nossas grants, para escrever os nossos papers. É no fundo, quase a nossa voz, a maneira como nós conseguimos financiamento, a maneira como o nosso trabalho é conhecido. E dessa maneira, se uma pessoa consegue escrever bem, tem sempre uma pequena vantagem em relação aos outros e é uma coisa que se tem que aprender. E é muito mais importante conforme a pessoa vai progredindo na carreira. Se calhar no início não é tão importante. Um cientista faz mais experiências e por aí fora, e depois escreve a sua tese, aprende a escrever melhor, escreve os seus papers, mas depois, quando nós precisamos de adquirir o financiamento, temos que escrever muitas grants, porque é relativamente raro conseguir Portanto, é preciso tentar várias vezes.
São muitos candidatos para-
Para pouco financiamento. Mas se houvesse mais dinheiro, havia mais ciência, também havia muitos candidatos.
Havia mais candidatos.
Que é basicamente o que a Carmo está a dizer.
Carmo Fonseca, esta preparação dos jovens investigadores para redigir uma candidatura é um ponto muito importante. Não é só orientar o trabalho no laboratório, é também orientar o trabalho na preparação dessas candidaturas pro financiamento.
Sem dúvida. E ao contrário de planear as próximas etapas da carreira, preparar as pessoas mais novas para saber apresentar uma boa candidatura, eu acho que é fundamental, porque é isso que vai permitir o desenvolvimento autônomo dessa pessoa.
Falando agora um pouco, Carmo Fonseca, daquilo que motivou uma conversa que tivemos há cerca de dois anos, e voltamos a falar de um grant, neste caso, uma candidatura que apresentou à Fundação la Caixa para, na altura, a investigação de uma nova forma de tratamento, que na verdade não existe, pra cardiomiopatia hipertrófica. Como é que está esse projeto?
Ok. Deixe-me primeiro pôr em contexto, porque eu durante toda a minha vida científica ou a partir do meu pós-doc, eu comecei a investigar as moléculas de RNA. E o João trabalha em movimentos de organismos do peixe zebra, eu sempre trabalhei nos movimentos das moléculas de RNA dentro da célula. Como é que elas iam a partir do sítio onde são feitas, atravessam os poros nucleares e vão pro citoplasma. E portanto, isto era um trabalho muito fundamental. Só que mais recentemente, eu comecei a ficar fascinada ao perceber que algumas doenças são provocadas por erros neste movimento. E uma das doenças que era uma grande candidata a ter estes problemas era esta doença, que tem este nome complicado de dizer.
Este palavrão que estou me engasgar.
Que se chama cardiomiopatia hipertrófica. E eu fui estudar esta doença, não porque tivesse um interesse em cardiologia, que não tenho, mas sim porque pensei que era um bom modelo para eu agora mostrar como o movimento das moléculas é importante para causar uma doença e pode ser, sabendo onde é que esse movimento está perturbado, encontrar uma solução pra correção.
De um tratamento. Se falamos em cardiomiopatia hipertrófica, e agora consegui dizer sem me engasgar, será naturalmente um palavrão para boa parte dos nossos ouvintes, e pra mim é também, mas se falarmos em morte súbita, já não. Porque esta é uma das causas de-
É uma das causas mais frequentes de morte súbita, sobretudo em atletas jovens. Todos nós sabemos que de vez em quando, em jogos de futebol ou noutras provas desportivas, de repente uma pessoa, o atleta cai com uma paragem cardiorrespiratória e se não for imediatamente socorrido, pode morrer mesmo.
Em muitos casos, pode-se tratar de uma cardiomiopatia hipertrófica?
Em muitos casos. Não quer dizer que sejam todos, porque há outras doenças que levam também a estas paragens súbitas do coração, mas a cardiomiopatia hipertrófica é uma das mais frequentes.
A investigação que a Carmo Fonseca faz é a investigação fundamental, certo? Que pode ter um resultado prático, e eu sei que os investigadores reviram os olhos quando se fala em resultado prático. Tudo é um resultado prático e tudo naturalmente se aproveita, mas estamos a falar de ciência que pode ter milhares de utilizações perante os caminhos que a ciência tem e a experiência tem. João Marques, no seu caso, a ciência fundamental e olhar para uma experiência e olhar para as portas que se fecham e para as outras muitas que se podem abrir, seja para responder à pergunta inicial do seu projeto ou outra qualquer, é algo que o fascinou também?
Sim, na minha carreira sempre fiz ciência fundamental e eu acho que é extremamente importante porque primeiro cria conhecimento e os problemas do futuro nós nem sequer sabemos quais é que eles são. Portanto, se nós conhecermos melhor o mundo, como é que a natureza funciona, podemos resolver problemas que nós nem sequer sabemos que eles existem. E se formos ver inúmeros exemplos de avanços científicos que efetivamente mudaram o mundo, muitos deles foram criados por ciência fundamental, que as pessoas não sabiam qual é que era a aplicação. E depois mais tarde, como era uma coisa tão fundamental, algo que efetivamente era tão importante da natureza, que efetivamente tinha imensas aplicações. E o exemplo da Carmo é um desses. Ela estava a estudar uma coisa altamente fundamental, como é que a célula funciona, e agora encontrou uma maneira que efetivamente pode curar pessoas, e se calhar, muitas outras doenças pra além desta.
E o exemplo que se calhar as pessoas conhecem mais e que se midiatizou muito nos últimos anos, naturalmente.
A vacina de RNA.
A vacina de RNA mensageira.
E agora as vacinas de RNA pro câncer, que estão aí a vir.
E tudo isso, no fundo, começaram a ser desenvolvidos há muitos anos, mas quando uma pandemia aterrou em cima de nós, foi possível rapidamente encontrar ali soluções, não que tivessem sido encontradas naquele momento, mas que já estavam a trabalhar há muito tempo. Carmo Fonseca, os jovens investigadores acabados de sair de uma licenciatura têm mais fascínio por ciência fundamental, têm mais fascínio pela aplicação, por coisas translacionais que querem imediatamente aplicar, ou encontra-se de tudo num jovem investigador?
Encontra-se tudo, mas eu gostava de terminar a nossa Conversa anterior sobre o projeto La Caixa.
Claro que sim. Vamos a isso.
Porque no nosso projeto La Caixa, nós estávamos a propor estudar esta doença exatamente como um modelo para ver a perturbação do movimento das moléculas de RNA. E agora que o projeto terminou, nós encontramos essas alterações e encontramos, mostramos uma maneira de as corrigir. Portanto, passamos da investigação fundamental a uma proposta de tratamento para estas pessoas. Claro que agora é preciso arranjar uma maneira de levar este tratamento à prática clínica, mas o princípio nós conseguimos demonstrá-lo. Portanto, conseguimos atingir os objetivos.
Com esses objetivos que foram atingidos e quando fala de, na fase seguinte, levá-lo à prática clínica, já estamos a falar em experiências em modelos animais?
O passo seguinte vão ser experiências em modelos animais, mas o problema de tratar o coração, de desenvolver novos tratamentos para o coração, tem um aspecto difícil, porque o modelo animal mais utilizado é o ratinho. Só que a fisiologia do coração do ratinho é muito diferente do coração humano e, portanto, as mutações, especificamente a mutação que nós estivemos a estudar, não se verifica e não tem influência no ratinho. Portanto, vão ser necessários modelos mais complexos, nomeadamente porcos. E nós já estamos agora a fazer uma candidatura a um projeto europeu, exatamente com especialistas que têm esses modelos, para nós tentarmos agora que outros progridam com as experiências que nós fizemos em células. Nós fizemos em células humanas e agora vai ser preciso que outros usem modelos.
Carmo Fonseca, eu há pouco perguntei-lhe a idade. Lembre-nos, por favor.
65.
Uma das coisas boas que dizia antes de começarmos a gravar, de estar atualmente no Gulbenkian Institute for Molecular Medicine, é que deixa de ter aquela restrição que os institutos públicos e que os órgãos públicos, que a universidade tem, de chegar a uma idade em que naturalmente tem que se jubilar. Isto para um investigador que gosta muito de fazer ciência, será naturalmente uma grande alegria, porque pode continuar a fazê-lo. Se tudo correr bem, dentro de alguns anos, antes dos 75 da Carmo Fonseca, poderemos ter boas notícias para partilhar com quem sofre de cardiomiopatia hipertrófica?
Em termos pessoais, e quando eu falo com colegas mais velhos, o que eu constato é que outra vez há uma enorme diversidade. Há cientistas que se querem reformar e há cientistas que nem sequer ponderam a hipótese de reformar. E isto é de tal maneira forte que eu conheço vários cientistas que na Europa, e por toda a Europa, quando se é um professor, quando se está numa universidade, existe a idade limite. E vários emigraram para os Estados Unidos, porque nos Estados Unidos não existe. E eles mudaram as suas famílias aos 60 e muitos anos.
Para poderem fazer isso.
Para poderem continuar a fazer ciência. Portanto, isto é uma decisão extremamente pessoal. O meu grande objetivo neste momento não é levar a cura da cardiomiopatia, já lhe vou explicar como é que eu penso que esse projeto pode evoluir. O meu grande objetivo é manter-me competitiva, porque também não me interessa ficar ad eternum num lugar quando já não estou a produzir boa ciência. E portanto, para mim é muito importante continuar a ser avaliada, continuar a submeter candidaturas, e se as candidaturas forem aprovadas, então isso quer dizer que eu ainda estou apta para continuar a fazer ciência.
E competitiva. Já volto a si para falarmos exatamente o que é que pode vir de respostas para a cardiomiopatia hipertrófica. João Marques, esta questão de um investigador, e o João é mais novo que a Carmo Fonseca, mas nestas conversas ala prática queremos justamente esta partilha de experiências. Quando pensa na investigação que pode fazer dentro de 10, 20 anos, vê-se em Portugal, vê-se no estrangeiro, vê-se a continuar a trabalhar na mesma área em que está a trabalhar agora? Como é que alguém da sua idade e com sua experiência olha para o futuro?
Bem, eu gostava muito de ficar cá em Portugal, obviamente, porque é a minha terra e também já emigrei duas vezes e gostava de cá ficar. Mas para ser honesto, acho que muito provavelmente vou emigrar. Só porque, para as pessoas perceberem lá em casa, a ciência é algo que é internacional. Portanto, uma pessoa pode fazer ciência aqui, nós fazemos coisas altamente específicas, mas escolhemos quase sempre o sítio mais indicado para nós fazermos a ciência.
E com os meios e com os orientadores.
Exatamente, com os meios, com os orientadores, com os institutos. E como eu sou mais novo, ainda estou nesta fase de definir um pouco o meu caminho. Realmente, se eu tiver uma oportunidade melhor do que tenho agora para fazer os projetos que eu quero fazer, se isto for no estrangeiro, provavelmente vou emigrar. Portanto, nem é tanto uma coisa de aqui ser impossível, era se calhar porque eu teria que mudar a minha investigação se ficasse cá a continuar. Por exemplo, se calhar tinha que fazer algo mais translacional ou sem sair neurociências. Mas também já sei mais ou menos o que eu quero estudar, os projetos que eu quero fazer, portanto, também não quero sacrificar totalmente isso.
E isso quando se chega a uma altura da vida, para um investigador, em que é preciso tomar essa decisão, em que se pensa: "Bem, se eu quero continuar a investigar isto, não posso fazê-lo cá". Essa decisão, eu não lhe vou perguntar se é fácil, porque naturalmente não é, mas é uma decisão que sai com naturalidade em nome da ciência que se quer fazer?
Quando eu tomei esta decisão, não tinha família, portanto, foi mais ou menos fácil. Se uma pessoa for sozinha, é muito fácil, mas a partir do momento que temos uma família, que temos filhos, é muito mais difícil. Porque depois temos que pensar: "Como é que as crianças se vão adaptar a este novo país? Têm que aprender uma nova língua". É uma logística completamente diferente. Mas cada pessoa tem que tomar a sua decisão e conheço pessoas que deixaram de fazer ciência por causa deste tipo de decisões. Porque o seu parceiro estava cá e não podia emigrar e eles já não encontraram cá o local para fazer a ciência que eles queriam, podiam ter ido para fora, decidiram ficar cá, mudaram de profissão. É um pouco inevitável este dilema.
São dilemas com que naturalmente se encontram para realizar a ciência. Carmo Fonseca, estamos muito para lá até do nosso tempo, mas não queria deixar de lhe perguntar: o que é que se pode esperar de respostas para a morte súbita em jovens atletas causada por cardiomiopatia hipertrófica? O que é que se pode vir a descobrir dentro de alguns anos?
Primeiro, durante este período, já tinha sido descoberta, não do nosso trabalho, mas de um trabalho de vários grupos nos Estados Unidos. Eles tinham descoberto uma pequena molécula, que é um fármaco, que se pode tomar oralmente e ao longo destes últimos anos em que nós estávamos a trabalhar, esse fármaco passou por vários ensaios clínicos e neste momento é absolutamente revolucionário para o tratamento destas pessoas.
Como é que se chama essa molécula?
Chama-se mavacamta. Hoje, ao contrário de há uns anos atrás, quando nós começámos o projeto, que não havia nenhum tipo de tratamento, hoje já há um tratamento. Isto não retira interesse à terapia que nós desenvolvemos, porque é complementar e a nossa terapia pode evitar que a doença se desenvolva se começar a ser administrada cedo. O que é que nós gostaríamos de assistir nos próximos cinco ou 10 anos? Gostaríamos muito de entrar em colaboração com outros grupos que se dedicam mais à translação, porque nós somos investigadores básicos, trabalhamos com moléculas, com células, mas depois quando for necessário fazer ensaios com modelos animais, terão que ser outro tipo de especialistas. E eu gostava muito que a terapia que nós desenvolvemos pudesse chegar um dia pelo menos a um ensaio pré-clínico.
Carmo Fonseca, João Marques, quero agradecer a vossa disponibilidade para virem a esta aula prática do projeto Mentes Brilhantes. Eu sou o Paulo Farinha. Até à próxima.