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O podcast Mentes Brilhantes faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação La Caixa e o BPI. Tripanossomíase humana africana. O nome é difícil de pronunciar e não é fácil de descodificar, tal como Glossina ou moscas do gênero Glossina. Mas se falar em doença do sono ou mosca tsé-tsé, já não parece tão estranho. É este um dos focos do estudo de Luísa Figueiredo, coordenadora do Laboratório de Biologia do Parasitismo do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, em Lisboa. A investigadora, licenciada em Bioquímica pela Universidade do Porto e doutorada em Parasitologia pelo Instituto Pasteur, em Paris, procura há vários anos uma nova forma de combater uma infeção que, embora distante, afeta fortemente a economia e a qualidade de vida das populações da África Subsaariana. Eu sou o Paulo Farinha e este é o "Mentes Brilhantes". Olá, Luísa Figueiredo. Bem-vinda. Obrigado pela sua disponibilidade. A Luísa desenvolve investigação sobre o parasita da doença do sono. Ora, nem eu, nem a esmagadora maioria dos ouvintes da Rádio Observador entende muito de bioquímica ou parasitologia, mas quando ouvimos falar em doença do sono, pensamos em duas coisas. Pensamos na famosa mosca tsé-tsé, de que já toda a gente ouviu falar, e pensamos em realidades muito distantes que não nos afetam. A primeira coisa em que pensamos, presumo que seja verdade, da investigação que fiz e da pesquisa que fiz para me preparar para esta entrevista. A segunda, de ser uma realidade muito distante. Nem por isso. Este problema, embora distante fisicamente, pode ter um impacto na economia mundial e, por conseguinte, na nossa vida. Ou não é bem assim?
Olá, Paulo. Obrigada, antes de mais, pelo convite para estar aqui. É verdade. Eu estudo o parasita que causa uma doença que, por ser transmitida pela mosca tsé-tsé, e como a mosca tsé-tsé só existe na África Subsaariana, a doença do sono também só existe na África Subsaariana. E a doença do sono, na verdade, tem duas formas. Tem uma forma que é nos humanos, e aí na verdade é que se chama mesmo doença do sono, mas o parasita que provoca esta doença também pode afetar outro tipo de animais, como vacas, porcos, leões e zebras. Mas quando afeta gado, causa um impacto económico grande, porque impede que aquelas pessoas na África Subsaariana que têm uma quinta, ou exploram, são agricultores e que precisam desse gado para puxar uma carroça, ou para dar leite, ou para vender carne no talho, depois quando os animais ficam doentes, perdem esse investimento que fizeram. Este parasita, sendo um parasita que causa uma doença infecciosa, tem historicamente tido um enorme impacto negativo no desenvolvimento da África Subsaariana por impedir precisamente o desenvolvimento da agricultura, etc.
Desculpe interrompê-la. Quando falamos da vertente animal, falamos sobretudo da nagana, certo? É este o nome.
É isso.
Nos humanos é a doença do sono, nos animais é a nagana. A nagana, e reportando-me a um artigo que publicamos sobre o trabalho que a Luísa faz, a nagana empobrece África, e estou agora a citá-la a si, empobrece África até cerca de 4.5 mil milhões de dólares por ano, ou seja, qualquer coisa como 3,8 mil milhões de euros por ano. Isto é um impacto brutal na economia daqueles países.
Exato. Neste momento, com a conversão dólar-euro, se calhar o valor em euros até seria maior.
Agora é maior, exatamente.
Mas sim, é um impacto enorme.
E chegando agora ao trabalho que a Luísa Figueiredo desenvolve no Instituto de Medicina Molecular, o que está então a fazer em torno da investigação da, e agora é o momento em que eu vou gaguejar, da tripanossomíase.
Perfeito.
Tripanossomíase humana africana, ou THA. Em que é que consiste o trabalho que a Luísa Figueiredo e a sua equipa estão a desenvolver?
Nós basicamente tentamos perceber, ou melhor, o que nós estudamos é como é que o nosso corpo, tendo defesas que são teoricamente capazes de lidar com infeções e travar essas infeções e curar a pessoa, como é que o parasita consegue escapar a essas defesas. E na verdade, este parasita que causa a doença do sono não é o único a conseguir fazer isso. Nós sabemos que o SARS-CoV-2, por exemplo, também consegue escapar-se às nossas defesas.
Como é que consegue iludir o sistema imunitário, é isso?
É, como é que consegue iludir, exatamente. Esta é a grande pergunta. E depois, dentro desta grande pergunta, olhamos com diferentes ângulos. Temos diferentes tipos de projetos que vão desde perceber. Para estudar estes mecanismos, nós não podemos infectar pessoas. Não seria eticamente aceitável, mas utilizamos ratinhos para fazer infeções experimentais e depois estudamos o que está a acontecer no ratinho. E nós sabemos que, nesse contexto, por exemplo, nós descobrimos que o parasita se aloja na gordura do animal E nós achamos que o parasita preferir ir para esse tecido pode ser importante para o desenvolvimento da doença ou para a doença se tornar crônica, ou seja, demorar muitos anos. No caso dos humanos, as pessoas podem estar doentes durante vários anos sem sequer saber.
Assintomáticos.
Assintomáticos. Às vezes sintomáticos, mas não sabem bem o que é, depois torna-se assintomático. Nós achamos que o tecido adiposo, a gordura, pode servir como local para o parasita se esconder, mas isto também pode trazer implicações para o próprio animal, porque obviamente, ter demasiada gordura é mau, causa obesidade e todos os problemas associados, mas a gordura também é boa. E quando o parasita se aloja nesta gordura, ele vai comer, utilizar essa gordura como a sua fonte de nutrientes e depois causa um outro sintoma que é típico da doença do sono e da nagana, que é uma extrema magreza, chamada caquexia. Nós estamos a tentar perceber como é que isto acontece, como é que o parasita provoca isto, se conseguimos identificar formas de impedir que o parasita o faça. Tudo o que seja identificar formas de impedir que alguma coisa aconteça, será formas de tratar a doença ou tratar algum sintoma em específico.
No fundo, trata-se de impedir que uma vez o parasita chegado, e estamos a falar de um parasita que é transmitido, e falando agora novamente da mosca tsé-tsé, de um parasita que é transmitido pela mosca de várias espécies do gênero Glossina, não é verdade?
É isso. Correto.
Portanto, a ideia não é através de armadilhas, pode-se tentar capturar as moscas e que estas cheguem a transmitir o parasita. Mas o que se está a tentar desenvolver é uma forma de, uma vez o parasita chegado, seja ao corpo humano, seja ao corpo de um animal, evitar que ele a partir daí faça a sua progressão?
É isso, exato. No meu laboratório nós nem sequer temos moscas tsé-tsé aqui. A fase em que nós nos focamos é quando o parasita está no mamífero.
Quando já se deu o salto, já foi transmitido.
Exatamente. Mas há outros grupos, noutras partes do mundo, que têm as moscas tsé-tsé e fazem esse estudo, que estudam a transmissão. Nós não nos focamos nesse aspecto. Um aspecto é esse, o outro aspecto é perceber, aqui entra num lado um pouquinho mais da biologia molecular e dos genes, etc, que é perceber como é que o parasita se consegue adaptar a estar em diferentes condições. Os parasitas podem viver no sangue, podem viver na gordura, mesmo em cada um destes sítios, eles têm que constantemente estar a agir por forma a iludir o tal sistema imunitário que eu estava a falar há pouco. Isto implica mudar aquilo que eu costumo chamar os casacos com que o parasita se cobre, etc. Tudo isto é o próprio parasita que está internamente na sua maquinaria a definir que isto acontece de uma determinada maneira. E nós tentamos perceber como é que isto acontece.
E é isso que desenvolvem no laboratório de biologia do parasitismo do IMM, que é coordenado por si.
Sim, isso também. É tentar perceber como é que o parasita sabe que está num tecido ou está no outro, como é que se adapta para, dentro de cada um destes locais, digamos assim, do ratinho, iludir o sistema imune. E envolve estudos em que utilizamos tecnologias onde pegamos nos parasitas e mudamos um pouco, mudamos alguns genes. Fazemos aquilo que se chama engenharia genética. Nós conseguimos mudar um pouco, muito pequeno do parasita, tirando um gene ou colocando um outro, e isso permite-nos depois comparar uma situação em que temos o parasita normal e o parasita um pouquinho alterado. E vamos comparar, por exemplo, se estes dois parasitas são igualmente capazes de provocar a doença com os mesmos sintomas. Ou se, por exemplo, quando tiramos aquele gene no parasita, agora o parasita é menos virulento, causa menos doença. Quando isso acontece, ficamos muito satisfeitos, porque conseguimos identificar um gene dentro do parasita que é responsável por ele ser mau e por causar a doença. E depois vamos estudar que gene é este, o que ele faz, por que faz assim, por que não faz. Isso depois já envolve uma caracterização mais bioquímica, voltando aqui à sua palavra inicial, de perceber como é que este parasita funciona, qual é a função deste gene, para depois, idealmente, dizermos: "Ok, agora que percebemos bem, podemos identificar um fármaco que vai bloquear este gene ou que vai tornar o parasita menos virulento, menos eficaz, menos doença." Em termos gerais, é basicamente assim, a nossa estratégia experimental passa sempre por aí.
Luísa, e diga-me uma coisa. A investigação que estão a levar a cabo pode ser útil também para outros problemas de saúde, outras questões, outras urgências que temos, outras emergências que temos, para além da doença do sono?
Sim, um lado bom da biologia, da ciência em geral, é que nós somos extremamente focados numa determinada pergunta, mas muitas vezes aquilo que se aprende depois é aplicável em vários outros sistemas. Então, por exemplo, aquilo que nós descobrimos, que o parasita quando se aloja na gordura do animal, ele vai alimentar-se dessa gordura, fez-nos fazer experiências que agora demonstraram, isto ainda não está publicado, mas nós sabemos que o parasita, para aceder à gordura que está nesse tecido, tem que usar uma estratégia que envolve secretar, ou seja, libertar para fora do parasita umas moléculas e essas moléculas é que vão então estimular a libertação da gordura, que normalmente não se encontra livre, encontra-se dentro das nossas células da gordura, que são chamados os adipócitos. E, portanto, o que nós percebemos é que o parasita teve que libertar essas suas moléculas para que depois a gordura esteja então disponível para ele a comer. Ora, estas moléculas do parasita são, no fundo, moléculas, agora se nós ignorássemos que existia um parasita, ou se conseguirmos purificar estas moléculas sozinhas, estas moléculas em si são moléculas que terão capacidade de fazer com que um adipócito, que é muito grande, ou uma gordura que seja grande, torne-se mais pequena. Ora, isto é algo que tem muito interesse para aqueles grupos que estão a estudar obesidade e que tentam desenvolver formas para que as pessoas que sejam obesas percam peso, percam gordura do seu tecido adiposo.
Luísa Figueiredo, quero agradecer-lhe a sua disponibilidade para partilhar um pouco connosco parte do seu trabalho no combate à doença do sono. Desejo-lhe muitas felicidades. Não lhe vou perguntar novamente dentro de quanto tempo teremos novos dados, não vou voltar a fazer essa questão, mas seja quando for e seja para o combate à doença do sono, seja para as muitas outras utilizações que a vossa investigação possa ser utilizada, desejo-lhe muitas felicidades, boa sorte e uma vez mais, muito obrigado.
Obrigada eu, gostei muito.
No ano de 2020, Luísa Figueiredo foi uma das 25 pessoas selecionadas em todo o mundo, e apenas seis em Portugal, para financiamento da Fundação "La Caixa", ao abrigo do concurso Health Research. Os €500 mil que recebeu na altura poderão dar uma ajuda preciosa a combater a famosa doença do sono e contribuir assim para que dentro de uns anos a infeção seja finalmente uma coisa do passado. Eu sou o Paulo Farinha, este foi o "Mentes Brilhantes".
O podcast "Mentes Brilhantes" faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação "La Caixa" e o BPI.