Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O trauma psicológico, o estresse psicológico, tem efeitos biológicos no nosso cérebro. Portanto, mesmo que a pessoa não tivesse carga genética, que tem sempre, quando alguém é submetido a estresse psicológico muito intenso, muito duradouro, essa pessoa também vai desenvolver depressão.

Há muitos mitos associados à depressão, talvez porque é uma das doenças com maior expressão em Portugal. Um deles é este: a depressão é genética. De onde é que surgiu esta ideia?

A depressão não é das doenças mais comuns, é a doença mais comum. Ou seja, a depressão é não só a doença mental mais comum em todo o mundo, mesmo que as perturbações de ansiedade no seu conjunto sejam mais frequentes como doença sozinha, a depressão é mais frequente, e depois é uma doença altamente impactante. É, neste momento, no mundo, a doença que causa mais dias de vida doentes à população mundial, é a principal causa de incapacidade pra o trabalho no mundo ocidentalizado. Portanto, a depressão, de fato, está nas nossas conversas do dia a dia porque ela é altamente frequente e ela é altamente impactante. A ideia de que a doença é genética tem uma componente de verdade, embora não seja completamente assim, ou seja, nem toda a depressão é causada por doença genética. Eu acho que esta ideia que se transmitiu de que a doença era uma doença meramente genética, tendeu a contrabalançar a ideia prévia de que a depressão era uma coisa meramente psicológica resultante dos acontecimentos. Ou seja, durante muito tempo achou-se que, e aliás, a isso está associado outros mitos como: a pessoa que tem depressão é uma pessoa fraca da cabeça, a pessoa que tem depressão é porque não soube reagir aos acontecimentos, a pessoa que tem depressão é porque não tem mais nada que fazer e, portanto, tem tempo pra pensar nos problemas e por isso é que deprime, porque no meu tempo trabalhava-se tanto que nem havia tempo a ter depressão. Isto era uma visão que se tinha da depressão, de que depressão decorre de acontecimentos de vida.

Ainda se tem um bocadinho.

Infelizmente, ainda se tem um bocadinho. E, portanto, quem sabe lidar com os acontecimentos de vida, está saudável. Quem não sabe, fica com depressão. Isto é mentira, isto é errado. E isto é errado por vários motivos. Um deles é porque, de fato, há uma parte da depressão que tem um componente genético. Como é que se percebeu isto? Porque vários estudos populacionais mostram que as pessoas que têm familiares em primeiro grau com depressão diagnosticada, têm um risco muito maior de desenvolver elas próprias depressão. E depois, claro, que quando há uma agregação familiar de uma determinada doença, vai se fazer mais estudos, nomeadamente estudos genéticos, pra perceber se há aqui uma base genética ou não. E verificou-se que sim. Mas ao contrário do que acontece noutras doenças, como por exemplo, doenças neurológicas ou outras doenças em que uma determinada mutação específica dá origem à doença, na depressão não é assim. O que existem é múltiplos genes no nosso genoma, que todos eles em conjunto podem aumentar o risco de ter uma depressão. Isto quer dizer que não há um único gene que causa depressão. Não é assim: "eu herdei o gene da depressão e por isso tenho depressão". É: eu tenho um conjunto de genes no meu pool genético, no meu genoma, que no seu conjunto aumenta mais o risco de eu ter depressão, de eu desenvolver depressão. Só que depois entram aqui outros fenômenos, que são os fenômenos epigenéticos. Ou seja, duas pessoas podem ter a mesma carga genética pra depressão, mas uma tem determinados acontecimentos de vida que levam a que esses genes se expressem mais, se expressem de outra maneira. E, portanto, o que nós podemos dizer, de uma maneira muito geral, é que a depressão é 50% genética, 50% ambiental. Mas esse ambiental é obviamente influenciado pela genética e a genética influencia aquilo que se faz na reação ambiental. Portanto, na verdade, isto é muito difícil de distinguir do ponto de vista das causas, mas elas colaboram pra que a depressão surja.

Por isso é que um médico, quando tem à frente um paciente que pode ter depressão, precisa também de saber a história da família.

Claro. Uma das perguntas fundamentais numa primeira consulta de psiquiatria é: há história familiar de doença mental ou não? Não só porque ter depressão na família aumenta o risco de ter depressão também no doente que está a ser avaliado, mas como há várias doenças psiquiátricas que têm alguma sobreposição genética entre si. Ou seja, por exemplo, doentes na família com esquizofrenia podem ter maior risco de ter doença bipolar. Pessoas com doença bipolar podem ter maior risco de ter depressão, não necessariamente uma doença transformada na mesma doença na geração seguinte. Por que que isto acontece? Porque como eu expliquei, estamos a falar de múltiplos genes, não estamos a falar de um gene único. E o que acontece é que diferentes genes têm pequenos efeitos. Cada gene em particular tem mais efeito numa pessoa do que noutra. E, portanto, este conjunto de genes mais ou menos expressos, depois em relação com os fatores epigenéticos, fazem com que a pessoa tenha mais probabilidade de ter uma doença ou outra. Mas também é importante perceber que aqui os fatores epigenéticos são ainda mais importantes na infância e por isso é relevante, porque é quando o cérebro é mais plástico e é quando a expressão genética é mais determinada. Tudo aquilo que se passa na infância, nomeadamente negligência infantil, maus-tratos, abandono e outras adversidades graves, vão ter um impacto epigenético muito grande, aumentando muito o risco daquele pool genético, daquela carga genética, se transformar com mais probabilidade numa doença com significado clínico.

E há também uma carga de conforto na ideia de que a depressão pode ser genética? É mais fácil para mim aceitar que há um fator genético, quase que físico, pra aquilo que eu estou a sentir e menos uma coisa que está relacionada com a forma como eu lido com determinadas coisas, associando aos traumas.

Sim, eu acho que isso pode ajudar. E na realidade é verdade. Portanto, as pessoas podem, de fato, ligar-se a isso. O que não impede ou o que não nos deve eliminar a ideia de que as pessoas também devem fazer a sua intervenção psicoterapêutica para moldar a forma como lidam com os acontecimentos. Porque, de fato, embora também seja verdade que, eu introduziria aqui outro tema, que seria o tema da personalidade. Traços da personalidade fazem com que nós lidemos com os acontecimentos de uma forma ou de outra. Neuroticismo, por exemplo, é um traço da personalidade que aumenta muito o risco de ter depressão. Neuroticismo é aquela tendência para ficar demasiado preocupado: o que é que vai acontecer? Será que isto vai ter uma consequência negativa? O que é que vai ser? Este traço da personalidade sabe-se que tem uma elevada componente genética e, portanto, a pessoa também herda, de certa maneira, os seus traços de personalidade. Agora, isso é desculpabilizador, não há dúvida nenhuma, porque as pessoas não têm culpa de ter certos traços de personalidade e de lidarem mal com os acontecimentos, de lidarem com mais sofrimento, mas deve alertá-las pro seguinte: ok, as pessoas não têm culpa de estar doentes e devem fazer os seus tratamentos. Mas sabemos também que no que se refere aos traços de personalidade, eles podem ser mitigados através de intervenções psicoterapêuticas. E, portanto, nós temos é que olhar pra doença, pra depressão em particular, como uma doença multicausal, que tem sem dúvida uma componente genética importante, que tem uma componente ambiental e que tem uma componente relacionada com a personalidade. Quando a pessoa tem doença, tem que se tratar e depois deve fazer intervenções psicoterapêuticas pra moldar esta forma de lidar com os acontecimentos, de forma a prevenir a possibilidade de ter episódios futuros.

Obrigada.

Obrigado.

O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine. Conta ainda com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.