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Claro que quando uma pessoa tem um primeiro ataque de pânico, vai ao médico. E é importante que faça um eletrocardiograma pra perceber se não teve um enfarte, efetivamente. Porque de fato, alguns sintomas são semelhantes, mas depois a evolução é completamente diferente.

Quem já teve um ataque de pânico, costuma descrever o momento com a percepção clara da iminência da morte, as pessoas sentirem que vão morrer. Mas há quem diga que é possível que isso aconteça. É?

A pergunta é relevante, porque de fato, há muita gente a ter ataques de pânico e, portanto, convém desmistificar se a pessoa pode ou não morrer durante um ataque de pânico. Mas antes disso, eu acho que era importante explicar o que é, de fato, um ataque de pânico, porque muitas vezes chegam pessoas à consulta e dizem assim: "Ah, porque eu comecei a ter ataques de pânico". E eu muitas vezes pergunto: "Mas o que é que começou a acontecer?" E não são nada ataques de pânico. Portanto, a primeira coisa que temos que perceber é: o que é um ataque de pânico? É uma crise de ansiedade muito intensa. É o tipo de ansiedade mais intensa que se pode ter, é um pico de ansiedade, que é muito rápido a instalar-se e que também é relativamente rápido a desaparecer. E, portanto, no máximo, vai durar 15 a 20 minutos e depois disso extingue-se. Portanto, aquelas pessoas que sentem que estão durante uma hora a ter um ataque de pânico, isso não é verdade. Isso é uma crise de ansiedade ou é um tipo de ansiedade, mas não é um ataque de pânico. No ataque de pânico, que é a ansiedade mais intensa que se pode ter, há sintomas físicos e psicológicos. Os sintomas psicológicos são: alerta máximo, sensação de morte iminente ou de perda de controle/enlouquecimento. Portanto, não tem que haver a morte iminente, embora a maior parte das vezes haja uma sensação de morte iminente, mas em alternativa, pode haver uma sensação de que se vai perder o controle ou de que se vai enlouquecer naquele momento. E alerta máximo, e depois associado a uma série de alterações físicas. E é aí nas alterações físicas que as pessoas têm o principal medo, porque o que acontece? Aumento da frequência cardíaca, o coração começa a bater muito depressa e de forma muito intensa. A pessoa sente o coração a bater, parece que vai sair pela boca. Aumento da frequência respiratória. Também mãos frias, suores frios nas mãos. E, eventualmente, até alterações da sensibilidade, porque quando a pessoa começa a respirar muito depressa, altera-se as dinâmicas entre o oxigênio e o dióxido de carbono no nosso sangue e acontece uma coisa que se chamam as parestesias, que é: começa a ficar com as mãos dormentes, com as pernas dormentes. E o que acontece? As pessoas pensam, e como há mais literacia sobre saúde cardiológica do que sobre saúde mental, as pessoas pensam: dor no peito, palpitações, coração a bater muito, dormência na mão, estou a ter um enfarte. É isto que as pessoas normalmente associam ao ataque de pânico.

É, de fato, o mais comum. Este mito diz é que é como se invertesse. Um enfarte provoca esses sintomas, é como se esses sintomas pudessem levar a um enfarte.

Muito bem. E então, a resposta é: um ataque de pânico, de regra geral, não pode matar, não é potencialmente fatal, a não ser que as pessoas tenham uma suscetibilidade biológica cardíaca tão grande, que o fato de aumentar muito a frequência cardíaca, leve a uma desregulação da função cardíaca com enfarte. Ou seja, as pessoas não têm um enfarte por terem um ataque de pânico. As pessoas têm um enfarte porque têm as coronárias, que são as artérias que alimentam o músculo cardíaco, entupidas, porque tinham a pressão arterial alta, porque tinham um coração já a funcionar menos bem e quando têm um ataque de pânico, neste contexto, podem ter um pico de tensão arterial, um pico de frequência cardíaca, que puxa mais pelo coração e isso leva ao enfarte. Mas o enfarte não aconteceu por causa do ataque de pânico. O ataque de pânico foi apenas um pequeno desencadeante. E além disso, a grande maioria das pessoas que tem ataque de pânico, não tem nenhuma consequência nefasta sobre a sua saúde física, portanto, não vai morrer por causa disso. Acho que a resposta segura de se dar é: um ataque de pânico não mata as pessoas. O que potencialmente mata as pessoas são outras consequências, em que o estresse psicológico agudo possa ser um desencadeante, mas isso é a minoria dos casos. É importante também dizer que ataque de pânico é uma coisa e perturbação de pânico é outra, porque as pessoas, por vezes, também confundem. Ter um ataque de pânico, embora não seja normal, é um tipo de ansiedade patológica, é uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Ou seja, qualquer pessoa submetida a um estresse suficientemente intenso num período da sua vida, pode desencadear um ataque de pânico.

Sem isso estar associado a uma patologia.

Isso mesmo. As pessoas podem ter ataques de pânico quando são normais, quando são saudáveis, só que naquele momento têm um estresse tão intenso, estão tão assoberbadas, etc., que há ali uma resposta fisiológica, o que nos levaria, aliás, podíamos falar sobre isso. Ficará pra outra ocasião, provavelmente, mas a ansiedade existe na espécie humana porque ela evolutivamente foi vantajosa. Ou seja, as pessoas têm ansiedade porque perante o perigo, tinham frequência respiratória aumentada, frequência cardíaca aumentada, pra os músculos ficarem cheios de sangue e de oxigênio pra fugirem dos predadores e pra fugirem dos perigos. Ora bem, isto o que é que transporta pra idade atual, pra era atual? As pessoas perante o estresse psicológico, muito estresse à sua volta, podem desencadear essa resposta fisiológica, que é intensa, mas que parece ser desproporcionada, porque eu não tenho que fugir, supostamente, de nenhum predador, mas tenho muito estresse psicológico. Portanto, pode haver ataque de pânico, mesmo sem doença mental. Agora, claro que ter doença mental aumenta a probabilidade de ataque de pânico. Ou seja, quem tenha perturbação de ansiedade ou perturbação depressiva, tem mais provavelmente ataques de pânico. E depois há uma doença em específico que se chama perturbação de pânico. Na perturbação de pânico, os ataques de pânico passam a ser recorrentes e passam a estar a ser desencadeados sem um fator de estresse aparente. Ou seja, enquanto que naquela circunstância em que as pessoas estão saudáveis e perante muito estresse, desencadeiam um ataque de pânico. Na perturbação de pânico, os ataques de pânico passam a ser espontâneos, sem desencadeante aparente, em circunstâncias, que podem ser circunstâncias onde já tenha havido ansiedade ou circunstâncias onde nunca aconteceu nada de especial. E depois as pessoas começam a evitar circunstâncias para não terem ataques de pânico. E é aí que aparece a perturbação de pânico.

Aparecem muito rapidamente, mas dizia que também desaparecem muito rapidamente. Eu imagino que seja difícil parar para pensar no momento em que se sente que se vai morrer. Mas há alguma estratégia para tentar resistir a um ataque de pânico e fazê-lo parar o mais rapidamente possível?

Sem cair nesta tentação de dar dicas fáceis e úteis em 30 segundos para controlar uma doença mental, que eu não quero cair nisso, a minha resposta imediata é procurar psicoterapia. Portanto, as pessoas que têm ataques de pânico recorrentes devem fazer psicoterapia, porque podem aprender a lidar com essa ansiedade extrema e podem desenvolver estratégias cognitivo-comportamentais para-

Adaptada a elas.

Isso mesmo. E o que é que tipicamente se faz? É perceber quais são os primeiros sintomas, porque normalmente o que acontece é que nós começamos a ter pequenos sintomas de ansiedade que o nosso cérebro reconhece como ameaçadores e a partir daí dispara a resposta de ataque de pânico. Portanto, é aprender a reconhecer os primeiros sinais de ansiedade e conseguir cognitivamente desviar o pensamento e pensar assim: "Não, isto é uma sensação normal, eu consigo lidar com isto, isto é uma sensação que vai passar". Portanto, no fundo, aqui, impedir que o ataque de pânico se desencadeie. Se o ataque de pânico já se tiver iniciado, pode haver também, e há, estratégias cognitivo-comportamentais para lidar com isso, na tentativa de pensar: "Isto vai passar, eu já passei por isto antes, portanto eu vou esperar, sentar-me e aguardar que passe, porque isto eventualmente vai passar". Uma dica muito fácil de pôr em prática é que quando se está a ter um ataque de pânico, e isto é uma coisa que se vê muito nos filmes, mas é verdade, respirar para um saco, de preferência de papel, porque o plástico pode enfiar-se na boca e é perigoso, para um saco de papel, vai permitir que haja o tal reequilíbrio dos gases CO₂ oxigénio e diminui a frequência cardíaca, diminui a frequência respiratória e facilita o retorno ao estado basal. Mas de qualquer forma, o mais importante, se estivermos a ter ataques de pânico recorrentes, é começar a fazer psicoterapia e eventualmente pode ser necessária medicação. Primeiro, porque ter um ataque de pânico é uma coisa que causa muito sofrimento. E eu quero que as pessoas que me estão a ouvir percebam que eu não estou a contar que elas vão aprender a lidar com o estresse e pronto. Não é isso que eu quero. Porque quando as pessoas estão a ter muitos ataques de pânico, eles são recorrentes, eles são muito intensos, eles causam muito sofrimento. Portanto, primeiro, pode ser necessário medicar de imediato com um ansiolítico para resolver aquele sofrimento imediato. Pode ser necessário fazer uma medicação antidepressiva para prevenir a recorrência de ataques de pânico. E então fazer a psicoterapia para mais tarde poder tirar toda esta medicação e seguir a vida em frente.

Obrigada.

Obrigado eu.

O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine. Conta ainda com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.