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Não associamos, por exemplo, à depressão.

Sim, é precisamente.

À esquizofrenia.

Sim. Mas é curioso que a depressão é a principal indicação pra eletroconvulsivoterapia. Embora nós não associemos, é onde há mais evidência. Por quê? Porque é realmente extremamente eficaz.

Não é difícil perceber, acho eu, porque é que alguém olhou para uma terapia que implica dar choques elétricos a uma pessoa e pensou: "Isto não devia acontecer".

Eu percebo que a pergunta seja colocada assim, mas eu acho que se calhar pra nós percebermos por que esta terapia existe, devíamos ir às fundações pra perceber como é que ela surgiu. Primeiro, é importante perceber que esta terapia remonta aos anos 20 do século XX, portanto, há mais de 100 anos atrás, que começaram essas experiências. O que se verificou originalmente? Houve um cientista cujo nome é Ladislaus von Meduna, que de fato tem todo o nome de um médico que tortura pessoas, mas era um psiquiatra neurofisiologista, neurologista húngaro, que começou a verificar em cérebros pós-mórtem, ou seja, quando se analisava os cérebros de pessoas que tinham morrido, que pessoas que tinham esquizofrenia não tinham um determinado tipo de células em grande quantidade no cérebro, que são as chamadas células da glia, que é um dos tipos de células, porque o cérebro não tem só neurônios, tem vários tipos de células de suporte, e verificava-se que os cérebros das pessoas com esquizofrenia tinham poucas células de glia, e as pessoas com epilepsia tinham muitas células da glia. E isto levou a considerar a hipótese de, se calhar, ter crises convulsivas, ter crises epilépticas, ajuda a tratar a esquizofrenia e a psicose. E de fato, clinicamente, também se verificava, ou ele verificava, que algumas das pessoas que tinham crises epilépticas tinham menos sintomas psicóticos, uma evolução menos negativa de uma psicose, de uma esquizofrenia, por exemplo.

Então, a ideia era fabricar artificialmente crises epilépticas nas pessoas para gerar essas células que elas não tinham?

Sim, essa era a ideia original. Portanto, o que ele pensou foi: "Como é que eu vou pôr as pessoas a ter crises convulsivas, mesmo que elas não sejam epilépticas?" E então, como é que ele fez isso? Primeira tentativa foi uma tentativa farmacológica, ou seja, vamos dar medicamentos a estas pessoas, em quantidades grandes, para que elas convulsivem, para que elas tenham uma convulsão. E uma das substâncias que foi mais utilizada por este von Meduna, foi uma substância que ainda hoje é muito utilizada até em cremes e outras coisas, que é a cânfora. Portanto, o que ele fazia? Ele injetava doses altas de cânfora, que é derivada de uma planta, e doses altas de cânfora levavam as pessoas a convulsivar. E rapidamente ele percebeu que, de fato, em alguns grupos doentes, quando os doentes psicóticos convulsivavam, depois de ser administrada a cânfora, eles tinham uma melhoria da sua psicose. Portanto, aqui começou a haver esta relação e estas notícias espalharam-se pela Europa e pelo mundo. E o que aconteceu? Cerca de 10 anos depois, nos anos 30, do século XX, dois médicos italianos, Cerletti e Bini, pensaram numa forma alternativa de produzir convulsões nas pessoas.

Que não com essa planta.

Que não com essa planta ou com outros fármacos, porque outros fármacos foram tentados. E por quê? Porque os fármacos, quando são dados em doses suficientemente altas pra produzir convulsões, têm uma série de outros efeitos adversos. Portanto, estava-se a tratar por um lado e a obter efeitos adversos por outro. Portanto, qual foi a forma alternativa que eles pensaram? Induzir diretamente um estímulo elétrico no cérebro da pessoa, de forma a que esse cérebro convulsivasse. E foi assim que nasceu a eletroconvulsivoterapia. Designada depois, daí em diante, de várias formas diferentes. Terapia por eletrochoques, eletroconvulsivoterapia ou, como nós utilizamos hoje em dia, esta designação ECT, que é uma sigla para eletroconvulsivoterapia.

Mas era doloroso pros pacientes?

Essa pergunta é muito relevante porque, de fato, nós não podemos ignorar que, hoje em dia, e no fundo, pra responder à sua pergunta inicial, há um bocado a imagem que este tratamento é um tratamento quase de tortura ou de castigo. Isto também foi muito alimentado pelos media. Uma das principais referências culturais que faz um retrato da eletroconvulsivoterapia é o "Voando Sobre um Ninho de Cucos", em que a personagem do Jack Nicholson era um doente psiquiátrico internado e as cenas em que ele é submetido a eletrochoques são de uma grande violência. Ele está amarrado à cama, sofre dor, não tem anestesia, portanto, o tratamento é retratado como um tratamento de tortura. E é importante perceber o seguinte: este filme é de 1975, mas retrata uma época que é de 1950. De fato, nos anos em que este tratamento depois se expandiu grandemente e começou a ser muito utilizado, ele não era aquilo que é hoje em dia. E de fato, embora em muitos casos não fosse utilizado para tortura, temos que reconhecer que a sua utilização nos anos 50, 70, foi levada longe demais. E foi utilizada muitas vezes para controlar alguns comportamentos mais disruptivos ou mesmo como castigo. Não necessariamente como tortura, mas como castigo, o que é obviamente uma coisa errada e nem faz muito grande sentido, porque os efeitos biológicos do tratamento não se verificariam aí, em pessoas sem doença mental. E portanto, esse retrato é fidedigno de uma época mais antiga e reproduziu o quê? Doentes ou pessoas não doentes em que era administrado o eletrochoque sem anestesia, sem monitorização, sem controle das consequências potencialmente negativas, nomeadamente sem relaxação muscular. Ora, como todos nós conseguimos imaginar, uma pessoa que está a ter uma convulsão, tem contrações musculares intensas, e se isto for feito sem nenhum controle, pode até dar origem a fraturas, por exemplo, a fraturas ósseas. E, portanto, o que é que acontece? Esse retrato não corresponde à realidade, porque a partir dos anos 80, e eu acho que isto é uma indicação muito importante, é que este tratamento foi tão mal retratado pelos media, pela indústria cinematográfica, sofre de tanto estigma, é tão aparentemente perturbador e mesmo assim toda a evidência mostra, e cada vez é mais utilizado para doença mental grave.

A verdade é que ficou com esse rótulo, com um carimbo de uma coisa muito dolorosa e, sobretudo, acho eu, na minha visão Uma coisa que só acontece com as pessoas que estão mesmo muito doentes. Nós associamos os choques elétricos a doentes mentais com doenças muito graves e já no fim da linha.

Certo.

O que se junta ao estigma de: "Mas por que eu preciso disso?"

Claro.

A verdade é que eu creio que deixou de ser usado tanto, muito por causa dessa carga, e agora voltou.

Certo.

É igual?

Ele não é igual na medida em que é feito em condições totalmente diferentes, embora o princípio pelo qual ele é utilizado e pelo qual ele é eficaz seja o mesmo. E agora pergunta a sério: qual é esse princípio? Não sabemos bem, porque nós, na verdade, do ponto de vista científico, não sabemos exatamente por que o eletroconvulsivoterapia é eficaz. O facto é que é. E, portanto, eu vou responder de duas formas. Por um lado, em que situações é que este tratamento é utilizado? O tratamento de eletroconvulsivoterapia é, neste momento, utilizado e é altamente eficaz em uma grande panóplia de doenças mentais, nomeadamente: depressão refratária ao tratamento, ou seja, nós temos hoje em dia muitos fármacos para tratar a depressão, mas há ainda uma percentagem significativa de pessoas que têm uma depressão refratária, que não responde ao tratamento farmacológico. Nesses, uma percentagem superior a 50% tem uma resposta ótima com a eletroconvulsivoterapia. Por exemplo, ideação suicidária muito intensa e muito difícil de tratar com terapia farmacológica, responde muito bem à eletroconvulsivoterapia. Doença bipolar, tanto em fases depressivas graves, como em fases maníacas refratárias ao tratamento farmacológico. E a própria psicose. Depois, há ainda um grupo de doentes, que são os doentes catatônicos, que é um tema que também é envolto num certo mistério, o que é uma pessoa catatônica, uma catatonia. Basicamente, a catatonia é um estado clínico que pode acontecer em várias doenças, tanto na doença bipolar, como na esquizofrenia, como numa depressão grave. E de facto, é um marcador de gravidade, em que a pessoa tem alterações de estado de consciência, da motricidade, pode ficar extremamente agitado ou extremamente parado, com uma série de alterações motoras e cognitivas que respondem muito bem a este tratamento também.

Aquela imagem também cinematográfica de um doente num hospício, sentado numa cadeira a olhar no horizonte e sem reação, é isso?

Isso é, de facto, o protótipo de um doente catatônico. Agora, o que é importante perceber é que existe tratamento também para a doença catatônica, ou seja, para qualquer doença que tenha sintomas catatônicos, e a eletroconvulsivoterapia é extremamente eficaz nesse tipo de doentes. Agora, falando da técnica propriamente dita, ela é muito diferente do que era antigamente. Nós, neste momento, para realizar este tipo de tratamento no ambiente hospitalar, está sempre presente um psiquiatra, um anestesista e uma equipa de enfermagem, tal como num bloco operatório. O doente é analisado previamente e monitorizado, tanto do ponto de vista eletrocardiográfico, com ECG, eletrocardiograma, e eletroencefalográfico, portanto, com as ondas cerebrais elétricas. É anestesiado, é relaxado do ponto de vista muscular e a convulsão é apenas visível no ecrã. Portanto, a pessoa está a dormir anestesiada e induz-se um estado convulsivo apenas no cérebro, sem nenhuma consequência física. Por isso, é um tratamento que não representa dor, que não tem nenhuma consequência negativa e que não tem nenhum risco associado. Aliás, há um bocado esta ideia de que: "Mas isto é um tratamento tão violento, certamente que a mortalidade é alta." A taxa de mortalidade do tratamento com ECT é tão baixa que é mais baixa do que a própria anestesia sem cirurgia. Ou seja, um doente ser anestesiado para uma cirurgia geral simples, tem mais riscos do que fazer eletroconvulsivoterapia. Para se ver o nível baixo de risco que este tratamento tem.

Obrigada.

Obrigado