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Sejam bem-vindos. A mobilidade sustentável leva-nos a sonhar com o futuro ideal, onde a tecnologia tem um papel determinante na gestão das cidades. É disto que falamos hoje com Rosário Abreu Lima, diretora de comunicação institucional do ACP, no último episódio desta série. Eu sou o Paulo Ferreira, da Rádio Observador, e este é o "Movimento do Futuro", o podcast sobre mobilidade sustentável promovido pelo ACP, o Automóvel Clube de Portugal. Rosário Abreu de Lima, bem-vinda mais uma vez.

Olá.

Cá estamos para este último episódio.

Obrigada.

O que a tecnologia está genericamente a mudar nas nossas cidades?

Está a mudar alguma coisa, desde logo, a forma como nós usamos o telemóvel para tudo. Hoje em dia vamos estacionar, usamos o telemóvel, temos não sei quantas aplicações que nos permitem saber até quais são os locais que têm mais vagas para estacionar. Mas confesso que em Portugal vejo muito pouco além disto. Não há grande novidade nesta matéria.

Portanto, aquele futuro tecnológico que há uns anos começou-se a falar das smart cities e que ia revolucionar a nossa forma de estar na cidade, até ver, no caso português, é uma promessa com pouca realidade.

No caso português, estamos à espera de uma estratégia nacional que o governo prometeu que seria revelada ainda em 2023. Estamos em meados de 23, portanto, não se vislumbra praticamente nada. Entretanto, vão saindo indicadores dos rankings que mostram que estamos a cair, no caso de Lisboa, está a cair no ranking das smart cities e apontam, desde logo, os congestionamentos, a mobilidade e a falta de planeamento como responsáveis para essa queda.

Portanto, vamos andando sem ainda haver essa estratégia. Há uma área que, no fundo, é fundamental e tem a ver com a nossa vida do dia a dia nas cidades, que é o estacionamento e a cobrança, isto é, como é que nós pagamos o estacionamento. Há sempre a questão das moedas, dos parquímetros, dos tickets, das multas que podem estar e o bloqueio dos carros podem sair andantes. Tem-se avançado nesta área, como é que isto vai funcionar?

Na fiscalização, pelo menos em Lisboa, avança a toda a velocidade. E até de formas muito pouco pedagógicas. Eu posso dar um exemplo em frente à sede do ACP.

Estamos a falar do centro de Lisboa, próximo do Marquês de Pombal.

Exatamente.

Rua Rosa Araújo, não é?

Rosa Araújo. É uma zona de alta densidade. Temos lá os senhores da EMEL todos os dias religiosamente e há uns sinais que induzem os automobilistas em erro, porque à primeira vista é sinal de parquímetro, mas depois em letras pequeninas, onde costuma estar estacionamento pago de segunda a sexta, não. É estacionamento para moradores. E quantas e quantas vezes somos nós, a ACP, que vamos para lá fazer pedagogia. "Olhe, não estacione aí o carro, porque senão é rebocado imediatamente". E assim é. Os senhores da EMEL muitas vezes estão no cimo da rua a ver as pessoas a estacionar o carro, dão a volta ao quarteirão, bloqueiam logo. Isto não é assim que se faz e não é de todo uma forma de futuro para trabalhar.

Para gerir estas coisas.

Agora falando mais a sério.

Isto não é a sério. Agora falando mais da questão tecnológica, se calhar.

Na questão tecnológica, também convenhamos que em Portugal a questão tecnológica passa muito a par das outras cidades europeias, mais numa questão de preço do que propriamente na tecnologia. O que acontece noutras cidades que não está a acontecer cá? Há bolsas de estacionamento à entrada das grandes cidades.

Ou pelo menos dos centros, não é?

Nos próprios centros, as pessoas vivem lá e é suposto que as pessoas também consigam viver no centro da cidade e tenham direito ao seu património, à sua liberdade de escolha. Se quiser andar de carro, ande de carro, ponto.

Até porque hoje agora é útil.

Completamente.

Há compras, há crianças, há coisas para transportar.

Há tanta coisa. E não é só isso. Eu tenho o direito de escolha. O que se faz muito lá fora que não se faz cá são construções de silo autos. Os parques em altura são próprios para residentes e tal. E cá pensamos sempre que tem que ser tudo para baixo da terra. E depois não dá por causa da morfologia da cidade, ou não dá porque é muito caro. Mas por quê? Há tanto prédio, tantos imóveis do Estado que estão aí disponíveis para fazer construções em altura. E acho que o estado da arte aqui passa muito, neste momento, mais por preço do que propriamente por tecnologia, porque a tecnologia está inventada e dificilmente andará mais para cima ou mais para baixo. Estaciono em altura, estaciono na vertical, carrego num botão e vem o carro ter comigo.

Quando diz que vai ser basicamente em função do preço, as autoridades vão subindo os preços do custo do estacionamento.

Sim, claro. O estacionamento vai sendo cada vez mais caro.

E isso, no fundo, vai tornar mais onerosa a posse de um automóvel, claro. O custo de utilização.

Ainda mais.

Ainda mais. E portanto, vai ser por aí que se vai regular ou disso há de ir de alguma maneira. Fala-se muito também do conceito da cidade dos 15 minutos. Aliás, em Lisboa, Carlos Moedas veio nos últimos anos falar disso. Vamos ter espaços urbanos que vão ser redesenhados de alguma maneira para acomodar este conceito.

A cidade dos 15 minutos ficou muito conhecida, sobretudo por Paris. Que a senhora presidente da Câmara tinha essa vontade e, de facto, é um cenário magnífico quando é possível. Nós vivemos num bairro, trabalhamos no bairro, estudamos no bairro, vamos aos restaurantes do bairro. Toda a nossa vida está a 15 minutos a pé, de bicicleta, de metrô. Isso era bestial se conseguíssemos ter isso. Eu desejo boa sorte a quem quiser redesenhar os nossos bairros para 15 minutos.

Porque uma coisa é fazer de raiz, ir construindo um tecido urbano que de raiz já pensa nesse conceito. Outra coisa é pegarmos em tecidos urbanos que têm séculos, como é evidente, que às vezes cresceram de forma caótica ou por eras.

E pelas próprias necessidades da época. Por exemplo, a maior parte das nossas cidades foram desenhadas e os parques de estacionamento, também falamos de estacionamento, foram desenhados para carros estreitinhos. Entretanto, com o tempo, os carros foram alargando, mas os lugares de estacionamento mantiveram-se ainda por lei, no mesmo espacinho. Quantas vezes nós vamos estacionar um carro num parque de estacionamento e dizemos não sei quantos palavrões, porque eu não consigo sair do carro. Estacionei o carro, mas e agora, como é que saio? Por cima, pelo tejadilho? Nas cidades dos 15 minutos foi a mesma coisa. Primeiro, havia muito menos automóveis, segundo, as pessoas faziam deslocações casa-trabalho, trabalho-casa e com o avançar do tempo, das necessidades e da economia, graças a Deus, que também se vai desenvolvendo, nós passamos a ter deslocações de casa para a escola, para o trabalho, para o ginásio, para o restaurante. Onde é que aqui seria o ideal? Seria ideal se houvesse uma rede de transportes públicos. E quando falamos de transportes públicos, não vale a pena estarmos com ilusões que os autocarros resolvem, que não resolvem, é metro. Nem vale a pena estar aqui a ir muito longe. Vamos a Madrid, que é uma cidade que é muito próxima culturalmente. A rede de metro de Madrid tem 294 km e tem 302 estações. Você consegue perfeitamente estar uma semana em Madrid. Há pouco tempo estive lá uma semana. Não me passava pela cabeça apanhar um táxi. Para quê? Eu tenho estações de metro em todo lado para me caminhar.

Não há nenhum ponto da área urbana em que esteja mais longe do que a 10 minutos de uma estação de metro.

Nada, zero. E mesmo estando eu numa zona, que aquilo era para um congresso, portanto na zona mais periférica, eu chegava lá em 10 minutos.

Da Feira de Madrid.

Exatamente, a Feira de Madrid. Toda a gente circula e tem várias estações de metro. O que acontece em Lisboa? Em Lisboa temos nem chega a 50 km de rede e 20 estações de metro. E mesmo as estações novas que estão a fazer, não passa pela cabeça de alguém que uma estação por bairro signifique mudar hábitos de vida.

E meia cidade não tem metro.

Já nem falo disso.

Já nem vamos para a cobertura da rede.

Eu acho que enquanto não houver um investimento massivo, como fez Madrid, como fez Paris, como fez Londres, durante décadas, eles investiram. Porque de facto é isso que faz a mobilidade numa grande cidade. É eu poder ir de metro e cruzam-se as linhas. Quantas interseções é que tem o metro de Lisboa? É só fazer contas e perceber que não é possível estar aqui a discutir realidades que não podem ser as nossas, é uma utopia.

Senão estamos a encurralar as pessoas, basicamente, com custos muito grandes da utilização do automóvel.

Por exemplo, há casos ainda hoje que numa área metropolitana com transportes públicos decentes, seria normalíssimo eu viver a 100 km e vir trabalhar todos os dias para Lisboa. Qual é a nossa realidade? Eu tenho uma pessoa que trabalha lá comigo e que vive em Coruche, e eu fico: ”Mas isso são 100 km, como é que fazes isso todos os dias?” ”Eu prefiro qualidade de vida, porque tenho uma casa maior, porque tenho jardim, as crianças brincam. E depois pego no carro todos os dias. Os pais vivem em Loures, estaciono é o parque dissuasor, que nós não temos. Deixo lá o carro, meto-me na scooter e vou trabalhar para o centro de Lisboa.” Ok, esta é a nossa realidade.

Mas é uma logística muito complicada.

É pesadíssimo.

Não há mobilidade suave ferroviária por aí fora.

No entanto, ele diz que demora uma hora e pouco a chegar de casa até ao trabalho. E se formos a ver, muita gente que vem da margem sul ou na A5 demora o mesmo tempo.

Com às vezes até deslocações dentro de Lisboa, de uma zona para a outra, demoram esse tempo.

Exato.

A micromobilidade neste tema parece ser um tema em aberto. Nós tivemos um boom nos últimos 10 anos, trotinetes, bicicletas urbanas, elétricas ou não elétricas, não interessa, mas entretanto parece que está a haver um recuo. Nós assistimos recentemente à decisão de Paris de proibir as trotinetes, por questões de acidentes, por má utilização, por aí fora. Nós quando falamos deste tema concreto, estamos a falar do futuro ou estamos a falar de um passado que já está a ficar para trás?

Eu acho que acima de tudo estamos a falar mais uma vez da falta de noção, porque as trotinetas quando apareceram, e estava toda a gente muito entusiasmada com as trotinetes, uma grande moda, nós fomos sempre contra trotinetes sem regulação, sem fiscalização. Somos completamente a favor do capacete obrigatório. Mostrámos, fizemos ações, fizemos campanhas. Atenção que as trotinetes atingem velocidades elevadas. Atenção que as pessoas não têm noção como é que se conduz uma trotinete. Não basta estar lá em cima e toca a andar para a frente. Continuamos a fazer ações de formação para as pessoas que querem andar de trotinete, por favor, ao menos saibam como é que travam, como é que curvam, como é que fazem numa descida, como é que é andar numa calçada portuguesa, por exemplo. E fazemos estas formações de forma gratuita, atenção, e são poucos os que: ”Olha, bora lá experimentar, porque de facto não tenho bem noção, não me sinto seguro.” Depois começa a haver problemas e começa a haver, acima de tudo, o que se tem visto agora, uma luta entre as bicicletas e as trotinetas pela defesa do seu espaço. As trotinetas agora em Lisboa começaram a ser reguladas, baixam a velocidade. As próprias empresas muitas das vezes são startups, que muitas vezes é em estilo pop-up. Aparecem e desaparecem e depois já ninguém sabe delas.

E já tivemos várias em Portugal que entraram e saíram.

E há o fator preço, que também estão a revelar-se bastante caras e pelo menos as pessoas mais novas, que eram os principais utilizadores, já começam a fazer contas porque não compensa.

Portanto, o futuro não vai ser seguramente radioso aqui nesta área da micro mobilidade.

Não me parece.

E sobretudo com as trotinetas.

Não me parece.

Rosália Abreu Lima, tudo pesado, qual é o estado da arte em Portugal aqui nesta área da mobilidade smart cities, tecnologia?

O estado da arte, nós podemos falar desde logo pelo trabalho que nós fazemos diariamente e desde há três anos, estamos a fazer um trabalho muito interessante com a Nova EMS, na monitorização do Porto e Lisboa. Apanhámos a pandemia e depois da pandemia, para percebermos exatamente os impactos na mobilidade, os congestionamentos rodoviários, o impacto das ciclovias, porque entretanto apareceram muitas pop-ups, outras que foram criadas de raiz e outras que foram metidas numa marca.

Improvisadas, claro.

Pronto. E neste momento, até temos dados muito recentes, mostram um aumento dos congestionamentos rodoviários muito grande. E mostram também que, no caso das ciclovias, por exemplo, em Lisboa, nós temos imensos sensores instalados desde 2021, que permitem contar as passagens de bicicletas. E o comportamento destes sensores não mudou nada desde 2021, 2022, mantém-se estático.

Já no pós-pandemia.

Já no pós-pandemia, e revelam picos ao fim de semana e em zonas mais lúdicas, tipo a zona ribeirinha. Portanto, o que é que significa isto? Significa que não só há uma maior procura nas bicicletas, como as pessoas continuam a privilegiar o uso do automóvel para poderem fazer as suas vidas e satisfazer as suas necessidades. Este é o nosso estado da arte em Portugal.

Uma mudança lenta ou quase impercetível, de alguma maneira.

Eu diria que é isso. Se há alguma mudança, será muito residual. Eu acho que há muita mudança a nível de mentalidade, que de facto é preciso encontrar caminhos que sejam mais sustentáveis e acima de tudo, que nos tragam mais qualidade de vida. Só que isso aqui parece que é um paradoxo, porque não temos transporte público para fazer isso. Por outro lado, também importa aqui dizer, um bocadinho contra a opinião vigente, que os automóveis são cada vez mais sustentáveis e, portanto, essa ideia que são muito poluentes, não, não são muito poluentes porque sejam elétricos, de emissões zero. Ou mesmo os automóveis a combustão, e vêm aí os sintéticos, que também vai ser uma realidade, vão ajudar bastante a este caminho, mas cá ainda continuamos a marcar passo.

Muito bem, vamos ter que esperar então da passagem da teoria à prática. Mas para terminar, Rosália Abreu Lima, a questão é que acha que o automóvel vai fazer parte da solução, como é evidente. Tem que fazer.

Vai sempre fazer parte, porque a mobilidade só existe se integrar todos os meios de locomoção disponíveis. E portanto, se eu puder, vamos imaginar, voltando ao exemplo de Coruche. Vivo em Coruche, vou da minha casa à estação de metro, deixo o carro na estação de metro, apanho o metro e saio no centro de Lisboa, esse é o cenário perfeito e, portanto, o automóvel nunca vai deixar de ser uma realidade.

Muito bem. Obrigado, Rosália Abreu Lima.

Obrigada.

O Movimento do Futuro termina aqui. Este foi o último episódio do podcast sobre mobilidade sustentável, promovido pelo ACP. Pode sempre ouvir todos os episódios nas plataformas de podcast habituais. Voltaremos seguramente noutra oportunidade. Até lá, boa mobilidade.