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Sejam bem-vindos. A chamada transição energética já não é uma opção, tornou-se uma necessidade para travar as alterações climáticas. E dentro da transição energética, a chamada mobilidade sustentável assume uma importância central. É disso que vamos falar neste podcast, "Movimento do Futuro". É promovido pelo ACP, o Automóvel Clube de Portugal, e ao longo de cinco episódios vamos, com a ajuda de vários especialistas, olhar para a mudança que já está a ocorrer nos nossos automóveis, que são e serão cada vez mais movidos a energia elétrica. Neste primeiro episódio, falamos das várias opções de carros mais sustentáveis e vamos perceber o que devemos fazer para acelerar a mudança. E vamos fazê-lo com Bruno Gomes, que é o diretor dos serviços técnicos do ACP. Eu sou o Paulo Ferreira, da equipa das manhãs da Rádio Observador. Bem-vindo, Bruno. Bem-vindo a este podcast, estamos a estreá-lo. Quando falamos de carros menos poluentes, estamos a falar de várias alternativas de mobilidade. Quais são as opções viáveis que neste momento temos em cima da mesa?
Peço para agradecer o convite. Temos várias tecnologias. Tecnologia híbrida, tecnologia a gás, mas neste momento a tecnologia dominante será a mobilidade elétrica.
Claro.
Pela sua facilidade de utilização e pela sua crescente aceitação do público em geral.
No fundo, é a tecnologia mais fácil de usar, de alguma maneira, para uma utilização comum de um automóvel.
Uma utilização comum, sim. Evidente que da tecnologia elétrica, existe a tecnologia híbrida, plug-in e 100% elétrica.
Já agora, vamos tentar distinguir esses vários. A híbrida, basicamente, estamos a falar de automóveis que juntam o motor elétrico-
Com o motor de combustão. Que pode ser a diesel ou a gasolina. E depois existe a tecnologia híbrida, que funciona de uma forma autónoma, ou seja, tem motor elétrico, tem baterias e o motor a combustão, e a eletrónica e a gestão do carro é feita de uma forma independente. E depois existe a tecnologia plug-in, em que ligamos o carro à corrente, sempre que é possível. O carro pode andar 100% elétrico e também pode andar numa tecnologia híbrida ou pode andar a combustão. Será sempre o melhor dos dois mundos. Temos um carro elétrico e um carro a combustão, e com a tecnologia híbrida e plug-in, conseguimos reduzir claramente as emissões daquela viatura.
Claro. Portanto, aí temos esses dois sistemas a funcionar. O que está em curso já é uma transição enorme nos nossos hábitos de mobilidade, no nosso dia a dia, na vida das nossas cidades, a nível global. Os fabricantes estão a dar uma resposta rápida ou não a isto?
Os fabricantes estão a dar, sim, uma resposta rápida. Ao longo destes últimos anos, cada marca adotou as suas estratégias, mas claro, todas elas assentes na eletrificação das suas viaturas. Existem marcas, inclusive, que deixaram já de comercializar carros a combustão e só têm carros 100% elétricos ou plug-in.
Portanto, no fundo, esta é a tecnologia dominante e digamos que já passámos a um ponto de não retorno. Isto é, a mobilidade do futuro vai ser assim, de alguma maneira.
De alguma maneira, não creio que seja 100% elétrico, porque os carros têm que ser escolhidos de acordo com as suas reais necessidades. Ou seja, se é possível carregar em casa, que é sempre a melhor solução económica, deve-se escolher um carro plug-in, pelo menos. Se não tem essa possibilidade, deve ser um carro híbrido.
O híbrido vai carregando automaticamente com as travagens, com as desacelerações.
Com as travagens, com as acelerações. A eletrónica do carro faz a gestão completa dessa utilização.
Claro. Portanto, o caminho das marcas está a ser muito dominado então pela presença de modelos cada vez mais elétricos, se quisermos, no mercado.
Sim.
Mas depois precisamos da tal infraestrutura necessária. E estamos a falar aqui de redes de carregamento, ou temos possibilidade de fazê-lo em casa, como o Bruno acaba de dizer, ou então é preciso uma rede de carregamento. Onde é que estamos aí, então?
As redes têm vindo também a crescer. Existem vários players no mercado e claramente as redes estão onde existe o maior número de carros. Mas toda essa utilização tem que ser muito bem gerida pelo próprio condutor, porque a utilização de um carro 100% elétrico numa cidade é ótima, porque a condução é muito suave, é muito agradável, e tendo a possibilidade de carregar o carro, é fantástico. Se vamos para fora dos grandes centros, apesar de já haver uma maior cobertura, temos que planear muito bem os nossos trajetos para depois podermos carregar isso. Claro que é o caminho. As redes estão a crescer, mas existe sempre a possibilidade de carregarmos o carro numa tomada, mais lento, claro, mas numa garagem que seja.
Numa tomada de corrente normal.
De corrente normal. Os carros estão preparados para se carregar a 3,2 kW, mínimo, 7,4. Para termos mais ou menos uma noção, 3,2 são três ferros de engomar Se numa casa nós conseguimos ligar três vezes o Ingmar, conseguimos ligar a um carro. O que difere aqui são os tempos de carregamento e a capacidade de receber energia da viatura. Ou seja, se carregamos a 3.2, com certeza que temos muito mais tempo para carregar a viatura. É por isso que se recomenda que carregue à noite com tarifário biohorário e em oito ou nove horas carregamos uma bateria. Mas depende do carro, depende da bateria.
Claro. O Bruno há pouco estava a dizer que na utilização citadina, as vantagens de um carro elétrico são muitas, tal condução suave. Quando temos que fazer deslocações mais longas, exige-se de facto esse planeamento, por causa da rede e também por causa da autonomia da bateria. Qual é o estado da arte neste momento, em termos de autonomias de baterias?
A tecnologia das baterias tem vindo a evoluir muito significativamente. Os primeiros carros elétricos tinham 100, 120 km de autonomia, neste momento já vamos com 300, 400, até 500 km de autonomia. E existem carros com capacidade superior. Mas evidente, tudo isso tem que ser tido em conta vários fatores. Ou seja, a autonomia baixa consoante a temperatura. Se nós estivermos em países com temperaturas negativas, pode baixar até 30% esse valor. Tudo isso são fatores novos que o próprio consumidor tem que estar consciente dessa nova forma de mobilidade.
Claro, e daí ser também muito importante a informação e o esclarecimento sobre este assunto. O que é que pode ser feito para acelerar a transição? A indústria está a fazer o seu caminho, as entidades públicas, de alguma maneira, a otimizar as redes também. O que é que pode acelerar esta transição?
É uma questão de sensibilização da população, isso sim, as pessoas estão muito mais disponíveis e recetivas para esta transição, por questões ambientais. Claramente, voltamos ao incentivo, ao abate.
No fundo, para acelerar a substituição de automóveis antigos, dizemos.
Exatamente, ou seja, antigos, mais poluentes, menos seguros, para acelerar isso e os benefícios fiscais que claramente ajudam a que essa transição seja feita de uma forma mais sustentável.
Neste momento, se não é que temos em cima da mesa o ano 2035 para acabar com a comercialização de veículos a combustão, que emitem dióxido de carbono, acha que esta data é realista? Estamos a 12 anos, a pouco mais de 10 anos.
Acho demasiado otimista. Porque repare, nós temos um parque circulante no mundo, a combustão, e nós não vamos mudá-los de planeta. E mesmo para novos carros, novos veículos, essa transição tem que ser feita de uma forma mais sustentável, porque os carros não vão desaparecer. Eu acho que nós não vamos cumprir essa meta. Acho que é uma meta demasiado ambiciosa. Já existem muitas notícias de fabricantes a pedirem renegociação. O próprio governo já diz que se calhar não vamos atingir essa meta. Por isso, eu acho que é muito mais sensato assumir que foram mais ambiciosos do que a própria realidade.
Claro. E por vezes estas metas também são muito ambiciosas para colocar alguma pressão também nos agentes do mercado.
Eu acho que sim, faz sentido para pôr a indústria a correr atrás, mas também faz sentido termos todos consciência que não são facilmente atingíveis.
Claro. Estamos a conversar com o Bruno Gomes, diretor de serviços técnicos do ACP, e quase a terminar este primeiro episódio deste novo podcast. Bruno, e em Portugal, estamos a acompanhar de perto esta mudança, estamos a andar ao ritmo que, de uma forma genérica, a Europa está a andar?
Estamos, porque claramente existe uma aceitação dos veículos elétricos pelo consumidor. As próprias empresas estão muito sensíveis para isso e nas renovações de frota já estão a comprar carros plug-ins e até elétricos, e começa a ser algo que se vê e os próprios números da ACP demonstram isso.
Demonstram isso. Portanto, basicamente estamos perante um caminho que não terá retorno. Isto é, o futuro da mobilidade, tanto quanto conseguimos perceber hoje com a tecnologia disponível, será elétrico.
Eu acredito que estamos numa mudança. Se será 100% elétrico ou não, não sei, mas acredito que esta mudança está a acontecer e não vai voltar a ser como era.
Muito bem, muito obrigado, Bruno Gomes. O primeiro programa do podcast "Movimento do Futuro" termina aqui. Vamos voltar brevemente com um novo tema e um novo convidado. Até lá, pode ouvir-nos, já sabe, nas plataformas de podcast habituais.