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Bem-vindos. Afinal, o que os consumidores querem de um carro elétrico e quais são as tendências da indústria para este segmento? É disso que falamos hoje com Rosário Abreu Lima, diretora de comunicação institucional do ACP. Eu sou o Paulo Ferreira, da Rádio Observador, e este é o "Movimento do Futuro", o podcast sobre mobilidade sustentável promovido pelo ACP, o Automóvel Clube de Portugal. Bem-vinda, Rosário Abreu Lima. Vamos então olhar para aquilo que nos dizem os estudos de mercado vários. Quem comprou e está a comprar carros elétricos, o que pretendem desses automóveis? O que nos diz, de facto, a pesquisa de mercado?

Dizem-nos várias coisas. Desde logo, quem compra carros elétricos em Portugal são homens, na sua maioria vivem no centro e no Grande Porto, são homens mais velhos e das classes A e B. O que isso significa? Significa que têm poder de compra e que, acima de tudo, têm uma preocupação ambiental. Fazem circuitos citadinos, na sua maioria, portanto, poucos quilómetros. Não estão muito preocupados com a autonomia da bateria, porque também têm garagens em casa para fazer os carregamentos.

Que carregam durante a noite, provavelmente.

Provavelmente. E é o melhor dos mundos, porque as respostas que dão mostram que o custo é bastante compensador ao fim do mês.

Claro, a tarifa que pagamos em casa é mais barata do que os carregamentos. E que características é que são mais valorizadas nos automóveis elétricos? O que os 98% que ainda andam de carro com motor de combustão pensam dos carros elétricos? Porque são esses que hão de fazer a transição, não é?

Eles admitem fazer essa transição a médio e longo prazo, portanto estamos a falar sempre daqui a cinco anos, mais ou menos. Só que o problema da autonomia e do preço é um entrave enorme para a esmagadora maioria dos portugueses. No entanto, eles percepcionam a questão ambiental. Têm também a ideia que é mais barato manter um automóvel elétrico e que os carregamentos também são mais baratos do que abastecer na bomba.

Portanto, a utilização é mais barata, de uma forma genérica.

A utilização diária, sim.

O problema é que uma das barreiras é o preço de entrada. O preço de compra do automóvel.

Estamos a falar sempre, na ideia destes inquiridos, entre 30 a 40 mil euros, e quando nós sabemos que o mercado oferece propostas mais baratas a combustão. E têm também uma questão que é essencial, que é a dos carregamentos.

Claro.

Os carregamentos continuam a ser uma dor de cabeça para quem tem e para quem pensa vir a ter, como é que eles vão fazer.

A autonomia das baterias, como já disse, é um ponto absolutamente crítico, não é? Qual é o estado de arte neste momento?

A indústria está-se a desenvolver a uma velocidade cada vez maior e as autonomias também vão acompanhando essa tendência. Há a procura e a oferta. Se há um entrave do ponto de vista do consumo, que eu tenho que ter autonomia suficiente para ir, por exemplo, daqui para o Algarve, a indústria tem que me dar resposta para eu ir daqui até ao Algarve sem precisar de parar pelo meio. E já temos alguns casos em que isso acontece, e da informação que temos é que a maioria das marcas está a trabalhar nesse sentido.

Portanto, essa será uma das tendências da indústria.

Sim.

O aumento da capacidade das baterias.

Sim, das baterias e da oferta de carregamento também.

Sendo que a oferta de carregamento pode envolver a indústria, envolve também entidades públicas, seguramente.

Sem dúvida.

Envolve os operadores do mercado da energia.

Sem dúvida. Ainda agora tivemos a notícia da Comissão Europeia, que uma das propostas é precisamente a obrigatoriedade em cada 60 km de estrada existir um posto de carregamento público.

Que estamos muito longe ainda de atingir, como é evidente.

Estamos, mas, por exemplo, nós também olhamos neste estudo para o mapa de Portugal e percebemos que, por exemplo, a rede de autoestradas já está bastante coberta em termos de carregamentos. Os grandes centros urbanos também já não são tão problemáticos. Temos zonas, por exemplo, como o Alentejo, que estão em pior situação, mas creio que a breve prazo será resolvido.

Depois, na questão dos carregamentos, há a questão da rede e de haver ou não postes de carregamento, mas depois também há o tempo de carregamento.

Exatamente.

É mais demorado carregar uma bateria do que atestar um depósito.

Exato. Isso é um problema.

E essa é também uma questão fundamental.

Isso é fundamental e é nisso que a indústria também está a trabalhar, porque até agora só os modelos topo de gama é que carregam nos supercarregadores e, portanto, vamos conseguir 80% de bateria em meia hora. Tomamos um café e a coisa passa.

Mas ainda é meia hora.

Mas mesmo assim é meia hora. Este estudo mostra que a maior parte das pessoas tem a ideia, pelo menos, de três horas para fazer um carregamento.

Há má informação também sobre isto, de alguma maneira. Notam que as pessoas estão mal informadas sobre, genericamente, a mobilidade?

Há um desconhecimento enorme. E quando eu digo desconhecimento enorme é também de quem tem automóveis elétricos. Porque nós costumamos perguntar, por exemplo: "Se eu quiser instalar um carregador em casa, é um processo fácil? Se eu viver num condomínio, eu preciso de ir à assembleia de condóminos? Como é que eu vou fazer isto?" E temos respostas que são incríveis, porque as pessoas acham que é perfeitamente normal fazer uma puxada do segundo ou terceiro andar pra rua pra carregar o automóvel.

E ficar ali o cabo pendurado na janela.

Exatamente. Ou que eu chego a uma garagem que é comum do meu prédio, instalo lá uma wallbox e não tenho que dizer nada ao condomínio, ou que instalo um contador próprio e que também não tenho que informar. O próprio desconhecimento sobre a legislação, e a nossa legislação, regra geral, como toda a gente sabe, já é bastante confusa. Nesta matéria, eu acho mesmo que daqui a uns tempos nós vamos ter as reuniões de condomínio, não com as polémicas dos elevadores, instalamos elevador ou não instalamos elevador, mas sim com os carregamentos, quem é que paga, se pomos contador, se não pomos contador, e por aí fora.

Sendo que vai havendo também algumas iniciativas para que, por exemplo, novas construções, novos prédios possam já prever a existência de postos de carregamento.

Sim, e há. Ainda no outro dia falava com uma pessoa que vive num prédio novo, tem já um posto de carregamento comum e que supostamente dá pra 12 automóveis. "Mas quantos automóveis elétricos tem lá no prédio?" "Acho que tenho dois ou três." "Mas e se tiverem 12, e se forem os 12 carregar ao mesmo tempo, será que aguenta a coluna?" "Pois, isso não sei." E esse é um problema de infraestrutura que também tem que ser assegurado ao mesmo tempo. Isto é um problema a montante e a jusante.

Claro.

Porque se toda a gente estiver a carregar ao mesmo tempo no prédio, ao mesmo tempo na rua, no quarteirão, no bairro, na cidade, será que isto aguenta?

Claro. Portanto, esse estudo mostra-nos que há muita falta de informação. Por vezes, há informação errada, as pessoas têm basicamente dados na cabeça que não são verdadeiros, e algum preconceito em relação aos automóveis elétricos, que passa para além dos factos, de alguma maneira.

Eu acho que hoje em dia já não existe preconceito. Nós somos sempre um bocadinho conservadores e temos sempre receio do desconhecido. Hoje em dia, todas as marcas têm ofertas, diria pelo menos a esmagadora maioria das marcas, têm ofertas de elétricos. Nós próprios, no ACP, promovemos um mega test drive pra aproximar as pessoas desta realidade. Lá está, venha experimentar um elétrico, venha conduzir, venha sentir o carro. Há uns anos atrás, quando apareceram os primeiros elétricos, havia quem tivesse esse preconceito e dizia que era um Tupperware com rodas, um aspirador com rodas, aquilo é só plástico. A indústria percebe isso, e percebe também que há pessoas que gostam genuinamente de automóveis e precisam de sentir o carro e que seja um carro robusto. E hoje em dia temos ofertas fantásticas em todo tipo de segmentos nesse sentido.

Há também a ideia de que são mais suaves de conduzir.

Menos ruidosos.

Menos ruidosos, claramente.

Mas também são obrigados a fazer barulho.

Para evitar acidentes, que o silêncio pode provocar, nomeadamente com peões. Quando é que vão ser deixados de fabricar, já se sabe, já há uma data para que os construtores de automóveis deixem de fabricar os clássicos a combustão?

Não. Pelo que vimos agora no Conselho Europeu, a Alemanha conseguiu manter a sua posição e abrir vários caminhos após 2035. Nós entendemos uma coisa que me parece que é bom senso e pragmatismo. Nós temos que perceber que as coisas não se podem fazer só por decreto. Estamos a mexer com milhões de postos de trabalho, estamos a mexer com milhões de vidas humanas e, portanto, reconfigurar toda uma indústria é possível. Temos todos o mesmo propósito, que é a preocupação ambiental, mas como chegar lá, há vários caminhos. E então vamos se calhar explorá-los e testá-los até ao limite, se for preciso, e perceber qual é a melhor solução no fim do dia. E isto é válido pra elétricos, é válido pra sintéticos, é válido pra biocombustíveis, pra o hidrogênio. Acho que ainda está tudo numa fase muito embrionária.

Portanto, ainda é necessário fazer muito trabalho da parte de todos os agentes envolvidos para que a transição seja feita na mobilidade.

De todos. Da nossa parte, posso falar pelo ACP, cá estaremos sempre pra ajudar todos, a fornecer informação, aconselhamento, porque todas estas alternativas devem ser válidas e há uma coisa também que não podemos descurar. A mobilidade também representa o respeito pela herança. E a herança é você ter um automóvel a gasolina ou a gasóleo, e tem direito de o ter, e tem direito de ter o conforto da sua mobilidade e de escolher como é que a faz. E, portanto, não pode ser excluído à cabeça, porque agora tem que ser assim. Não. É como foram desenhadas as cidades. As cidades foram desenhadas com um determinado propósito, e não é agora com régua e esquadro que eu chego aqui e acabou-se, agora não passas mais por aqui porque só podes passar por ali. Não, temos que integrar. E só com essa integração é que nós conseguimos trazer toda a gente para o mesmo objetivo.

Não é com o estalar de dedos que isto vai mudar, seguramente.

Ou como há quem diga, como é que é? Não se apanham abelhas com vinagre.

Exatamente. Muito bem. E é para esclarecer também este caminho, passe aqui a redundância, da mobilidade mais sustentável que nós temos este nosso podcast, "Movimento do Futuro". Termina aqui mais um episódio. Muito obrigado, Rosália Abreu Lima. Nós vamos voltar brevemente com um novo tema e um novo convidado para continuarmos então a falar de mobilidade elétrica. Até lá, já sabe, pode ouvir-nos nas plataformas de podcast habituais.