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E começa assim mais uma edição do "Nem Tudo o Que Vai a Rede é Bola", aqui na Rádio Observador, com o Nuno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Aníbal Rebelo. Na segunda parte, vamos falar de ciclismo, vamos à bulha com o João Almeida. Isto numa conversa onde um dos destaques é a preparação do Giro d'Italia. Para já, vamos aos destaques. Mariana, começamos com a figura da semana, Miguel Oliveira, no motociclismo, regressa às pistas e não esteve nada mal nas duas provas deste fim de semana, no fundo, nas duas corridas deste fim de semana.

Sim, nas duas corridas, a verdade é essa. E voltou a ser o calcanhar daqueles. A qualificação, as sessões de treinos e depois a qualificação. O Miguel voltou à competição em Austin, no Grande Prémio das Américas, depois de ser dado o apto tanto pela equipa médica da Aprilia como pela equipa médica do próprio MotoGP, e depois de ter falhado o Grande Prémio da Argentina e depois também ter visto Marc Márquez ter a penalização suspensa nesta altura, na sequência do acidente em Portimão. O fim de semana em Austin não começou bem. Ele caiu duas vezes na segunda sessão de treinos, foi apenas 15º nos tempos combinados, ou seja, tinha de passar obrigatoriamente pela Q1. Ainda rodou nas duas primeiras posições. Estava a começar uma volta rápida quando o colega de equipa Raul Fernández caiu e soltou as bandeiras amarelas e acabou por não conseguir passar à Q2, arrancando apenas 15º, tanto na corrida sprint como no Grande Prémio de domingo. Mostrou logo no sábado, ainda na corrida sprint, que tinha andamento para chegar mais à frente. Ficou em oitavo. Conseguiu esse feito de conquistar os primeiros pontos do fim de semana ainda no sábado e no domingo fez ainda melhor ao terminar em quinto naquele que foi o grande prémio de número 200 da carreira, nas três principais categorias do motociclismo. A corrida ficou marcada por várias quedas. Só 13 pilotos é que terminaram e Miguel Oliveira foi quem conquistou mais posições. Conseguiu subir 10 lugares, de 15º para quinto, e Alex Rins acabou por ganhar este Grande Prémio das Américas um bocadinho à vontade, depois da queda de Pecco Bagnaia, que tinha ficado com a pole position e que no dia anterior também tinha vencido a corrida sprint. Continua a ficar esta mesma ideia. O Miguel Oliveira tem ritmo para estar nas posições da frente de forma consistente, de forma recorrente, mostra-se sempre muito sólido em corrida, tem sempre um bom ritmo de corrida, mas é normalmente traído pela qualificação, que o atira muito para trás e que o obriga a estas sessões de escalada pela grelha. Se sair em sexto, em sétimo ou oitavo, pode perfeitamente discutir a vitória, tal como iria acontecer em Portimão, se não tivesse caído logo nas primeiras voltas.

E agora o próximo vai ser já o regresso à Europa e vamos ver se as dores são menos, como ele diz.

Pelo menos gosta mais do que lá na América. Na América não gosta daquilo. E eu percebo.

E esta pista é muito complicada, principalmente quando está quentinha. É preciso unhas, quito unhas, como se costuma dizer. Vamos ao nosso número. Número quatro, que é a altura, que é neste momento a vantagem do Benfica em relação ao segundo classificado, o Futebol Clube do Porto, depois dos encarnados terem somado mais uma derrota na liga. Agora foi em Chaves. Bruno, isto não está a correr nada bem para o Benfica.

Sim, esta agora já desviou um bocadinho daquilo que era pensado, ou seja, no clássico era aberto, podia acontecer qualquer resultado. Esta derrota agora, a terceira consecutiva, porque é preciso também juntar a derrota com o Inter, não estava propriamente nas contas. Diria que o campeonato, à partida, está relançado, que era algo que eu não imaginava que se dissesse. Não vou muito pela ideia do estar perdido. Basta recordar o Sporting há dois anos, teve 10 pontos de avanço exatamente à 28ª jornada, passou para quatro com o empate nos descontos com o Belenenses e depois na 29ª jornada ganha em Braga, reduzido a 10, e o Futebol Clube do Porto empata em Moreira de Cónegos. As coisas também podem mudar. Agora, começa a haver sinais preocupantes. Neste caso, e depois de dois jogos onde houve três remates enquadrados, o Benfica teve oportunidades para ganhar. Parece-me que há um dado que é particularmente complicado nesta altura. Roger Schmidt mexe na equipa pelas críticas que recebeu por não ter mexido na equipa com o Inter.

São as redes sociais que estão a mexer no banco.

Não sei porquê. Quando tu olhas as substituições que o Benfica fez, percebes que: um, Roger Schmidt não estava propriamente muito convicto daquilo que estava a fazer; dois, continuou a colocar o Musa, salvo erro, 88, 89; e três, percebemos que a equipa não melhorou com isso. E aquela justificação do João Mário e o Ramos estavam cansados. Estavam cansados por não ter começado no banco e depois ter entrado. Desde 2018, na altura do Rui Vitória, que o Benfica não tinha três derrotas seguidas. Se perder em Milão, acaba por marcar aquela que é a pior série de sempre, ou seja, só em 40/41 e em 96/97 é que teve quatro derrotas consecutivas. Diria que nesta altura, Gil Vicente-Benfica, Benfica-Braga e Sporting-Benfica são os jogos de risco. Não acredito que o Benfica-Estoril seja propriamente um jogo de risco.

Apesar do Estoril ter o campeonato dele, não é?

Sim, o Estoril não está propriamente bem e a última vitória que teve, aquilo que mais me ficou foi caírem no chão que nem tordos. Fisicamente, a equipa não está bem. Não me parece que será por aí. Nesta altura e em termos práticos, dois pontos curiosos. Primeiro, se Benfica e Futebol Clube do Porto não perderem pontos, entretanto, o Benfica pode fazer a festa em Alvalade caso pontue ou ganhe ao Sporting na penúltima jornada. Ponto dois, não deixa de ser curioso o Benfica já estar em contactos com a Câmara para preparar uma eventual festa do título, e é normal, até depois daquilo que aconteceu em 2021, que o Sporting se prepare isso de uma forma antecipada e nesta altura estar Basicamente a travar um pouco para perceber também o que é que poderá acontecer. Ou seja, não é uma questão de falta de confiança ou não por parte dos responsáveis, é uma questão de a equipe começar a fazer aquilo que não tem feito em campo, que é dar uma resposta, coisa que não aconteceu com o Inter e coisa que não aconteceu também em Chaves.

E hoje ouvimos pela primeira vez Rui Costa falar.

Sim, e a única notícia que tem ali é a questão do processo disciplinar. Aliás, ele basicamente queria falar sobretudo era, um: a participação disciplinar ao Futebol Clube do Porto pelas declarações do Sérgio Conceição e do Vítor Baía antes desta jornada sobre as arbitragens, e dois: dar uma palavra de confiança à equipe. Tudo o resto, aquilo que a gente estava a saber, é o que ele disse no balneário em Chaves após o jogo. Isso é que eu gostava de saber, e isso ele não partilhou.

Muito bem, vamos à citação. Esta, Mariana, é dali do outro lado da fronteira: "O Real Madrid é que sempre foi o clube do regime." É o presidente do Barcelona, o Laporta, na conferência de imprensa em que tentava explicar o caso Negreira. Está difícil ali também para aqueles lados em termos de Justiça.

Eu acho que já se percebeu é que ele não tem grandes explicações para dar, pelo menos em termos práticos, e aqui há uma coisa que se tem de distinguir. Ele tem razão nesta frase, o Real Madrid, de facto, foi sempre o clube do regime. E aqui quando falamos de regime, estamos a puxar muito já o século XX e a falar da ditadura de Franco, etc., em que sabemos que o Barcelona e a Catalunha desempenharam aqui uma função quase de oposição a esse regime franquista. Portanto, o Joan Laporta está a ir buscar à história e a politizar completamente uma discussão ou um assunto que não tem propriamente a ver com isto. Eu percebo o que ele está a fazer, que é tentar distinguir claramente o Real Madrid do Barcelona e entrar aqui neste conflito direto, e diz até que o Real Madrid é historicamente favorecido pelas arbitragens, acusa a UEFA de estar a tentar denegrir o Barcelona para tentar denegrir também um dos elementos identitários da Catalunha. Mas eu acho que aquilo que se percebeu nesta conferência de imprensa com 100 jornalistas previamente acreditados no auditório de Camp Nou, que durou muito tempo, é que o Joan Laporta não tem propriamente explicação para estes 7,5 milhões de euros que foram transferidos para José Maria Enríquez Negreira, antigo vice-presidente do Comitê Técnico de Árbitros da Federação, ao longo de 18 anos. E a história, o caso, tem tido capítulos praticamente diários, pormenores que ainda precisam de ser muito bem explicados, como o facto do filho de Negreira ir buscar os árbitros aos hotéis e dar-lhes boleia para Camp Nou quando o Barcelona jogava em casa, e continua tudo muito por explicar aqui depois desta conferência. Ele continua a garantir que este não é um caso de corrupção desportiva, diz que Negreira era um simples consultor que realizava serviços para o clube e que não existiu influência direta em resultados de jogos. Atirou-se então ao Real Madrid, que diz que é historicamente beneficiado pela arbitragem. Atirou-se a Javier Tebas, o presidente da Liga, que continua a defender a demissão de Laporta se este não conseguir apresentar explicações, e atirou-se à UEFA por esta questão de estar a tentar denegrir um dos elementos da identidade da Catalunha, sendo que a UEFA está a investigar oficialmente o caso e que, como sabemos, uma das sanções que pode estar em cima da mesa é a exclusão do Barcelona das competições europeias nas próximas temporadas. Portanto, acho que Laporta, apesar de tudo, falou durante muito tempo, disse foi muito pouco para tudo aquilo que há para explicar com todos estes milhões ao longo de 18 anos.

A começar por ele. Aliás, a começar pelo fato de ele ter multiplicado por cinco os valores que eram pagos a Negreira. Mas deixa-me só acrescentar, esta guerra é importante em termos de futebol europeu, não só por esta questão do Barcelona estar a tentar desviar atenções de uma coisa que me parece bastante óbvia, que não era propriamente a coisa mais correta, porque as coisas corretas aparecem nas contas. Se tu colocas estes gajes de 7,5 milhões em gastos de honorários de clube, etc., é sinal que não estás muito confortável propriamente com aquilo que estás a fazer. Mas parece-me que esta guerra é importante em termos de futebol europeu, porque é a cisão daqueles que eram os grandes mentores da Superliga Europeia. E isso poderá ser, de facto, a notícia a tirar, depois tudo o resto irá seguir a sua investigação. E foi por isso é que o Real Madrid não reagiu logo ao caso Negreira. Florentino Pérez aguentou duas semanas e só depois é que falou. Se existe uma cisão entre Real Madrid e Barcelona, a questão da Superliga Europeia provavelmente vai morrer sem nunca ter nascido, mais uma vez. Portanto, isto é um remake daquilo que já aconteceu.

E agora vamos ao Marco. Portugal foi ultrapassado pelos Países Baixos no ranking da UEFA e vamos ter contas complicadas na época 2024/2025, porque só uma equipa portuguesa passa diretamente à liga que interessa, que é a liga milionária. Uma outra vai ter que fazer o caminho das pedras, como se costuma dizer. Isto é mau para o futebol português e é mau para as contas dos grandes, neste caso, por serem os que lá chegam.

Isto é genericamente mau para o futebol português. Vou fazer aqui uma coisa um bocadinho contrassenso. Há aqui um ponto positivo. Eu diria que se uma equipa como Futebol Clube do Porto, Benfica ou Sporting se for parar a uma Liga Europeia, sobretudo se for parar a uma Liga Conferência, pode não ser uma má notícia. E por quê? Porque os Países Baixos, aquilo que nós percebemos foi: as equipes de nível elevado dos Países Baixos não são superiores às equipes nacionais, seja Benfica, Futebol Clube do Porto, Sporting, inclusive Sporting Braga, se calhar aqui não dá bem para comparar, mas Ajax, PSV, Feyenoord não chegam a este patamar. Qual é a grande diferença? É que a competitividade do campeonato dos Países Baixos, que é um campeonato que as pessoas acham muita graça, tem muitos gols, é muito divertido, etc., é muito mais do que isso. Ou seja, as equipes de segundo plano, mal comparado no nosso caso, Vitória de Guimarães, olhando agora para a classificação, Arouca, Casa Pia, Rio Ave, etc. Essas equipes não têm um fosso tão grande em relação às primeiras, e é isso que faz a diferença.

E pontuam nessas ligas mais baixas.

O melhor exemplo, o AZ Alkmaar Que esta semana vamos falar também porque nas meias-finais da Youth League vão jogar com o Sporting e são claramente favoritos, porque são uma equipa fabulosa. Para mim é a melhor equipa da Youth League. O AZ, além de ter uma equipa fantástica de juniores, é competitivo no campeonato, não está a lutar pelos primeiros lugares, mas está a dar cartas na Europa e é a tal coisa da Liga Conferência. E foi aí que os Países Baixos foram começando a ganhar pontos, sem que nós, em Portugal, fugíssemos a uma coisa que é muito comum, que é quando o mal já está feito, quando já não há volta a dar, é que Pedro Proença, neste caso, chega à frente a dizer: "Se calhar, isto é uma boa oportunidade para pararmos e pensarmos um bocadinho".

Era isso que eu ia dizer. O importante é, nesta altura, agarrar nestas equipas de meio de tabela.

Não, o importante é pensar antes das coisas acontecerem. A questão é sempre essa. Eu diria que a centralização dos direitos televisivos, se for bem controlada, porque eu acho que tem de haver uma entidade que fiscalize como é que funcionam os fluxos de dinheiro, etc. Porque clubes que estão habituados a ter dois, de repente passarem a ter 20 ou 40, é preciso também ensinar, muitas vezes, em alguns casos, os próprios dirigentes a fazer a gestão. E é a coisa mais normal do mundo, e a Federação Portuguesa de Futebol faz isso em relação a clubes mais pequenos, ajuda mesmo, ensina as pessoas a serem melhores e a ter dirigentes melhores. Eu diria que a centralização vai ajudar a equilibrar isso, mas não é tudo. E a nossa própria liga acabou por cavar a sua própria sepultura, porque esta questão da entrada à Liga dos Campeões, e já vamos ver de seguida em relação ao Sporting, faz muita mossa naquilo que é a preparação de uma temporada e mais, daquilo que é a preparação de um projeto desportivo. Tu podes ter um treinador certo, podes ter o rumo certo, mas falhas a Liga dos Campeões, pode ser o teu final.

Vamos lá tirar a limpo, vamos à pergunta, à espera de resposta, porque vamos falar exatamente sobre isso. Vamos lá fazer contas. Nesta altura, ainda há duas equipas a entrarem diretamente na Liga dos Campeões, falo de duas equipas portuguesas, o primeiro e segundo lugar, mas caso o Sporting não consiga atingir essa liga, como é que vai ser a próxima temporada? Que é complicada, aliás, na fase mais difícil.

Ponto prévio, depois do empate com o Arouca, nesta altura, em termos meramente teóricos, é mais provável o Sporting entrar na Liga dos Campeões ganhando a Liga Europa do que propriamente conseguir recuperar os sete pontos de avanço em relação ao Sporting Braga. E por quê? Pode olhar-se para o jogo que o Sporting Braga tem na Luz com o Benfica, mas em termos de calendário e até pelo momento que as duas equipas atravessam, já me parece complicado o Sporting chegar ao terceiro lugar. Tem essa hipótese da Liga Europa, o vencedor da Liga Europa entra direto na Liga dos Campeões e vai inclusivamente para o pote um, seria algo extraordinário, mas nessa altura é a principal via. A minha questão é que, fazendo contas, se o Sporting teve de vender Pedro Porro em janeiro, é sinal que financeiramente precisava mesmo daquele dinheiro para equilibrar, sendo que o dinheiro, isto foi por empréstimo, só há de vir no final da temporada. Sem a Liga dos Campeões, tu não tens de vender um, tens de vender dois. Se tu tiras duas mais-valias o atual plantel do Sporting, não digo que fica banal, mas fica claramente atingido, porque essas mais-valias muito provavelmente serão Pote e Ugarte, Pote e Gonçalo Inácio, e se tu tiras estes dois jogadores nesta altura, o plantel vai ficar claramente enfraquecido. Portanto, eu diria que nesta altura, o Sporting tem um projeto desportivo bem definido, tem o melhor treinador possível para a ideia que tem para o atual futebol, a nível de aposta de formação, etc, mas muito provavelmente não terá os recursos para dar o passo em frente que o próprio Rúben Amorim queria.

Pode haver aqui um atraso nesse projeto. Um projeto que basicamente em todas as conferências, o Rúben mete em cima da mesa.

Sim, acho que é inevitável. Acho que a única coisa que vai mudar em relação à próxima época é que o Sporting vai passar a ter avançados. Acho que sinceramente é a única coisa que vai mudar, porque tudo o resto terá de ser adiado por essa não presença na Liga dos Campeões. Isso não invalida que, e agora passando a SAD para o clube, o Sporting continue a tentar reforçar as suas infraestruturas, ou seja, no início a grande aposta de Frederico Varandas foi, em termos de futebol, reforçar a academia e melhorar as infraestruturas na academia. Nesta altura, o próprio clube também está a tentar reforçar e aumentar essas infraestruturas na área de Lisboa. Isto tem a ver muito também com os pavilhões, porque o Sporting só tem aquele pavilhão e depois tem o multidesportivo e pretende mais pavilhões, porque tem muitas equipas de muitas modalidades. Agora, parece-me que isso não chegará para justificar uma próxima temporada da equipa de futebol, que necessariamente será complicada. Pode ser melhor, pode ser pior, mas será necessariamente complicada por essa ausência na Liga dos Campeões.

E as contas do clube ficam difíceis. Uma Liga dos Campeões que para o ano, aí teríamos três equipas com o Sporting Braga a entrar.

Ir à pré ou eliminar da primeira mão.

Exatamente, mas neste caso aqui também a obrigar um investimento, o que também depois pode, em termos desportivos, se o Sporting do Braga entrar através da qualificação, através desse caminho das pedras, digamos assim, vai ter o maior investimento, também pode depois, em termos desportivos, complicar as coisas para o Sporting.

Eu acho que o Sporting Braga há muito tempo que montou os alicerces para se tornar o quarto grande. E eu diria que não é pela Liga dos Campeões, é por conseguir agora juntar esta questão de vender parte da SAD ao Qatar, que vai ser importante, mas sobretudo aquilo que fez em termos de formação. E nesta altura nós vemos as equipas do Sporting Braga na formação, são tão ou mais competitivas do que as equipas dos grandes. É isso que vai gerar mais-valia desportiva e financeira, e é isso que vai também aproximar o Sporting Braga dos restantes. Terminamos por aqui a primeira parte deste "Nem tudo o que vai à rede é bola". Na segunda, vamos pedalar com o João Almeida.

Um gajo estar ali preso tanto tempo e depois ouvir falar português cada parte fora. Não se consegue descrever. Ninguém consegue descrever o que sente.

Este é o Sargento na Cela 7, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador.

E assim: "Dá-me uma granada, pá, dá-me uma arma qualquer, qualquer coisa". O meu instinto, isso não me esqueço nunca mais, era continuamente: "Agora vamos para o meio daquilo e dar cabo destes gajos todos".

Episódio seis: O Resgate.

E eu nunca mais me posso esquecer do abraço que ele me deu. Não me esqueço.

António Lobato foi o português que mais tempo esteve em cativeiro na guerra de África: sete anos e meio. Pode ouvir o Sargento na Cela 7 no site do Observador ou nas plataformas de podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.

Segunda parte deste Nem Tudo o que vai à rede é bola. Junta-se agora a nós João Almeida. Vamos falar de ciclismo numa altura em que está a preparar a quarta presença consecutiva no Giro d'Italia, depois de ter começado a temporada com o segundo lugar no Tirreno-Adriático e um terceiro na Volta a Catalunha. Começava por perguntar, o João teve um pico de competição entre o final de janeiro e o final de março. Agora está num estágio a preparar o Giro. Perguntava como é que está a correr esta nova fase e como é que acabou esse período de pico competitivo com o fim da Volta a Catalunha.

Sim, tenho corrido bastante bem. Fiz um bom bloco de competição. Acho que a competição correu bastante bem. O nível físico é bastante bom. Os resultados também foram bastante positivos. E agora é a fase final de preparação para o Giro, portanto, acho que estou no caminho certo.

O João começou a temporada com umas corridas em Espanha, depois fez a volta ao Algarve, onde terminou em sexto, depois daquele problema de comunicação no contrarrelógio final. Terminar em segundo no Alto do Malhão, só atrás do Pidcock, apesar de não ter tido depois continuidade, deu mote também para as provas que se seguiram e para esses resultados muito positivos.

Sim, claramente. O Malhão foi uma das etapas mais duras e o facto de ter feito segundo deu-me confiança da minha forma física e deu-me confiança para as próximas corridas.

Depois a seguir houve o Tirreno-Adriático, foi o melhor resultado que o João fez no Tirreno-Adriático, aquele segundo lugar. Perguntava se naquela penúltima etapa com a chegada ao Azim, se era possível ainda conseguir passar o Roglic, ou o Roglic é daqueles corredores que quando está em vantagem já é muito complicado depois conseguir batê-lo.

Sim, ele é muito explosivo, então é um pouco complicado, mas não conseguia dar mais, senão tinha passado com certeza. Mas mesmo assim fiquei bastante satisfeito com o resultado da etapa e na geral. E acho que foi muito positivo, um dos meus melhores resultados de sempre. E ficar em segundo atrás do Roglic acho que é quase uma vitória.

E sentiu em algum momento que era possível conseguir dar esse salto ou também a maneira como a própria Jumbo consegue defender quando alguém está lá na frente torna complicada essa missão de superar o Roglic?

Sim, torna-se complicado. Tem uma equipa forte. Mas individualmente ele é muito forte, é muito explosivo e tem sempre os sprinters muito fortes. Então também o tempo que arranha nas classificações fazem a diferença. Mas no geral, acho que em comparação com ele, acho que estou bastante bem.

A seguir conseguiu mais um pódio com aquele terceiro lugar na Volta a Catalunha atrás do Roglic e também do Evenepoel. O que é que sai daí em termos de indicadores positivos e o que é que sai também para ainda poder melhorar, para poder ficar mais próximo, não só do Roglic, mas também do próprio Evenepoel?

Sim, exato. Foi muito positivo. São dois corredores mais fortes da atualidade. E nas etapas mais duras estava lá com eles na frente, que é o mais importante. Ligeiramente atrás. Eles estavam um pequeno nível acima, mas tem que se ter em conta que os adversários fizeram altitude antes dessa corrida, então têm sempre uma pequena vantagem. E essa vantagem vai-se sair-me mal agora porque estou em estágio de altitude. Então o nível deverá ficar mais equilibrado e esperemos que no Giro corra tudo bem.

Há ali aquela última etapa que tem aquele circuito em Montjuïc, que além de ter bastantes bandeiras portuguesas, portanto, nota-se também esse apoio na estrada dos portugueses. A certa altura, o Soler consegue agarrar no Roglic e no Remco e parecia que o pódio até parecia em risco, ou seja, se o Soler conseguisse agarrar de vez. Durante a prova foi percebendo isso, ou seja, que esse pódio na classificação geral estava em risco porque o Soler tinha agarrado o Roglic e o Remco?

Sim, exato. O Marco esteve bastante bem, conseguiu segui-los. Então sim, houve um momento em que a diferença de tempo era elevada, mas acho que perder um pódio para um colega de equipa não seria um problema Um com um adversário a 37 segundos seria bom, seria no fundo quase igual.

Nem houve nenhuma indicação da equipa nesse sentido, ou seja, do acelera, do vai, do deixa de ficar. Como é que funciona nesse tipo de etapas em que as contas podem virar?

Sim, neste caso, nós só trocamos a nossa posição com outra, portanto não havia qualquer estreita. Se calhar se houvesse alguns adversários lá no meio, poderia ser um problema, mas neste caso seria igual.

O João está agora então nesse período de preparação para o Giro. Quais é que são as expectativas neste momento? Acredita que é desta que consegue garantir um pódio numa grande volta depois daquele quarto lugar em 2020, que acaba por ser o momento da explosão do João e do sexto lugar em 2021.

Sim, exato. Espero que seja desta. Se não for desta, terá que ser da próxima. Mas acho que está tudo a correr bem. Estou a um bom nível físico, que deu para comprovar na Volta a Catalunha. Acho que estou confiante nesse sentido e se não houver nenhum azar, acho que é bem possível. Agora é trabalhar no duro e estar focado. As coisas têm que correr bem no Giro para poder alcançar esse resultado.

Essa ideia de se não for agora é para a próxima, é fácil lidar com isso? Ou seja, com a desilusão, mas depois preparar-se logo para o próximo ano para ir tentar outra vez ou deixa-se estar ali um bocadinho uns dias a pensar naquilo que aconteceu?

Sim, depende da situação. Se não conseguir alcançar porque os adversários estão mais fortes, não há desilusão nenhuma, porque dei o que tinha e fiz o que podia. Mas se houver, como por exemplo, o caso do ano passado com o Covid ou quedas, etc., a desilusão é presente e demora um pouco tempo até a desilusão passar e voltar ao normal.

O João acabou por desistir na altura em que estava em quarto. Aquilo que eu lhe perguntava é, agora com alguma distância, um, se acha que ainda era possível recuperar aqueles 50 segundos ao Landa. E dois, quanto tempo depois de ter Covid e de ter parado é que conseguiu voltar a sentir-se normal e fisicamente como estava na altura do Giro?

Sim, claramente que tenho quase a certeza que conseguia o pódio. Claro que nunca vamos saber, porque não estávamos lá. Mas em relação ao Covid, demorei uns bons meses a voltar a sentir-me normal. Posso dizer que comecei a Volta e ainda não me sentia bem fisicamente. Fiz uma preparação muito pobre para a Volta, com más sensações, sem me sentir bem em termos de respiração e fisicamente. Mas durante a Volta comecei a sentir-me melhor e deu para fazer um bom resultado ainda, mas de facto demorei uns dois, três meses a sentir-me normal.

E consegue imaginar quando pensa, neste trajeto todo, só em termos de Giro, aquele quarto lugar em 2020, o sexto em 2021, o ano passado muito provavelmente iria ficar em terceiro ou quarto, ganhando sempre a camisola da juventude. Consegue imaginar este trajeto todo olhando para o Giro 2020? Porque o João aparece, faz um contrarrelógio fantástico logo a abrir, depois consegue ganhar a camisola rosa. Toda a gente quase que no início pensava: "Isto pode ser um dia, dois", de repente foram duas semanas. Se não fosse aquela etapa de montanha e até o Ron Dennis, que acaba por não contar nas contas, mas teve ali muita influência naquela etapa, provavelmente até chegava a um pódio. Consegue imaginar depois esta carreira toda de sucessos que está a ter até agora?

Claramente que não. Sabia que sempre fui bom corredor em corridas por etapas, neste caso nos caloiros de sub-23. O máximo que tinha feito era corridas até 10 dias, uma semana. Então era sempre uma incógnita num grande tour. Só mesmo quando fazemos é que percebemos como é que o corpo reage. E acho que mostrei que não foi só uma vez que o fiz e desde então que tenho estado sempre na discussão com os da frente. Portanto, acho que superei as minhas expectativas, mas agora coloco sempre expectativas cada vez mais altas e esperemos que correspondam.

O traçado da edição deste ano do Giro tem três contrarrelógios, o último deles a subir, e tem também muita montanha na terceira e na última semana. É melhor ou pior para as características do João?

Sim, eu acho que é melhor. Sempre disseram que quando a corrida é mais dura, me favorece. E este ano temos um Giro superduro em termos de percurso e vai ser superduro pelo ritmo, porque temos corredores com o nível muito alto. Então acho que vai ser um Giro dos diabos, como se costuma dizer. Esperemos que corra bem e que haja muito espetáculo.

Olhando, por exemplo, para 2022, este traçado e o facto de haver três contrarrelógios podia ter mudado um bocadinho a história? Ou seja, depois o João acabou por sair pela Covid, mas podia ter mudado um bocadinho também a história e podia estar no pódio, por exemplo, quando teve esse azar.

É uma boa pergunta. Eu sou uma das pessoas que às vezes acha que não vale a pena especular e tentar fazer expectativa. Mas eu gosto de ser das pessoas que gosta de comprovar as coisas na realidade e só se estivesse lá e se a corrida fosse na realidade essa, é que poderíamos ver. Mas há muitas coisas que se pode comparar. Depende dos corredores que estejam presentes, se são melhores contrarrelógistas, se são piores De um dia bom, um dia mau. É tudo muito relativo, mas normalmente o contra o relógio favorece-me, mas se calhar contra um Remco ou um Roglič vou sempre acabar por perder um pouco de tempo. Vamos descobrir. Mas é tudo um pouco relativo em relação aos corredores. Ter um dia bom, ter um dia mau. Tudo conta.

Olhando para a Tirreno-Adriático, que pode também ser o exemplo para algumas coisas. A primeira vitória do Roglič aparece numa etapa que até estava desenhada para ganhar o Wout van Aert, que acaba por ter uma queda e depois já não consegue chegar lá à frente na etapa. Aquilo que eu perguntava é se este ano sente que em termos de equipa da Emirates está um bocadinho mais cuidado do que os anos anteriores e se uma equipa é que faz um campeão, se concorda com essa ideia.

Sim, claramente sem uma equipa, um corredor não consegue ganhar. Os companheiros de equipa são essenciais todos os dias e sem a equipa, o melhor corredor não vence. Acho que é essencial ter uma boa equipa, mas também podes ter uma equipa excelente, mas depois não correspondermos de forma física e estar ao nível dos adversários, não dá para vencer. Acho que é as duas coisas. Tem que se ter uma boa equipa e tem que se ter as pernas para conseguir chegar com os melhores.

E esta UAE de 2023 é a melhor equipa que o João vai ter em termos de Giro até agora?

Estou bastante satisfeito com a equipa. Acho que vamos uma equipa bastante forte. Infelizmente, o ano passado tivemos algum azar com lesões, mas é o que é. Mas este ano acho que vamos uma boa equipa e sei que eles vão fazer o que puderem e acho que vão estar a um bom nível.

Embora ele não esteja agora no Giro, é inevitável falar de ciclismo nesta altura sem falar do Pogačar, que acaba de ganhar mais uma prova, a Amstel Gold Race, depois de já ter ganho este ano quatro provas, que é a Andaluzia, o Paris-Nice, também o Tour de Flandres. Como é que é trabalhar na mesma equipa daquele que é um dos melhores ciclistas da atualidade e até ter essa característica, essa particularidade de terem uma idade semelhante? Permite também ir aprendendo, ir evoluindo por estar ao lado dele?

Sim, claramente. Também se diz que quando não consegues bater, junta-te a eles e foi o que eu fiz. Juntei-me a ele. Mas ele é um corredor excelente, muito forte e continua a surpreender toda a gente, inclusive a mim, pelo espetáculo que faz. É um corredor de categoria e é bom ser colega de equipa com ele. Dá para aprender bastante e passar um bom bocado.

Em termos de trato pessoal, para alguém que é tão novo e que já conquistou tanto, ele é humilde ou consegue perceber, de facto, tudo aquilo que lhe está a acontecer e que não é propriamente normal?

Sim, ele é totalmente humilde e ele ganhe tudo ou não ganhe nada, é uma pessoa muito simples. É como se não se passasse nada. Fora da bicicleta, é uma pessoa normal, todos os dias que faz a vida dele. Acho que o torna ainda mais especial.

Ele o ano passado também teve de lidar com uma desilusão, se calhar uma das primeiras grandes desilusões que ele teve na carreira, porque normalmente é sempre a ganhar, que é perder a Volta à França para o Vingegaard. Como é que ele lidou com isso em termos de equipa e qual é que é o segredo dele para rapidamente voltar a ganhar e onde quer que entre, praticamente é quase um vencedor anunciado?

Acho que o segredo dele é mesmo esse. Há muitos corredores que querem ganhar o Tour e focam-se no Tour, mas o Tadej é um corredor que de janeiro a outubro, a qualquer corrida que ele vai, ele está a discutir a corrida e foca-se em todas. Ele foi segundo no Tour, não ganhou, mas foi segundo. Embora talvez tenha ficado um pouco desiludido, porque no fundo era um pouco tático. Podia talvez ser evitado, mas lá está, nunca vamos descobrir. Mas ele venceu muitas corridas, monumentos e quase todas as corridas que foi ganhou. Pode ter ficado em segundo no Tour, mas depois tem uma época brilhante e continua a estar a discutir tudo. Enquanto se calhar com o Vingegaard, se formos a ver, em termos de vitórias no geral.

Fechou um bocado a loja.

Foram muito parelhos.

O ciclismo atravessa um dos períodos áureos das últimas décadas, surgem nomes como o Pogačar, o Roglič, o Remco, o João, muitos ciclistas de enorme qualidade a lutar por vitórias que têm menos de 25 anos. Quais é que são os segredos para esta evolução que traz uma nova geração com tanta qualidade?

Sim, no fundo, se calhar, é trabalhar no voleio muito cedo. Se calhar antigamente os corredores levavam as coisas mais com calma, com o seu tempo, porque no fundo havia tempo. E hoje em dia, não. Nós desde os 18 anos, 17, 18, já trabalhamos muito profissionalmente e já somos profissionais basicamente desde os 18 anos, o que acelera muito o processo de ganhar forma física e ser mais forte e melhor corredor.

Este ano vamos ter o João no Giro, completamente concentrado no Giro, depois provavelmente na Vuelta. Em 2024 vai haver uma coincidência que é a Volta à França vai acabar quase colado aos Jogos Olímpicos, que também é em Paris. Pergunto, em 2024 o grande objetivo é fazer pela primeira vez o Tour e depois em termos de Jogos Olímpicos, tendo em conta até que faz 20 anos que o Sérgio Paulinho conseguiu ganhar a primeira e única medalha no ciclismo para Portugal, se também seria especial ganhar uma medalha em Paris

Sim, claramente. Acho que o sonho de qualquer atleta é sair medalhado nos Jogos Olímpicos. Até só estar presente já é especial. Mas eu gostava de fazer o Tour em 2024. Não sei se será possível, esperamos que sim. E claramente que os Jogos Olímpicos também estão no programa.

E essa ideia de fazer o Tour é porque acha que o Giro está na altura também de parar um bocadinho ou é porque tem o sonho de estar no Tour, que é considerado por muitos a grande prova do ano?

É ambos. Já faço o Giro há bastantes anos e é sempre bom mudar. Também quero ter a minha oportunidade no Tour e saber como é que é fazer um Tour de France e esperemos que seja para o ano.

A verdade é que o João enfrentou condições muito complicadas em Tóquio, foi a estreia nos Jogos, apesar de tudo. Deixou-lhe o bichinho, ou seja, esta ideia de que ainda pode ir atrás de uma medalha deixou-lhe também o sonho olímpico, acrescentando a todos os outros que já tinha.

Sim, claro. Ganhar uma medalha nos Jogos Olímpicos é quase um sonho. É muito difícil. Fico satisfeito com a minha prestação nos Jogos de Tóquio. A corrida de estrada correu bastante bem. O contra-relógio nem por isso, mas acho que é ainda mais na estrada que tenho que focar. Acho que não vai ser fácil o meu lugar porque estão lá todos com o mesmo objetivo, mas vamos lá estar com tudo o que temos e trabalhar no grupo para isso.

Para finalizar, em 2023, o Giro, podemos escrever "João candidato ao pódio" ou "João candidato à vitória"?

Boa pergunta. Acho que se está no pódio é porque se está na luta pela vitória, mas eu gosto de ter os pés assentes na Terra, portanto vamos dizer candidato ao pódio.

Obrigado, João Almeida. Termina assim este "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola". Daqui a pouco pode ser ouvido em podcast em observador.pt.