Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa assim mais uma edição deste Nem Tudo o Que Vai à Reda Bola na Rádio Observador. Bruno Roseiro, Mariana Fernandes, Aníbal Rebelo. Nesta segunda parte vamos estar à conversa com Jorge Vieira, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo. Isto à boleia das medalhas que foram conquistadas nos Europeus de Pista Coberta, que tiveram lugar na Turquia. Para já vamos aos destaques. E Mariana, lá está, vamos aqui a uma figura coletiva, a seleção de atletismo.

Sim, a verdade é que Portugal tinha conseguido há dois anos, em Turim, a melhor participação de sempre nestes Europeus de Pista Coberta e agora voltou a melhorar essa participação, apesar de ter menos um ouro. Na altura voltou com três medalhas de ouro, agora volta com três medalhas, mas apenas duas de ouro. Mas no que toca à classificação por pontos, ou seja, ao conjunto dos pontos conquistados por todos os atletas, a verdade é que esta é a melhor participação de sempre do atletismo português nos Europeus de Pista Coberta. Pedro Pablo Pichardo e Oriole Dongmo revalidaram os seus títulos. Tinham a medalha de ouro de 2021 e conquistaram agora também no triplo salto e no lançamento do peso em 2023, com não só essa margem enorme de vantagem do Pichardo, que faz mais do que um metro do que o segundo classificado, mas da própria Oriole, que também faz mais do que um metro da segunda classificada e que aproveitou um dia para esquecer da Jessica Schilder. A Patrícia Mamona não foi além da medalha de bronze. Ela depois acabou por dizer que se tinha lesionado na qualificação, portanto, que disputou a final lesionada. E a verdade é que se percebeu que estava a saltar limitada e que estava claramente a saltar abaixo daquilo que ela já mostrou até nesta temporada e até a nível nacional, nas provas nacionais, aquilo que consegue fazer e aquilo que consegue saltar. Além destas três medalhas, Portugal conseguiu um total de nove finais, portanto, 41 pontos na classificação por seleções em 22 atletas, sendo de destacar ainda também a estreia da Ariadnis Martínez por Portugal com a primeira final de sempre nos 60 metros e um quinto lugar, igualando o recorde de Loren Bazulo, os quartos lugares de Tiago Pereira e Jéssica Enxuto. Aqui, curiosamente, nas vertentes em que Portugal conquistou o ouro, portanto, no triplo salto, para além do ouro de Pichardo, quarto lugar de Tiago Pereira e no lançamento do peso, para além do ouro da Oriole, quarto lugar de Jéssica Enxuto. E a verdade é que a Marta Pen também fica no sexto lugar nos 1500 metros, faz a melhor marca do ano. Portanto, Portugal tem aqui uma prestação positiva, apesar de ter regressado com menos uma medalha de ouro.

Mas há outros destaques, não é? Além dos nossos.

Sim, três grandes destaques. Eu diria que, se calhar, a par do Pichardo, até mais do que a Oriole, são os grandes destaques desta prova. A Femke Bol, que é uma neerlandesa que bateu, antes destes Europeus, o recorde mundial dos 400 metros em pista coberta e que nesta altura toda a gente já está à espera do duelo dela com a Sydney McLaughlin nos Jogos Olímpicos de Paris, neste caso nos 400 metros barreiras. Depois tivemos a Thiam, que é uma atleta belga que eu tive de ir ver a idade, porque já estamos habituados a ganhar, seja jogos mundiais, europeus, etc. Ela só tem 28 anos e mesmo assim consegue chegar a estes Europeus de Pista Coberta e bater o recorde mundial do pentatlo. E depois, inevitavelmente, o Ingebrigtsen, norueguês, ganha os 1500, ganha os 3000. Portanto, diria que estes três foram as grandes figuras da prova. Ainda assim, uma grande surpresa, o Samuele Ceccarelli, que consegue ganhar ao Marcell Jacobs, que é o campeão olímpico nesta altura dos 100 metros. Ganhou na prova dos 60 metros e diria que foi talvez a maior surpresa de todas pra quem foi tentando acompanhar, até porque não havia zigzag a essa hora, portanto, da qualificação deixou de haver o zigzag. Para quem foi acompanhando esta competição, diria que foram os principais destaques que saíram de Istambul.

E em relação aos portugueses, eu ainda estou a ver ali o triplo que foi feito pelo Pichardo e aquilo parecia tão fácil.

Não, sim.

Parece sempre.

É uma coisa incrível. Para eu parece que podia dar mais um pouquinho, mas não vale a pena.

Não, mas podia ter sido engraçado e eu até diria: a probabilidade dele saltar mais, fazer uma marca melhor nestes Europeus de Pista Coberta dependiam de o Dias já poder representar Espanha. Mas como ele só pode representar a partir de junho de 2024, esse duelo fica guardado para os Jogos Olímpicos de Paris, esperemos nós. E olhando para o resto, ele não tem adversários. Ele está a saltar contra ele próprio. Ainda assim, com alguma pena minha, uma distância grande ainda daqueles 18 metros e nunca mais saem os 18 metros para Portugal.

Vamos lá ver. Agora vamos ao número três, que é o número de medalhas internacionais que foram conseguidas pela Patrícia Sampaio só este ano. E vamos com três meses, não é? Três meses.

Sim, três meses. Sim, basicamente pra ela são quatro competições. Ganhou em Portugal, curiosamente com a Ana Ormigo no banco, depois faz terceiro em Telavive, agora faz terceiro em Tashkent, neste caso com o Pedro Soares como seu treinador. Acho que há ali uma vitória fundamental. Portanto, ela perde no último combate da fase preliminar com a Rika Takayama e cai para as repescagens e depois tem a grande vitória com a Anna-Maria Wagner, que é uma das judocas mais consituadas em menos de 78, é a terceira do mundo Garantiu depois a medalha de bronze com a Medka Lobnik, que era uma judoca com o ranking um pouco mais baixo. Agora, aquilo que se começa a perceber é que ela só tem 23 anos, apesar de já andar na alta roda há algum tempo, e quando não tem lesões, o potencial para poder chegar a medalhas em qualquer competição internacional que entre é muito grande. E a manter-se esta fase muito positiva que ela está a atravessar, diria que, até mais do que uma Telma Monteiro, um Jorge Fonseca ou uma Bárbara Timo, diria que é uma das principais candidatas a uma surpresa como a Catarina Costa, por exemplo, esteve quase a fazer em Tóquio. E vamos ver se isto continua assim. Eu diria que, nesta altura, o grande adversário da Patrícia Sampaio pode ou não ser as lesões e nesta altura claramente ela está a ganhar.

Vamos acompanhando até lá, até nesse caminho até Paris. Já que falavas na Catarina Costa, ela também está em destaque nesta prova.

Sim, e depois dessa quase surpresa nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a verdade é que este 2023 vinha a trazer algumas desilusões para a Catarina Costa e ela consegue aqui em Tashkent o seu primeiro pódio do ano, com uma medalha de prata nos menos de 48, que até acabou por saber a pouco, porque a verdade é que ela só perde por wazari mesmo nos instantes finais. Também aqui em Tashkent, no Uzbequistão, a Bárbara Timo perdeu na fase preliminar, mas a Maria Sidó esteve na luta pela medalha de bronze, perdeu com aquela que é atualmente a vice-líder mundial do ranking de menos 52, a húngara Reka Pup, mas fica essa nota e esse destaque para o primeiro pódio de 2023 para a Catarina Costa.

Destaques já com as medalhas que aí vêm. Vamos à citação de hoje. É do lado do futebol: "Todas as equipas que estão na fase a eliminar têm hipótese de ganhar a Champions, mas não com a mesma probabilidade". Quem disse isto foi Roger Schmidt, treinador do Benfica, na antevisão ao jogo de hoje com o Club Brugge. Isto, Bruno, fez sonhar os benfiquistas, pelo menos as redes sociais andaram loucas.

Sim, porque mais uma vez, nós na semana passada tínhamos aquela frase de Pinto da Costa sobre o VAR, onde se nós cortássemos só a parte do "acabem o VAR", era uma coisa, se olhássemos para a frase toda, era outra. E aqui é um pouco isso, ou seja, cortou-se a frase a dizer apenas e só: "Temos hipótese de ganhar a Liga dos Campeões", mas depois falta esta parte do "mas não com a mesma probabilidade dos outros". E eu percebo aquilo que Roger Schmidt diz. Parece-me que nesta altura, o Benfica, não digo que já está passado, mas está muito bem encaminhado para chegar pela segunda vez aos quartos de final. Já vai ter garantidamente a maior receita de sempre a nível de Liga dos Campeões, com 72,6 milhões de euros. Agora, a partir daí vai depender um pouco daquilo que poderá vir do sorteio. E se calhar o vencedor de um Bayern-Paris Saint-Germain ou de um Real Madrid-Liverpool é uma coisa. Agora, também existem outros jogos, nomeadamente o Tottenham-Milan, que é aquele que eu olho mais, ou inclusivamente um Futebol Clube do Porto-Inter, o vencedor dessa eliminatória poderá abrir uma janela de oportunidade para o Benfica voltar à meia-final da Liga dos Campeões, que é algo que já não atinge há algum tempo e que acaba também por ser quase um prémio internacional para uma grande época e para aquele que eu acho que é um dos maiores feitos do Benfica esta temporada, que é ter terminado a fase de grupos sem qualquer derrota e à frente do Paris Saint-Germain. Esta, para mim, é uma das grandes vitórias do Benfica esta época.

E nesse caminho também na senda de vitórias, está o que está a acontecer no campeonato também em grande destaque. O Benfica nesse ponto continua a manter-se na liderança, sem perder pontos para quem vem ali atrás, pelo menos agora nestas últimas jornadas. E antecipa-se aí um grande clássico.

Sim, e esta acabou por ser uma jornada onde pouco mexeu, pelo menos no topo da classificação. Portanto, os quatro primeiros ganharam todos, nada mexeu, as distâncias mantiveram-se todas. No caso do Benfica, aqui em particular, ganhou no Estádio da Luz ao Famalicão por 2 x 0. Estamos a 11 jornadas do final, mantêm-se os oito pontos de vantagem do Benfica na liderança do campeonato, que obviamente, e com o passar das jornadas e o passar das semanas, ganham uma dimensão maior e ganham uma importância maior, porque se perdem também as oportunidades que o Futebol Clube do Porto vai tendo ou não vai tendo para se aproximar da liderança. Ao mesmo tempo, e depois da grande irregularidade nos primeiros meses do campeonato, o Sporting parece ter agora encarrilhado um pouco para prestações mais regulares, para resultados também mais regulares. Leva quatro vitórias consecutivas entre campeonato e Liga Europa, extenante Câmara da receção ao Arsenal esta semana, e mantém também essa distância de cinco pontos para o terceiro lugar, quando estamos a duas semanas, como também dizias, entre este clássico na Luz e também do Sporting Braga Futebol Clube do Porto, que ou fecha as contas do primeiro lugar ou pode reabrir por completo a discussão pela terceira posição. Portanto, a verdade é que as coisas com o aproximar do campeonato e com a perda de pontos de algum destes quatro primeiros classificados podem agitar-se mais um pouco, com o Benfica obviamente a partir com alguma vantagem nesta altura.

Digamos assim, da pole position.

Exatamente.

E vamos ao Marco, por falar em pole position. Falamos aqui da dobradinha da Red Bull. Esta época, nesta que foi a primeira prova do ano, foi no Bahrein. Aqui com destaque, se os dois meninos da Red Bull estiveram bem Há um senhor um pouco mais crescido.

Menino.

O Fernando Alonso, que desta vez fez uns treinos extraordinários na sexta-feira, na sessão de treinos livres, surpreendeu ali e depois surpreendeu também na corrida. E há mesmo quem diga que se tivesse partido um pouco mais à frente, a coisa até tinha sido bastante mais difícil.

É a Red Bull que diz isso.

Claro que a sorte de uns é o azar de outros, portanto, claro que tem ali aquela ajuda do abandono do Leclerc, sendo que eu não sei até que ponto ele também não chegava lá, independentemente do abandono do Leclerc ou não, mas teve esse empurrão. Este início de temporada na Fórmula 1 prometia muito, nem que fosse pela ideia de que nos testes e também na qualificação entre sexta e sábado, os Red Bull não tinham sido assim tão esmagadores como se achava que seriam. Aliás, o Alonso ganha duas sessões de testes. Portanto, existia esta ideia de que talvez a Red Bull não estivesse assim tão à frente dos outros todos como se achava.

Pode ter sido bué ou não? Não sei, porque falavas da sexta-feira.

Eu acho que isto vai ser assim a temporada toda. Ou seja, acho que os testes e a qualificação podem até não ser esmagadores, mas chegam lá, fazem pole, ou ficam em segundo, ou ficam em terceiro, porque eu acho que a Ferrari vai acabar por fazer umas poles, mas chega o dia de corrida e aquele é o melhor carro. Em dia de corrida é o melhor carro em corrida, é o melhor carro em performance de corrida, e eu acho que vamos assistir a muitas destas procissões e estamos a voltar um pouco à era da hegemonia da Mercedes. Neste caso, aqui no Bahrein, no primeiro grande prêmio do ano, o Verstappen conseguiu o pole, a Red Bull fica com os dois primeiros lugares, portanto o primeiro lugar para o Verstappen, que faz a primeira vitória do ano nesta tentativa de chegar a tricampeão mundial e o Perez a ficar em segundo. Os principais adversários voltaram a revelar as mesmas fragilidades. O Sainz, como dizíamos, salvou a Ferrari depois da desistência do Leclerc com problemas no carro. A Mercedes teve o Hamilton em quinto como melhor piloto, mas ficou claro que a Mercedes nesta altura e nesta corrida esteve até atrás da Aston Martin, ficou muito longe da decisão e a McLaren vai precisar de fazer alguma coisa para não ter aqui uma época de desilusão. E acho que desilusão é dizer pouco. A grande surpresa, como dizias, é esta confirmação de que a Aston Martin este ano passou a contar para as contas do campeonato. Fernando Alonso foi o melhor em duas sessões de treinos livres, fez muito bem também na qualificação, teve carro em corrida não só para passar o Hamilton e o Sainz, como para depois chegar ao pódio e ao primeiro pódio desde 2021, apenas o segundo desde 2014, sendo que o próprio Lance Stroll também acabou em sexto. Portanto, não foi apenas uma questão individual do Fernando Alonso, embora isso também tenha tido alguma diferença. Portanto, acho que as contas se agitaram um pouco. A Aston Martin entra claramente aqui no campeonato para lutar, se calhar não pelo segundo lugar, não sei até que ponto chega lá, mas para tentar destronar até a Mercedes do pódio. E acho que aquilo que fica provado aqui no Bahrein é que dificilmente a Red Bull terá rival este ano.

E para a Aston Martin, há aí uma justificação. Será que há, será que não há, mas pelo menos é o que se diz. Tem a ver com uma contratação de um senhor muito especial nestas coisas, que é muito importante. Às vezes fala-se muito do motor. "O motor é melhor." Mas há aqui um pormenor que se chama aerodinâmica.

Os goleadores, se não lhes passarem a bola, não fazem gol. Passando do futebolês da Fórmula 1 para o futebolês, é um bocado por aí. Eu achei muito mais piada ao pós-corrida do que à corrida em si, sobretudo por ver o Helmut Marko a falar dos três Red Bull no pódio, embora só dois fossem deles. Depois o Christian Horner também a dizer: "Não, eu achei muita piada, o nosso carro antigo ainda continua a andar bem, etc." E isto radica tudo, ou entronca tudo, na passagem do Dan Fallows, que era o chefe da parte aerodinâmica da Red Bull para a Aston Martin. O Helmut Marko foi um pouco mais à frente e disse mesmo: "A maneira como está feito o Aston Martin não pode ser só a memória dele." Ou seja, ele teve de levar documentos daqui para fazer um carro assim. Não saberemos se haverá um Fallows Gate. Agora, esta questão da Aston Martin não é só ir buscar as pessoas. A equipe passou de 400 para 700 funcionários, está a acabar a sua fábrica nova ali ao pé de Silverstone, que vai ter uma tecnologia de ponta, ou seja, escusou de estar agora na fábrica atual, que era da Force India, e a trabalhar no túnel de vento da Mercedes. Portanto, existe todo um trabalho a ser feito, e muito bem alicerçado no Fernando Alonso, que para mim ainda é o piloto que melhor consegue desenvolver um carro, e portanto a Aston Martin aí acertou 100%. E o mais curioso no meio disto tudo é o próprio Toto Wolff, da Mercedes, que já está a ver que a Aston Martin conseguiu tirar dois segundos em seis meses. Isto aqui até mostra que mais do que a Aston Martin já estar à frente da Mercedes, porque nesta altura está, eu acho é que a Aston Martin está muito mais perto da Red Bull do que nós próprios poderíamos pensar. Vamos ver agora nas próximas corridas se vai ser assim ou se a própria Red Bull também vai ter. Porque a verdade é que o Maradona ou o Pelé lá do sítio chama-se Adrian Newey e continua na Red Bull. Vamos ver até que ponto é que ele vai ter mais alguma jogada de mestre para desenvolver o seu carro.

E vamos agora à nossa pergunta, que está à espera de resposta. E a pergunta é esta, Bruno: o que faz Rui Costa segurar Domingos Soares de Oliveira e até quando é que isso vai acontecer? Isto depois de tudo o que aconteceu durante esta semana. Semana passada esta crise toda.

É uma coisa muito fácil. A partir de agora está acusado no processo do saco azul. A partir daí, acho que agora as coisas mudaram. O que faz Rui Costa nesta altura segurar? Primeiro, Rui Costa continua a achar que ele é uma mais-valia em termos internos e na sua função enquanto co-CEO. Dois, é alguém que conhece muito bem o Benfica, são quase 20 anos de Benfica. E três, é alguém reconhecido em termos internacionais. Existe também a esperança por parte de Rui Costa, daquilo que foi falando com a equipa de advogados do Benfica, de que há a possibilidade de Soares Oliveira cair logo na instrução, ou seja, nem sequer ir a julgamento por esta questão do processo saco azul. O problema de Rui Costa, e voltou a ser passível e muito patente no sábado de manhã, segundo me foram contando, na entrega de emblemas da Aguia de Ouro e da Aguia de Prata. É cada vez maior a pressão sobre Rui Costa para demitir Soares Oliveira. É em termos internos, é na direção, são sócios do Benfica.

Há uns almoços ou uns jantares.

Sim, uns jantares convívio que o próprio já sabe, mas que depois supostamente nem sequer se fala nisso. Mas claramente Soares Oliveira tem o terreno cada vez mais minado. E Rui Costa a partir de agora vai ter que tomar uma opção, sendo que qualquer opção que ele tome, à luz dos resultados, está salvaguardada. Agora, sabe é que tem ali alguém que não é propriamente uma figura que tenha muito futuro no Benfica, tendo em conta todo este contexto que ficou adensado com a questão do processo saco azul.

É mais um tema que vamos acompanhar aqui no Observador. Na segunda parte vamos estar aqui à conversa com Jorge Vieira, que é o presidente da Federação Portuguesa de Atletismo. E aqui vamos nós para mais uma corrida. Mariana Bruno, junta-se a nós Jorge Vieira. Vamos falar de ouro e bronze no atletismo português. Antes de mais, obrigado por estar presente aqui nesta edição do "Nem tudo o que vai a rede é bola". Senhor Presidente, como é que analisa os resultados da seleção estes dias em Istambul? Vinte e dois atletas, três medalhas, nove finalistas, 41 pontos. Novo recorde.

Antes de mais, muito obrigado pelo convite para estar aqui convosco. É sempre, obviamente, com grande orgulho e com grande satisfação que ao representar a modalidade, nós chegamos a estes momentos, porque são os momentos que nós ambicionamos sempre. No desporto é ganhar. Naturalmente que sabemos que o ganhar também se faz de muitas derrotas e estes atletas sabem bem o que isso custa, mas foi um bom fim de semana para o atletismo português, porque batemos os recordes e também o atletismo é a modalidade que mais está ligada aos recordes. Eu julgo, aliás, que deve vir do atletismo precisamente esse conceito de recorde, porque é a modalidade olímpica mais antiga e é um dos nossos grandes objetivos sempre bater recordes: os recordes pessoais, os recordes do clube, os recordes regionais, os recordes nacionais, os recordes europeus, os recordes mundiais. Mas neste caso aqui foi uma competição individual, mas que no fim tem um resultado numa pontuação comparada com os outros países. E como já muito bem referiu, os 41 pontos colocaram-nos numa posição excelente em termos europeus, em comparação com os nossos países de referência. E aqui não há competições relativas. Nós temos 10 milhões de habitantes e competimos com países muito maiores do que nós, com outro desporto, com outra evolução, com outro desenvolvimento, com outra capacidade económica. E é sempre bom quando nós conseguimos, individual e neste caso também coletivamente, superar-nos. As medalhas são sempre a ponta do iceberg na nossa atividade, mas é aquilo também que faz com que certamente eu esteja aqui, porque se tivéssemos terminado esta competição sem medalhas, eu não estaria aqui sentado convosco.

Mas deixe-me agarrar nessa questão das medalhas. Daquilo que perspetivava agora para esta edição de Istambul, esperava exatamente tudo aquilo que aconteceu, mas uma medalha de ouro em vez da medalha de bronze da Patrícia? Era isso, mais ou menos, que já estava pensado?

Eu esperaria claramente que a Patrícia fosse campeã da Europa. Para uma vice-campeã olímpica, era de esperar, com certeza, que o conseguisse. Mas confesso que esperava mais em termos de medalhas até. O que não quer dizer, de maneira nenhuma, que esteja a dizer que foi um insucesso ou que ficámos aquém das expectativas, porque eu, sobretudo com a idade que tenho e com os anos que tenho da modalidade, sei bem o que é traçar expectativas e traçar expectativas de vitórias ou derrotas no desporto, seja no atletismo, no futebol ou noutra qualquer modalidade, é sempre um exercício de adivinhação em que nós não devemos cair. Eu acho sempre muita piada quando se pergunta à entrada dos estádios: "Então, quem é que vai ganhar?" Eu responderia sempre-

Quando nós olhamos para o desporto nacional, é assim que se dão, por exemplo, bolsas e se fazem orçamentos. Por exemplo, o projeto olímpico tem sempre como base vamos ganhar X, vamos chegar a isso.

Sim, mas sabemos que acaba sempre por ser atribuído o apoio através do histórico das modalidades, não através dos sonhos. O atletismo português se vivesse só do sonho futuro, não teríamos o apoio que temos, porque obviamente que temos um currículo olímpico imbatível, incomparável com outras modalidades. Temos os únicos campeões olímpicos do desporto português, que são cinco, infelizmente para o desporto, com muito orgulho para nós, mas infelizmente para o desporto português, porque devíamos ter, obviamente, outra performance. Claramente estamos atrasados em termos de medalhas olímpicas relativamente aos países da nossa dimensão. Mas naturalmente que, repito, nós não vivemos de sonhos e de objetivos apenas futuros. Vivemos também do nosso historial E é claramente por aí também que nos são atribuídos os apoios, quer para a preparação olímpica, quer também no âmbito do IPDJ, de uma forma mais geral, para o desenvolvimento da modalidade. E sabemos que estas medalhas são também fundamentais para isso.

Voltando à questão da Patrícia Mamona, ela disse que se tinha lesionado na altura da qualificação. Perguntava se já sabia, antes da final, que ela estava lesionada ou que ia participar nesta final lesionada. E como é que se gerem estas horas em que é preciso ouvir o atleta e perceber aquilo que será possível ou não atingir na final?

Eu não sabia. E eu diria que devia de saber. E também julgo que publicamente se devia de saber. Eu acredito 1000%, se assim se pode dizer enfaticamente, na lesão referida, na queixa referida pela atleta, mas são pequenos pormenores, e eu julgo que isso se aprende também com os anos em que andamos cá, que me levam a dizer que isto devia ter sido dito antes. Mesmo que participasse, porque assim pode soar e eu julgo que é extremamente injusto para a atleta, eventualmente haver pessoas, e sabemos que há pessoas para pensar tudo e imediatamente criarem todas estas imagens, de que isto era ou foi uma desculpa. E não acredito que a Patrícia, que sabe muito bem já, e assume isso claramente, frontalmente, o que é perder e o que é ganhar, e quando perde diz: "Já estou concentrada na próxima, porque na próxima quero ganhar." Já lhe aconteceu antes da medalha olímpica, antes de outras medalhas, ter estado menos bem e com certeza que ela não precisaria de maneira nenhuma dizer isto. Mas em resposta à questão, eu não sabia, devia ter sabido e eu diria que o público também devia ter sabido. O problema é que às vezes são percepções de lesão, de queixas, de dores. Eu, por exemplo, e ainda por cima a minha área de ex-treinador era precisamente na área dos saltos, eu vi a saltar e não vi razão nenhuma de queixa. Mas o atleta quando tem estas, que na gíria médica do futebol se chamam as mialgias, às vezes mialgias de esforço, que mais não são do que dores musculares resultantes do treino e da competição, e no triplo salto é uma disciplina violentíssima, provavelmente até foi algo que sentiu no aquecimento, algo que sentiu no dia anterior. Portanto, lá está, eu poderia saber, mas não sabia e se calhar também não devia de saber, porque ninguém sabia. Horas antes, se calhar, é que se manifestou e às vezes é mesmo no aquecimento que se tem a perceção de tudo isto.

Olhando aqui para o quadro feminino do triplo, o Pichardo voltou a não ter adversário, ou seja, ainda foi mais do que nos Mundiais, ganhou por mais de um metro. Pergunto: nesta altura, em termos europeus, só o Jordan Diaz é que podia ser adversário do Pichardo?

Não sei, vamos ver o futuro. Não sabemos. O triplo salto é uma disciplina extremamente ingrata. O triplo salto deixa sempre, e já explico por quê esta ideia, no ar a possibilidade de haver surpresas, precisamente pelo tipo de esforço que representa o triplo salto. O triplo salto é, arrisco dizer sem grande dúvida, a disciplina mais violenta, mais agressiva em termos de estresse físico que o atletismo tem. E provavelmente das modalidades desportivas, à parte aquelas de lutas e combates, é uma modalidade que fisicamente, posso dizer que na queda do primeiro salto o peso do corpo chega a atingir 20 vezes o peso do corpo no impacto no chão, o que representa, na realidade, uma situação de estresse muscular, articular, de cartilagens, ligamentos, extremamente violenta. E por isso mesmo, atletas que são grandes esperanças chegam ao momento da competição e não está presente porque ficou lesionado. Tudo isto obriga a uma gestão inteligente do esforço por parte dos atletas, quer ao nível do treino, quer ao nível da competição. O Pedro tem conseguido, com o treinador e pai, Jorge Pichardo, uma gestão muito boa destas cargas, o que o tem levado a estar sempre num magnífico estado de forma quando conta, no dia certo. E naturalmente que eu espero que assim continue. Agora, sabemos também que é inevitável, com o acrescentar de anos e de envelhecimento das estruturas que todos nós estamos sujeitos, se calhar a partir do momento em que nascemos, começamos a envelhecer, mas num atleta isto tem um grande impacto e podemos esperar, com certeza, com os anos, que haja mais queixas. Até agora, ele tem conseguido gerir tudo isto e eu espero que nos momentos certos, e o próximo vai ser ainda este ano no Campeonato do Mundo em Budapeste, Hungria, eu espero, naturalmente, que ele esteja de novo num bom nível de forma.

Ainda, mais uma vez, sem o Jordan Diaz, sem estar a competir contra ele.

Pois, eu aqui sou muito claro. Eu não posso desejar de maneira nenhuma, seria hipócrita se eu estivesse a desejar que os outros estivessem todos em muito bom estado de saúde. Acho graça, às vezes, até no futebol dizer: "Eu gostava que estivessem todos em campo, todos, até os adversários, para ser um bom espetáculo." Não acredito nesse discurso. Naturalmente que o resultado final também depende não só do que acontece na competição, mas de toda a gestão que o atleta fez da sua vida, do seu estado de saúde, do seu estado de forma, aquilo que poupou ou não, o seu equilíbrio mental, porque alguns dos atletas, algumas das últimas grandes estrelas do triplo salto, eu não gosto, até na minha vertente mais da psicologia clínica, não gosto de dizer isto, mas alguns atletas têm sido extremamente desequilibrados na forma como abordam as suas carreiras e viu-se isso já no tempo do Do Nelson Évora, que foi também um grande exemplo de equilíbrio e de resiliência para sair dos momentos difíceis em que a carreira dele avançou e algumas gravíssimas, com fraturas, etc. Lá está a violência da disciplina, mas ele soube, apesar de tudo, manter um grande equilíbrio que o levou a uma longevidade extraordinária, excepcional nesta disciplina do atletismo, uma disciplina que não é muito dada a grandes longevidades.

Olhando para esta questão, temos o caso do Pichardo, temos o caso do Jordan Dias, existem incontáveis outros. O que é que esta escola cubana tem de especial e como é que podemos explicar o facto de quase nascerem saltadores e triplistas de enorme sucesso com tanta facilidade?

Uma das razões tem a ver não só com Cuba, mas com as Caraíbas. É uma tese que está em cima da mesa sempre e que tem a ver até com os circuitos da escravatura. É interessante chegarmos a este tipo de análise até de caráter histórico e social, porque muitos destes povos que povoam hoje as Caraíbas são oriundos da escravatura vinda da zona da Nigéria, onde, vejam bem, surgiu também o nosso Francis Obikwelu, que veio para Portugal com 17 anos para um campeonato do mundo e se fez cá. Praticamente ele não tinha treinado atletismo antes de vir para cá e que têm muito origem nesta zona. Os velocistas. Já os fundistas vêm da zona do Quénia, Etiópia, etc, de outra área de África. Claro está que nada disto resulta apenas, quer os velocistas da Jamaica, quer os saltadores da escola cubana, tem a ver apenas com o talento, porque o talento só se confirma depois no ambiente social em que o desenvolvimento lhes é proporcionado, as condições de treino, os bons treinadores para conseguirem depois sair. E a partir de um determinado momento, já é tudo isto que eu disse até agora, mais a tradição. Isto é, junta-se a tradição. Junta-se nestes países como a Jamaica, por exemplo, a tradição com as provas de velocidade, em que se chega ao ponto de todas as crianças na escola querem experimentar para ver se podem ser também um Usain Bolt ou, no caso de Cuba, quererem ser também como os grandes saltadores cubanos, como um Javier Sotomayor no salto em altura, ainda recordista mundial. E então estabelece-se uma cadeia de tradição. E é talvez uma das grandes forças que um país pode querer ter em qualquer área, mas no desporto também em particular, que é estabelecer estas tradições que levam a que os jovens queiram também copiar os campeões. Nós tivemos essa escola, eu diria que ainda temos, e abrir-se-ia aqui já outra discussão, com o meio-fundo português, onde tivemos claramente essa tradição numa época muito circunscrita no tempo, com um país diferente daquele que é hoje, mas muitos jovens que surgiam e queriam fazer desporto, queriam experimentar também para ver se tinham jeito nas corridas de fundo e queriam ser como o Carlos Lopes, como o Mamede, como os irmãos Castro, a Rosa Mota, a Fernanda Ribeiro, etc. Hoje estamos até mais orientados noutras direções.

Muito mais orientados.

Felizmente. Eu às vezes sou atacado por dizer isto pelas pessoas que acham que o atletismo é o meio-fundo e o resto é paisagem. Eu sei que o atletismo são 24 disciplinas olímpicas, não são só o meio-fundo e o ideal, em termos de desenvolvimento, o que queremos é um atletismo que participe no maior número possível de disciplinas. Por exemplo, agora na pista coberta, apenas não estivemos representados no salto com vara. E isso é significativo e era algo inédito há uns anos, em que o atletismo participava nestas provas, até de pista coberta, só com atletas de meio-fundo.

E tivemos aqui um outro ponto novo, digamos assim, que é uma final dos 60 metros, não estávamos habituados. Pergunto como é que viu esta estreia da Arialis pela seleção, logo a igualar o recorde da Lorraine Bazolo, e como é que foi esta adaptação que ela foi tendo à seleção, tendo em conta que era mais uma atleta originária de Cuba?

Pelos vistos, a adaptação é boa. Não posso dizer mais nada. É boa, com certeza, até porque se integrou bem na equipa, esteve sempre feliz e satisfeita por estar na seleção. Mas ainda mais relevante, ao meu entender, nesta participação destas três atletas, é o fato de termos tido três atletas a passar a primeira eliminatória. Não vi isso, mas duvido que tenha havido mais países com esta performance de pôr três atletas a passar logo a primeira eliminatória para a fase seguinte. É provável que tenha havido numa ou noutra prova, mas não são muitos casos. E isso é extremamente importante. E ela ter chegado à final também é relevante. É tudo isto que está ligado ao ponto anterior que eu referi de hoje termos um atletismo diferente para um país também diferente, desportivamente e a todos os níveis.

A verdade é que no meio disto tudo e com o Pichardo também, O Riel Dongo também revalidou o seu título e à exceção da Patrícia Mamona, os melhores resultados portugueses chegaram mais uma vez de atletas naturalizados. Perguntava-lhe se depois da polémica nos primeiros tempos do Pichardo, principalmente, que tomou também muita ligação a guerras e a rivalidades de clubes, se acha que esta questão da naturalização de atletas é uma página já virada e que o atletismo, na verdade, é um exemplo de integração para os outros, até para a sociedade.

Isso é absolutamente indiscutível para mim, porque lido com estes atletas muito regularmente, quer nos seus locais de treino, quer também nas competições internacionais. E basta ver um Pedro Pichardo, o esforço que ele tem feito, e julgo que é um esforço que lhe dá prazer De ser cada vez mais português, até na linguagem. Eu só tenho pena que o sotaque castelhano dele leve algumas pessoas a pensar que ele não fala português, mas ele fala um português praticamente perfeito.

Ele diz que o problema dele há de ser sempre o sotaque.

Há de ser sempre. E que leva algumas pessoas a pensar que ele está a falar um espanhol mais lento, mais devagarinho. E não, ele fala já um português, assim como a Oriole também, e surpreendeu-me nestas últimas declarações dela, porque fez um progresso extraordinário a esse nível, provavelmente já com aulas. Eu digo provavelmente, certeza no Pedro que ele próprio teve a iniciativa de ter aulas de português, mas a Oriole com certeza também já, porque já estão. E eu julgo que ao nível da língua, embora não o deva dizer assim, porque o caso do Francis Obikwel continua sempre a ser um pouco, e ele vai-me desculpar eu dizer isto assim, sempre foi um pouco trapalhão no português e é quase uma imagem de marca dele também, mas não investiu o que estes têm investido na língua. E eu julgo que o investimento que alguém faz numa língua estrangeira de um país de adoção, eu julgo que é talvez o primeiro grande sinal de grande integração. Porque como dizia o Fernando Pessoa: "Eu sou a minha língua." E neste caso, parece que eles entenderam isso de uma forma natural. Eu para ser português, eu tenho que dominar o português e tenho que me integrar em termos linguísticos. E julgo que aí é plena a integração deles, às vezes até no caso do Pedro Pichardo, com algum azedume relativamente ao passado, à sua dupla nacionalidade, mas eu sinto esse orgulho da parte deles, da representação do país. Às vezes comove-me com as declarações, que já não eram necessárias, de amor à nova pátria, mas eu sinto que são genuínos, porque eles sentiram que foram apoiados, que foram integrados, que tiveram aqui um país que os acolheu, apesar de alguns incidentes iniciais, que eu também compreendo de algum modo, mas eles sentiram e sentem, julgo, que fazem parte hoje da nossa sociedade a 100%, sem qualquer dúvida.

Vamos ter agora em termos de calendário internacional os Mundiais de Budapeste em agosto.

Antes ainda vamos ter o Campeonato da Europa de Nações, que é uma prova coletiva, na Polónia, que é uma prova muito importante para nós e que eu espero também que estejam em bom nível.

E depois o Campeonato da Europa só em junho, depois o Campeonato do Mundo, depois o Campeonato da Europa em junho, depois os Jogos Olímpicos. Pergunto: um, quais são as perspetivas que tem em termos de Jogos Olímpicos, até por aquilo que a Patrícia foi capaz de fazer em Tóquio e por aquilo que a Oriole esteve quase também a fazer, que eu acho que é algo que ainda lhe está meio atravessado aquele quarto lugar. E depois, passado mais de uma década de Jorge Vieira no comando da federação e sendo este o último mandato, que atletismo é que encontrou e que atletismo é que deixa hoje? Qual é a principal diferença?

É muito ingrato eu responder a essa questão, porque eu não encontrei o atletismo em 2013.

Já estava integrado.

Eu já estava no atletismo como diretor técnico nacional e como vice-presidente. Tive 12 anos como diretor técnico nacional.

Mas foi mudando enquanto presidente, o atletismo foi mudado.

Foi, com certeza.

Quando o agarra, por exemplo, é depois dos Jogos de 2012, que foi talvez em termos de atletismo, dos Jogos mais menos conseguidos, digamos assim.

Exatamente, sem dúvida. Mas já estive em muitas medalhas olímpicas do nosso atletismo, em muitas mais europeias e mundiais. Custa-me muito fazer essa divisão, mas o que eu gostaria de deixar, gostaria, não quer dizer que esteja satisfeito de maneira nenhuma com aquilo que já foi feito. Não estou satisfeito de maneira nenhuma e se calhar nunca estaria, porque naturalmente nós, e quando nos envolvemos nas questões do alto rendimento, da alta competição, como se diz ao nível internacional, e só ao nível internacional é que é alta competição nós queremos sempre mais e queremos competir com os melhores, queremos competir com os melhores países, queremos mais medalhas. Eu às vezes estou na bancada e confesso, nuns Jogos Olímpicos ou num Campeonato do Mundo, e o meu pensamento é: por que nós não temos nenhum atleta nesta disciplina? Por que nós não somos competitivos como os outros estão a ser? Às vezes, quando eu vejo atletas da Bélgica, da Holanda, da Suíça, os países nórdicos, que eu considero da nossa igualha em termos de população, eu fico sempre insatisfeito. Mas o orgulho que tenho hoje é de julgar que nós hoje temos um atletismo muito mais equilibrado. Temos de longe, isto pode parecer polémico, dado o número de filiados que temos, ultrapassamos a barreira dos 20 mil, que é um número para mim absolutamente irrisório, porque eu parto do princípio que o atletismo é a modalidade mais praticada em Portugal, não é o futebol, é o atletismo. Só que nos falta, na realidade, e é mau por ser uma modalidade individual neste aspeto, é muito difícil, falta-nos filiar estes atletas, aqueles que todos os dias praticam a modalidade e participam em competições regulares. Se o fizessem, nós, de longe, eu podia dizer, e ainda não perdia esse objetivo, espero que se consiga mesmo depois de eu sair, que é ultrapassar o futebol em número de atletas filiados. Porque os temos. Temos os atletas, não estão é filiados. Em termos de competição internacional, pedimos meças a qualquer modalidade, inclusive ao futebol. Temos, obviamente, muito mais sucesso do que qualquer outra modalidade e deve-se ao historial do atletismo. Deve-se a 100 anos da modalidade no nosso país. Fizemos 100 anos como federação o ano passado, que é uma bonita idade, mas isto representa uma história feita de grande sacrifício. Era outro programa, eu sei, outra entrevista aqui, mas nós temos dificuldades brutais no desenvolvimento da modalidade. Por exemplo, para uma modalidade olímpica como a nossa, repito, número um olímpica em termos de antiguidade clássica e em termos modernos. Modalidade olímpica que é feita em estádio, feita em pista, com 24 disciplinas. Se eu lhes explanasse aqui a nossa realidade em termos de pistas, para qualquer jovem no país que queira praticar a nossa modalidade nestas disciplinas olímpicas, nós tínhamos uma surpresa muito grande, porque são pouquíssimos os concelhos no país que têm pistas. Todos os concelhos têm campo de futebol, sintético até, todos os concelhos têm pavilhões desportivos, todos os concelhos têm piscinas. É uma minoria de concelhos que hoje têm pistas de atletismo. Dou-lhes um exemplo, para mim é sempre paradigmático: concelho de Viseu, o maior distrito em termos de concelhos. São 24 concelhos no distrito de Viseu. Apenas temos uma pista em Viseu, que agora foi reinaugurada e que esteve alguns 10 anos ou mais sem ser utilizada. Por exemplo, na minha vigência como presidente, nunca fizemos lá nenhuma competição nacional. Fizemos uma com a pista já em muito mau estado e é esta a nossa realidade. Eu tenho dito isto publicamente muito frequentemente e eu aqui só posso dizer assim: o atletismo tem algo muito bom, que são as corridas de estrada, onde temos muitos praticantes da modalidade, mas é também para nós o lado negativo, porque leva muitos concelhos a considerar que temos atletismo, porque as pessoas andam aí a correr. Mas não temos o atletismo olímpico, aquele que nos traz aqui a conversar.

Que nos traz medalhas de ouro, prata e bronze. Obrigado, Jorge Vieira, por ter estado aqui conosco, por ter falado conosco de atletismo. Termina agora este programa.

Muito obrigado também eu pela oportunidade.

Daqui a pouco pode ser ouvido em podcast em observador.pt.