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Não se fala de outra coisa na Rádio Observador. Destacamos histórias que têm suscitado curiosidade ou dado que falar nas redes sociais. Paulo Ferreira, o que nos trazes hoje?

No Expresso, uma história, um trabalho que nos mostra que a questão do uso excessivo do smartphone não é um exclusivo dos mais novos e está a entrar fortemente também nos mais velhos. O Expresso começa por nos contar a história de Maria Santos, 74 anos, está reformada desde a pandemia. Ela própria tem noção de que está viciada no telemóvel, sobretudo, diz ela, nalguns joguinhos que lhe ocupam grande parte dos dias. Sabe, obviamente, que o tempo que passa ligado ao ecrã lhe rouba disponibilidade para sair, para conversar com amigas, para conviver com outras pessoas, mas não consegue, tem dificuldade em parar. Basicamente, os sintomas são os mesmos dos mais novos. Diz que quando está a jogar, não pensa em coisas que a angustiam. Ela vive com o marido, mas quase não conversam, cada um para seu lado, em salas diferentes. Também não tem paciência para a televisão, porque as telenovelas, diz, são sempre iguais e as notícias só dão giraças. Não deixa de ser verdade.

Esse caso é tão ilustrativo.

É um clássico.

De conversas que nós já ouvimos fazer.

Absolutamente. E ela diz que o refúgio está ali no smartphone, sobretudo em jogos de cartas, paciência, jogos de palavras ou associação de blocos, como o Candy Crush. Ela não sabe ao certo quanto tempo é que passa agarrada ao ecrã, mas garante que já foi pior, porque houve uma altura, recentemente, em que além dos jogos, também não largava as redes sociais, até que decidiu desinstalar o Facebook e ativou um limite diário de utilização do Instagram, que bloqueia ao fim de 15 minutos e portanto, restam os jogos como companhia. É um caso entre vários que são referidos nesta reportagem. Saindo da árvore para a floresta, os dados da Marktest, que foram publicados no ano passado, dizem que 57% dos portugueses com mais de 64 anos usam a internet no telemóvel e o número de utilizadores intensivos está de facto a aumentar. Mais de 11% dos idosos estão ligados cinco ou mais horas por dia, que é uma percentagem que tem vindo a crescer ao longo dos anos e a tendência é global, porque este trabalho também recupera uma capa de há um mês da revista norte-americana The Atlantic, que tinha um artigo sintomaticamente intitulado, já traduzido para português: "Chegou a reforma vivida no telemóvel". Basicamente, pessoas que passam a ter muita disponibilidade de tempo, e os especialistas referem aqui várias causas também para isso. Isolamento social, a perda progressiva das pessoas que são queridas, familiares, amigos, por aí fora, o declínio da saúde, que acaba por afetar também, muitas vezes, a mobilidade para outro tipo de atividades. O próprio processo normal de degeneração do sistema nervoso também aumenta a propensão para a depressão, de alguma maneira. E há aqui um fator de risco, tudo isto é um fator de risco para o desenvolvimento de comportamentos aditivos e, obviamente, o smartphone está ali à mão. É de utilização cada vez mais fácil, mais geral e é barato, de alguma maneira. Comparando com outros vícios, digo eu.

Sim, hoje em dia o preço do smartphone está cada vez mais acessível.

Sim, o preço do aparelho, mas depois também a utilização no dia a dia. Comparando com outro tipo de adições e de vícios, será daqueles mais fáceis de manter. É um trabalho mais extenso, mas que nos alerta para uma realidade que nós apontamos muito, e com razão, aos mais novos, de alguma maneira, mas que já começa a atravessar toda a população em termos etários.

Eventualmente, com risco acrescido, que é a falta de literacia também e a dificuldade de distinguir o que é, por exemplo, inteligência artificial ou o que é fake.

Está cada vez mais evoluído. Às vezes é muito difícil já distinguir.

Os mais jovens até têm outro tipo de sensibilidade para isso, os mais velhos, menos.

Ou seja, isto abre a porta a outros riscos, para outros fenômenos.

Exatamente. É um sinal dos tempos mesmo. Estão a crescer também os apelos ao boicote dos adeptos, à participação no Mundial de Futebol deste ano, que vai ser organizada pelos Estados Unidos, também no Canadá e no México, mas há cada vez mais voz a sugerir que os adeptos não vão aos estádios.

Por quê?

Por causa da situação política, pela política anti-imigração dos Estados Unidos, com alguns alertas de que pode ser até um risco, pode ser até perigoso. Por um lado, e aliás, nesta fase, que foi há pouco tempo, mais tensa entre União Europeia e Estados Unidos, dizia-se mesmo que podia ser uma arma da União Europeia e dos europeus ameaçar não participar e boicotar a participação no Campeonato do Mundo de Futebol. Agora, também o apelo aos adeptos. Isto começa, se é que sabemos bem a origem, mas um advogado especialista em anticorrupção, que trabalhou para a FIFA durante a presidência de Joseph Blatter, Mark Pitt, deu uma entrevista em que criticou a marginalização de adversários políticos e de abusos dos serviços de imigração nos Estados Unidos e concluiu que esse ambiente é dificilmente encorajador para os adeptos se deslocarem até aos Estados Unidos. Estas considerações foram importantes e agora ganham outro peso quando Joseph Blatter, o antigo dirigente da FIFA, escreve no X, no antigo Twitter, subscreve estas opiniões do advogado e sugere mesmo que pode ser perigoso para os adeptos visitarem os Estados Unidos e diz mesmo: "Para os adeptos, um conselho: evitem os Estados Unidos. Acho que o advogado Mark Pitts está certo em questionar este campeonato do mundo." Há uma ideia que está a ser desenvolvida por cada vez mais pessoas de que os fãs, os adeptos do futebol, terão muito melhor vista na televisão do que nos estádios. Há várias guerras aqui, como se imagina.

Eu confesso que quando falaste do Joseph Platter dei logo dois passos atrás.

Claro, com certeza. Ele saiu do cargo com muitos escândalos.

Há de haver aí um interesse qualquer ao fundo.

Exatamente. Há muitos escândalos ligados a Platter e a Michel Platini também, que saíram por razões pouco recomendáveis e que criticam muito Gianni Infantino, sucessor do Platter, que é o atual, considerado muito próximo do Donald Trump. Aliás, teve uma que é lendária.

Deu-lhe o nome da paz.

Exatamente. Portanto, há aqui muitas guerras, mas há um ambiente, de facto, pouco recomendável quando pensamos em futebol, em desporto e em competição saudável. Está tudo aqui muito explosivo também para o mundial, que é quando? Em Junho, não é?

É este ano já. Mas quando se fala em boicotar um país, curiosamente lembrei-me logo da Guerra Fria e dos Jogos Olímpicos e dos boicotes sucessivos dos dois blocos. Moscou, de alguma maneira, houve o boicote dos Estados Unidos e de alguns países.

Em 84.

Primeiro, em 1980, o boicote dos Estados Unidos e dos aliados aos Jogos Olímpicos de Moscou e depois a resposta em Los Angeles. Portanto, remete-nos um bocadinho para esse tempo de Guerra Fria, o que também diz muito do momento.

Diz muito do momento atual.

E nos tempos modernos, também podemos incluir aqui, se calhar, a Eurovisão. Já este ano, a Espanha não vai participar. E há mais países, a Irlanda, penso eu. Portanto, bem mais perto de nós.

Ironicamente, quem passou nos pingos da chuva foi o mundial do Qatar.

Quem diria?

É verdade.