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Sejam bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação, habitualmente com o professor Nuno Crato. Olá, professor.

Ora viva.

Professor, esta semana o Nota 20 é sobre o ensino superior e as chamadas STEM: Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Começamos, como é hábito, pela nossa pergunta na rede social Twitter. Perguntamos aos nossos ouvintes se há falta de candidatos no ensino superior em Ciências e Engenharia. Professor Nuno Crato, 65% respondeu que não. Não há mesmo?

Para isso, temos aqui hoje um convidado, que é o professor João Lopes dos Santos, que nos vai dar alguns números e nos vai explicar essa inversão da situação que se passava aqui há alguns tempos. Há alguns tempos, de facto, havia alguma falta de candidatos. Hoje não há falta de candidatos, o que é um bom sinal. E este programa é um pouco diferente dos programas habituais, porque vamos falar da entrada na universidade, que é algo que os jovens em Portugal preparam desde muito cedo, aqueles que querem continuar pela universidade ou querem continuar os seus estudos. E nós aconselhamos, claro, toda a gente a continuar os seus estudos, seja na universidade, seja mesmo depois de começar a trabalhar num curso profissional intermédio ou num curso profissional superior.

Muito bem. É nosso convidado, então, João Lopes dos Santos, professor do Departamento de Física e Astronomia da Universidade do Porto. Professor, obrigado antes de mais.

Bom dia, obrigado pelo convite.

Professor João Lopes Santos, a experiência diz-lhe que há ou não falta de candidatos nos cursos de Ciência e Engenharia?

Na realidade, nunca houve falta de candidatos nos cursos de Engenharia. Engenharia, em Portugal, tem um prestígio social bastante elevado e a maior parte dos cursos de Engenharia tem um grande número de candidatos. Curiosamente, alguns que têm neste momento bastante interesse em ter candidatos, não têm tido muita capacidade de atração. Por exemplo, a parte de Engenharia Metalúrgica e de Minas é uma área que tem tido falta de candidatos e não tem tido falta de emprego, antes pelo contrário.

Apesar de haver uma mensagem política nos últimos anos de que o país deve apostar no setor mineiro.

Exatamente. Nós, por exemplo, aqui na Faculdade de Ciências, o nosso departamento de Geologia tem tido bastante sucesso na capacidade de atração e sobretudo na capacidade de colocação dos estudantes até relativamente cedo na sua carreira acadêmica. Portanto, há procura nessa área e há oferta de emprego. Mas a Engenharia, de um modo geral, nunca teve falta de candidatos. Mas acontecem, às vezes, eventos curiosos. Por exemplo, com a crise de 2008, como sabe, houve uma tremenda crise na construção civil também e automaticamente o curso de Engenharia Civil passou a ter muito menos candidatos do que tinha. Em Ciências, aqui há uns anos atrás, e eu diria até que nós na Física fomos o primeiro departamento a sentir isso, e em 2003, 2004, nós tivemos sete estudantes colocados nos nossos cursos. Neste momento, temos à volta de 150.

Uau, isso é um aumento muito substancial.

Com Matemática aconteceu qualquer coisa semelhante quando se começaram a aparecer nos media as notícias de que os lugares de professor estavam todos ocupados pelos matemáticos, o curso de Matemática teve uma quebra de um ano pra outro, tremenda, no número de candidatos e está neste momento em franca recuperação. Portanto, de um modo geral, nas faculdades de Ciências, curso de Matemática, de Física, de Biologia, de Geologia e Ciência de Computadores tem muitos candidatos. O curso onde tem havido mais dificuldades neste momento é a área da Química. Na área da Química continua a haver alguma falta e não tem tido capacidade de atração nos últimos anos. Embora, também na altura em que o ensino estava disponível, eles tivessem bastante mais candidatos que os cursos de Física.

Professor João Lopes dos Santos, posso concluir deste pequeno depoimento inicial seu, que os nossos alunos do secundário leem bem as mensagens do mercado e leem bem os estímulos que são fornecidos pela sociedade ou é abusivo da minha parte?

Eu diria que leem às vezes bem mais. Ou seja, reagem muito diretamente, e talvez as famílias também, a esse tipo de mensagens. No caso da Matemática, foi absolutamente automático. As mensagens começaram a sair em março, abril, talvez, e na altura das candidaturas, obviamente, elas caíram. E caíram de um ano pra outro. Foi realmente muito brusca a alteração. Portanto, reagem muito rapidamente.

Ia precisamente falar do caso da Física.

No caso da Física e da Engenharia Física, também houve uma ajuda significativa do atual ministro, quando o atual ministro libertou a informação de que precisava de físicos, precisava sobretudo de físicos médicos e engenheiros físicos, e permitiu o aumento de vagas precisamente nessas áreas. Nessas áreas e nas áreas de informática. Essa mensagem passou rapidamente e houve uma procura acrescida desses cursos de Engenharia Física nas universidades portuguesas. Portanto, a mensagem passa.

Vamos deter-nos aqui um bocadinho então na Física, porque há esse número surpreendente. Portanto, em 2004 houve sete alunos.

Em 2003, 2004, nós tivemos sete alunos na totalidade dos cursos do departamento de Física. Na altura, ainda não era Física e Astronomia. Neste momento, no departamento de Física e Astronomia, temos dois cursos: Física e Engenharia Física Temos 140 números clausus, mas na prática temos metido mais, porque tem havido procura de estudantes internacionais, vagas em concursos especiais, e temos metido mais de 150 estudantes todos os anos.

E a que se deve, na sua opinião, essa explosão de procura pelo curso de Física ou pelos cursos de Física?

Pode haver várias razões. Nós temos às vezes debates sobre o que explica este facto. Eu julgo que uma das razões principais é que, neste momento, em termos de situação de emprego, o único curso que tem alguma capacidade ainda de atração é o curso de Medicina.

Uma capacidade garantida, não é isso?

Exatamente, uma capacidade garantida. Uma pessoa que vai para médico ainda tem a esperança de facilmente obter uma colocação e começar a trabalhar. Os cursos de engenharia, de um modo geral, tirando a parte de engenharia e informática, deixaram de ter essa capacidade. E, portanto, neste momento, eu suponho que os jovens e talvez as famílias estão mais livres para que os jovens escolham aquilo para o que se sentem mais vocacionados, porque já sabem que as dificuldades de emprego vão existir em todo o espectro de formações. E, portanto, nessa altura, eu julgo que nós tivemos uma capacidade de atração maior na parte da Física, porque apesar de tudo, a Física ainda tem uma capacidade de atração muito grande entre os jovens. Há muitos jovens que se interrogam, que têm curiosidade sobre o mundo natural e esses que têm curiosidade sobre o mundo natural e alguma apetência para matemática, normalmente têm uma escolha natural na área de Física ou de Engenharia Física.

Portanto, o que está a dizer é que- Diga, professor Duda.

Desculpe, João Miguel. Eu julgo que neste momento se inverteu um pouco ou se está a inverter um pouco uma situação antiga em dois aspectos. O primeiro aspecto é que antigamente pensava-se que Física, História, para falar também de outra área, ou Matemática, eram áreas em que as pessoas tinham como única saída ser professores do ensino secundário ou do ensino básico, do terceiro ciclo. Ora, o que se passa é que isso esteve fechado, porque houve uma altura em que era muito difícil entrar no ensino básico e secundário como professor. As coisas estão a inverter-se agora e vão se inverter muito, e muito rapidamente, porque este número é um número que convém ter na mente, que é: no fim desta década, metade dos professores vão estar reformados. Ou seja, no fim desta década vai ser preciso praticamente metade dos professores atuais entrarem de novo, ou um número equivalente à metade desses professores. E estamos a falar de História, Geografia, Matemática, etc. Mas há um outro aspecto que também é muito importante, é que passou-se a verificar que os cursos de Matemática e os cursos de Física tinham uma empregabilidade para além daquela que é tradicional. Pensava-se sempre que o professor de Matemática vai ser ou investigador matemático ou professor de Matemática, aquele que estudasse Matemática, Física a mesma coisa. E hoje em dia vê-se que nas bancas, nos seguros, nas empresas, há muita empregabilidade para matemáticos e para físicos. E é algo que nos leva a crer que estas profissões e que estes estudos têm uma aplicabilidade mais generalizada do que propriamente aquilo que à primeira vista parece. Não sei o que o João Miguel dos Santos pensa destes dois aspetos.

Diga, João.

Não, eu ia fazer a ponte e lhe pedir um comentário a esta observação do professor João Miguel dos Santos.

Não, é inteiramente verdade. Isso já era verdade há vários anos em países como os países anglo-saxónicos, por exemplo, a Inglaterra, Estados Unidos. Já era verdade, por exemplo, num país de grande capacidade industrial, como por exemplo a Alemanha, em que eu soube que perto do ano 2000, as próprias empresas começaram a estimular junto das universidades a formação em Física e nas áreas de ciências em geral, porque precisavam, de facto, dessa formação. Portanto, isso já era verdade e vai sendo cada vez mais verdade em Portugal, ou seja, a capacidade das pessoas que têm uma formação. Até havia uma designação nos Estados Unidos, chamados os quants, as pessoas que são quantitativas, que sabem fazer contas, que são os matemáticos, os físicos, sobretudo. Essas pessoas têm uma procura cada vez maior em muitas áreas, não apenas na parte de investigação direta de Matemática ou de Física, mas em muitas áreas da sociedade, em Economia, nas seguradoras, na parte financeira, nos consultores. E isso também se tem verificado em Portugal e nós também temos tido, de facto, uma maior capacidade de procura de pessoas formadas nessas áreas. Por outro lado, nós não temos as massas de formação que tem, por exemplo, uma engenharia. Nós não formamos de maneira nenhuma, em Portugal se formam tantos físicos como engenheiros. Na realidade, a empregabilidade dos cursos de Física é bastante alta. E nós temos taxas de empregabilidade mais altas que a média dos cursos dos licenciados em Portugal. Por exemplo, na área de Física. Isso também na área de Matemática.

Nós próprios aqui, estou a falar agora com o João Miguel, ao longo deste programa, temos verificado que num tema que à partida seria um tema quase filosófico como a educação, ou apenas quase filosófico como a educação, os economistas, os psicólogos, os estatísticos trazem muita informação importante para a educação Seria impensável há 20 anos convidar economistas da educação pra um programa deste gênero, ou mesmo há 30 anos ou 40 falar em psicólogos. As pessoas iriam descrever as coisas de maneira muito qualitativa. E hoje o que nós temos verificado é que os psicólogos, economistas da educação, os estatísticos, etc., que aparecem neste programa pra falar sobre educação, têm algo a dizer, porque a experimentação e a observação empírica é cada vez mais valorizada. Existem dados que podem ser analisados da educação, dados internacionais que não existiam antigamente e, portanto, tudo aquilo que seja o tratamento quantitativo da informação, também até aqui nesta área que à primeira vista poderia parecer mais filosófica e sociológica do ponto de vista qualitativo, é uma área também onde a quantificação é importante.

Professor João Lopes dos Santos, o que o professor Nuno Crato está a dizer é que hoje há muita informação disponível para se poder avaliar o impacto que a educação tem na sociedade portuguesa. O que eu lhe queria perguntar agora era: qual é a expectativa que os alunos que ingressam nos cursos de Ciência aí na Universidade do Porto têm em relação ao seu futuro profissional? E que dados é que têm, nesta altura, sobre, por exemplo, a empregabilidade de cursos ligados à Ciência aí na Universidade do Porto, se é que os têm?

Tem. Muitas vezes sou o indicado para aconselhar estudantes que querem ter alguma informação sobre empregabilidade. Na realidade, a maior parte dos estudantes que entram no curso de Física ou de Engenharia Física estão a pensar, de um modo geral, sobretudo na Física, numa carreira científica. E aparece-lhes como um pouco de surpresa, parece um pouco surpreendente quando nós lhe listamos empresas que em Portugal empregam mestres e doutorados em Física fora do circuito acadêmico. E esse número de empresas é cada vez maior, em muitas áreas diferentes, desde áreas de recuperação de patrimônio, os laboratórios forenses da Polícia Judiciária, empresas relacionadas com indústria do espaço, portanto, empresas relacionadas com telecomunicações, com sensores, sensorização, etc. Há cada vez mais empresas que empregam e, apesar de tudo, quando os estudantes nos dirigem para saber o que é que poderão fazer depois, aparece como um pouco surpreendente o facto de terem essas perspectivas de carreira. E nós também damos exemplos de estudantes que lançam as suas próprias empresas depois de obterem os seus doutoramentos e que o fazem, às vezes, com bastante sucesso.

E o que é que diz o mercado?

Mas a maior parte, quanto à investigação-

É uma preparação especial, não é?

Como?

Perdão, o que isso significa é que a preparação deles é valorizada, a preparação em Física, em Matemática, em Computação é valorizada. Será isso?

É valorizada e como vão aparecendo algumas empresas que saem dos projetos de investigação dos laboratórios e das universidades e que utilizam tecnologia muito avançada, essas empresas precisam de uma mão de obra altamente qualificada. E não é invulgar encontrar nessas empresas uma porcentagem significativa, por exemplo, de pessoas que são doutoradas ou em Física ou em Matemática ou mesmo noutras áreas. E isso vai acontecendo. Na investigação, nós damos normalmente a indicação de que o mundo é o campo de procura, basicamente. A investigação tem, infelizmente, ainda o problema da precariedade, ou seja, é muito difícil. Em Portugal, nós costumamos dizer, é mais difícil em Portugal obter um lugar permanente numa universidade do que às vezes nos Estados Unidos. E isso é verdade. Ou seja, o número de lugares é relativamente reduzido e as pessoas têm que se preparar para procurar fazer as suas carreiras internacionais e muitos deles acabam por se fixar no estrangeiro, porque nesse aspecto, a carreira acadêmica em Portugal é difícil. Existe uma carreira de investigação neste momento, mas a maior parte dos lugares ainda são precários, apesar de todos os esforços da Fundação da Ciência e Tecnologia, as universidades são muito cautelosas em comprometer-se com salários, com lugares permanentes. E portanto, essa dificuldade ainda existe. O que elas não pensam neste momento, aquilo que disse o professor Nuno Crato, é que o ensino vai ser uma área que vai, dentro de cinco, seis anos, talvez mais, ter uma grande necessidade de pessoas formadas nestas áreas.

Portanto, jovens ouvintes da Rádio Observador, atentem bem a estas palavras.

Mas neste momento, a maior parte dos estudantes que entram nestas áreas não está a pensar numa carreira relacionada com o ensino básico e secundário. Não está, e os cursos de mestrado têm uma procura relativamente baixa.

Professor João Lopes dos Santos, obrigado por ter vindo ao Nota 20.

Nada, o prazer foi meu.

Obrigado. Professor Nuno Crato, o que é que podemos concluir do testemunho do professor João Lopes dos Santos?

Olha, eu achei muito interessante toda esta discussão, que vai no sentido de muitas coisas que temos aqui discutido. E em primeiro lugar, que não se deve fechar portas, ou seja, que os jovens não devem fechar portas e aqueles que querem uma carreira mais técnica devem estudar Matemática, devem estudar Física, devem estudar as diversas disciplinas que estão associadas a estas carreiras e não devem pensar que o seu emprego vai ser necessariamente em Física ou necessariamente em Matemática, e devem pensar que esta formação técnica lhes dá a capacidade de enfrentar empregos quantitativos em áreas muito diversas. E que há uma grande procura para isso. E portanto, estudar em função da aplicabilidade direta é um erro, é muito limitativo. Deve-se estudar em função da preparação geral. Mas isto que estou a falar, estou a falar para os jovens que seguem cursos superiores, mas também para os jovens que não seguem cursos superiores e pretendem ter um curso técnico. A Matemática, as cadeiras técnicas, as disciplinas técnicas são muito importantes.

Muito bem. Professor Nuno Crato, o próximo programa é sobre a ligação da escola, a família e o meio social. É nosso convidado Flávio Cunha, economista da educação. A pergunta que deixamos na rede social Twitter daqui a instantes é a seguinte: o envolvimento dos pais pode ajudar a melhorar o desempenho escolar dos alunos? Sim ou não? É a pergunta que vamos deixar na rede social Twitter já daqui a breves segundos. Professor Nuno Crato, é tudo. Até pra semana.

Até pra semana.