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Bem-vindos ao "Porque Senão É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de um inquérito promovido pela Merck a 1200 jovens em Portugal e que foi divulgado no arranque da Semana Europeia da Fertilidade. Olá, Eduardo. Um terço dos jovens inquiridos diz que poderia adiar ter filhos por ter de cuidar dos pais. Isto é uma geração esmagada entre pais e filhos?
Lá diz. Não, obrigatoriamente. Eu até acho uma resposta bonita, se calhar nalgumas circunstâncias quase imprevisível, porque, afinal de contas, é bem a prova de que os pais são um compromisso para os filhos. E um compromisso sério, mesmo muito sério. Evidentemente que isso traz-nos outra questão, agora que nós estamos a falar dos preços disto e daquilo, que é, no fundo, o preço dos filhos. Os filhos custam muito dinheiro, custam muito dinheiro por dia aos pais. E eu acho que, tomando em consideração os descontos que fazemos no IRS e essas coisas todas, que há quem imagine que nós educamos os nossos filhos na loja dos 300, tais essas deduções acabam por ser tão distantes da realidade. E, portanto, os filhos têm a noção de que cuidar dos filhos, que possam vir a ter, e dos pais, acabam por ser compromissos tão significativos que podem colidir e ao colidirem obrigam-nos a assumir um conjunto de escolhas que noutras circunstâncias certamente não teriam de fazer, mas que fazem em favor dos pais, independentemente de serem eles próprios pais acabasse por ser um projeto de vida precioso para cada um deles.
Quase sete em cada 10 dizem que os planos mudariam. Mudariam, ou seja, em relação a ter filhos. Isto fala de cuidar dos pais, mas também dá alguma desconfiança nas respostas do Estado para os mais velhos.
Eu não quero parecer cético, mas as respostas do Estado em termos sociais merecem reticências sobre reticências. Há uma distância muito grande entre aquilo que o Estado diz que faz e aquilo que efetivamente acaba por realizar e, portanto, nessas circunstâncias, eu tenho a noção de que as respostas sociais acabam por ser cada vez mais limitadas. A mim preocupa-me muito, para dizer a verdade, que os pais tenham de ser muitas vezes desenraizados para poderem ter um conjunto de apoios do dia a dia que podem ser indispensáveis. E portanto, nessas circunstâncias, acho que as autarquias podem ter um papel importante, as IPSS igualmente já o têm, ao permitir que os pais estejam no seu habitat e os filhos descansados com os apoios que eles têm nas suas residências, mas os apoios sociais são muito escassos e, portanto, da mesma forma que educar um filho é muito caro, manter um pai ou uma mãe em casa com todas as limitações que às vezes eles têm, acaba por ser absolutamente incomportável para a maioria dos filhos portugueses. E isso é revoltante. É revoltante porque os pais contribuíram para este país como todos os outros trabalhadores ao longo de toda a sua vida, e os filhos, às vezes, veem-se constrangidos com decisões que em condições normais não teriam de ter. Apoiar os pais devia ser qualquer coisa que merecesse alguma consideração por parte do Estado, quer em termos de horários de trabalho, quer em termos de apoios, porque feitas as contas, saíamos todos a ganhar. Mas às vezes, nesta relação com as crianças e com os mais velhos, o Estado parece sofrer de défices de atenção e fica-se por discursos às vezes muito demagógicos e não têm realmente a ver com a verdade. Mas lá está, eu acho muito importante que quando há tantas pessoas a dizer que os filhos hoje são muito mais desligados, muito mais egocêntricos, etc. Não quer dizer que não haja muitos filhos um bocadinho mal-educados, haverá, mas estes filhos comprometidos com a velhice dos pais dão-nos bem a ideia de que independentemente de muitos líderes mundiais serem pessoas um bocadinho estranhas, a humanidade não está tão à beira da extinção como podia parecer.
O peso de cuidar dos pais cai igual sobre todos os filhos?
Não, de certeza absoluta Cai inevitavelmente sobre aqueles que estão mais perto do perímetro da residência dos pais, cai muitas vezes sobre os mais velhos, cai sobretudo sobre as filhas. E se bem que o mundo seja mais paritário, há muitas coisas que ainda não mudaram. Aquilo que é muito inquietante, eu acho que até é revoltante, é que haja filhos que com uma desculpa ou outra, permitam que um dos irmãos seja onerado com este tipo de compromisso, como se, no fundo, um trabalhasse por todos, com tudo que isso acaba por ter de injusto. De injusto em relação a este irmão e, sobretudo, de muito injusto em relação a estes pais, que, por mais que às vezes as pessoas mais jovens imaginem que eles não percebem, desconversam ou outras coisas do gênero, vão ficando muito magoados, legitimamente magoados, com este tipo de desamparo. Mas, de facto, não há, regra geral, uma paridade de cuidados. Há famílias que são absolutamente exemplares nessa paridade, na forma como dividem os cuidados, na forma como tentam de forma muito semelhante estarem presentes, mas em muitas circunstâncias, não. Há sempre quem se desculpe com a verdade, ou porque estão longe, ou porque têm vidas atarefadas, ou seja o que for. E dessa forma, os filhos que cuidam dos pais são, regra geral, um, por vezes dois, enquanto que os outros acabam por estar mais desligados e fazem visitas de fim de semana, o que não é, como se compreende, uma atitude decente, sobretudo decente, para se ter com os pais.
E do lado dos pais, que responsabilidade têm em preparar a velhice? E como é que se fala disso em família?
Eu acho que nós temos muita dificuldade em preparar a velhice por uma razão simples, porque mesmo quando os nossos pais tinham 70 anos, falavam dos rapazes da idade deles. Portanto, nós temos uma ideia de relação com a vida que, por mais que tenhamos mais um ano, e outro, e outro, parece que ainda assim nos dá a ilusão de que temos o tempo todo. É muito difícil prepararem isso, mas sejamos razoáveis. Para quem trabalhou durante muitos anos e fez os seus descontos obrigatoriamente, para que depois a Segurança Social os aplicasse e os tentasse reproduzir, mesmo que às vezes nos mereçam essas aplicações as maiores reservas, isso deveria servir para que os pais tivessem uma velhice descansada. Para além disso, é difícil prepará-la, até porque Portugal é um país pobre, portanto, mesmo a classe média não mobiliza recursos para além do seu salário, para que depois tenha uma almofada para qualquer coisa de sobressalto que possa acontecer. Mas lá está, eu acho que começarmos a falar de literacia financeira nas escolas pode ser muito importante. Não permite que os pais que agora estão mais envelhecidos possam gerir isso de outra maneira, mas permite, nomeadamente, aos netos terem a ideia de que, sobretudo quando a Segurança Social está constipada e o mundo está mais ou menos adoentado, é importante que comecem a pensar na velhice, na flor da idade, porque às vezes é tudo aquilo que não fazemos, tal é a intensidade com que nós nos entregamos à vida, a ponto de parecer como que envelhecemos, claro.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outro facílis dite e até amanhã.